A reforma (verdadeira) da Saúde virá da Califórnia?

Estado norte-americano quer acesso universal com financiamento público. Leia também: governo brasileiro exonera responsável pelo departamento de controle de DST, Ceará proíbe pulverização aérea de veneno e muito mais.

Governador da Califórnia, Gavin Newsom

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VIRÁ DA CALIFÓRNIA?

A reforma do sistema de saúde dos Estados Unidos ganhou musculatura com a promessa do novo governador da Califórnia, Gavin Newsom, de expandir o acesso universal aos serviços (incluindo imigrantes sem documentos), rumo ao modelo de financiamento público. Por lá, cada estado pode aderir (ou não) a políticas federais, como o Obamacare, e avançar além delas. Mas para tirar do papel o sistema de saúde financiado pelo estado, será preciso aprovar uma nova lei no Congresso. O democrata Gavin enviou uma carta aberta para Donald Trump e os parlamentares. A avaliação é de que não há condições para aprovação da lei (já que o Senado é dominado pelos republicanos), mas dá para fazer pressão e colocar o assunto na agenda agora que a Câmara tem maioria democrata.  

CONTRA A PULVERIZAÇÃO

O governador do Ceará Camilo Santana (PT) sancionou uma lei que proíbe a pulverização aérea de agrotóxicos nas plantações do estado. O projeto foi aprovado pela Assembleia Legislativa em 18 de dezembro e recebeu o nome de Zé Maria do Tomé, em homenagem ao trabalhador rural assassinado em 2010 por sua atuação contra a ‘chuva’ de veneno na Chapada do Apodi, região que se tornou celeiro de produção de frutas nos moldes do agronegócio e onde se constatou índice de 97% de contaminação dos trabalhadores por agrotóxicos. Os movimentos sociais comemoram a nova lei. 

EXONERAÇÃO

Mais um capítulo envolvendo a cartilha voltada para homens transgênero: ontem, ficou decidido que a diretora do departamento de Vigilância, Prevenção e Controle de Doenças Sexualmente Transmissíveis será exonerada. A médica sanitarista Adele Benzaken assumiu o cargo em 2016 e esteve à frente da adoção da profilaxia pré-exposição, a PrEP, que previne contaminação pelo vírus HIV.  O departamento também editou a cartilha. Desde quarta, entidades enviaram ao ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta cartas de apoio a Adele, pedindo sua permanência no cargo. Temem que a exoneração seja o primeiro passo rumo à desconstrução de políticas como a de HIV-Aids, já que Mandetta declarou durante a transição que cabe à família e não ao governo atuar na prevenção da doença. Do outro lado, o Ministério afirma que a decisão faz parte do processo de renovação da equipe da pasta. O departamento será comandado por Gerson Pereira, que era diretor adjunto.

DISPUTA À VISTA

A Anvisa está discutindo formas de restringir ou até proibir a gordura trans em produtos industrializados e também nas refeições vendidas por restaurantes e de fast foods. A informação foi dada à Folha pelo assessor da gerência de alimentos da agência, Rodrigo Martins de Vargas. O Brasil está acima dos parâmetros da OMS, que recomenda que o consumo diário não ultrapasse 1% do valor energético da dieta. Por aqui, a média é 1,4% mas chega a 2,5% em alguns grupos populacionais. Isso porque os produtos à base de gordura trans são, em média, baratos. Mas o ingrediente que confere crocância e textura aos produtos eleva o risco de doenças cardiovasculares e altera os níveis de colesterol. A indústria, como era de se esperar, diz em público que concorda com a redução, mas pede mais tempo para se adaptar. Segundo o jornal, a ideia é que a nova regulamentação da gordura trans seja votada pela Anvisa em 2019. 

RETROCESSOS

Donald Trump suspendeu as regras nutricionais para escolas mantidas com recursos federais. Novos parâmetros tinham sido estabelecidos durante o governo Barack Obama e as escolas já tinham conseguido cortar os níveis de sódio nas refeições, por exemplo. As metas, contudo, foram flexibilizadas. Agora, os refeitórios podem voltar a servir comidas com sal à vontade, nem precisam seguir uma transição para grãos integrais. Achocolatados e afins estão liberados. Segundo uma reportagem da Bloomberg, a mudança vai favorecer a indústria de laticínios, que perdeu espaço com a regulação mais saudável. “Ao invés de continuar a partir dos resultados já obtidos, o governo escolheu minar a saúde das crianças em nome da desregulamentação”, diz o diretor do Centro para a Ciência e o Interesse Pùblico, Margo Wootan, à Vox.

