Retomar o Resgate, contra a apatia política

Outras Palavras reinicia diálogos para imaginar um Brasil livre do neoliberalismo e dos pesadelos. Iniciativa sugere: há espaço para propor a reconstrução do país em novas bases – mas esquerda tem se recolhido a um eleitoralismo desmobilizador

Imagem: Blessnig Ngobeni

Uma contradição estranha e grave marca o cenário brasileiro nas últimas semanas de 2021. A possibilidade de vencer a ameaça fascista nunca foi tão clara, mostram as pesquisas eleitorais, a divisão das elites econômicas e as dificuldades do governo no Congresso, Judiciário e mídia. Além disso, o projeto neoliberal desnuda-se, ao produzir, entre outros males, recordes sucessivos de desocupação, endividamento e pobreza; inflação crescente – em especial de alimentos e combustíveis; desigualdade obscena. A opinião pública prestigia, ainda que intuitivamente, o Comum, ao reconhecer a importância de seu maior símbolo visível: o SUS.

Faltando menos de um ano para a eleição presidencial, este quadro abriria, em condições normais, amplo espaço à efervescência política. Ele convida ao exame das políticas que provocaram a regressão inédita do país e, em especial, à busca de alternativas. No entanto, como num labirinto sem porta de saída, toda a agenda nacional continua dominada pelas políticas que produziram o desastre. Prosseguem a privatização das águas e saneamento – na contramão do que ocorre no resto do mundo – e dos Correios. Bolsonaro mantém o plano de desmonte da Petrobras e fala abertamente em vendê-la. O “teto de gastos sociais”, uma aberração só existente no Brasil, é tratado pelos jornais como um tabu que só irresponsáveis podem contestar. Não há, por parte das forças de esquerda, contraposição visível a este discurso do absurdo. É como se o melhor fosse permanecer em silêncio, não mobilizar a sociedade nem fazer marola com debates incômodos, para esperar que o tempo passe e outubro de 2022 restabeleça, naturalmente, a trajetória interrompida pelo golpe de 2016. Como se não fosse necessário, diante do fascismo (ainda não batido) e do neoliberalismo (do qual uma elite poderosa não pretende recuar), oferecer um novo horizonte político, capaz de entusiasmar as maiorias.

Outras Palavras, que lançou há meses o projeto Resgate, vai retomá-lo esta semana. É nossa contribuição possível ao fim do marasmo. A iniciativa parte de uma ideia central: reverter os retrocessos, mudar os rumos do país e avançar muito além do que fizeram os primeiros governos de esquerda tornou-se claramente possível. A correlação de forças está mudando em todo o mundo. Os dogmas de “disciplina fiscal” e da submissão aos mercados financeiros, que pareceram intransponíveis por 40 anos, caíram. Os governos dispostos a impulsionar grandes projetos de resgate social, e de renovação da infraestrutura com conversão ecológica, terão espaço para fazê-lo. O exemplo dos EUA — onde o moderado Joe Biden promove, com apoio popular, programas há pouco impensáveis — é eloquente. Mas será possível haver Joe Biden sem Bernie Sanders e Alexandra Ocasio?

A nova rodada de debates do Resgate visa difundir a ideia de que a transformação voltou a ser possível. Começa quinta-feira (11/11), com um diálogo emblemático. A economista Simone Deos, pesquisadora da Unicamp e presidente do Conselho Técnico-Científico do Instituto para as Finanças Funcionais do Desenvolvimento (IFFD), falará sobre a possibilidade de um Green New Deal – que preferimos chamar de Virada Socioambiental – no Brasil. Dialogará com Luiz Gonzaga Belluzzo. Este acaba de publicar um artigo provocador sobre a possibilidade de os Estados criarem dinheiro “do nada” – agora, não para salvar os cassinos financeiros, mas para promover justiça social e ambiental. Simone Deos é partidária da Teoria Monetária Moderna que muitos, na esquerda tradicional, veem como irreverente aos clássicos. O que dirão quando perceberem que ela parece ter hoje mais pontos de contato do que divergências com um Belluzzo notável por seu realismo político?

Um dia depois, na sexta-feira (12/11), será a vez de outro debate a desbravar possibilidades esquecidas. É uma parceria de Outras Palavras com a AS-PTA, uma associação de pesquisadores e ativistas voltada para o desenvolvimento da agroecologia no Brasil. Tratará do que o economista Guilherme Delgado chama de “zoneamento agroecológico”.

Em seus estudos, Delgado desmistifica a ideia da “eficácia” do modelo agrícola atual, baseado no agronegócio. Demonstra que ele só se mantém por ser beneficiário de um conjunto de favorecimentos por parte do Estado – de crédito barato (e frequentemente perdoado) à construção de obras de infraestrutura caríssimas. Mas vai além. Sustenta que é possível reverter este favorecimento gradualmente, favorecendo a transição para agricultura camponesa e agroecológica. A mudança seria feita respeitando as vocações regionais (por isso, a ideia de “zoneamento”). O economista dialogará com a cientista ambiental e agrônoma Irene Cardoso, professora da Universidade Federal de Viçosa (UFV). Até há pouco presidente da Associação Brasileira de Agroecologia, o braço científico da Articulação Nacional de Agroecologia, Irene também compõe o conselho da ILEIA, um centro internacional de aprendizado em agricultura sustentável.

