Ato pela Prisão em Segunda Instância em São Paulo

No dia 8 de dezembro de 2019, mais uma manifestação pela Prisão de Segunda Instância. No contexto do massacre de Paraisópolis, a direita confronta suas pautas e seus limites.

Era 15h30 quando cheguei à Praça Oswaldo Cruz, que é no começo da avenida Paulista, do lado do Paraíso. Fui checar a manifestação marcada pelo MBL e o NasRuas, em favor da prisão em segunda instância.

O ano está acabando e eles estão pressionando o Congresso para que aprovem essa lei, buscando reverter a decisão do STF, que é exatamente no sentido oposto da proposta. Faz poucas semanas, a soltura de Lula criou um surto de mobilização entre os coxinhas. Terá se mantido?

Estava curioso para ver como anda a mobilização na direita depois desse susto. Tinha visto a chamada para o ato pelo MBL. Na avenida, estavam também o NasRuas e o Movimento Direita digital.

Mas a sombra do massacre de Paraisópolis estava presente em mim e quis ver se isso aparecia aqui. Estava atento também para sinais daquilo que tem saído na imprensa: a implosão PSL e barracos subsequentes, tensões do governo com Sérgio Moro e com as FFAA.

Para os impacientes, posso dizer já que não foi massivo: avaliei umas 6 mil pessoas no máximo, o que é bem desapontador para o ativista de direita.

Fazia calor e a avenida estava cheia de gente. Como é de costume aos domingos (isto é, desde que o prefeito Haddad tomou a iniciativa e realizou o projeto), a Paulista estava fechada ao trânsito e muitas pessoas vieram passear e ouvir e assistir as diferentes performances e bandas que se apresentam nas calçadas.

Logo na altura da esquina alameda Campinas, que é antes da FIESP ainda, vi um grupo de jovens que caminhavam em bloco. Eram os meninos do MBL, que tinham chamado a manifestação. Eles não tinham carro de som e preferiam estar ao nível do asfalto, coisa que eles têm feito já há vários atos.

Traziam uma faixa “Prisão em Segunda Instância Já”. Eram uns 50 jovens, quase todos homens de uns 25-30 – mas notavelmente eram menos “pitboys” (como o Direita São Paulo) e mais etnicamente misturados. Logo vi as bandeiras do Movimento Brasil Livre. Cantavam “Se a PEC não passar, o bicho vai pegar”, ao som de um batuque.

Mas vi também dentre eles duas bandeiras esquisitíssimas, com jeitão nazista. Uma delas com a cruz gamada, parecida com outra bandeira de extrema-direita, a do chamado “Kekistão”. A bandeira tinha um fundo verde, mas não era o festivo visual “verdeamarelo” coxinha, tinha uma carga cinza e sinistra. A outra nunca tinha visto, e guardei apenas que ela tinha algo parecido com a bandeira do Vaticano.

Fiquei impressionado, porque a avaliação geral acerca do MBL é que eles estão em missão mais institucional e buscam se afastar do vandalismo político explícito que dizem não mais praticar. Querem se tornar um partido e atuam no parlamento, e assim têm que apostar na institucionalidade, o que lhes rende críticas de bolsonaristas.

Então ter visto logo de cara uma aliança nazista-MBL marchando pela avenida, foi surpreendente e perturbador.

Curiosamente, era um moço negro que empunhava uma das bandeiras extremistas.

Caminhei um pouco ao lado deles mas logo segui para o primeiro carro de som (chamado “Avassalador”), que era do VemPraRua. Trazia as faixas “www.segundainstancia.com.br” e outra com endereço de Whatsapp. Tinha um balão amarelo com o logo do grupo, flutuando sobre o carro, preso.

O VemPraRua não tem representação no Congresso, mas atua muito lá. Os oradores pediam ao povo que mantivessem a pressão sobre os parlamentares. Pediu que usassem o aplicativo que montaram, um painel com a previsão de votação e lista de indecisos. O orador pedia que as pessoas contatassem os deputados marcados como indecisos e também os que são marcados contra a PEC.

Ele informou também que mais de 15 mil pessoas estavam assistindo a transmissão ao vivo.

Um moço mais radical tomou a palavra e descascou Rodrigo Maia, a quem acusava de fazer a “velha política”. Disse que lembrava da eleição de Maia para a presidência do Congresso, quando o deputado chorou com o filho ao colo. Responsabilizou Maia pela morte das pessoas no SUS. Não era bem uma defesa dos pobres ou do público, mas um ataque à corrupção entendida como mal moral.