MAIS LOBBY

A indústria de videogames dos EUA está fazendo lobby para que a Organização Mundial da Saúde retire da pauta de sua próxima assembleia a votação em que os governos devem ratificar a compulsão por esses jogos como problema de saúde. No ano passado, a OMS definiu que se as pessoas evitam outras atividades para dedicar tempo aos games, a despeito das consequências negativas (como negligência de relações interpessoais), elas sofrem de uma desordem. 

FOI MINGUANDO

O jornal Agora obteve pela Lei de Acesso à Informação dados da secretaria municipal de Saúde de São Paulo que mostram que, em cinco anos, a rede perdeu 10% de seus médicos. Em setembro de 2013, eram 13.974 profissionais. No mesmo mês do ano passado, 12.555. Dá quase um médico a menos por dia. Separando os profissionais contratados diretamente daqueles que atendem via Organizações Sociais (OSs), a queda é ainda maior entre os primeiros: eram 6.652 em 2013, contra 4.842 em 2018 – 27% a menos. 

NA FICÇÃO

Nos anos 1990, autoridades canadenses realizaram uma investigação sobre as falhas na vigilância sanitária envolvendo doação e transfusão de sangue naquele país. Concluíram que aproximadamente 30 mil pessoas contraíram hepatite C e cerca de mil o HIV. O inquérito durou quatro anos e quando chegou ao fim, em 1997, três mil pessoas haviam morrido de problemas relacionados a essas transfusões. O “escândalo do sangue contaminado” é o tema de um novo seriado de televisão da emissora pública CBC chamado Unspeakable.

O diretor, Robert C. Cooper, tem uma razão pessoal para se interessar pelo assunto: ele foi uma das vítimas. Hemofílico, contraiu hepatite C nos anos 1980. Mas a série, segundo Cooper, busca retratar todos os ângulos: o das vítimas e das famílias dessas, mas também do governo e das instituições prestadoras de serviços para o sistema público de saúde do Canadá. Concluiu-se que para economizar, não se tomaram medidas necessárias para a segurança das doações e transfusões. O governo teve de pagar indenizações na casa dos dois bilhões de dólares canadenses. 

OBSTÁCULOS

Falando no Canadá, por lá, mulheres têm mais facilidade de acesso a uma combinação de medicamentos que se mostrou mais efetiva para interromper a gravidez ou ajudar mulheres que sofrem abortos naturais, segundo recente estudo científico. Ao invés do misoprostol sozinho, pesquisa publicada no New England Journal of Medicine mostrou que o melhor é que se tome primeiro outro medicamento, chamado mifepristone e, no dia seguinte, o misoprostol. É que esta última droga tem índice de falha na casa dos 30%. Já a combinação das duas teve sucesso em 90% dos 300 casos acompanhados pelo estudo. A rádio pública nacional dos Estados Unidos contou numa reportagem que, por lá, é difícil para as mulheres conseguirem acesso ao mifepristone, a despeito do medicamento ser considerado seguro, a agência reguladora (FDA) o colocou numa categoria que limita sua distribuição a clínicas e hospitais cadastrados, o que às vezes significa longas viagens. No Canadá, o medicamento está disponível em farmácias. 

SOBRE MENINOS E HOMENS

A Associação Americana de Psicologia aprovou o primeiro documento com diretrizes voltado para meninos e homens. De acordo com a entidade, a socialização nos parâmetros da “masculinidade tradicional” afeta a saúde física e mental desse grupo. Apesar de variar entre culturas e etnias, a APA afirma que há pontos em comum nesse ideário, como o anti-feminino, a aversão à aparência de fragilidade e o incentivo à aventura, ao risco e à violência. O documento despertou a fúria dos conservadores nos Estados Unidos que acusam a entidade de tentar minar a “essência” masculina. A APA já aprovou diretrizes para mulheres e vários grupos populacionais e afirma que o trabalho visa ajudar as pessoas a levar vidas mais felizes e saudáveis. “Homens detém as maiores taxas de suicídio, de doenças cardiovasculares e de solidão na velhice (…) queremos ajudá-los a expandir seu repertório emocional, não jogar fora sua força”, disse ao New York Times um dos autores das diretrizes, Frederic Rabinowitz. 

EVOLUÇÃO ÚNICA

As águas-vivas podem oferecer a resposta para o enigma da evolução das primeiras células nervosas. Um estudo se debruçou sobre células únicas, presentes nesses animais hoje, responsáveis por secretar uma espécie de cola para capturar presas. E traçou um elo comum com estruturas presentes em animais antigos, apontando que essas células secretoras, vêm do mesmo progenitor dos neurônios. Como as águas-vivas têm um sistema nervoso completamente diferente da maior parte dos animais, os cientistas questionavam se havia duas evoluções completamente distintas desses sistemas. Agora, com a nova pesquisa, as evidências apontam para uma única evolução, a partir dessa célula ancestral em comum. 

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