Ato antirracista e antifascista no Largo da Batata

No dia 7 de junho de 2020, no meio da pandemia, forte manifestação antirracista e antifascita tomou o Largo da Batata. Na avenida Paulista, minguados bolsonaristas defendiam seu líder.

Todas as imagens generosamente cedidas por Alice Vergueiro

Saí de casa às 9h15 para checar as manifestações da manhã na avenida Paulista. Durante a semana, certa confusão reinou sobre onde e quando se realizariam as manifestações do dia. Depois da decisão do juiz e da inconclusiva reunião das partes na PM, as organizações de oposição mudaram o local de seu ato para o Largo da Batata. Mas veículos como a Folha de São Paulo ainda davam que ia ter ato do movimento negro às 10h e ato bolsonarista às 11h na avenida Paulista. Fui ver.

Cheguei às 9h45 e vi que tinha muita polícia. Contei umas 15 viaturas, 20 motocicletas, pelo menos 4 atiradores, escudeiros. Presentes o BAEP, Força Tática, GCM, e a “Segurança Urbana” da prefeitura. A imprensa deu depois que foram mais de 2 mil policiais mobilizados para o dia. Muita hora extra para a soldadesca.

Os acessos à avenida na altura do MASP estavam gradeados e vigiados, assim como as calçadas da esquina com a rua Pamplona. O vão do museu estava fechado à circulação, mas a frente da FIESP não estava isolada.

Deu para perceber que não seria possível ter ato em frente ao MASP. Vi vários jovens chegando ou já sentados pela área, e muitos fotógrafos. As polícias revistavam mochilas e checavam documentação de quem estava de preto.

Conversei com dois fotógrafos e concordavam que de manhã não ia acontecer nada, a paz militar reinava com ciclistas e famílias passeando no frio sol dominical. Mas, mesmo assim, policias da Força Tática tinham suas pistolas em mãos, prontas a disparar.

Na espera por algo, notei a pichação no prédio ao lado do museu, que é da construtura Gomes de Almeida Fernandes: “construindo a segregação”.

Resolvi ir para casa e retornar de tarde. No caminho, vi um único manifestante na frente da FIESP: eram 11h30.

Saí de novo de casa às 13h, com a ideia de passar na FIESP e seguir para o Largo da Batata. Ia de bicicleta.

Cheguei à FIESP e contei apenas uns 30 manifestantes – e uns 20 fotógrafos e repórteres. Notei que os bolsonaristas hoje eram mais homens de 30-40 anos, com cara de militantes e menos de famílias militares. O entorno da avenida Paulista abriga uma precária classe média que habita não os adjacentes Jardins, mas pequenos apartamentos das paralelas, como a rua São Carlos do Pinhal. Ela sempre desce para os atos patriotas, mas hoje notei que não. Talvez esse campo bolsonarista temesse uma invasão antifa e só seus capangas tivessem acorrido. Mas era óbvio que a forte presença policial de hoje impedia qualquer agressão oposicionista.

De qualquer forma, uma coisa me chamou muito a atenção: mais do que a ausência das senhorinhas coxinhas, hoje havia um inédito silêncio! Nada das buzinas e da algazarra de costume – alguma coisa mudou nesse campo.

Vi as faixas “Barbearia pede socorro. Precisamos trabalhar”, “#Bolsonaro”, “Dória é um bosta, Bolsonaro tem razão”, “Queremos resolver o problema do Brasil. Intervenção militar com Bolsonaro no poder. Convocação de nova constituição. Criminalização do comunismo”. Um figura muito peculiar tinha pintado sua longa barba branca de verde e tinha um enigmático cartaz, onde pedia ao presidente a devolução de seu carro “Gol G5”, cuja placa informava.

Deu para ver que ia ser pequeno e triste.

Imagem: Alice Vergueiro

Faltavam poucos minutos para as 14h e segui para o Largo da Batata.

Cheguei e já tinha bastante gente. Depois contei umas 4 ou 5 mil pessoas, achei que predominavam os jovens de 20-30 anos, muitas mulheres,muitos negras e negros. Só encontrei uma única pessoa conhecida.

Deu para sentir de cara que a energia era forte e elétrica. Talvez em parte fosse o efeito da quarentena, fazia muito tempo que não via tanta gente assim junta. Todo mundo, sem exceção, usava máscara, e inclusive tinha gente com aquele anteparo de plástico rígido transparente.

Imagem: Alice Vergueiro

Logo encontrei um grupo de mulheres que fazia a coreografia que se tornou mundial, que cantavam como “o assassino é você!”. É muito forte. Um outro maluco fez uma espécie de bumba-meu-boi, só que o animal de papelão trazia uma faixa verdeamarela, e “gado” escrito em seu corpo.

