O alambiqueiro João Cabral e sua plebeia pitu

Ciclo “Literatura e Cachaça” aborda o grande poeta sintético pernambucano. Assim como a aguardente, seu trabalho é evaporação de significados corriqueiros, para condensá-los em sentidos mais densos e potentes no poema

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Literatura Brasileira & Cachaça

3º Encontro — João Cabral de Melo Neto

Domingo, 15/4, das 16h às 19h

No Ateliê do Bixiga, em São Paulo

Rua Conselheiro Ramalho, 945 – Metrô S.Joaquim ou Brigadeiro

R$ 88 (inclui aula, degustação e petiscos) / R$ 44 para membros de Outros Quinhentos

Informações detalhadas e inscrições aqui

Como a cachaça, a poesia de João Cabral de Melo Neto é uma síntese concentrada, produzida manejando tecnologias milenares – como estruturas literárias medievais ou o alambique – para um propósito que é, a um só tempo, dois tipos de prazer: o da fruição da coisa sensível e o do exercício intelectual da construção.

Essa analogia não é casual. Os homens e mulheres que colonizaram o Nordeste brasileiro eram gente da Idade Média, com a cultura da poesia oral, das narrativas cantadas, da poesia de cordel, da improvisação. E a aguardente era parte desse cabedal cultural, tanto sua técnica de produção quanto o seu consumo, a novidade sendo principalmente a sua matéria-prima, a cana-de-açúcar – trazida diretamente da Ilha da Madeira, mas originária do Sudeste Asiático.

João Cabral é um destilador. A metáfora parece cada vez mais precisa à medida que avança sua obra, e talvez atinja sua plenitude num livro como A Educação pela Pedra. Um poema como “O Mar e o Canavial” pode nos dar um exemplo do que quero colocar aqui. Esse poema desdobra o sentido da educação que está no título do livro em seus dois momentos, o ensinar e o aprender, de um modo nada corriqueiro:

O MAR E O CANAVIAL

O que o mar sim aprende do canavial:

a elocução horizontal de seu verso;

a geórgica de cordel, ininterrupta,

narrada em voz e silêncio paralelos.

O que o mar não aprende do canavial:

a veemência passional da preamar;

a mão-de-pilão das ondas na areia,

moída e miúda, pilada do que pilar.

*

O que o canavial sim aprende do mar:

o avançar em linha rasteira da onda;

o espraiar-se minucioso de líquido,

alagando cova a cova onde se alonga.

O que o canavial não aprende do mar:

o desmedido do derramar-se da cana;

o comedimento do latifúndio do mar,

que menos lastradamente se derrama.  

Vemos mar e canavial ensinando ou aprendendo mutuamente seus caracteres próprios ou adquiridos, como se o convívio na paisagem pernambucana oferecesse a essas duas entidades, que se alastram continente adentro e praia afora, a possibilidade da troca. Esse espelho que os transforma um pelo outro, um no outro, existe por meio da linguagem, porque há um poeta que, mais que observar, maneja os recursos da poesia e sabe fazer seus insumos serem mais densamente a si mesmos e, ao mesmo, abrirem-se para a possibilidade de ser um pouco além-de-si também.

Essa evaporação de significados mais corriqueiros, para uma condensação em um sentido mais denso e potente no poema, gerando algo que sempre esteve ali e no entanto é absolutamente novo, é a operação cabralina por excelência. Donde a imagem de João Cabral como um mestre alambiqueiro.

A imagem pode ser reveladora e até divertida, mas acho que ele mesmo não ia apreciá-la muito não… Isso porque, a princípio, a cachaça parece distante do universo de João Cabral, ao menos pelo ethos de sua poesia. Sóbria, precisa e cortante – e também racionalmente construída, econômica, seca –, não é no delírio, no sonho, na embriaguês, como ocorre com tantos e tantas poetas, que vamos ao encontro da escrita cabralina.

Por outro lado, João Cabral dedicou seu olhar à sociedade açucareira pernambucana, e sobre sua gente e seus rios, que percorrem a paisagem atravessando engenhos e usinas para chegar ao mar na capital Recife. Trata-se, claro, do universo onde a cachaça nasceu e primeiro prosperou. É certo que o olhar do poeta, diferente do de seu vizinho de estado José Lins do Rego, por exemplo, não está preocupado em registrar o que vê, mas sim em sintetizar certos sentidos, em palavras poucas e cortantes.

