Viagem insólita à União Soviética (1)

Cerco de Leningrado, 1943. Ocidentalizada e moderna, ex-capital resistiu a três anos sob sítio nazista — sem energia ou água corrente, mas com altivez

Há sentido em conhecer, em 2018, as memórias concretas do estranho socialismo que marcou a Rússia no século XX? Nossa série de matérias sugere que sim…

Por Esther Rapoport


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Esther Rapapport é uma das organizadoras do evento:

Uma viagem de volta à URSS
Primeira sessão: Terça-feira, 11/9, 19h, em São Paulo
Auditório da AEDA: Alameda Jaú, 1135 — Metrô Consolação
Entrada grátis

Trabalho no turismo há mais de 40 anos e nesse interim fui estudar, fazer meu curso universitário, e me graduei em História, minha segunda paixão. Mas não consegui sair do turismo para mergulhar no mundo acadêmico, preferi trazer a História para o mundo das viagens, que sempre foi minha maior paixão.

Entendi que o conhecimento adquirido e os exercícios que pratiquei durante meu curso podiam ampliar a experiência de cada viagem, na medida em que, além de nos deslocarmos pelo espaço, podíamos nos deslocar também pelo tempo, exercitando o olhar para enxergar o que estava escondido atrás daquilo que se vê.

TEXTO-MEIO

Aqui convido você para uma experiência virtual, para embarcar comigo em uma viagem à União Soviética. Viajar para a Rússia é fácil, basta pegar um avião aqui, voar umas 15 horas e desembarcar lá. Já para a URSS, o percurso é menos direto, exige mais do que um bilhete aéreo e uma máquina fotográfica. Mas o esforço compensa e se justifica, vale como uma viagem dupla, vendo o presente e visitando o passado.

Este roteiro prevê visitar Leningrado, Moscow e Stalingrado. Vamos?

A viagem começa em Leningrado mas, como eu disse acima, viajar na história não é tão simples nem tão direto. Para chegar em Leningrado teremos que fazer duas paradas, a primeira em São Petersburgo, onde faremos uma excursão rapidinha pelo Império Russo.

São Petersburgo fica no norte da Rússia, no golfo da Finlândia. Era uma região pantanosa que foi conquistada da Suécia pelo Imperador Pedro (o deles) o Grande, um governante com uma visão ocidentalizada e modernizante. Queria um porto e uma nova capital e, como um JK das estepes, planejou e construiu uma cidade inteira e batizou-a em sua inauguração, em 1703, em homenagem ao apostolo Pedro, de quem era devoto, como São Petersburgo.

Qual o impacto de começarmos essa viagem para a União Soviética por São Petersburgo? Nenhum!!! Trata-se de uma cidade muito ocidental porque era exatamente essa a intenção de Pedro, o Grande. Que sua capital fosse uma janela para o Ocidente.

Em 1712, São Petesburgo tornou-se a capital do Império e por isso abriga inúmeros palácios da realeza russa. O destaque é o Palácio de Inverno (onde está instalado o Museu Hermitage). Tem também o Palácio de Verão (Peterhof) e o Palácio de Catarina (Tsarskoye Selo), além de uma dúzia de mansões que atendem todos os gostos, como o cor de rosa Palácio Beloselsky-Belozersky, o Palácio Yusupov, onde morreu Rasputin, Palácio Tauride de propriedade do Príncipe Gregorio Potemkin de Tauride (dava festas incríveis no palácio para ficar perto de sua amante, a Imperatriz Catarina) e que foi depois sede da Duma, do Governo Provisório e do Soviete de Petrogrado) e o Palácio Stroganov, cujo nome é esse mesmo, e conhecido pela farta mesa oferecida em suas festas.

Dois séculos depois da transferência da capital russa de Moscou para São Petersburgo, estourou a Primeira Guerra mundial. Em 1914 Rússia e Alemanha são inimigas, lutando em blocos opostos e a capital russa, para acalmar as polêmicas levantadas, teve que mudar seu nome retirando o sufixo germânico, “burgo”, por um termo russo de igual significado: “grado” = cidade. Chegamos aqui na nossa segunda parada, porque foi em Petrogrado que se desenrolaram os fatos que nos levarão ao surgimento da União Soviética.

E nossa parada será na estação de trem Finlândia, assim nomeada por estar no norte da cidade e receber os trens vindo daquela região. Dia 16 de abril de 1917. Chega em Petrogrado e é recebido por uma multidão, um comboio ferroviário transportando o grande líder revolucionários, Vladimir Ilyich Ulyanov, conhecido como Lenin.

Pausa…. voltemos ao mês de fevereiro (ou março) deste ano.

Está rolando a Guerra Mundial e a Rússia, cuja economia ainda é baseada na agricultura e, até poucos anos antes, no trabalho servil e feudal, enfrenta revoltas e manifestações de uma população miserável, faminta e ainda mais empobrecida por causa da Guerra. Essas manifestações são reprimidas violentamente, o que só faz aumentar a temperatura e a crise social, até que no dia 3 ou 15 de março, o Czar Nicolau II é deposto por um conjunto de forças políticas de oposição que reúne liberais, burgueses e socialistas. Nesse momento acaba o regime monárquico e começa um sistema republicano parlamentarista. Mas este governo provisório não consegue debelar a crise interna e não atende a principal reinvindicação popular: a saída da Rússia do campo de batalha da Guerra Mundial.

Voltemos a Estação Finlândia e a chegada de Lenin. De onde mesmo ele está vindo??

Do exílio, na Suíça. Embarcou em Zurich e está atravessando a Alemanha, para fazer um “pit-stop” em Berlim, que dura umas quatro horas. Na capital do Império alemão ele se encontra com representantes do governo alemão e recebe a proposta: financiaremos tua revolução se vocês, bolcheviques, ao assumirem o poder, retirarem a Rússia da guerra. A Alemanha queria a Rússia fora da guerra para encerrar a frente oriental e poder concentrar suas forças na frente ocidental. (A gente olha o passado em perspectiva e se questiona porque alguns líderes não aprendem com a História, não é?)

Bom, fato é que Lenin chega em Petrogrado e começa a organizar o golpe contra o Governo provisório, com a ocupação dos postos de comunicações (telégrafos), das estações ferroviárias e das tantas pontes, umas 800, que cruzam a capital russa.

Vamos circular pela cidade e procurar, nesse nosso Turismo Arqueológico, as marcas destes meses de efervescência revolucionaria. Não muito distante da Estação Finlândia encontra-se a estação do Metro Ploshchad Vosstaniya (Linha 1) e lá existem vários baixo-relevos em bronze que retratam alguns dos momentos mais importantes desse período:

  • Lenin discursando no Palácio Tauride conclamando para a segunda Revolução;

  • O Cruzador Aurora, que com uma salva de tiros sinalizou o momento para a invasão dos bolcheviques ao Palácio de Inverno. Alias, o Cruzador Aurora ainda está ancorado na cidade e hoje é um Museu. Se chegarmos no horário certo poderemos ouvir uma gravação com o som dos tiros disparados naquele dia, 25 de Outubro ou Novembro;

  • A tomada do Palácio de Inverno pelas forças bolcheviques, e marco do início do regime Socialista na Rússia. A cena no baixo relevo não é tão impactante como as cenas do cineasta Sergei Eisenstein em seu filme “Outubro”, que transmitem a força da revolta popular.

Tenho que fazer um parênteses fundamental aqui para esclarecer as informações dúbias das datas que estou anotando. O calendário gregoriano é um calendário criado na Europa em 1582, por iniciativa do papa Gregório XIII, com o objetivo de corrigir os erros do calendário anterior, o calendário juliano. Por um decreto (Bula Inter Gravíssimas), ficou definido que quinta-feira, 4 de Outubro de 1582 seria imediatamente seguida pela sexta-feira 15 de Outubro. Com a retirada desses 11 dias, estaria compensada e corrigida uma diferença acumulada ao longo de séculos entre o calendário juliano e as efemérides astronómicas. A URSS só adotou o calendário gregoriano em 1918. Tudo que aconteceu antes disso ficou registrado com a data juliana. A título de curiosidade, o time olímpico russo perdeu 12 dias de jogos nas Olimpíadas de Londres, em 1908, porque se programou usando a folhinha errada, com o calendário juliano, e chegou atrasado!!! Com isso, a Revolução de Outubro aconteceu nos primeiros dias de Novembro! Certo?

