A turma de Damares

Ela recheou o ministério de religiosos conservadores, com histórico de combate ao feminismo e à diversidade . Leia também: piora o imbroglio da Hepatite C; médicos contra as “fake news”; hantavírus transmitido por humanos? — e muito mais

Damares Alves durante a posse do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Reprodução Agência Brasil

A TURMA DE DAMARES

Reportagem da Agência Pública fala sobre a equipe de Damares Alves no Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. E o time é da pesada. O responsável pela Secretaria de Proteção Global, pasta que abriga a Diretoria LGBT, é Sérgio Augusto de Queiroz, pastor evangélico que prega na mesma igreja batista frequentada pela ministra. Também faz parte da equipe a ex-deputada Tia Eron (a mesma que deu o voto decisivo pelo impeachment de Dilma Rousseff). Ela é a responsável pela Secretaria da Mulher. Em seu histórico parlamentar, está o apoio a uma manobra legislativa para sustar o decreto assinado por Dilma que autorizou o uso do nome social por travestis e pessoas trans na administração pública.

Já a Secretaria da Família foi entregue à Ângela Vidal, filha do jurista Ives Gandra Martins que, segundo a Pública, é “membro notório do Opus Dei”. Ano passado, a advogada participou do seminário promovido pelo STF defendendo a posição da União dos Juristas Católicos de São Paulo contra a descriminalização do aborto.

A Secretaria de Igualdade Racial é ocupada por Sandra Terena, amiga de Damares e presidente da ONG Aldeia Brasil, conhecida pela evangelização indígena. Outra de suas pautas é o combate ao “infanticídio indígena”. Sandra responde à ação movida pelo Ministério Público Federal pelo caráter discriminatório de um documentário sobre o tema. Indígena, ela apóia a decisão de transferir o processo de demarcação de terras do Ministério da Justiça para a Agricultura.   

Outra ‘amiga’ ocupa a Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência. Priscilla Gaspar foi indicada pela primeira-dama, Michelle Bolsonaro. Ela atuou na campanha eleitoral fazendo a tradução para libras de transmissões ao vivo do presidente.  

A Secretaria da Juventude é chefiada por Jayana Nicaretta, 24 anos, militante bolsonarista que se apresenta nas redes sociais como “antifeminista”. Jayana, que é filiada ao PP, foi indicada depois que a primeira opção, Desire Queiroz (PRB), perdeu condições de assumir o cargo ao defender a vereadora assassinada Marielle Franco. Foi considerado “esquerdismo” da parte dela.

E tem mais: a pasta que cuida da pessoa idosa será tocada por Antônio Fernandes Costa, ex-pastor evangélico que presidiu a Funai entre janeiro e maio de 2017 por indicação do PSC. 

Destoa do time a indicada para comandar a Secretaria da Criança e do Adolescente, Petrúcia de Melo Andrade, filiada ao PT. Ela é frequentadora da Igreja Batista Getsêmani, membro do grupo Cristãos Progressistas e assinou manifestação junto com outros evangélicos contra o impeachment. 

Os funcionários do ministério ouvidos pela reportagem temem que a defesa de pautas como igualdade para mulheres e combate à homofobia seja entendido como “ideologia comunista”. Por enquanto, a primeira mulher trans a comandar uma diretoria ministerial, Marina Reidel, responsável pela Promoção dos Direitos LGBT, continua no cargo.  

PIOR DO QUE SE PENSAVA

Segundo a jornalista Cláudia Collucci, o atraso na distribuição de um dos medicamentos que trata a Hepatite C – o sofosvubir, que agora está prestes a vencer – está sendo justificado pelo Ministério da Saúde da seguinte forma: a compra aconteceu em 2017. Mas a pasta estocou o remédio à espera da chegada de outro medicamento, chamado daclastavir, que precisa ser tomando em conjunto para que o tratamento seja eficaz. Ocorre que a licitação do daclastavir atrasou – muito. Só foi concluída em novembro passado, por pregão emergencial. O Ministério comprou 15 mil tratamentos. Agora, parte do daclastavir e os 2,2 mil tratamentos de sofosbuvir que vencem no dia 28 de fevereiro seguem para os estados. Mas a distribuição para os doentes “é absolutamente impossível”, segundo o presidente do conselho de secretários estaduais de saúde, Leonardo Vilela. “Se um remédio precisa necessariamente estar associado a outro faz algum sentido ser comprado somente um ano depois do primeiro?”, questiona por sua vez Collucci.    

A colunista da Folha conta que, desde 2016, o número de tratamentos vem caindo: de 36,6 mil passaram para 25,9 mil em 2017 e apenas 13 mil em 2018. (Lembremos: tudo isso ocorreu numa gestão do Ministério que fazia propaganda de eficiência). 