O orador elevou o tom e disse que não dava mais para esperar e que só havia dois percursos para a transformação: o caminho da consciência e o caminho da consequência. Dizia que o caminho da consciência não mais funcionava e que era preciso partir para o caminho da consequência.

Não entendo bem o que significavam as escolhas propostas, mas pareceu ameaçador. Quando ele perguntou à massa se concordavam com isso, todo mundo levantou as mão e gritou em aprovação.

Me parece que a noção geral é de que o governo Bolsonaro está travando e precisa ser destravado.

Nem sempre um orador aleatório representa a posição do grupo que recebe aquele que fala, mas detectei essa posição disseminada pelo ato. Há quem espere e prepare uma insurreição de extrema-direita.

Vi vários cartazes feitos à mão, mas a mensagem estava toda dentro da pauta, a intervenção militar não apareceu escrita, por exemplo. O fechamento do STF também não figurou em cartaz nem era pauta do dia.

Alguns cartazes: “Sérgio Moro, o Brasil está com você”, “PLS 166 Já”, “Prisão em Segunda Instância”, “Não pipoquem Segunda Instância Já”, outro com um longo texto e com “Conservadorismo x Socialismo” em destaque.

Caminhei na direção da Consolação e fui chegando perto do MASP, onde o carro de som do NasRuas estava. Eram 16h.

Vi uma pessoa fantasiada de Jaspion, muito alta. Em seu corpo estavam pintadas as palavras “Buzo News”. Tinha uma bandeira do Brasil aos ombros.

O perfil geral era coxinha clássico, os homens e mulheres de 50-60, brancos e de classe média média e alta. Talvez por ter pouca gente, vi mais jovens militantes de 30 anos, quase todos homens. Poucas crianças, mas relativamente bastante “perdedores da meritocracia” ou classe C, que são mais diversos etnicamente.

Notei também quase nenhuma camiseta de Bolsonaro, só CBF, verdeamarela e “Meu partido é o Brasil”.

Ao aproximar-me do carro do NasRuas, na esquina da alameda Casa Branca, percebi que não entendia nada do que a oradora falava. Logo em seguida, um outro orador foi apresentado e compreendi que ela tinha falado em inglês, como este moço que agora discursava. Eram jovens que “lutam na Ucrânia”. O moço tinha forte sotaque, e, em inglês, disse que a luta no Brasil era a mesma que na Ucrânia, e que eles acompanham o que se passa por aqui. Gritou “Fora Curaptas! Fora Curaptas!”, querendo dizer “Fora Corruptos”.

O carro de som, atravessado na avenida, bloqueando a maior parte do tráfego de pessoas, era ladeado por três grandes bonecos infláveis. Um retratava Davi Alcolumbre, outro de Sérgio Moro e outro ainda uma criatura de três cabeças: Lula, Gilmar Mendes e José Dirceu.

O tom aqui nesse carro era mais belicoso, não só pelos estrangeiros presentes, mas nas falas como este um agradecimento à PM. É costumeiro em atos coxinhas se agradecer à Polícia Militar, mas desta vez o orador emendou um “especialmente por seu trabalho em Paraisópolis. Obrigado por nos proteger. A mídia sempre protege o lado errado”.

Chamou também o apoio das Forças armadas.

Fiquei incomodado com essa postura, claramente de guerra de classes. Lembrei de um amigo que disse “estará claro que foram eles que deram o primeiro tiro”.

Apesar da presente câmera lenta, parece que há uma tendência muito forte de acirramento. São contradições demais do jeito que está, e isso está gerando um nó sem solução que não seja a da força. A violência de uma guerra civil já está em curso, mas parece que ainda vai ter algum arrebento pela frente.

Vi uma faixa no asfalto “Você, Cristão, lute conosco pelo Brasil”, da igreja do reverendo Moon.

Passando o carro de som, mais na frente do MASP, notei um grande grupo de jovens, uns 300 meninas e meninos. Estavam a apenas uns 10 metros do NasRuas, e os discursos extremistas chegavam em bom som.

Mas a meninada era total LGBTQ. A idade média parecia ser de 15 a 20 anos, e não era a primeira vez que eu notei esse rolê de domingo.

No geral não me sinto super confortável na Paulista de domingo, acho coxinha demais. Mas um pessoal que coletava assinaturas pelo Lula Livre contou que lá eles sofriam menos agressão do que em outros pontos da cidade. Isso porque vem muito turista de outros estados do Brasil e a hostilidade é bem menor.

