Mariana: três anos depois

Atingidos pelo maior desastre socioambiental do país ainda esperam por justiça 

Foto: Maíra Mathias

Praça do município vizinho de Barra Longa (MG), uma semana depois do rompimento da barragem de Fundão

05 de novembro de 2018

MARIANA: TRÊS ANOS DEPOIS

Hoje, o rompimento da barragem do Fundão, em Mariana (MG), completou três anos. O Tempo mostra que a Justiça brasileira deixou tanto a desejar na reparação dos danos que nada menos do que 200 mil pessoas resolveram processar uma das controladoras da Samarco, a BHP Billiton, nas cortes da Inglaterra e do País de Gales numa ação de 5 bilhões de libras (R$ 24 bi).

O mar de lama, que chegou até Regência, no litoral Espírito Santo, deixou 19 mortos, muitos feridos e centenas de milhares de atingidos no caminho, cortando o abastecimento de água de cidades como Governador Valadares (MG) e Colatina (ES) e tirando o sustento de muita gente que vivia da pesca e do turismo na extensa região. Mas nem em relação às mortes houve consequências.

Estudo contratado pelas próprias empresas Samarco/Vale/BHP mostra que havia defeitos na construção na barragem – e mesmo assim, os executivos da mineradora resolveram seguir adiante e ampliar o reservatório de quase 50 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério. Em 9 de outubro, o executivo André Cardoso teve a denúncia revertida pelos desembargadores do Tribunal Regional Federal da 1ª Região. A acusação do Ministério Público era a de inundação seguida de morte, que poderia chegar a 30 anos de reclusão. Os desembargadores só aceitaram o crime de inundação, que não passa de oito anos de cadeia. O MPF recorre da decisão, que pode valer para os demais 21 acusados de homicídio.

Nenhuma das casas das comunidades mais afetadas – Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo e Gesteira – sequer foram construídas até hoje. As obras acontecem em locais próximos ao original. Os atingidos ainda moram de aluguel pago pela empresa no centro da cidade. E vão ficar nessa situação bastante tempo: no caso de Bento, a previsão é que a obra seja entregue só no fim de 2020.

SOS PARA MATERNIDADE-MODELO

O Hospital Sofia Feldman, em Belo Horizonte, é uma das maiores – se não a maior – referência em parto humanizado pelo SUS. Mas uma crise financeira tem tido reflexos na capacidade que a unidade tem de manter seu corpo clínico e, consequentemente, suas instalações funcionando. Também faltam insumos e medicamentos. A dívida total chegou a R$ 120 milhões – é que o hospital opera com um déficit mensal de R$ 1,5 milhão. Os profissionais estão há dois meses sem receber salários, e completam o segundo ano sem 13º. Em 2018, a maternidade perdeu 12 dos 30 médicos intensivistas, 16 dos 28 fisioterapeutas e mais de cem enfermeiros. Sem os profissionais, unidades de UTI foram fechadas. Esse mês, o corte atingiu 15 leitos de UTI neonatal. Outros sete podem ser desativados, caso não haja um socorro financeiro. O hospital atende mulheres de 300 cidades mineiras. “Na minha cidade, eles falaram que tinham que tirar meu bebê. Mas, aqui, eles me mostraram que não havia necessidade”, conta uma grávida transferida para o Sofia Feldman devido ao grande volume de líquido amniótico e que aguarda o parto na Casa da Gestante da unidade.

DESCASO

No sábado, um incêndio destruiu o segundo andar da Coordenação de Emergência Regional (CER) da Barra, localizada na UPA anexa ao Hospital Lourenço Jorge. De acordo com um socorrista, começou por volta das 15h40 e em dez minutos já tinha consumido quase tudo. Os profissionais da UPA afirmam que a unidade estava superlotada, com cerca de 300 (a prefeitura nega). Os 54 pacientes que estavam internados nas salas de estabilização foram encaminhados para o Hospital Albert Schweitzer. Na transferência, três idosos morreram. Uma quarta pessoa transferida morreu no domingo. Na reportagem do G1, as fontes ouvidas não quiseram se identificar. “Aqui está todo mundo com dois meses de salários atrasados, hospital sem manutenção. A tomografia do Lourenço Jorge ficou quebrada mais de um ano, agora você imagina todo mundo que estava na UPA, superlotada, no hospital, que também está sem recursos? Isso é um absurdo”, disse um profissional.

DESCARACTERIZADO

RJ TV critica os cortes da gestão Crivella, apontando que a essência do programa – a prevenção de doenças – vai ser afetada. Com menos agentes comunitários de saúde, as visitas domiciliares vão sofrer diminuição. Ou ser inviabilizadas, praticamente. Na equipe do tipo 4, criada fora dos parâmetros da Estratégia Saúde da Família, cada agente vai ficar responsável por mais de 18 mil pessoas. Na ESF, cada agente tem que visitar no máximo 750 pessoas, segundo o Ministério da Saúde. No Rio, são 184 equipes de saúde desativadas e 55 equipes de saúde bucal. Os cortes e os salários atrasados levaram médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem a deflagrar greve.

CUIDADOR DE IDOSO

Pesquisa da Confederação Nacional do Comércio com dados do Ministério do Trabalho concluiu que cuidador de idoso é a ocupação que mais cresceu no país na última década. O salto foi de 5,2 mil, em 2007, para 34 mil no ano passado: uma alta de 547%.

