Saúde como moeda de troca

Um relance sobre as engrenagens que dão sustentação ao poder de um clã familiar na política brasileira 

28 de setembro de 2018

SAÚDE COMO MOEDA DE TROCA

No ano do MárciaGate – nome que demos ao caso envolvendo o prefeito do Rio Marcelo Crivella e suas “ofertas” de ajudar aliados a furar filas de cirurgias, dentre outras facilidades – o Intercept dá uma aula de Brasil com a reportagem O deputado 716%.  O título é uma referência ao aumento do patrimônio do deputado estadual da Paraíba Paulo Rogério Rêgo (PTB), ou Doda de Tião, como é conhecido no município de Queimadas, a 141 km da capital, onde sua família manda e desmanda. “Ele faz parte de um grupo imenso, o dos políticos que voam abaixo do radar da cobertura da imprensa e que detêm poder real em mãos, capaz de afetar diretamente a vida de milhões de pessoas”, escreve a repórter Amanda Audi, que foi até a cidade e conheceu o clã dos Rêgo: os irmãos Carlinhos de Tião, prefeito de Queimadas no segundo mandato; Maria do Socorro, esposa do presidente da Câmara Municipal e coordenadora da campanha pela reeleição de Doda; e a matriarca Maria da Paz, que mantém garrafas PET com leite para oferecer às pessoas que fazem romaria na sua casa todos os dias pedindo alguma coisa.

Mas não é só de leite que o coronelismo/clientelismo se abastece. “Quando circulam pela cidade, recebem uma enxurrada de pedidos: vaga em hospital, emprego para um parente, o pagamento de uma conta de luz, um dinheirinho”, relata Audi. O prefeito Carlinhos está tão acostumado com a apropriação privada da coisa pública que, mesmo na presença da repórter e da fotógrafa, distribui dinheiro da prefeitura como se fosse seu, aos moradores que lhe pedem favor. “Eu testemunhei uma série de ligações em que Socorro atendia uma mulher que se apresentava como Marica. Ela pedia uma vaga para o marido em um hospital em Campina Grande. ‘Eu estou tentando, mas hospital grande é mais difícil. Se fosse aqui a gente resolvia. Mas tenha paciência que vamos dar um jeito’, disse a ela.”,  diz a repórter.

E, assim, o clã enriqueceu e se perpetuou no poder. E vice-versa, nota a reportagem, pois não se sabe o que veio primeiro, só que o processo se retroalimenta. Doda, Carlinhos e Socorro são a segunda geração. Seu pai, Tião do Rêgo (de quem os filhos puxaram o nome político) foi prefeito de Queimadas várias vezes. Agora, os netos de Tião querem entrar na política. A família é dona de basicamente todos os comércios da cidade (e afirma empregar 2 mil pessoas, num município em que o IBGE contabiliza 3,3 mil com carteira assinada em 2016). E esses comércios estão em nome de laranjas. Denunciada, a prática não foi investigada. O promotor da cidade mantém relações cordiais com os Rêgo. E assim a coisa vai.

O FLUXO

Ontem recomendamos aqui uma reportagem que aponta como o prefeito de São Paulo Bruno Covas está desfazendo ações de João Doria em relação aos usuários de drogas, especialmente o crack, e retomando os passos da gestão anterior, de Fernando Haddad (PT). Mas hoje uma matéria na Folha dá a entender que, no fundo, Covas é mesmo alinhado ao higienismo ‘doriano’. Isso porque a Prefeitura tem uma estratégia para tentar mover o “fluxo” de lugar. Das imediações da Estação da Luz, onde prédios residenciais erguidos pelo governo foram inaugurados e a nova sede do hospital Perola Byinton está sendo construída, para um local próximo da marginal Tietê. Para isso, está construindo uma estrutura de atendimento e estuda fechar as existentes na cracolândia, fazendo com que as pessoas se desloquem 40 minutos de onde estão. Além do risco de quebra de vínculo entre agentes sociais e de saúde e usuários, como lembra um profissional que não quis se identificar na matéria, nada garante que dê certo. “O fluxo, diz outra assistente social, estará onde estiver o crack, e não o atendimento”, escreve o repórter Thiago Amâncio.

Apesar de trazer informações relevantes, a reportagem é bem tendenciosa. Afirma que na gestão Haddad as “ruas do centro eram dominadas pelo tráfico, numa espécie de QG do crime organizado onde se vendia droga”. Sabe-se que então a Prefeitura trabalhava na perspectiva da redução de danos, usada no mundo inteiro, em que se parte do princípio de que nem todos os usuários conseguem ou estão dispostos a um tratamento que tenha como única finalidade a abstinência. E é melhor, portanto, oferecer formas de acesso à cidadania e cuidados com a saúde do que fingir que, de uma hora para outra, o problema vai ser resolvido internando todo mundo. Já a ação policial de Doria, criticada até pela ONU por sua violência, é descrita pelo repórter sem uma única crítica. A reportagem mostra ainda desconhecimento do assunto ao falar em “internação química dos dependentes” – o que, é claro, não faz sentido.