Estávamos no Palácio de Inverno, que era a sede do Governo Provisório e foi tomado naquela madrugada. Trata-se de um edifício enorme, em estilo rococó e de cor verde, que possui 1786 portas e 1945 janelas. Atualmente sedia o Museu Estatal do Hermitage, com uma das maiores coleções de arte do mundo. Nem todas as 1057 galerias e salas do Palácio de Inverno estão abertas ao público mas, mesmo assim, não se consegue visitar todo o acervo exposto do Museu em menos de uns 12 meses. Aqui vou só destacar uma sala muito pitoresca, a sala do relógio. Neste local está exposto um relógio de mesa, montado sobre um rinoceronte, que marca a hora da tomada do Palácio: 02:10 da madrugada. O relógio parou naquele momento e assim ficou, como um detalhe histórico da Revolução.

Ia me esquecendo de contar que Lenin assinou com a Alemanha, em março de 1918, o Tratado Brest-Litovsk, saindo da guerra mesmo com a perda de muitos territórios como a Estônia, a Lituânia, a Finlândia e a Ucrânia. Logo depois da tomada do poder pelos bolcheviques, estourou uma guerra civil no país entre os bolcheviques e os chamados czaristas, apoiados ainda pela Inglaterra, França, Japão e Estados Unidos, temerosos que os ideais socialistas se espalhassem pelo Ocidente. Foi uma guerra fraticida e tremendamente violenta que durou até 1922 e foi vencida pelo Exercito Vermelho, capitaneado por Trotsky, outro personagem da revolução russa que foi apagado da História oficial.

Vamos agora seguir nosso percurso para finalmente chegarmos a Leningrado.

A cidade passa a ter este nome em 1924, como uma homenagem a seu líder mais importante, morto naquele ano.

Lenin morreu, mas a cidade o manteve vivíssimo, não apenas no nome, mas espalhado pelos quatro cantos, em estátuas, bronzes, altos e baixos relevos, murais, vitrais, mosaicos e fotos. Lenin resistiu, inclusive, à Perestroika, que derrubou todas as estatuas dos líderes socialistas soviéticos (ou não, nos demais países da Europa Oriental). Mas ele ainda está lá, vigiando o povo russo, esse mesmo que derrubou o sistema que ele lutou tanto para implantar, mas que na voz tímida de alguns guias, se escuta um suspiro de saudades daqueles tempos.

Leningrado é uma das cidades heroicas da Rússia e esse título lembra os 900 dias de cerco que a cidade sofreu, e a que resistiu, durante a Segunda Guerra Mundial.

Em Setembro de 1941 Leningrado foi cercada pelo exercito alemão, como parte de Operação Barbarossa, sobre a qual darei mais detalhes na terceira etapa de nossa viagem.

A invasão alemã aconteceu porque Stalin, primeiro ministro e líder do Estado Soviético desde a morte de Lenin, não acreditava que Hitler tivesse intenções bélicas contra a URSS, com quem havia recém-assinado um pacto secreto de “não-agressão”. Por isso, a cidade estava despreparada para um confronto, sem defesas organizadas e as forças alemãs não encontraram resistências e conseguiram cercar, bombardear e impedir a entrada de qualquer abastecimento para suprir seus cidadãos.

Você consegue imaginar uma cidade viver quase quatro anos sem luz elétrica, sem água e com pouquíssimos víveres, passando invernos com temperaturas abaixo de -30°C?

Pois a cidade resistiu, com a perda de aproximadamente um milhão de seus três milhões de habitantes. A falta de alimentos era tão dramática que o desespero levava as pessoas a se alimentarem com a carne de seus animais domésticos, com papelão, cola e couro dos cintos e se registram casos de canibalismo com os mortos que se espalhavam pelas ruas.

Só não foi mais dramática porque os russos encontram um “buraco” neste cerco formado ao sul pelo exército alemão e ao norte pelo exército finlandês. A leste está o lago Ladoga, que durante o inverno rigorosíssimo, se congelava. Por aí, num espaço não ocupado pelos invasores, foi construída uma estrada sobre o gelo que permitia o trânsito de caminhões para a cidade, levando alimentos, remédios e evacuando feridos e algumas famílias.

Com este mínimo suporte, e com uma tenacidade para lá de russa, Leningrado não se entregou e não foi aniquilada, sendo libertada em Janeiro de 1944, quando do recuo geral das forças alemãs, em retirada.

