Viagem insólita à União Soviética (2)

Em novos lances do passeio histórico à Rússia, as profundas marcas da era soviética em Moscou e uma arquitetura permeada de vívidas memórias do período

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Há sentido em conhecer, em 2018, as memórias concretas do estranho socialismo que marcou a Rússia no século XX? Nossa série de matérias sugere que sim…

Na primeira caminhada pela capital russa já se percebe que não se trata de uma cidade ocidental, aqui a gente sente a atmosfera de uma outra realidade, que não é Ásia, mas também não é Europa. É esse estranhamento que nos revela um rastro da URSS e de um dos seus personagens famosos, aquele que deu as cartas desde o início da década de 1920 até 1953. Estamos falando de Stalin, Josef Stalin.

Com a morte de Lenin teve início uma luta interna para ver quem ocuparia a posição chave de secretário geral do Partido Comunista e Primeiro Ministro, ou seja, o dono da bola. Embora Lenin tivesse indicado Trotsky como sua preferência, foi Stalin quem assumiu o controle da URSS, até 1953, quando morreu.

Seu projeto para Moscou era muito ambicioso, ele queria transformar a cidade numa grande metrópole e como primeira etapa desenhou o que deveria ter sido o Palácio dos Sovietes. Esse edifício, para lá de monumental, deveria ocupar o local deixado pela Catedral do Cristo Salvador, demolida em 1931, e deveria abrigar o congresso soviético além de um centro administrativo.

Nomes como Le Corbusier, Walter Gropius e Erich Mendelsohn disputaram o concurso para escolher a cara deste novo complexo, que foi vencido por Boris Iofan. Mas a construção não foi levada a cabo porque a Segunda Guerra eclodiu e a cidade se viu às voltas, em 1941, com os alemães às portas. O aço que seria usado na sua estrutura foi utilizado nas barricadas de defesa da cidade e suas fundações ficaram abandonadas até 1958, quando se construiu no local a maior piscina aberta do mundo… imagina o sistema de aquecimento para alguém poder se banhar ali a partir de setembro! Em 1995 decidiu-se pela reconstrução, ali mesmo, de uma nova Catedral, seguindo à risca o desenho da igreja anterior.

Apesar de Stalin ter desistido do megalomaníaco Palácio dos Sovietes, ele não abriu mão do projeto de transformação da capital e após o término da Segunda Guerra Mundial substituiu essa obra por aquela que seria sua marca registrada: as 7 irmãs de Stalin.

São, na verdade, sete arranha-céus no exemplar estilo do Classicismo Soviético, construídos entre 1947 e 1953 para celebrar o poder da União Soviética e a vitória contra a Alemanha. Quase idênticos, todos têm uma estrutura escalonada, com a base mais larga que o topo, o que aumenta a sensação de imponência e a aparência de solidez.

O primeiro a ser construído foi o Edifício Kotelnicheskaya Embankment com 32 pavimentos e 176 metros de altura para abrigar, na sua parte central, a elite moscovita e, em outra ala, apartamentos comunais (Kommunalka), que eram unidades onde as famílias viviam em cômodos privados mas compartilhavam cozinha e banheiro.

Depois foram construídos os outros seis edifícios muito similares para acomodar hotéis, ministérios e uma universidade. Aproveito esse momento para dar uma dica importante para quem quer fotografar a cidade: não esqueçam de levar uma boa lente grande angular para conseguir a imagem completa porque em Moscou tudo é gigantesco, monumental. Os prédios e as avenidas fogem à proporção humana, e sua suntuosidade, gigantismo e imponência geram, para os simples mortais, uma sensação que beira a de opressão e impotência. Seria parte da estratégia stalinista?

E já que tocamos no tema “estratégias” vamos falar sobre cosmonáutica, um dos maiores orgulhos do período soviético, cuja história podemos conferir em um museu dedicado.

Vamos lembrar que foram os russos que ganharam a guerra espacial, travada com os EUA.

Os americanos saíram na frente e ao lançarem as bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, estavam, principalmente, mandando um recado para Stalin de que a conversa ao redor das mesas de negociações iriam mudar de tom. Stalin percebeu então o quanto a URSS estava atrasada em seu projeto nuclear e deu um apertão nos cientistas soviéticos que em apenas quatro anos, produziram a sua bomba atômica. O problema é que era muito mais pesada que a dos americanos, e para lançá-la era necessário desenvolver um foguete poderoso. Foi isso que impulsionou o programa espacial.

Em 1957 estava concluído o foguete R-7 Semyorka, que era nove vezes mais poderoso que qualquer outro lançador criado até aquele momento. Depois de várias tentativas o R-7 finalmente voou 5,6 mil quilômetros até a península de Kamchatka. Foi o primeiro míssil balístico intercontinental, o que transformou a União Soviética em uma superpotência global.

A partir daí os engenheiros desenvolveram um satélite simples, o Sputnik, que era apenas um transmissor de rádio coberto por uma esfera de metal, mas foi uma jogada de mestre de propaganda.

A próxima etapa, para desespero dos americanos, aconteceu em novembro de 1957 quando a União Soviética enviou ao espaço outro satélite, mas desta vez havia um passageiro a bordo: Laika, uma cadela vira-lata encontrada em Moscou. E a cereja do bolo soviético foi Gagarin, o primeiro cosmonauta que, em 12 de abril de 1961, a bordo da cápsula Vostok, deu uma volta no planeta em uma hora e 48 minutos. Curiosa foi a escolha deste rapaz para pilotar a primeira nave tripulada. Finalista no processo de seleção junto com outro piloto, chamado Titov e que era mais inteligente e articulado, Gagarin venceu por ser bonitão e ter um sorriso maravilhoso, que estamparia os jornais do mundo inteiro.

