A geopolítica de Lula na busca por vacinas

Em entrevista à CNN americana, ex-presidente elogia Joe Biden e sugere que democrata convoque G-20 para discutir a doação de doses que estiverem sobrando nos países ricos para as nações pobres

Essa nota faz parte da nossa newsletter do dia 18 de março. Leia a edição inteira. Para receber a news toda manhã em seu e-mail, de graça, clique aqui.

Adversário mais forte de Jair Bolsonaro, o ex-presidente Lula falou ontem com a CNN dos Estados Unidos. Elogiou Joe Biden e pediu para o governo do país avaliar o envio de sobras de vacina para o Brasil ou outras nações “ainda mais pobres” (não que o Brasil seja exatamente pobre…). Ele sugeriu que Biden convoque uma reunião do G-20 para discutir a questão: “É importante chamar os principais líderes mundiais e colocar em volta da mesa uma só coisa, uma questão: vacina, vacina e vacina”. 

Esse não foi o primeiro movimento de Lula para tentar destravar a vinda de imunizantes para o Brasil. A colunista do Globo Bela Megale escreveu na semana passada que essa atuação começou há tempos.

Três meses atrás, o líder foi convidado por Kirill Dmitriev, diretor do Fundo de Investimento Direto Russo, para conversar sobre a Sputnik V. Três ex-ministros da Saúde dos governos PT (José Gomes Temporão, Alexandre Padilha e Arthur Chioro) participaram da videoconferência. Segundo Padilha, a reunião “abriu a relação do fundo russo com o Consórcio do Nordeste” – que, por sua vez, anunciou a compra de 37 milhões de doses do imunizante ontem.

E quando a China atrasou o envio de matéria-prima para a produção de vacinas no Brasil, em janeiro, Lula e Dilma Rousseff mandaram uma carta diplomática para o presidente Xi Jinping:

“Consideramos oportuna essa mensagem, como forma de manifestar a nossa certeza de que a antiga e sólida amizade entre os nossos povos não será abalada pelo negacionismo, pela incivilidade e pelas grosserias proferidas pelo presidente Jair Bolsonaro, seus filhos e seu governo. A amizade e a parceria entre a China e o Brasil são inabaláveis, porque os governos passam, mas os laços que unem os povos são permanentes”.

E sinalizaram, delicadamente, a necessidade de que o envio de insumos fosse destravado: “Em nome desta grande amizade que brilha em qualquer circunstância e que soubemos construir entre esses nossos dois países e nossos povos, não faltará ao Brasil insumos indispensáveis para dar continuidade à recém-iniciada produção de vacinas que salvem a vida do povo brasileiro”.

Voltando aos Estados Unidos: tem muita gente de olho nas 30 milhões de doses do imunizante da AstraZeneca que estão encalhadas no país – a FDA, agência reguladora de lá, está esperando o fim do ensaio com voluntários americanos para avaliá-lo e autorizar o uso do produto, o que deve acontecer em abril.

Biden disse mais de uma vez que não pretende doar nada antes de ver sua população toda coberta. Mas eles já têm muito mais doses do que precisam, e a própria AstraZeneca pediu ao governo que considere realizar as doações.

Esta semana, o presidente disse que está conversando com  “diversos países” sobre o assunto e vai anunciar alguma decisão “muito em breve”. 

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos