Ainda fora da realidade

“Estamos fazendo escolhas conscientes agora mesmo para não proteger os mais necessitados”: diretor da OMS pede que países abandonem ideia da terceira dose enquanto países pobres não tiverem protegido suas populações. Ele será ouvido?

Foto: Grant Hindsley/AFP

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“Alguns países e regiões estão realmente solicitando milhões de doses de reforço, antes que outros países tenham o suficiente para vacinar seus profissionais de saúde e os mais vulneráveis. Eu pergunto: quem colocaria os bombeiros na linha de frente [de um incêndio] sem proteção? Quem são os mais vulneráveis ​​às chamas desta pandemia? Os profissionais de saúde da linha de frente, os idosos e os vulneráveis. Estamos fazendo escolhas conscientes agora mesmo para não proteger os mais necessitados; nossos próprios bombeiros”. Essas palavras vieram ontem do diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, que tenta mais uma vez chamar à razão os países mais privilegiados na distribuição de vacinas. “Chega de falar em vacinar países de baixa renda apenas em 2023, 2024”, completou ele.

Não é a primeira vez que o diretor usa essa imagem de um incêndio para se referir à pandemia: o raciocínio é que, quando se apaga o fogo de forma localizada, as chamas em outro lugar podem logo voltar a crescer e se alastrar. Mas a metáfora não parece estar surtindo o efeito desejado. O Health Policy Watch nota que Tailândia, Emirados Árabes Unidos e Bahrein já estão administrando reforços para pessoas que tomaram as vacinas de Oxford/AstraZeneca ou de farmacêuticas chinesas. O Reino Unido (que usou basicamente Pfizer e AstraZeneca), se prepara para oferecer, já em setembro, reforços a 30 milhões de pessoas consideradas de maior risco, como todos os idosos maiores de 70 anos. Ontem, Israel começou a aplicar uma dose extra em adultos imunocomprometidos. 

Os Estados Unidos ainda não tomaram nenhuma decisão nesse sentido, apesar de uma perceptível (e crescente) pressão por parte da Pfizer. Ontem, representantes da empresa se reuniram com cientistas e reguladores do país para tratar de uma autorização, mas nada está feito. Até agora, a Pfizer não ofereceu dados concretos indicando a necessidade da medida, e é isso que os técnicos do governo americano estão esperando. Uma das preocupações é que acatar a necessidade de uma terceira dose leve pessoas já hesitantes a desconfiar ainda mais da eficácia das vacinas.

Tedros Ghegreyesus fez um apelo bem específico a duas empresas: “Em vez de Moderna e Pfizer priorizarem o fornecimento de reforços para países cujas populações têm cobertura relativamente alta, precisamos que eles façam tudo para canalizar o fornecimento para Covax, para a Equipe de Tarefa de Aquisição de Vacinas da África e para países de baixa e média baixa renda. Dezenas de milhões de doações de doses de vacinas estão começando a chegar, mas precisamos de mais e mais rápido. Precisamos de uma construção total e acelerada de novos centros de fabricação de vacinas. Para que isso aconteça mais rápido, as empresas farmacêuticas devem compartilhar suas licenças, know how e tecnologia“, frisou.

Não custa desenhar que o interesse das farmacêuticas na revacinação é muito grande, como faz a reportagem do STAT: “Os três grandes fabricantes americanos de vacinas covid-19 – Pfizer, Moderna e Johnson & Johnson – já ganharam dezenas de bilhões de dólares durante a pandemia, e a contínua demanda global por doses sugere que eles receberão outros bilhões. Mas a lucratividade sustentada dessas vacinas depende de nações ricas decidirem que precisam comprar a terceira, quarta e enésima dose para manter a imunidade entre suas populações. A Pfizer está liderando o processo de solicitação de autorização de uma terceira dose, mas a J&J e a Moderna, que também está desenvolvendo um reforço específico para uma variante, devem seguir o exemplo”.

A discussão também é importante para as fabricantes das vacinas de segunda geração: “A Novavax, cuja vacina ainda não obteve autorização de emergência, conta com um mercado de vacinas de reforço para rentabilizar o investimento. A Sanofi, cuja vacina parceira da GlaxoSmithKline sofreu um atraso no ano passado, está em uma posição semelhante. O analista do SVB Leerink Geoffrey Porges espera que a Pfizer e a Moderna dominem o mercado dos EUA para vacinas contra a covid-19 até 2023. Mas se os reforços se tornarem uma necessidade, como Porges presume que acontecerá, o mercado se tornará mais fragmentado, com espaço para uma multidão de concorrentes para construir negócios sustentáveis”.

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