“Vidas Negras Importam” (e “Vidas Pretas Importam”), mais “Fora Bolsonaro”, apareceram muito nos cartazes.

Era muito notável a quantidade de cartazes feitos à mão. Isso tende a indicar capilaridade e espontaneidade da militância. Até estavam presentes algumas entidades mais institucionais, tipo PSTU, UNE ou UJS. Mas os coletivos negros, torcidas, e grupos periféricos predominavam de modo a dar uma diversidade muito instigante.

Imagem: Alice Vergueiro

Vi cartazes como “O racismo é um vírus”, “Justiça para João Pedro”. De fato, a lembrança dos mortos pelo estado brasileiro foram lembrados em várias mensagens, em alguns casos seguidos do número de tiros que os alvejaram: “Aldo Rosa, 80 tiros”, “Roberto 111 tiros”, e “Miguel, morto por sinhá”. Agatha e Marielle muito lembradas de várias maneiras.

Mergulhei na multidão e logo achei as grandes bandeiras “#JÁBASTA!”, que eram do pessoal do Vidas Pretas Importam. Cheguei junto e ouvi o coro “Eu não posso respirar!”, repetido muitas vezes pelas pessoas, era muito potente. Essa frase também figurava em muitos cartazes e faixas. Vi no meio delas a faixa “Mães de Osasco e Barueri”.

Imagem: Alice Vergueiro

Vi os cartazes “Eleja um assassino, espere um genocídio”, “Parem de nos matar”, “Pátria Amada, Pátria amarga, Pátria Armada, Pátria Mata” e “Impeachment Já”.

Vi um figura de camisa branca de manga comprida e colete, caminhado sozinho nomeio do povo. Só podia ser o Vladimir Safatle, ele meio rosa no sol dominical.

Imagem: Alice Vergueiro

O coletivo Democracia Corinthiana abriu uma imensa faixa no meio da praça, que era de uns 20 x 50 metros. Gritavam “Democracia”. Vi camisas do Juventus, do SPFC, Corinthians, Palmeiras. Havia também camisas de muitos clubes e torcidas locais e de periferia.

Uma moça veio oferecer álcool para as mãos. Ela era uma das 100 voluntárias que trabalhavam no atendimento sanitário dos manifestantes.

Imagem: Alice Vergueiro

Vi bandeiras da Esquerda Marxista, Coletivo LGBT Comunista, PCR, PCB, UP, Quilombo Vermelho, GOI, uma só vermelha, uma só negra e outra negra e vermelha. E o estandarte “MPJ Disparada”.

O antifascismo figurou muito, é legal ver tanta gente se definindo como antifa, meio vira a página da era Lula. Vi entregadores de aplicativos com seus cubos vermelhos no chão.

Vi o cartaz “Ninguém é livre enquanto alguém é escravo”. Uma moça estava de pé parada numa esquina, trazia ao pescoço o cartaz “Bolsonaro genocida”, ao mesmo tempo que tocava címbalos que trazia às mãos.

Imagem: Alice Vergueiro

De muitas maneiras o ato era modelo: muita conversa, cada grupo com suas mensagens e atividades, nenhum carro de som opressivo, muita gente jovem com enorme vibração e energia, até mesmo raiva. Senti uma impaciência ali que me tocou, e senti que essa gente não vai esperar e vai fazer acontecer. Ninguém ali era negacionista, mas tinha enorme generosidade de se expor para proteger quem é vulnerável. Isso precisa ser reconhecido. Não se trata de repreender quem não sai, mas acolher e respeitar quem vai para a rua. Há luta para fazer de casa.

Imagem: Alice Vergueiro

Fui ver o carro de som, que era pequeno. Trazia a bandeira do Brasil e uma da Palestina. Já eram 15h, e ouvi o Guilherme Boulos falar. Começou pedindo homenagem aos mortos e contaminados pelo coronavírus. Sublinhou a morbidade e letalidade do atual governo e o escopo global dos levantes antirracistas. Lembrou de Frei Tito, Marighella, Herzog.

Já uma moça negra que falou depois insistiu que o ato era primariamente antirracista. Lembrou da periferia e sublinhou o protagonismo do movimento negro.

Dei um giro e vi um pessoal que tentava levantar uma estrutura de plástico com o ar que sobe do metrô para as ruas, uma espécie de balão. Feita com sacos de lixo, era enorme e trazia os dizeres “Morte nunca mais”, pelo que vi. Mas o ar não estava subindo bem do subterrâneo, e não super rolou.

Imagem: Alice Vergueiro

Vi S entre eles e conversamos um pouco. Ela temperou meu entusiasmo dizendo que esperava mais gente. Mas disse também que era bom que as pessoas saíssem para se livrar da paranoia do poder de Bolsonaro.

