Ato pela Amazônia

Manifestação pela Amazônia mobiliza jovens fora do esquema partidário. A oposição à barbárie atual encontra novos protagonistas.

Foto: Mídia Ninja

Saí da estação Trianon-MASP do metrô às 18h. Segui para o MASP, onde se dava a concentração para o ato pela Amazônia e pelo meio ambiente. O dia foi agitado pelo noticiário nacional e internacional, onde as reações de várias lideranças internacionais mostravam preocupação com a atitude do presidente e com as políticas governamentais, de destruição explícita e de sucateamento de instituições de proteção ao meio ambiente. O gatilho foram as recentes queimadas que escureceram cidades do país.

O governo subiu as apostas e disparou seu jato usual de fake news e autocontradição, mas o cenário internacional não está paralisado como o interno do Brasil. Li uma entrevista com um grande empresário do agronegócio que expressou grande preocupação com as declarações de Bolsonaro e as reações de compradores internacionais.

Tudo isso ajudou a gerar expectativa boa para o ato. Até onde depreendi, ele foi chamado pelo Greenpeace e pelo Extinction Rebellion, que é um movimento em prol do meio ambiente que prega a desobediência civil como forma de ação. Eles trancaram avenidas e estações de trem em Londres, no começo deste ano e já se espalharam por vários países. Assim, a presença de partidos e sindicatos era bem reduzida, e foi interessante avaliar como esse movimento se mostraria na rua em contraste com as recentes mobilizações pela educação.

Quando cheguei ao vão do museu, logo vi umas 2 mil pessoas, em grande agitação e animação. Ficou bem claro que a maioria esmagadora era de jovens, de uns 15 a 25 anos de idade. Dei um giro e senti o clima.

Deu para ver que havia poucas bandeiras institucionais. Até vi bandeiras do PDT, UNE, UMES e do PSTU, mas fiquei feliz de verificar que muita gente veio com seu cartaz feito à mão, o que tende a indicar capilaridade e espalhamento da pauta pela sociedade. Alguns eram muito bons e engraçados, além dos esperados “Salve a Amzônia”. Relato ao longo do texto as mensagens que me chamaram a atenção.

Achei expressivo que vi muito pouco Lula Livre (uma camiseta e uma bandana), e nada sobre a Previdência: o foco era cristalinamente a Amazônia. Por outro lado, vi muitos cartazes (e palavras de ordem) com as palavras “fascista” ou “fascismo”, o que achei interessante como evidência de que quando a esquerda institucional fica de fora, o campo não é tomado automaticamente por coxinhas citando o hino nacional. Aqui parecia que o extremismo de Bolsonaro era reconhecido e temido.

Vi muitas rodas de conversa e de batuques. Não tinha carro de som, o que valorizou a diversidade e a possibilidade de conversa sem pregação da direção.

Caminhando pelo meio do povo vi uma roda de pessoas mais central, onde 10 moças posavam com cartazes e máscaras de boca (que filtram o ar respirado). Anotei as mensagens:

“Fogo nos racistas e não na Amazônia”

“A natureza não tem cópia, preserve o original”

“Deixem a Amazônia em paz”

“No planet B”

“Fogo na [um desenho de folha de cannabis] e não na Amazônia”

Muita gente fotograva o grupo. Vi o fotógrafo R entre eles. Já me contagiara pela anergia indomável da juventude e segui caminhado pelo vão. Vi de longe as bandeiras autonomistas: a vermelho e negra, a toda negra com o A anarquista, e outra toda negra. Fui até eles para ver se conhecia alguém mas me surpreendi com a idade média deles, algo como 16 anos.

Vi um figura que vendia apito e bandeira do Brasil. Não sei se vendeu muito, mas vi que havia um claro esforço de vários grupos de retomar os símbolos nacionais das mãos da direita. Prevejo que esse debate vai esquentar conforme as cores nacionais voltarem aos atos de oposição. Conversamos com um figura que tinha um cartaz “A nossa bandeira jamais será vermelha?”. Ele disse que a interrogação buscava ironizar a interjeição coxinha, dizendo que o vermelho do fogo estava realizando o que eles sempre disseram temer. Perguntei a ele sobre a reapropriação das cores nacionais e ele disse que “nós somos o povo brasileiro e as cores nacionais são nossas” e devemos assumí-las.

Há um debate de fundo que é sobre o estado-nação como plataforma ou como fim da luta social. Para quem é internacionalista, a nação é um empecilho e nunca seremos nem devemos ser mais patriotas do que a direita. Para estes, vale uma definição da guerra que diz assim: “a guerra é uma baioneta com um trabalhador em cada ponta”, isto é, a consciência de classe trabalhadora como categoria global deve prevalecer sobre o imperialismo implícito na forma estado-nação.

Já para os nacionalistas de esquerda, a nação é incontornável e pode expressar um comum da luta social que todo mundo reconhece e que por definição não exclui ninguém.

