População negra fica para trás na vacinação

Levantamento mostra que do total de 8,5 milhões de imunizados, apenas 1,7 milhão se declaram negros contra 3,2 milhões de brancos

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Quem se infecta mais e morre mais por covid-19 no Brasil são as pessoas negras – mas elas estão ficando para trás nas filas da vacinação.

Agência Pública e a Repórter Brasil fizeram um levantamento a partir de dados das primeiras 8,5 milhões de pessoas vacinadas. Viram que 3,2 milhões se declaram brancas, contra 1,7 milhões de negras.

A informação só não é mais completa porque um alto percentual dos formulários preenchidos durante a vacinação não informa o quesito cor/raça – o que já é, em si, muito ruim.

Há algumas explicações para o problema, segundo os especialistas ouvidos pela reportagem. Uma delas é que, por conta de determinantes sociais, há menos negros do que brancos com mais de 90 anos – a primeira faixa etária de idosos a ser imunizada.

A diferença continua mesmo para idosos mais jovens: a partir dos 60 anos, havia cerca de 30% a mais de pessoas brancas que negras no último censo do IBGE.

Outro problema é a dificuldade de locomoção, que representa uma adversidade extra, ao menos onde as equipes da atenção básica não conseguem fazer a busca ativa de pessoas para vacinar. 

Tem mais: uma parte da população negra que poderia estar enquadrada nos grupos prioritários, por estar na linha de frente contra a covid-19, não necessariamente recebeu a vacina.

Isso porque, em algumas regiões, trabalhadores da limpeza e segurança dos hospitais não entraram na primeira etapa.

“Até estudante de Medicina que não estava na linha de frente acabou passando na frente dos profissionais da limpeza – o que é um absurdo, se a gente for analisar estrategicamente quem vacinar primeiro, quem são as pessoas que precisam estar trabalhando para o serviço de saúde continuar oferecendo tratamento”, aponta a médica Rita Borret, da Sociedade Brasileira de Medicina da Família e Comunidade.

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