Assim, acho que esse rolê jovem tinha algo do tipo: era uma moçada que não era da região mas que sentia a alegria de estar juntos ao ar livre, sob o sol e em público. Achei que a maioria deles era periférica e o erotismo eclético e homoafetivo era a descontraída norma entre eles.

Uma fileira de 10 PMs os separava do carro de som. Não vi hostilidade aberta por parte dos coxinhas, mas algumas pessoas estranhavam a meninada de um jeito que é muito perigoso e escroto. As meninas e meninos se beijavam à vontade, conversando e se pegando com aquela efusão própria da juventude. A PM e alguns homens velhos ficavam secando e encarando, naquela mistura louca de inveja e raiva, tipo “estou com nojo da corrupção moral da juventude” mas que não consegue parar de olhar.

Em um domingo do passado recente, caminhava com R pelo mesmo local e eu notei como tinha forte presença policial vigiando as meninas e meninos aqui, mas que no Lula Livre que acabáramos de passar não tinha PM.

“A polícia sabe quem representa perigo de verdade…” disse R. Num contexto de demonização do funk e da cultura periférica, fiquei tenso.

Uma mulher branca de uns 50 anos chegou a percorrer o local filmando a moçada, ao mesmo tempo que gravava sua voz ao microfone. Não ouvi o que dizia, mas seu rosto denunciava essa fascinação e desejo reprimidos, prontos para explodir como violência e ressentimento. Ela vestia uma camiseta branca com quatro corações de purpurina, dois azuis e um verde e um amarelo. Seu cabelo era castanho, mas tingido de loiro.

Segui adiante para o terceiro carro de som, que trazia uma grande faixa “Movimento Direita Digital: o povo não pede, decide!”.

O orador falava contra o Fundo Partidário e pelo projeto da Segunda Instância. Disse que o valor do Fundo Partidário equivale ao valor do total de carros Gol zero alinhados desde a Paulista até a cidade de Fortaleza.

Um outro homem, esse negro, tinha fala mais insurrecional. Afirmou que “os esquerdopatas e os petralhas sempre tiveram o monopólio da informação”. Disse que a prisão em segunda instância já existe para os pobres, e que ela precisa chegar nos poderosos. Afirmou também que não era contra o STF mas contra ministros do STF.

Defendeu o governo dizendo que “a esquerda governa o Brasil há 35 anos, Bolsonaro está resolvendo uma coisa de cada vez, tem ótimo time de ministros”, incluindo Damares. Mas disse também que “há espaço para críticas”.

Afirmou ainda que há conservadores que não são patriotas, como o jornal Estadão. Acusou o Mesquita: “assassinou uma mulher a sangue frio e não deu em nada porque ele é poderoso. Atenção Estadão! Se vocês tivessem dignidade estariam aqui conosco!”.

Vi uma mulher negra, de saia de renda, com um cartaz “Bandido ladrão é Lula preso”, e depois vi um outro “Fora Joice”.

Vi ainda os cartazes: “Congresso Reverta Já!” e “Xô Congresso”. “Celso Daniel está nos corações”.

Voltei ao carro do NasRuas, onde um orador pediu que as pessoas abanassem suas mão para o helicóptero da Rede Globo. Garantiu que não assiste mais à emissora “ou outras dessas merdas”.

Eram 17h.

Avancei mais para o carro do VPR, onde faziam um jogral, que acabou com “Força e união!”. Calculei umas 4 mil pessoas lá. Achei o tom insurrecional ainda.

Na esquina da Pamplona reencontrei a passeata do MBL, desta vez com o Arthur “Mamãe Falei”.

Vi um moço com o boné: “Make Brasil Zueira Again”.

Marchavam em direção ao carro do NasRuas, mas pararam logo antes e encontraram Carla Zambelli e outras celebridades do meio. Muita selfie e abraços e beijos, mas notei que a faixa e o grupo que vinha cantando feroz ficou esperando atrás, e, depois de um tempo, virou as costas e foi embora.

Mas achei notável que eles conseguiram, ainda que brevemente, quebrar o relativo desânimo dos manifestantes presentes. Apesar das falas radicais, não vi aquela vibração que já testemunhei em outras ocasiões.

Muitas das canções irradiadas pelos carros de som aumentavam a sensação retrô de glória perdida: muito roquinho dos anos 1980, que seria a década da juventude da maioria do público. “Será”, do Legião Urbana, “Que País É Esse” e outros são clássicos de atos coxinhas, mas por vezes tocam na esquerda também.

É notável que a efervescência progressista dos anos 1980 tenha produzido Lobão e Roger. Parece que o rock é menos rebeldia e mais ressentimento. Até o punk nos legou vários neoconservadores.