Encontrei R e E, e conversamos com algumas pessoas. Um deles foi A, um metalúrgico que teve passagem pela UNE no passado. Ele disse que percebia o contraste das manifestações da educação e a de hoje, sem liderança. Ele não desgostava do formato do presente ato, meio solto, sem discurso unitário, meio parecido com um passeio, mas ele disse que as pautas sindicais propunham “confronto”, enquanto a de hoje era mais consensual.

Caminhamos entre o povo e anotei mais cartazes:

“O amor acima de tudo, a natureza acima de todos”, que achei genial.

“Não quero me tornar o cigarro do mundo”

“Fora capitão-motoserra, fora Johnny Bravo”, alusão a declarações do presidente.

“E se toda a humanidade amasse a natureza como ama a religião?”

“Fora Salles”

Vi também uma bandeira “Vegan. Contra a covardia e contra violência”, outra da “Juventude Manifesta”, Vi umas letras de isopor purpurinadas que faziam ler “Fora Bozo”.

A moçada cantava palavras de ordem que ressoavam pelo vão do MASP: “Bolsonaro sai, Amazônia fica!”, “Vergonha!”, e o sucesso do carnaval nacional de 2019: “Ei Bolsonaro, vai tomar no cu!”.

Encontrei P e conversamos. Ele temperou meu entusiasmo dizendo que esperava muito mais gente. Depreendi que ele esperava uma pauta mais ampla contra Bolsonaro. Achei que talvez a juventude não esteja fixada na restauração de um estado de direito que na real nuca existiu, e não vai esperar a esquerda institucional. Admiramos a resiliência e coragem de Lula, mas no meu coração achei que o melhor que pode acontecer para o ex-presidente é que a sociedade como um todo se rebele contra Bolsonaro e, algo inadvertidamente, crie o clima onde seu processo possa ser anulado. Deixa a meninada protestar em seus termos.

Vi o deputado Ivan Valente. Caminhei mais pelo povo e anotei as mensagens nos cartazes:

“Tire a Amazônia do seu prato”

“Tribo urbana pela Amazônia. Identifique-se. Use a sua máscara”.

“Kopenawa para xamã do Brasil”

Um taciturno moço de barba empunhava um mordaz cartaz:

“O mito mata a mata, eu mato o mito”. Belo.

Vi uma camiseta do PT.

A esta altura, umas 19h, o povo já ocupava a via da avenida que leva à Consolação. Vi uma coluna de PMs, uns 200 deles, no canteiro central. A atuação da polícia hoje foi meio desconcertante. Avaliei que eles foram tomados de surpresa e de alguma forma estavam desorientados. Tem um figura que cito muito como um P2, um policial infiltrado. Vejo ele tanto que ele me cumprimenta como um igual (meu perfil físico é total P2). Hoje ele estava nervoso e o vi empurrando uma manifestante e dando bronca na coluna de PMs. Temi que isso redundasse em descontrole e violência das forças policiais, mas não foi o caso. Apesar da bagunça, parece que o Dória ordenou que não houvesse agressão.

Rolou que vi um pessoal com o crachá da OAB. Eles ajudam a fazer a mediação com a PM e protegem a manifestação. Parei um deles e perguntei por A, que conheço. O moço confessou que a Ordem estava meio desorientada, pois o ato não tinha liderança e não estava claro qual o percurso e nem mesmo se o rabo do ato era a frente ou vice-versa. Aconselhei-o a ficar de olho nos autonomistas, pois este frequentemente tomam a frente do ato e assim é possível antever percursos.

Um sindicalista ou esquerdista institucional provavelmente se incomodaria com a hesitação e incerteza desse formato sem liderança: não era claro se iríamos em direção ao Paraíso ou em direção à Consolação, todo mundo meio parado. Isso é normal, mas quem sente falta de direção clara, de comando e unidade da luta se ressente desse momento onde a multidão espera formar massa crítica, a gente meio passeando, meio esperando, ocupada em formar consenso.

A PM em particular fica muito insegura com isso.

Acabou que a frente do ato foi tomada pelos autonomistas, com sua faixa preta. Gritavam: “Somos todos antifascistas!”. O Greenpeace parece ter tentado tomar a frente, mas se contentou no final em seguir atrás dos autonomistas. Os marxistas (UNE, UMES, PSTU, PSOL, UJS, CSP-Conlutas e outros) seguiam atrás, A coreografia não foi exata, e os marxistas pareciam hesitar em seguir o protagonismo dos autonomistas, o que gerava buracos. Mas caminharam juntos.

Mas acabou que seguimos pela avenida Paulista até a esquina da rua Augusta. O destino da passeata era o prédio do IBAMA na alameda Tietê, que é no coração dos Jardins, um bairro nobre de São Paulo.