Mas, ao percorrer esses lugares, ao observar esses personagens, ao procurar traduzir essas paisagens, a cachaça aparece, efetivamente, em alguns momentos. É sobre um desses momentos que gostaria de tecer algumas palavras agora. O que talvez nos mostre como cachaça e literatura também podem aprender e ensinar mutuamente uma sobre a outra, desde que haja leitores atentos que destilem esse encontro.

O presente fabricando em Gravatá

Morte e Vida Severina é sem dúvida o escrito mais conhecido de João Cabral de Melo Neto, presente ano sim outro também nas listas de vestibular e do ENEM. Como um Auto de Natal Pernambucano, o poema dramático retoma antigas tradições medievais, aquelas que fizeram morada e permaneceram vivas no interior do Nordeste, e com especial força entre Pernambuco e Paraíba, terra de cantadores e de cordéis. Auto quer dizer “ato”; em geral eram peças de teatro de um único ato, frequentemente de cunho religioso e caráter alegórico, nas quais uma mensagem moral era explicitada como conclusão de seu encaminhamento narrativo.

Neste caso, o poema tem como tema a morte – alastrada e entranhada na vida do sertanejo retirante, que se move do interior ao Recife como o rio Capibaribe em outro poema célebre de João Cabral – e a vida, que renova o persistir da existência e o sentido dessa persistência no nascimento de uma criança, ao final. Como Auto de Natal, o relato bíblico do nascimento do menino Jesus será também reescrito aqui, ao menos em alguns de seus elementos: o nascimento pobre, em meio a uma fuga, em um lugar improvável e, posteriormente, a entrega de presentes aos pais e à criança por pessoas que chegam. Um desses presentes destaca-se no contexto de nossa leitura. Chegaremos a ele.

Primeiro, os presentes são coisas colhidas no lugar (quando não são coisas da natureza, são colhidas ainda assim, como a folha de jornal, por exemplo):

– Minha pobreza tal é

que não trago presente grande:

trago para a mãe caranguejos

pescados por esses mangues;

mamando leite de lama

conservará  nosso sangue.

– Minha pobreza tal é

que não tenho presente melhor:

trago papel de jornal

para lhe servir de cobertor;

cobrindo-se assim de letras

vai um dia ser doutor.

– Minha pobreza tal é

que não tenho presente caro:

como não posso trazer

um olho d’água de Lagoa do Carro,

trago aqui água de Olinda

água da bica do Rosário.

Em seguida, os presentes são coisas que se produzem, como uma bolacha, um boneco, ou mesmo o canto de um canário, que é também ensinado e cultivado:

– Minha pobreza tal é

que grande coisa não trago:

trago este canário da terra

que canta corrido e de estado.

– Minha pobreza tal é

que minha oferta não é rica:

trago daquela bolacha d’água

que só em Paudalho se fabrica.

– Minha pobreza tal é

que melhor presente não tem:

dou este boneco de barro

de Severino de Tracunhaém.

– Minha pobreza tal é

que pouco tenho o que dar:

dou da pitu que o pintor Monteiro

fabricava em Gravatá.

Por fim mais coisas colhidas, agora as plantadas ou pescadas, com novos jogos de palavras, que aceleram o ritmo da oratória:

– Trago abacaxi de Goiana

e de todo o Estado rolete de cana.

– Eis ostras chegadas agora,

apanhadas no cais da Aurora.

– Eis tamarindos da Jaqueira

e jaca da Tamarineira.

– Mangabas do Cajueiro

e cajus da Mangabeira.

– Peixe pescado no Passarinho,

carne de boi dos Peixinhos.

– Siris apanhados no lamaçal

que há no avesso da rua Imperial.

– Mangas compradas nos quintais ricos

do Espinheiro e dos Aflitos.

– Goiamuns dados pela gente pobre

da Avenida sul e da Avenida Norte.    