Vale a pena destacar um aspecto que pode parecer pouco importante hoje, mas que foi de importância fundamental para manter a moral dos cidadãos sitiados: a arte. Durante todo o período do cerco a cidade não abriu mão da promoção artística e organizou concertos, encontros literários e debates culturais entre outras manifestações dedicadas as crianças. É nesse contexto que Dmitri Shostakovich, compositor russo e sempre identificado com os ideais soviético, oferece a cidade a sua Sinfonia n.º 7 em dó maior (Opus 60), também conhecida como “Leningrado”, que estreia na cidade em Agosto de 1942. Essa sinfonia se tornou a trilha sonora da resistência aos alemães.

Para ver fotos, cartazes, objetos e detalhes do cotidiano do que foram esses 900 dias, existe um acervo impactante no Museu do Cerco de Leningrado, e tem também um Mausoléu que homenageia os mortos nessa heroica resistência.

O Estado Soviético apagou alguns homens da história oficial, mas tem os que foram homenageados e permanecem visíveis até hoje. Leningrado faz um tributo a outro artista identificado completamente com os ideais socialistas da Revolução, o poeta Vladimir Vladimirovitch Maiakovski. Ele diz, por exemplo: “A arte não é um espelho para refletir o mundo, mas um martelo para forjá-lo”. E empresta seu nome para uma das estações do metrô da cidade.

Aproveitando as facilidades de transporte urbano, com linhas extensas e com bilhetes muito econômicos, vamos circular pela cidade. Seus maravilhosos edifícios barrocos são todos coloridos, em tons de verde, rosa, amarelo, azul. Quando perguntei à minha guia se existe uma regra para escolher as cores, ela explica que as cores são fundamentais para se enxergar a cidade durantes os invernos, longos e extremamente úmidos, quando o céu fica muito baixo, e a neve muito alta.

Mesmo tendo uma rede de metro extensa, o trânsito na cidade é caótico. Descubro, porém que os russos inventaram o UBER muito antes do aplicativo aparecer no ocidente. Aqui existe um costume difundido para aplacar um pouco a falta de taxis oficiais. Funciona assim: você fica parado na beira da calçada de uma rua qualquer e estica o braço, o motorista que estiver a fim de ganhar uma grana para e abre a porta, você diz para onde que ir, ele te responde se sim ou se não e quanto quer para te levar. Aceitando, entre no carro e boa viagem. Não preciso dizer que ninguém fala outro idioma então só funciona entre os russos. Tem muita coisa aqui que só funciona entre os russos, entre elas, pegar um taxi, que funciona exatamente como estas “caronas remuneradas”.

Saindo dos centros turísticos e entrando pelos bairros menos centrais, a percepção é de que a cidade está ainda nos anos 50 do século passado. Milhares de cabos elétricos pendurados por postes que balançam com o peso, ônibus antigos que ruidosamente exalam nuvens de fumaça escura, telefones antigos, prédios sem manutenção, definitivamente o equipamento urbano parece muito desatualizado…. verdade que para sediar uma Copa do Mundo, muita coisa deve ter sida renovada, mas um mês de visibilidade internacional num sistema capitalista selvagem não deve ter sido suficiente para recuperar toda a infraestrutura básica.

Nos falta ainda um rápido “stop” na cidade de Lenin para esclarecer que sua população decidiu, nas eleições de 1991, pelo retorno ao nome original, São Petersburgo.

É preciso notar que Petrogrado já havia perdido seu titulo de capital do país em março de 1918, quando Lenin percebeu que sua posição estratégica a tornava também muito frágil, facilmente acessível desde a Suécia e a Finlândia, e decidiu deslocar a capital novamente para Moscou. Ele se mudou para o leste e vamos acompanhá-lo nesse deslocamento.

Nos vemos em breve, em Moscou!

TEXTO-FIM
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Esther Rapoport

Esther Rapoport

Graduada em História pela USP, dedica-se ao Turismo há 40 anos. Atualmente divide seu tempo entre a docência no Senac, palestras sobre os mais variados destinos -- especialmente a Itália, onde morou por sete anos -- e o acompanhamento de grupos pelo mundo afora. É parceira de muitos anos da Ambiental Turismo.
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