A série prossegue em 16/11, uma terça-feira. O economista Carlos Gadelha abordará uma estratégia para a reindustrialização do Brasil. Presidente do Centro de Estudos Estratégicos da Fundação Oswaldo Cruz, Gadelha tem defendido posições originais a respeito. Ao contrário dos que julgam impossível reconstruir uma indústria importante no país – ou que minimizam a importância deste movimento, ele sustenta tratar-se de algo imprescindível para gerar riqueza e reorganizar o mundo do trabalho. Mas Gadelha não crê numa industrialização sem foco, como a que vigorou durante o regime pós-1964, baseada simplesmente na substituição de importações.

Aposta, ao contrário, na possibilidade de desenvolver uma nova indústria nos setores que correspondem a necessidades sociais ou de infraestruturas prementes. Por exemplo: a defesa e ampliação do SUS poderia trazer, consigo, num país de mais de 210 milhões de habitantes, uma indústria moderna e potente de medicamentos e equipamentos de Saúde. A expansão das redes de transporte público urbano e intermunicipal demandará uma indústria de material ferroviário e rodoviário. A mesma relação se dará entre obras públicas e transformação energética, ou entre construção civil e novos programas de habitação – e assim por diante.

Três dias depois deste debate – em 19/11, uma sexta-feira — , o Resgate dialogará sobre estratégias para recuperar os direitos do Trabalho. Como fazê-lo, depois de seis anos de contrarreformas, terceirizações sem limite, precarização? O filósofo (e doutor em Economia) Dari Krein tentará responder à pergunta. Professor da Unicamp, ele é também um dos coordenadores da Remir – Rede de Monitoramento Interdisciplinar da Reforma Trabalhista. Entre os focos centrais de sua pesquisa estão a reconfiguração do mundo laboral, com a avanço da economia do imaterial; o esforço das corporações para tirar proveito da mudança (e da desorganização das antigas lutas trabalhistas), intensificando a exploração e impondo a precariedade; e a busca de alternativas.

Dari terá a companhia de Jana Silvermann, diretora para o Brasil e Paraguai do Centro de Solidariedade da AFL-CIO, maior central sindical dos EUA. Ela abordará um tema emergente, porém quase desconhecido aqui: há reemergência das lutas trabalhistas em seu país, devida também à segurança adquirida pelos assalariados, com os pacotes de auxílio adotados pelo governo.

Em 23/11, também uma terça-feira, o Resgate tratará da Reforma Urbana. Irá fazê-lo colocando em foco um tema essencial: as periferias, onde estão as principais vítimas da especulação financeira e da ditadura do automóvel. De que modo um novo projeto de país poderá mobilizar recursos para uma revolução urbanística que transforme as “quebradas” – assegurando moradia, mas oferecendo também equipamentos culturais e esportivos, urbanização, conexão à internet, saneamento, despoluição dos rios e segurança? Como, além disso, transformar os sistemas de transporte público, para garantir acesso a toda a cidade e garantir que ninguém seja obrigado a passar mais do que 40 minutos no trânsito diário entre sua casa e o trabalho?

Duas pessoas intensamente ligadas a este tema buscarão saídas. A assistente social Evaniza Lopes Rodrigues, coordenadora da União Nacional dos Movimentos pela Moradia (UNMM) dialogará com o arquiteto João Whitaker, professor da FAU-USP e pesquisador do Laboratório de Habitação e Assentamentos Urbanos (LAB HAB).

Uma semana depois (em 30/11), entrará em pauta um assunto decisivo para formar opinião pública, mas tantas vezes desprezado pela esquerda. O sociólogo Luís Eduardo Soares tentará traçar caminhos para uma nova política de segurança pública. Ele é conhecido por suas reflexões, aprofundadas ao longo de décadas, sobre a deformação inevitável a que a militarização levou as polícias militares. Além disso, alguns pontos devem se sobressair no diálogo com Soares. Como assegurar, num dos países com maior índice de homicídios do mundo, uma vida sem violência? É possível construir uma polícia que não seja instrumento de controle das maiorias? De que maneira superar a “guerra às drogas”, descriminalizando o comércio de substâncias vastamente consumidas pela população e encerrando um “conflito” que se transformou em biombo para o assassinato, o encarceramento e o controle social da população periférica e negra?

Outros diálogos, em articulação, se somarão a esta agenda, nos próximos dias. Ao tramá-los, somos movidos por uma ideia: a vitória da esquerda em 2022 e o fim do pesadelo que vivemos são possível – mas não certos. A mobilização social e o debate de ideias são os melhores caminhos para vencer o fascismo — e para transformar de fato o país.

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2 comentários para "Retomar o Resgate, contra a apatia política"

  1. Mauro disse:

    Grande ideia dos debates do RESGATE
    É preciso tirar ss eswuerdas e a oponiao publica da apatia e do desanimo. Wue acontrceu nas ultimad semanas ??? Querem deixar Bolsonaro se reeleger em 22??? Estao se iludindo com ibopes ??? Ninguem sai mais as ruas pra forcar o Centrao a aceitar o impeachment?? Vamos todos nos acostumar com a tragedia bolsonaro???

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