Em meio a todos esses presentes, há um que nos interessa em especial:

dou da pitu que o pintor Monteiro

fabricava em Gravatá.

“Pitu”, assim, no feminino – e não no masculino, que é o camarão de água-doce – traz logo à baila a referência da cachaça. Pitu, como muitos sabem, é hoje a marca da aguardente mais consumida no Nordeste e a segunda mais vendida no Brasil, além de ser uma das mais exportadas. Ela é fabricada industrialmente desde os anos 1970, com destiladores de coluna capazes de produzir centenas de milhares de litros por dia.

Ao contar a história da marca em seu website, a pernambucana Pitu diz que há controvérsia sobre a origem do nome. Pode ser porque era produzida no Engenho Pitu, que por sua vez tinha esse nome pela fartura do camarão de água-doce ali na região de Vitória de Santo Antão, onde ainda hoje fica o parque industrial da empresa. Mas também pode ser, segundo o site, porque há uma variedade de cana conhecida como cana pitu, que é assim nomeada pelo seu aspecto exterior, que lembra algumas variedades do crustáceo: é arroxeada com listas amarelas.

Penso que as duas versões não são de modo algum contraditórias. Se há muito pitu na região, faz sentido que o engenho se chame assim, e também que se chame de pitu um tipo de cana e, por metonímia, a cachaça produzida com ela. É o mesmo processo de linguagem que nos leva a chamar de “caninha” o mesmo destilado. Nas duas versões, o que parece é que ficou faltando uma coisa: dizer que havia outras aguardentes chamadas pelo nome de pitu antes que a marca famosa as incorporasse todas e afirmasse seu nome de maneira praticamente universal.

Pode-se supor que é esse momento que está registrado no texto de Morte e Vida Severina, quando fala de uma “pitu”, assim, como substantivo comum, fabricada por um “pintor”, portanto de maneira amadora e barata (pois é um produto que mesmo um presenteador miserável foi capaz de adquirir). Reforça essa hipótese o fato de que a origem do presente é Gravatá, cidade que fica próxima a Vitória de Santo Antão. Será que estamos falando de uma espécie de tradição local de produzir aguardente com um tipo específico de cana e que foi, talvez, apagada e privatizada com o crescimento da indústria Pitu? Deve-se registrar ainda uma possibilidade: muitas cachaças têm nome de bicho, como Caranguejo, Marimbondo, Tatuzinho, e no caso da pitu também poderia estar relacionado ao tiragosto. 

As datas também parecem coerentes. O texto de João Cabral foi escrito entre 1954-1955, e a indústria Pitu, então principalmente uma engarrafadora, assumiu esse nome a partir de 1948, portanto, poucos anos antes, e em meados dos anos 1950 ainda não tinha a proeminência que viria a ganhar ao longo das décadas que se seguiram.

Claro que tudo isso não muda muito a leitura do texto de João Cabral em si, mas se invertemos a ordem dos fatores, aí o aporte é bem mais importante. Quer dizer, essa é uma das coisas interessantes de se estudar o cruzamento de literatura e cachaça, às vezes é a literatura que faz a gente conhecer um pouco melhor a cachaça e sua história.

Ao final, aprendemos algo sobre a cachaça: pitu já foi o nome genérico de aguardente, produzida com a cana pitu, no interior de Pernambuco, antes de se tornar uma marca conhecida. É o contrário, portanto, do que aconteceu com uma certa palha-de-aço ou outros produtos em que a marca famosa veio depois a nomear o gênero.

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4 comentários para "O alambiqueiro João Cabral e sua plebeia pitu"

  1. Diva Pessoa disse:

    Gostei muitíssimo deste texto que me trouxe um conhecimento novo ao relacionar a poesia de João Cabral de Melo à cachaça, o nome que nós, pernambucanos, damos à aguardente. Muito boas as interações entre canavial, mar, pitu e cachaça. Recomendo!

  2. Diva Pessoa disse:

    Gostei muitíssimo deste texto que me trouxe um conhecimento novo ao relacionar a poesia de João Cabral de Melo à cachaça, o nome que nós, pernambucanos, damos à aguardente. Muito boas as interações entre canavial, mar, pitu e cachaça. Recomendo!

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