A presença policial era numerosa, mas não agressiva. Muito policial de jaleco. Contei 30 motocicletas, umas 7 viaturas, e nenhuma presença visível do Choque. Mas um helicóptero permaneceu no ar muito tempo, e seu ruído invadia a atividade aqui embaixo.

Vi a faixa “Vidas Negras Importam. Quilombo Vermelho. Fora Bolsonaro e Mourão. Impor uma constituinte. MRT. Esquerda Diário”.

Um saco de carvão estava aberto no chão, e as pessoas escreviam mensagens no chão com pedaços deles. Uma mensagem: “Quero ver armar os povos!”.

Imagem: Alice Vergueiro

Vi uma camiseta do “Lula 2018” e uma bandeira do PT.

Vi uma faixa meio louca “Maçons progressistas do Brasil, pela democracia”, e um outro figura que trazia uma bandeira do estado de São Paulo (e achei que sua camisa trouxesse “Jesus”, mas era “Je Suis”). Além disso, muitas pessoas vieram com camisas da CBF e bandeiras brasileiras. Há quem promova essa ideia de que é preciso “resgatar os símbolos nacionais”. E, finalmente, um moço negro no carro de som, justamente de camisa da CBF, falava muito em unidade do povo brasileiro aos invés dos povos brasileiros, das diferenças – sem falar da essência paulista ou brasileira. Acho que tem um misto de aceitação e educação política a fazer em campos mais amplos no sentido de evitar essencialismos.

Eram perto de 16h e as pessoas começavam a dispersar. Decidi subir à avenida Paulista e ver se havia ainda algum resto de manifestação na FIESP.

Subi a avenida Rebouças e notei, ao chegar na esquina da Paulista e Consolação, que havia fortíssima presença policial – todo o aparato da avenida parecia ter acorrido à esquina. Eram 16h35. Numa transversal vi um grupo de três percussionistas do PCO. Parece que um grupo de antifas veio fazer presença na avenida e ficou um tempo lá, mas até onde vi e conversei, não houve tiro – mas não tenho certeza.

Chequei a FIESP e vi um grupo de uns 50 manifestantes ainda lá. As mesmas faixas de antes, e as mesmas pessoas. Desta vez faziam o barulho tradicional, com buzina e vuvuzela e tinha uma bandeira do estado de São Paulo, uma dos EUA e outra de Israel. Eram já 16h55 quando um moço de bíblia na mão reuniu os manifestantes para uma oração. Só que eles todos estenderam a mão em saudação aos 12 PMs que faziam a guarda mais próxima. Rezaram um painosso também, e os policiais agradeceram balançando a cabeça.

Saí fora e ia pedalando para casa quando vi movimentação na avenida Brigadeiro Luís Antônio. Fui ver e eram 20 jovens que eram enquadrados por forte aparato policial. Estavam de pé contra as fachadas de lojas, passando pelo ritual de checagem de documentação etc. Contei 15 motocicletas, três viaturas e uns 30 PMs. Muitos tinha suas pistolas à mão.

Aí passaram dois jovens de uns 25 anos, com bandeira do Brasil aos ombros e camiseta de Bolsonaro. Estavam tão à vontade com a PM que passaram rente ao enquadro, enquanto filmavam a si e aos antifas rendidos. Fiquei com muita raiva, e quando um senhor nissei veio falar comigo que eram punks e que mereciam o castigo, gritei com ele e saí fora.

Em casa, vi na internet que parte da manifestação da Batata saiu em passeata pela rua Pinheiros, mas foi bloqueada pela PM. Segundo compreendi da cobertura ao vivo que via, a passeata buscava chegar à estação Clínicas do metrô e lá dispersar. Houve certo tipo de acordo entre os manifestantes e a polícia que resolveu um primeiro bloqueio, mas logo impuseram outra parada. Desceu da Paulista o aparato pesado da polícia para o local – os caveirões e atiradores. O pessoal acabou se dispersando em parte, dado o longo impasse, e se espalhou pelas paralelas do bairro. A PM então começou a lançar bombas e projéteis e a reprimir geral – sem qualquer depredação ou agressão que justificasse. A violência continuou por mais meia hora ou mais.

Vale lembrar que a PM não tem o poder de autorizar ou desautorizar manifestação ou passeata, um direito que é constitucional. Ela pode negociar a melhor maneira de conseguir proteger o protesto. Mas ela é um ator social meio autônomo, o governador do estado não tem poder sobre ela, e a força é fortemente influenciada pelo bolsonarismo.

No total o ato foi muito bom, e as mobilizações por todo o país foram muito importantes. Um novo protagonismo muito promissor apareceu e deve seguir potente. Foi muito bonito ver resistência se fazer visível. Como isso vai impactar os números da pandemia é algo a se verificar. Mas é como se a manifestação e a luta a seguir fosses atividades essenciais. A pandemia não tem solução sem derrubar Bolsonaro.

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