Encontramos S, que ponderou que descer a Augusta para o lado residencial rico poderia ser de mais impacto do que descer a Consolação, como é de costume. Ademais, o presidente faria um pronunciamento em cadeia nacional às 20h30, e era mais potente estar no meio de um bairro residencial do que descer a escura e hostil Consolação, onde ninguém vê nada.

Dois helicópteros sobrevoavam o ato, e me deu desassossego: detesto essas aeronaves.

Anotei mais cartazes:

“Nas ruas pelo futuro”

“Fora Johnny Bravo”

“Devemos ser a mudança que queremos fazer”

“Chega de lucrar com a destruição”

“Destruir o agronegócio”

“Tá com calor? Plante árvores!”

A garoa começou a cair sobre o povo que agora se preparava para descer a rua Augusta: “pode chover, pode molhar, mas da minha luta nada vai me tirar!”.

Vi um maluco de calça colorida pelo processo do batik pedalando uma bicicleta que puxava um carrinho onde estava um painel, onde as qualidades e utilidades das árvores eram descritas.

A minha tensão com a confusão da polícia diminui e senti que não haveria agressão. Eram 19h15.

Mais cartazes:

“Desmatamento, ganância de uns, prejuízo de todos” – era do Greenpeace.

“Apague as chamas na floresta, acenda a chama da revolta!”.

Um moço desenhou uma bandeira rota do Brasil num papel amassado, onde se lia “Desordem e regresso”.

Vi a companheira E, e a fotógrafa A e o fotógrafo S. Vi um moço tocando clarinete enquanto caminhava.

Começamos a descer a Augusta lá pelas 19h30. O companheiro E ficou para trás, e depois relatou certa confusão, muitas pessoas não teriam descido conosco.

Notei que a presença de veganos e veganas era alto. Um cartaz:

“Não adianta criticar o governo se você financia o agronegócio”.

“Go vegan or go home”

“Se os animais tivessem religião, o homem seria o Diabo”.

“If we burn, you burn with us”

Quando passamos pela churrascaria Fogo de Chão, notei que os garçons, muito jovens, olhavam a movimentação pela vitrine do estabelecimento. O povo não deixou passar em branco e gritou: “Ei, burguês, a culpa é de vocês!”.

Descíamos a Augusta e os ônibus que subiam estavam parados e assim ficaram um certo tempo. Paramos para ver passar toda a passeata. Deu para avaliar meio por cima pelo menos 10 mil pessoas, talvez 15 ou 20, se fosse possível contar aqueles que ficaram na Paulista.

Vimos passar as faixas do JUNTOS, do FAÍSCA, Muita alegria.

Conversamos com algumas pessoas e uma moça disse que não era ativista ou membro de coletivo, e que tinha vindo estritamente pela pauta ambiental. Uma outra moça disse que tinha vindo às manifestações da Educação e que sentia o contraste com o ato de hoje. Revelou que não se sentia confortável com pautas extra-ambientais de partidos e que preferia como estava hoje.

Vi um cartaz “#prayforamazonia”, outro “Todo filme de apocalipse começa ignorando a ciência”. Uma faixa “Veddas em defesa dos animais”.

Vimos o Caco Barcelos gravar na calçada.

Viramos à direita na alameda Tietê lá pelas 20h30 e seguimos adiante. Era bizarro a multidão passar pelos restaurantes dos Jardins com suas vitrines que deixavam ver os clientes à mesa com velas. Alguns se incomodavam, outros não. Vi que PMs de escudo e viaturas faziam um teatro de proteção ao privilégio, tentando dar um ar de normalidade às contradições que explodiam.

R recebeu a mensagem em seu aparato: “Doido por doido, o cabo Daciolo pelo menos era bombeiro!”.

Chegamos ao prédio do IBAMA. Um único segurança, certamente terceirizado, vigiava constrangido o edifício, frente ao povo, atrás das grades. Curiosamente, uma coluna de uns 20 PMs guardavam não o prédio público, mas o edifício residencial particular ao lado. Os autonomistas fizeram um jogral, afixaram uns cartazes na grade e queimaram um mapa do Brasil, de papel.

Encontrei R e vi o fotógrafo L. Notei o cartaz “Salles sale of Amazon!”, e outro “Sinistro Salles”.

Acabou que acabou e o povo dispersou, e seguimos para a Paulista a pé. Eram 20h45.

No final de tudo, achei o ato bom e tem a pauta tem potência de furar a bolha ativista de esquerda. Como isso resulta na reconstrução da esquerda está em aberto, mas o que é incontornável é que há massa crítica para a mobilização de oposição a Bolsonaro e até mesmo de construção de um outro Brasil. Precisa ter paciência e respeito com a meninada. Vai ser possível libertar Lula, mas provavelmente isso implica em deixar que eles nos ignorem e criem uma situação tal que seja impossível mantê-lo preso. É preciso ouvir as bases e respeitar suas prioridades, novos caminhos vão se abrir.

Confia e abraça.

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