Para fechar, um pregão feito no apagar das luzes do governo Michel Temer teria comprado cada tratamento por 2,5 mil dólares, quando é possível comprar medicamentos mais baratos, mas igualmente eficazes contra a Hepatite C. Isso possibilitaria comprar o dobro de tratamentos. Quem denuncia é Carlos Varaldo, do Grupo Otimismo, que apóia portadores da doença. Segundo ele, a entidade levou o caso ao Tribunal de Contas da União.   

VAI FALTAR

O orçamento aprovado pelo Congresso para o Ministério da Saúde em 2019 é de R$ 129,8 bilhões – R$ 1 bi a menos do que foi autorizado no ano passado. A lei orçamentária ainda não foi sancionada por Jair Bolsonaro. De toda forma, o especialista Matheus Magalhães informa no quadro Repórter SUS, do Brasil de Fato, que a redução impacta o programa Farmácia Popular, que teve corte de meio bilhão, além de ações de prevenção e tratamento da dengue e da chikungunya, infecções sexualmente transmissíveis e investimentos na saúde indígena.

DESCARTADO

Ontem, o Ministério da Saúde descartou a suspeita de peste bubônica no Rio de Janeiro. O Laboratório Central do estado refez as análises e identificou outro tipo de bactéria chamada Morganella morganni, comum no ambiente. O último caso da doença registrado no Brasil aconteceu no Ceará, em 2005. 

FAKE NEWS

O Conselho Regional de Medicina de São Paulo iniciou ontem mobilização contra as notícias falsas que circulam nas redes. Com uma base de mais de 140 mil médicos, o Cremesp quer incentivar os profissionais a combaterem os boatos. Começando pelas fake news que têm afetado as taxas de vacinação.  

E não é preciso ir muito longe para ver outros exemplos. A Agência Lupachecou um texto que até a noite de ontem já tinha sido compartilhado mais de 200 mil vezes nas redes sociais. Ele dissemina o boato de que o câncer não é uma doença grave e, para curá-lo, basta parar de comer alimentos com açúcar, beber uma mistura de limão e água morna (“é 100 vezes melhor que a quimioterapia”, diz) e consumir óleo de coco. A checagem explica que essa história do limão circula nas redes desde 2011, pelo menos. Foi disseminada enganosamente como resultado de uma pesquisa do Instituto de Ciências da Saúde de Baltimore (no texto, aparece como estudo da escola de medicina de Maryland). 

Como se vê, a estratégia de disseminação das fake news é capciosa. O Cremesp sugere que os médicos rebatam as notícias falsas com evidências científicas e pesquisas de verdade. 

PESA MAIS

O Índice de Preços ao Consumidor da Terceira Idade, que mede a variação da cesta de consumo de famílias compostas em sua maior parte por pessoas com 60 anos ou mais, foi de 4,75% em 2018. E, de novo, os gastos com saúde são os principais componentes e tiveram alta de 6,63%. Os planos de saúde subiram 10,07%, seguido por médicos e dentistas (9,74%) e medicamentos (3,92%). 

MAIS BENEFICIÁRIOS

Os planos odontológicos fecharam 2018 com mais 1,6 milhão de beneficiários, segundo o Instituto de Estudos de Saúde Suplementar. No total, são 24,2 milhões de clientes. O maior avanço aconteceu no Sudeste, região responsável por um milhão dos novos vínculos. 

ACORDO

A ANS e o Cade, responsável por monitorar a concentração do mercado, assinaram acordo de cooperação técnica para monitorar as empresas de planos de saúde. Os órgãos vão compartilhar informações, bancos de dados, relatórios, diagnósticos e estatísticas. 

HANTAVÍRUS

Uma cidade argentina vive um preocupante surto de hantavirose, doença grave transmitida por roedores. De dezembro até o último sábado, dez pessoas morreram e 28 foram infectadas. Todas na mesma cidade – Chubut – localizada na Patagônia. A concentração de casos leva as autoridades a suspeitarem que parte do contágio tenha acontecido entre pessoas e não, como é o mais comum, pela inalação de partículas de urina, fezes e saliva de roedores.  

JÁ COMEÇOU

As conferências municipais de saúde já começaram em todo o país. Ocorrem até 15 de abril e são o ponto de partida para o processo de debate de propostas que serão levadas para a 16ª Conferência Nacional de Saúde, que deve reunir 10 mil pessoas entre os dias 4 e 7 de agosto, em Brasília. 

LANÇAMENTO

O livrinho Como e Por Que as Desigualdades Sociais Fazem Mal à Saúdeganhou versão digital interativa. Pode ser acessado aqui

RESUMO

Nexo fez um apanhado de todas as informações sobre o contexto da exoneração de Adele Benzaken da direção do Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das Infecções Sexualmente Transmissíveis, HIV e Hepatites Virais do Ministério da Saúde. Não tem propriamente nenhuma novidade, mas pode ser útil para quem ainda não leu muito sobre o caso.

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