Ficou claríssimo quando tocou “Bichos Escrotos”: os tiozões e tiazinhas batendo o pezinho ao som de “Ratos! Entrem nos sapatos do cidadão civilizado!”

Enquanto isso, no carro do NasRuas, o orador defendia e listava as medidas de sucesso do governo Bolsonaro. Disse que a prova do sucesso é que o ministro da justiça é Sérgio Moro e que, depois de “11 meses de governo não tem um único caso de corrupção no governo federal!”. Afirmou que “nosso ministro Guedes foi eleito o melhor ministro da economia do mundo!”, e que “acabou a indústria da seca no Brasil!”, e “temos orgulho de apoiar o presidente Jair Bolsonaro”.

Dei mais um giro e vi camisetas do Partido Novo. No futuro eles vão negar, mas os liberais estiveram assiduamente presentes nos atos bolsonaristas.

Vi um grupo de jovens de camiseta preta, umas 100 pessoas do grupo Animal Equality. Como todo domingo, faziam sua manifestação silenciosa na avenida: de pé, alguns com fotos de animais feridos. Tinham também uma barraca.

O carro dos NasRuas encerrava os trabalhos, agradecendo a PM por seu trabalho: “nossas continências para vocês que protegem os cidadãos de bem deste país, e que realizaram importante trabalho nesta semana”.

Eu estava junto aos jovens LGBTQ na frente do MASP quando ouvi a fala, irradiada muito alta, e tentei perceber como reagiam os PMs que encaravam exatamente os jovens negros e periféricos cuja morte o orador avalizava.

Logo depois o carro tocou uma marcha militar, o hino de alguma das FFAA. Os jovens da frente do MASP alegremente ignoravam toda aquela vibe do mal, só um menino marchou um pouco e bateu satírica continência. Duas meninas se beijavam na cara dos PMs.

Mas aí o carro tocou a cançoneta que é o hino informal da ditadura, de Dom e Ravel, mas popularizada pela banda banda Os Incríveis: “Eu te amo meu Brasil”.

A letra é péssima, e foi muito louco ouvir as palavras, na frente da juventude real do Brasil, cercada de polícia e fascistas: “Mulatas brotam cheias de calor, La lá lá lá…”

Alguém mexia nas cordas do bonecão inflável de Alcolumbre, que assim balançava ao sabor da melodia. Para completar o momento Glauber Rocha, notei várias pessoas na multidão com a máscara de papel de Sérgio Moro virada para trás, todos de bandeira brasileira nos ombros. Todos os Moros me olhavam e faziam a dancinha do “colossal desfile multicor”, enquanto dois homens batiam continência do alto do carro de som, onde também três mulheres marchavam sem sair do lugar.

Eram 17h20 quando começaram a desmontar o carro. Fiquei um pouco para ver como a PM iria remover os jovens da frente do MASP, já que a avenida precisa ser liberada para as 18h.

Mas não pressenti perigo e tomei meu caminho em direção ao Paraíso.

Na esquina da Casa Branca a veraneio dos Veteranos ROTA. Quatro homens paramilitares de camiseta preta e boina posavam ao lado do veículo com as pessoas que vinham fazer selfie. Tinha uma boina para elas. Muita criança foi.

A luz do sol já caía em direção à noite, mas a avenida estava cheia.

Vi um Homem Aranha exibir suas habilidades de equilibrista na corda, mas ele caiu. Vi um moço que cantava “Sangue Latino” dos Secos e Molhados, acompanhando-se ao violão. Vi um menino negro com camiseta “Meto a colher sim. Casas Marisa”.

Vi um Coringa que posava com um cartaz: “Tô rindo mas é de nervoso”. Já é o segundo Coringa coxinha que vejo na rua desde o filme. Achei que nenhum dos dois fez jus ao personagem, que aliás acho reacionário. Mas era notável que coxinha não tenha conseguido capitalizar a ira do personagem e se apropriar de sua estética e mensagem.

Vi um repórter da Jovem Pan e seu cameraman. Na praça Oswaldo Cruz, a Fanfarra Clandestina tocava o Bella Ciao.

Para um otimista, eu tinha testemunhado um dia de vibrante democracia: a avenida reuniu num mesmo dia jovens periféricos e LGBTQ, a ultra-direita, turistas, músicos e até autonomistas. E eu pude percorrer e observar sem obstáculo tudo o que acontecia.

Mas eu sei que não é o caso, essa democracia não está valendo geral, e a tensão está densamente palpável no ar.

Caminhei e fui para casa.

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