E João Cabral levou a cachaça…

E se João Cabral de Melo Neto for, além de autor, personagem de “Morte e Vida Severina”? Análise de um detalhe pouco notado, no grande poema do autor pernambucano

Numa publicação anterior, escrevi sobre a presença da cachaça em Morte e Vida Severina, a clássica peça de teatro de João Cabral de Melo Neto. Foi o primeiro resultado da preparação do encontro da série de Literatura Brasileira & Cachaça dedicado ao poeta pernambucano. Para resumir, a aguardente aparece no final da peça, na cena em que chegam pessoas para dar presentes à família que acaba de ganhar um rebento. A discussão ali surge a partir da denominação da cachaça usada no texto, uma “pitu” – não a conhecida marca, mas sim como substantivo comum. O trecho é o seguinte:

– Minha pobreza tal é

que pouco tenho o que dar:

dou da pitu que o pintor Monteiro

fabricava em Gravatá.

Numa primeira leitura, considerando o contexto em que os presentes – pessoas e objetos – são todos muito pobres, o que está expresso no bordão “minha pobreza tal é”, retomado várias vezes, o “pintor Monteiro” é alguém que fabrica artesanal e amadoramente uma cachaça em Gravatá, cidade do interior de Pernambuco. Compartilhei minha leitura com um parceiro de debates lítero-cachaceiros, o Eduardo Dimitrov, que é antropólogo e professor de sociologia na UnB e estudioso de Ariano Suassuna. Ao reler esses versos, de bate-pronto ele me lembrou da amizade de João Cabral com o pintor (e poeta e muitas outras coisas) Vicente do Rego Monteiro. Vicente produziu duas cachaças, uma chamada Cristal e outra, envelhecida em carvalho, chamada Gravatá – embora não fossem produzidas na cidade homônima, mas sim em um lugar chamado Várzea Grande, que, ao que parece, não era muito distante dali. Produzir aguardente foi um dos vários mal-sucedidos empreendimentos com os quais, dizem as más línguas, dilapidou a herança da esposa.

Rótulo da caninha Cristal, produzida por Vicente do Rego Monteiro.

Em seu livro O Engenheiro, João Cabral escreveu dois poemas em homenagem a Vicente. Um sobre sua pintura, o outro sobre o próprio amigo, que é o seguinte:

A VICENTE DO REGO MONTEIRO

Eu vi teus bichos

mansos e domésticos:

um motociclo

gato e cachorro.

Estudei contigo

um planador,

volante máquina,

incerta e frágil.

Bebi da aguardente

que fabricaste,

servida às vezes

numa leiteira.

Mas sobretudo

senti o susto

de tuas surpresas.

E é por isso

que quando a mim

alguém pergunta

tua profissão

não digo nunca

que és pintor

ou professor

(palavras pobres

que nada dizem

de tais surpresas);

respondo sempre:

— É inventor,

trabalha ao ar livre

de régua em punho,

janela aberta

sobre a manhã.    

O Engenheiro reúne poemas escritos entre 1942 e 1945, portanto mais de uma década antes da elaboração de Morte e Vida Severina. A aguardente fabricada pelo pintor Monteiro neste primeiro livro, curiosamente, é servida numa leiteira – o no lugar do leite faz a ponte entre o bar e o lar, com o objeto que de regra serve à família, inclusive as crianças. E a cachaça figura como parte de suas invenções, ao lado da pintura, das máquinas, dos sustos.

Além da presença da cachaça e do pintor, um outro aspecto vai ressoar na cena relembrada do Auto de Natal. Entre os “bichos mansos e domésticos” está um motociclo; entende-se que a natureza de cada coisa se define pela relação que com ela tem o dono. O motociclo é parte da “criação”, provavelmente tão imóvel e dócil quanto o gato e o cachorro, exceto quando estimulados.  

“O Artesão”, de Vicente do Rego Monteiro.

Pois essa categorização a partir de critérios não convencionais – ou melhor, “reconvencionados” pelo poema – aparece também no rol de regalos oferecidos, um após o outro, como em uma fila de chegantes, à família em Morte e Vida Severina. Os presentes são organizados em blocos. O primeiro bloco reúne as coisas coletadas: “caranguejos pescados por esses mangues”, “papel de jornal para lhe servir de cobertor”, “água de Olinda (…) da bica do Rosário”. O segundo bloco é o das coisas fabricadas: um “canário da terra que canta corrido e de estalo”, “bolacha d’água que só em Paudalho se fabrica”, “este boneco de barro de Severino de Tracunhaém”, “pitu que o pintor Monteiro fabricava em Gravatá”. Que o papel de jornal esteja entre outros frutos de coleta não chega a causar impressão. O mesmo deve valer para a inclusão do canário entre os entes da cultura, pois um cantorzinho destes é fruto de fino artesanato, um trabalho cuidadoso de um mestre escultor de música de passarinho, resultado de prática secular.

Os presentes prosseguem, mas voltemos ao tema central aqui. A série das coisas fabricadas reúne alguns bens de um valor que não é financeiro. Primeiro, um valor cultural: a cerâmica de Tracunhaém ou a bolacha de Paudalho, ambas com grande tradição, assim como o canário cantor. O quarto presente, a cachaça, embora seja parte de uma tradição regional – aspecto já destacado no outro texto, quando o foco era a palavra “pitu” –, essa especificamente tem um valor que é sobretudo afetivo: é a produção do amigo Vicente, o “pintor Monteiro”, algo que diz respeito ao círculo das amizades íntimas do poeta. Note-se também que o verbo é colocado no pretérito imperfeito, o amigo “fabricava”, dando a entender que não fabrica mais, o que encarece o valor da relíquia.