TRANSPLANTES

Ontem, o Ministério da Saúde atualizou os números dos transplantes de órgãos no país. O Estadão pondera, contudo, que embora as doações tenham aumentado 7% e a fila diminuído em pouco mais de três mil pessoas (são 41.266 aguardando pelo procedimento agora), é preciso olhar de perto o que aconteceu. Isso porque a redução da espera se deve, principalmente, aos transplantes de córneas: somava 13.920 pessoas em 2017 e caiu para 10.256 este ano. Já a fila para transplantes de coração, fígado, pâncreas, pulmão e rim aumentou de 30.412 para 31.010.

ENDIVIDAMENTO OU SUS?

Uma empresa que concede descontos em serviços de saúde por meio de um programa de assinatura chamada Yalo e o banco da Votorantim assinaram uma parceria. O objetivo? Abrir uma linha de crédito para pacientes das clínicas populares Dr. Consulta, de modo que as pessoas peguem o dinheiro para fazer exames e procedimentos médicos. Segundo o Valor, cerca de 40% não dão sequência ao primeiro atendimento por falta de recursos financeiros. E “acabam optando pelo SUS, cuja fila de espera pode levar meses”, escreveBeth Koike. O problema das filas é real. Mas o risco de endividamento também.

Não tem jeito: ou se avança no Sistema Único ou os brasileiros serão cada vez mais alvo das mil e uma estratégias do setor privado.

MAIS DETALHES

Nexo explica melhor o procedimento que conseguiu extinguir uma população inteira de mosquitos Anopheles gambie, que transmitem a malária. E advinha? Os cientistas usaram a CRISPR, técnica que volta e meia aparece por aqui por estar revolucionando a engenharia genética. Dessa forma, conseguiram implantar uma “armadilha”: alteraram o gene de determinação de sexo fazendo com que as fêmeas da espécie desenvolvessem características intersexuais, deixassem de picar pessoas e parassem de produzir ovos. Levou seis meses, ou entre sete a 11 gerações, para que a população entrasse me colapso. E a mesma fórmula está sendo testada no nosso conhecido Aedes aegypti, que transmite dengue, chikungunya, zika e febre amarela urbana.

Os testes na natureza com o Anopheles estão marcados para acontecer em 2024. Até lá, o debate sobre as consequências de soltar mosquitos geneticamente modificados para o meio ambiente deve esquentar.

FEBRE DO NILO

A doença é pouco conhecida por aqui, mas chegou à Europa e aos Estados Unidos na década de 1990. Trata-se da Febre do Nilo Ocidental, que afeta o sistema nervoso e pode levar à morte. O vírus, transmitido por mosquito, já infectou 1.505 pessoas na Europa este ano, causando 115 óbitos. A Itália é o país com mais mortes (35), seguido de Sérvia (29), Romênia (25), Grécia (24), Hungria  e Kosovo (com uma morte cada). Por aqui, o vírus nunca foi detectado em humanos. Mas, este ano, o Espírito Santo registrou contágio em cavalos e ficou em estado de atenção.

SEM 13º

A mais nova declaração do vice de Jair Bolsonaro (PSL) tem potencial para fazer estrago. O coronel Hamilton Mourão disse que pretende fazer uma reforma trabalhista ainda mais draconiana. “Jabuticabas brasileiras. Décimo terceiro salário. Se a gente arrecada 12, como pagamos 13? É complicado. É o único lugar em que a pessoa entra em férias e ganha mais. Coisas nossas, legislação que está aí. É sempre a visão dita social com o chapéu dos outros, não com o chapéu do governo”, disse ontem em palestra na Câmara de Dirigentes Lojistas de Uruguaiana, no Rio Grande do Sul.

ADIADA

A saída de Bolsonaro do hospital foi adiada para amanhã. O cateter ligado a seu braço estava contaminado por uma bactéria. O tratamento é “fácil” segundo o médico, e o candidato toma antibióticos.

#ELENÃO

E é justamente amanhã que acontecem atos em muitas cidades do país (e de fora) contra Bolsonaro. O movimento começou na internet, quando um grupo de mulheres criou uma página no Facebook, e a esta altura já tomou a rede com memes e vídeos de apoio. Agora planeja tomar as ruas.

BALA DE PRATA ANTECIPADA

E a Veja obteve o processo de divórcio de Bolsonaro e Ana Cristina Valle. Lá se relata “comportamento explosivo” e “desmedida agressividade” do candidato. Ana também o acusava de furtar quase R$ 1 milhão – em dólares, moeda nacional e joias – de um cofre que ela mantinha no Banco do Brasil. E diz que o ex-deputado federal ocultou patrimônio da Justiça nas eleições de 2006.

AGENDA

Roberto Mangabeira Unger dá palestra hoje sobre a economia do conhecimento no Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz, às 14h. Terá transmissão ao vivo.

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