Os coágulos e a vacina

Cresce lista de países que suspenderam uso da vacina de Oxford – mas decisão parece mais política do que científica

Centro de vacinação vazio na Alemanha, após suspensão temporária do uso do imunizante de Oxford/AstraZeneca. Foto: Martin Schutt/DPA

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Desde a semana passada, quando falamos disso pela primeira vez, cresceu a lista de países europeus que decidiram suspender temporariamente a aplicação da vacina de Oxford/AstraZeneca. Agora, já são quase 20.  A França, que inicialmente tinha recusado a medida, depois decidiu aplicá-la. Alemanha, Espanha e Portugal também se juntaram ao grupo, que já tinha nações como Dinarmarca e Áustria. A precaução, como se sabe, se deve a eventos adversos (inclusive fatais) relacionados a coágulos sanguíneos entre pessoas vacinadas. 

Mas continua não havendo nenhuma evidência que aponte para uma relação entre esse imunizante e a formação de coágulos. Em geral, a incidência de coágulos sanguíneos é de mais ou menos cinco casos por milhão. Até agora, foram reportados cerca de 30 casos em 45 milhões de vacinados, o que dá 0,7 por milhão. 

Para comparar: a matéria da Quartz lembra que certas pílulas anticoncepcionais levam a uma incidência de mil casos por milhão… 

De todo modo, a EMA (agência análoga à Anvisa na União Europeia) está investigando os dados e deve dar um veredito sobre a segurança e os riscos potenciais amanhã. Mas, por ora, recomendou que o imunizante continue sendo utilizado, por estar convencida de que os benefícios superam os riscos. “Estamos em uma crise sanitária gravíssima, com forte sobrecarga dos sistemas de saúde, e a vacina protege contra a covid-19, que mata milhares de pessoas todos os dias”, disse a diretora-executiva do órgão, Emer Cooke. Ela também se disse preocupada, com razão, com o efeito das suspensões precipitadas sobre a confiança da população nas vacinas. 

Decisões também políticas

Se não ainda há evidências ligando os coágulos ao imunizante, por que tantos países optaram por suspender sua aplicação? A motivação é provavelmente política, como já disse, sem meias palavras, o diretor-geral da agência reguladora italiana, Nicola Magrini: “Chegamos ao ponto da suspensão porque vários países europeus, entre eles Alemanha e França, preferiram interromper as vacinações para fazer os controles. A escolha é política“.

E a desconfiança não é em relação a qualquer vacina, mas especialmente à da AstraZeneca, empresa com a qual as relações europeias andam azedas há meses, desde que as entregas de doses começaram a sofrer atrasos. Já vimos aqui que a Alemanha e o restante do bloco europeu acusaram a farmacêutica de privilegiar as entregas ao Reino Unido.

No New York Times, os repórteres Jason Horowitz e Benjamin Mueller destrincham essa história. A preocupação das autoridades alemãs com os casos relatados colocou imediata – e gigantesca – pressão sobre outros governos, para que a opinião pública percebesse uma decisão coesa. “Quando Speranza [Roberto Speranza, ministro da Saúde italiano] trouxe a questão ao primeiro-ministro [Mario] Draghi, ele observou a insuportável pressão pública que a Itália enfrentaria se sozinha usasse uma vacina considerada muito perigosa para a Europa”, diz a matéria. 

Não menos importante, a decisão em conjunto seria tomada “pelo bem de uma frente europeia unida”. Que, no entanto, contraria a recomendação da própria agência reguladora do bloco. 

O resultado mais concreto e imediato disso deve ser desastroso: um atraso de pelo menos duas semanas – podendo chegar a mais de um mês – na campanha de imunização europeia, que, por sinal, anda quase tão lenta e insatisfatória quanto a brasileira. Os danos já estão evidentes. “É certo que os reguladores investiguem os sinais de segurança. Mas interromper o lançamento de uma vacina durante uma pandemia, quando há muita covid-19 por perto, é uma decisão dramática de se tomar – e não vejo por que alguém faria isso”, avalia Michael Head, pesquisador em saúde global da Universidade de Southampton.

Monitorar é preciso

É preciso ter em mente que vários problemas de saúde acontecem com milhões de pessoas todos os dias – de gripes a aneurismas e infartos – e que, quando se começa a vacinar muita gente, com certeza esses problemas começam a aparecer também entre os vacinados. Mas isso não indica que haja relação entre uma coisa e outra. Os eventos precisam, sim, ser reportados às autoridades, justamente para que se investigue se foram apenas coincidências. 

No Brasil, no primeiro mês de vacinação houve 430 ocorrências de eventos adversos graves após a administração de 5,9 milhões de doses (de CoronaVac e da vacina de Oxford/AstraZeneca), segundo a Folha. Entre eles, há 139 mortes, das quais 70% já foram analisadas e classificadas como sem relação com as vacinas. As demais ainda aguardam outros dados, como laudos de necrópsias.

A Fiocruz, responsável pela produção do imunizante no Brasil, reforçou ontem que ele tem se mostrado seguro e eficaz. Segundo a Anvisa, já foram investigadas seis ocorrências de tromboembolismo entre vacinados no país e não foi estabelecida nenhuma causalidade. 

A OMS vai aguardar mais dados sobre as vacinas e os coágulos antes de emitir qualquer parecer. Vale lembrar que o imunizante de Oxford/AstraZeneca é o que hoje responde pela quase totalidade das doses da Covax Facility destinadas a países de baixa e média renda. 

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