Com a economia bombando no pós-guerra, os Estados Unidos podiam investir fortunas no desenvolvimento de um programa lunar. Por outro lado, os governantes da União Soviética não estavam dispostos a financiar uma aventura tão cara e se contentaram em enviar a primeira mulher ao espaço, Valentina Tereshkova, antes de desacelerar seu programa espacial.

Nosso passeio prossegue e no norte da cidade vamos visitar o VDNKh, acrônimo que significa “Exposição das Conquistas da Economia Nacional”.

Lembrando que a economia soviética se baseava no planejamento centralizado e na distribuição de metas de produção para cada república, de acordo com suas especialidades, a visita à este Parque de Exposições é uma viagem imaginária pelo território Soviético.

Trata-se de um conjunto de aproximadamente 250 palácios e pavilhões construídos durante o período stalinista, entre 1930 e 1954, distribuídos numa área maior do que a do Principado de Mônaco. Seu objetivo era ser uma vitrine das conquistas do regime soviético. O VDNKh tinha pavilhões dedicados a setores da indústria, da cultura ou da produção agrícola (engenharia, cosmonáutica, energia atômica, educação popular, cultura soviética, entre outros). Além dos pavilhões dedicados a cada uma das repúblicas soviéticas, cada um deles construído de acordo com projeto arquitetônico único.

O passeio continua e vamos agora ao Muzeon Art Park, espaço criado em 1991 mas que fala muito sobre o período soviético, nosso foco.

Neste espaço estão reunidas todas as estátuas que marcaram a estética soviética do culto à personalidade, retratando seus líderes. Devemos lembrar do período que se seguiu à queda do Muro de Berlin, quando os noticiários mostravam a luta das populações das repúblicas soviéticas, em seu momento de revolta e liberação dos governos soviéticos, derrubando e destruindo estátuas. Pois aqui encontraremos algumas das estátuas sobreviventes da era soviética: Lenin, Stalin, Dzerzhinsky, Gorky e outros revolucionários e comunistas de alta patente. Em 1998, um monumento com rostos esculpidos em pedra foi colocado em volta da estátua de Stalin, em memória das vítimas do ditador.

Temos ainda dois passeios interessantes para fazer. O primeiro é o Bunker 42 em Taganka. Hoje transformado em um Museu dos tempos da Guerra fria, esse complexo de exposições está situado a 65 metros de profundidade, no centro de Moscou.  Nos anos 60, o Bunker estava completamente equipado para o caso de ataque nuclear. Com a redução nas tensões de um possível confronto nuclear na década de 1980, o Bunker perdeu importância como posto de apoio à defesa do país e no período pós-soviético foi privatizado junto com toda a economia russa. Seus novos proprietários transformaram aquele espaço militar em uma visita interessante às entranhas da Guerra Fria. A tensão com os destinos do planeta desapareceu mas uma visita ao Bunker continua oferecendo a emoção de se ver rodeado por objeto da época e ajuda a entender a gravidade das decisões e das expectativas que se desenvolveram um dia, no passado, ali dentro.

Deixamos uma das visitas mais deliciosa desta viagem para o final da nossa estada virtual em Moscou. Vamos conhecer agora uma rede impressionante de palácios. Sim, eu disse palácios porque só assim consigo descrever o que são as estações de Metrô da capital Russa. Inaugurado em maio de 1935, durante o governo de Stalin, seu projeto tinha um claro objetivo propagandista. Enquanto no Ocidente capitalista apenas os ricos e nobres podiam passear por palácios elegantes e sofisticados, na União soviética todos os trabalhadores podiam transitar diariamente por estações decoradas com mármores, cristais, mosaicos e estátuas em bronze, decoradas em estilos diversos mas de um esplendor russo … Não existe paralelo, é o sistema metroviário mais bonito do planeta, e o principal meio de transporte dos moscovitas, hoje com 207 estações.

Só precisa ter um cuidado. A sinalização ainda está em, e apenas em, cirílico, por isso muito cuidado para não ficar perdido, sem entender qual é a placa que indica a saída!

Uma das estações me chamou particularmente a atenção. Localizada embaixo da praça Revolyutsii (Revolução), a estação que leva o mesmo nome, tem como grande destaque 76 esculturas em bronze que retratam as pessoas, os cidadãos da União Soviética: soldados, fazendeiros, atletas, escritores, estudantes, e ainda galos e um cachorro. E o cachorro está com seu focinho completamente brilhante e luzidio de tanto roçar, o bronze já clareado de tanto as pessoas passarem a mão nele. Perguntei o motivo e a resposta foi: para dar sorte.

Nos últimos quarenta anos os moscovitas, privados de igrejas (que foram todas dessacralizadas no período soviético) ou de outros espaços dedicados à uma relação com a espiritualidade, substituíram seus santos pelo focinho do cão de bronze! Não! Não estou sendo justa, o cãozinho de bronze é só para ter boa sorte, o santo mesmo está sendo venerado na Praça Vermelha, no seu Mausoléu!

P.S. Preciso lembrar que Stalin também foi embalsamado e colocado ao lado do Lenin, mas depois, quando Krushev revelou suas maldades, ele também foi dessacralizado, retirado do panteão soviético e enterrado, no sentido bíblico e no simbólico. Não existe mais nenhuma digital dele pela cidade. E antes que seu espírito me castigue, vamos visitar a cidade que o homenageou, vamos voando para Stalingrado.

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