Perguntei alto: o que isso pode significar no contexto de Morte e Vida Severina? O tiro certeiro veio do amigo Dimitrov: “É o próprio João Cabral que foi dar o presente”.

Claro! É razoável admitir que esse presente não lhe custou dinheiro mas que venha encarecido de memória afetiva. Afinal, essa aguardente lhe foi servida numa jarra de leite pelo próprio produtor, seu grande amigo, em sua casa. O valor desse presente é pessoal, está ligado à sua biografia íntima, não pública. Não é demais afirmar que, em Morte e Vida Severina, portanto, a cachaça dá lugar à entrada em cena do próprio autor como personagem – ou, em outro nível de metalinguagem, como um ator neste auto de Natal, vestindo os trajes de um “rei mago”.

Como rei mago neste presépio em voz alta, João Cabral é um sábio andarilho que segue a estrela até o lugar do grande acontecimento. Discreto e enternecido, o poeta sabe que não pertence ao mesmo estrato social de seus personagens, mas lhes é profundamente solidário. Talvez tenha desejado estar ali, em uma palafita sobre o mangue no Recife, em meio ao enredo da morte que traçou desde o fundo seco do sertão até o mar, para testemunhar o nascimento da esperança.   

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18 comentários para "E João Cabral levou a cachaça…"

  1. Felipe Lindoso disse:

    Porreta, Maurício. Achou essa cachaça? Será que ainda existe alguma garrafinha perdida por aí? Quiça em uma leiteira?

  2. Felipe Lindoso disse:

    Porreta, Maurício. Achou essa cachaça? Será que ainda existe alguma garrafinha perdida por aí? Quiça em uma leiteira?

    • Maurício Ayer disse:

      Seria muito bacana encontrar essa cachaça, se alguém tiver notícia será fantástico. Mas de todo modo já vão aí uns 70 anos…

  3. Inaldo Firmino Soares disse:

    Pitu é uma marca de cachaça feita no Nordeste, no município de Vitória de Santo Antão, próximo ao Recife. A exemplo do que acontece com outras bebidas, é comum, pelo processo da metonímia, dizer-se “Vou tomar uma pitu”, em vez de “Vou tomar uma cachaça”, trocando-se o produto (substantivo simples) pela sua marca, que, em princípio, é um substantivo próprio, mas que, pelo processo metonímico, passa a substantivo comum.
    As duas cachaças feitas por Vicente do Rego Monteiro não eram feitas no já referido município de Vitória de Santo Antão (onde fica a fábrica da Pitu).

  4. Inaldo Firmino Soares disse:

    Pitu é uma marca de cachaça feita no Nordeste, no município de Vitória de Santo Antão, próximo ao Recife. A exemplo do que acontece com outras bebidas, é comum, pelo processo da metonímia, dizer-se “Vou tomar uma pitu”, em vez de “Vou tomar uma cachaça”, trocando-se o produto (substantivo simples) pela sua marca, que, em princípio, é um substantivo próprio, mas que, pelo processo metonímico, passa a substantivo comum.
    As duas cachaças feitas por Vicente do Rego Monteiro não eram feitas no já referido município de Vitória de Santo Antão (onde fica a fábrica da Pitu).

    • Maurício Ayer disse:

      Oi Inaldo, neste texto aqui eu mostro como a denominação “pitu” veio antes da marca Pitu, portanto, pelo menos neste caso, aconteceu o inverso: provavelmente a marca absorveu como substantivo próprio uma denominação comum na região. Acontece que como a marca cresceu muito e se tornou hegemônica, hoje associamos diretamente a ela, mas isso não seria provável quando da publicação de Morte e Vida Severina. Mas tudo está em discussão, então dados novos são sempre bem-vindos. Obrigado e um abraço

      • Inaldo Firmino Soares disse:

        Desculpe-me, Maurício, mas acho que a fábrica da Pitú foi inaugurada em 1938, e “Morte e Vida Severina” foi publicado em 1969.
        Vou dar uma conferida; caso essas datas não se confirmem, volto aqui para me desculpar.
        Mas essa questão não invalida o seu texto, que é excelente. Adorei lê-lo.
        Grande abraço.

        • Inaldo Firmino Soares disse:

          Voltando para corrigir a data de publicação de “Morte e Vida Severina” para 1955 ou 1956.
          E pitu, além de ser um tipo de camarão (anteriormente eu havia falado “crustáceo da família da lagosta”) é também o nome de uma variedade de cana-de-açucar.

        • Maurício Ayer disse:

          Inaldo, dá uma lida no outro texto. A fábrica da Pitu começou com outro nome e só foi usar esse nome no final dos anos 1940, mas ainda não tinha o peso que tem hoje. Morte e Vida Severina foi escrito em 1954-1955, portanto poucos anos após (1968 foi o ano em que a peça estreou em São Paulo, no TUCA). É mais razoável imaginar que ambos os nomes decorram de um mesmo uso popular e, portanto, que o nome procede à marca. No próprio site da indústria Pitu eles mencionam como uma possível origem para o nome da marca uma aguardente feita com a “cana pitu” (assim chamada por sua coloração, que se parece com a do crustáceo).
          Se descobrir outras coisas, por favor, me diga, estou interessadíssimo! Um abraço

    • Inaldo Firmino Soares disse:

      Esqueci um pequeno detalhe: a cachaça Pitú é com acento no “u”. E pitu é um crustáceo da família da lagosta.

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