NOVO PERFIL

Menos médicos, mais ruralistas, pastores e militares. A Folha fez a conta dos eleitos para a Câmara dos Deputados e constatou que na atual legislatura são 44 médicos. A partir do ano que vem, serão 36. Professores que hoje formam a terceira maior bancada (79) vão minguar para 47 cadeiras. Enquanto isso, empresários serão a maioria (135), seguidos por advogados (102). Líderes religiosos crescem (de 11 para 19) e militares também (de 19 para 28).

BRASIL E PRESERVAÇÃO

Mais de 70% das últimas áreas de natureza intocadas no mundo estão em apenas cinco países: Estados Unidos, Rússia, Canadá, Austrália… e Brasil. As áreas terrestres e marítimas praticamente não afetadas pela expansão da humanidade ocupam um quarto do planeta. Segundo a pesquisa pioneira, publicada na revista Nature, elas são refúgio vital para espécies ameaçadas e fornecem alguns dos mecanismos mais eficientes de defesa contra eventos climáticos extremos. O principal autor do estudo, James Watson, alerta: “Um punhado de países abriga muito dessa terra intocada e eles têm uma grande responsabilidade de manter o que resta de natureza selvagem”.

VAI E VEM

Enquanto isso, o presidente eleito Jair Bolsonaro causa enorme insegurançaao anunciar a fusão da pasta do Meio Ambiente ao Ministério da Agricultura e voltar atrás, e anunciar de novo…

MAIS NÚMEROS

O Tesouro Nacional apresentou na última quinta um estudo sobre gastos públicos com saúde. Segundo o órgão, por aqui chegamos a 3,8% do PIB, o que nos coloca “ligeiramente” acima da média da América Latina (3,6%) e bem abaixo dos países desenvolvidos (6,5%). Houve aumento real das despesas com saúde entre 2008 e 2017, diz o Tesouro. Mesmo assim, o gasto privado é superior ao público. O relatório aponta que gastos tributários, como as renúncias fiscais, são um problema. As despesas médicas atingiram R$ 70 bilhões em 2016. Metade das deduções beneficiam os declarantes mais ricos.

SEGURO MÉDICO PARA TODOS

Amanhã, os Estados Unidos vão às urnas escolher deputados e senadores, além de outros cargos que por lá são decididos por voto direto, como procuradores. A novidade da eleição é uma ala do Partido Democrata conhecida como Socialistas Democráticos. O nome mais famoso desse grupo é o senador veterano Bernie Sanders, e uma das novidades que mais empolgam é Alexandria Ocasio-Cortez, que aos 28 anos, pode se tornar a deputada mais jovem. Segundo a BBC, o grupo não defende um Estado socialista, mas “medidas que regulem a economia americana de maneira democrática, fazendo, por exemplo, as grandes empresas agirem a favor dos interesses da população”. Uma das bandeiras prioritárias da agremiação é a universalização do seguro saúde (Medicare for all).

CÂNCER E CELULARES

O Programa Nacional de Toxicologia dos EUA divulgou os resultados de uma pesquisa que começou a ser feita nos anos 90, ainda na época do ex-presidente Bill Clinton. O objetivo era descobrir se havia relação entre o uso de telefones celulares e câncer cerebral. Ao longo de anos, ratos foram expostas à radiação em frequência 900 megahertz, típica da segunda geração de aparelhos (já superada). Desde antes de nascer até os dois anos, os animais receberam nove horas dessa radiação. Os resultados apareceram nos machos. De 2% a 3% deles desenvolveram gliomas malignos. Nenhum rato macho livre da exposição desenvolveu a doença. O estudo também concluiu que 5% a 7% dos ratos machos expostos ao nível mais elevado de radiação desenvolveram tumores cardíacos (schwannomas malignos). No grupo controle, livre da radiação, o número foi zero também. Hoje, os aparelhos celulares da quarta geração (4G) e da próxima (5G) tem menor capacidade de penetrar nos corpos das pessoas (e de outros animais, como os ratinhos), segundo os cientistas. Mas os resultados são importantes porque milhões de bilhões de pessoas usam celulares e até uma pequena alta pode ter implicações bastante amplas. O desafio, de acordo com os pesquisadores, é equilibrar estudos grandes o suficiente para oferecer resultados significativos, e ágeis o bastante para acompanhar a evolução desses aparelhos.

DEZ VEZES MAIS FORTE

O fentanyl está no centro da epidemia de opioides nos Estados Unidos e outros países por ser altamente viciante. Mas a despeito de muitas críticas e pressão, a agência que regula alimentos e medicamentos nos EUA – chamada FDA – aprovou um novo opioide, dez vezes mais potente que o fentanyl. A droga, chamada Dsuvia, é a versão em tablete de um opioide antes aplicado na veia. O lobby pela aprovação veio do Pentágono: os militares querem que o medicamento esteja disponível no front. O problema é que o Dsuvia pode ser desviado e ir parar no mercado paralelo. A empresa foi criticada por não ter um plano seguro contra possíveis desvios.

POLÍTICA ANTITABACO

Em Las Condes, bairro rico de Santiago (Chile), não pode mais fumar em parques e praças. A medida foi adotada em outras cidades, como Nova York, e o objetivo é tirar os fumantes de áreas onde crianças e adolescentes brincam e praticam atividades esportivas. Após o período de testes, a multa para quem infringir a norma pode chegar a R$ 1,3 mil. O país ainda tem 30% da população fumando.

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