Segundo Ato do MPL contra o Aumento da Tarifa do transporte

No dia 9 de janeiro de 2020, o seguimento da campanha contra a política de transporte em São Paulo.

Todas as imagens: Rogério de Sanctis

Cheguei a pé na Praça da Sé às 17h para o ato do MPL, dois dias depois do primeiro ato.

Logo vi alguns manifestantes e parte do aparato policial, já presente inclusive com dois ônibus visíveis. Estava quente e abafado, mas com nuvens carregadas acima.

As faixas do MPL eram as mesmas de terça-feira: “R$4,40 não dá” e “Por uma vida sem catracas”. Também as várias agremiações marxistas estavam lá, além dos autonomistas, como a UJR, POR4, PCR, PSTU, o PSOL. Duas faixas ecossocialistas: “+ Busão – Poluição. Ecossialistas” e “Tarifa zero é uma luta ecossocialista”.

Logo de cara vi A, M e E, além dos fotógrafos A e L, e também 4 advogados da OAB.

Achei a composição do ato parecida com a terça-feira: moças e moços de 20 a 30 anos, com um contingente ao redor dos 50. Tinha secundaristas também, abaixo dos 20.

Hoje o povo da rua apareceu bastante, inclusive no final, na República. Agora na concentração, alguns homens dançavam ao som do batuque e, à sua maneira, vinham se socializar conosco.

Imagens: Rogério de Sanctis

A PM enquadrou muitos manifestantes. Revistas e conferência de documentos com a base de dados deles. Dois fotógrafos foram rudemente abordados, conforme depois noticiou a Ponte jornalismo. Pura intimidação.

Imagens: Rogério de Sanctis

Três militantes muito novos da Unidade Popular vieram nos pedir uma contribuição para suas passagens. Contaram que o grupo agora é um partido, tendo conseguido as assinaturas necessárias em todo o território nacional.

Um pé d´água caiu logo na hora da saída, já quase 18h. O povo subiu a escadaria da catedral e buscou refúgio no portal – mas os padres fecharam as portas e o pessoal teve que se espremer do lado de fora.

Logo passou o aguaceiro e os batuques e os metais presentes animaram a movida.

O jogral informou que iríamos até a praça da República e que “não vamos pagar” a passagem. Saímos contornando a catedral em direção à Liberdade e dobramos à esquerda para passar em frente do Fórum João Mendes. Aqui, dois moços da rua caminharam conosco, felizes. Um deles cruzava os braços acima à frente e acima da cabeça, como que indicando os grilhões invisíveis que o aprisionavam, à vista dos policiais que nos ladeavam.

“Ai, aiaiai, aiaiaiaiaiaiai 4 e 40 é o carai!”.

Vi o fotógrafo R.

Ainda garoava e vi uma bandeira do Movimento Corrente e três jovens com a camiseta do PT e outra “Existo porque resisto”. Notei que o “Bateria Popular Zumbi dos Palmares” trazia também bandeiras do PCO.

Passamos pela frente do quartel dos Bombeiros e depois dobramos à esquerda, passando em frente da casa da Marquesa de Santos antes de ingressar no Páteo do Colégio.

Éramos umas 500 a mil pessoas.

Seguimos pela rua BoaVista, onde o som ecoava potente: “Trabalhador, presta atenção, a nossa luta é contra o aumento do busão” e “Que contradição, tem dinheiro pra banqueiro mas não tem pra o busão”.

Imagens: Rogério de Sanctis

Paramos em frente à Secretaria dos Transportes e uma catraca foi queimada. Como de costume, fez-se um jogral e a catraca em chamas foi pulada como se faz em festas juninas.

Imagens: Rogério de Sanctis

O anel de fotógrafos costumeiro também se fez ao redor da cena, mas notei que a equipe de policiais que nos filmavam desde o início não apenas registrava o fogo, mas também fez cuidadosa tomada de todos os fotógrafos que estavam disparando suas câmeras.

Aproveitei a subsequente caminhada pela rua Líbero Badaró, tendo passado o Largo São Bento, para observar o aparato policial.

Achei que era o mesmo de terça, e de fato o mesmo do ano passado. Parecia haver três forças policiais.

Uma delas era composta pelos PMs que vestiam os jalecos verdes. Pareciam PMs genéricos, alguns muito jovens, algumas mulheres, e eram de diversos tamanhos e portes. Foram eles que, uns 100, nos ladearam do começo ao fim da manifestação, com escudos de acrílico transparente, capacetes e cassetetes. Quando está quente, suam muito dentro de suas fardas. Quando a manifestação é de secundaristas, é visível a estafa a que chegam tentando acompanhar as corridas e disparadas que a meninada faz na rua.

Já a Força Tática tem soldados um pouco mais velhos, maiores, mais broncos e menos humanos, e vestem farda cinza com boina da mesma cor. Vi uns 20 deles, incluindo a equipe que fazia o registro videográfico. Hoje não vi, mas frequentemente tem uma segunda equipe de filmagem, que acompanha manifestação do começo ao fim.

Na frente da passeata, roncavam as em torno de 12 motocicletas da ROCAM. Atrás, umas 5 viaturas e uma meia dúzia de PMs.

De cada lado da multidão, na frente, duas equipes de 3 ou 4 policiais que pareciam ser oficiais, com aparato de comunicação e uns capacetes diferentes, claramente no comando local. Além disso, três ou quatro “mediadores” de jaleco azul.

Conversando, fui informado que a última força policial, o BAEP, a antiga Tropa do Braço, reúne policiais de fora de São Paulo, que são destacados para as ações na capital. Eles são os mais pesadamente armados, de gorro, identificação numérica, capacetes e escudos de metal, agressivos. Atuam apenas quando solicitados, uma espécie de tropa de choque.

Além disso, fora o BAEP, a alocação de força policial é regional, então uma passeata pode envolver mais de um comando, demandando rodízio de efetivos, o que por vezes gera desencontros e furos na condução da repressão, para o bem e para o mal.

O xadrez do itinerário de uma passeata deve levar isso em consideração.

Garoava e dobramos à direita na altura da Prefeitura e tomamos o Viaduto do Chá, avançando até o Teatro Municipal, que contornamos, ganhando o Largo do Paissandu. Deu para notar que havia mais gente lá, mais moradores locais e pessoas de crachá ao pescoço, claramente trabalhadores de escritório a caminho do seu transporte.

O aparato policial, ao contrário do que dizem, não está lá “para sua proteção”, mas sim para isolar o ato dos transeuntes e curiosos que nos observavam e fotografavam, das calçadas e das janelas.

“Fecha, fecha, fecha o terminal. Pula a catraca e faz greve geral”

Vi uma bandeira do MTST e outra vermelho e negra.

Uma mulher que tinha visto na terça-feira veio conversar e disse que tinha sido detida e que saíra da delegacia às 2 da manhã. Estava revoltada.

Três jovens de boné, negros, ergueram os punhos ao passarem por nós.

Dobramos à esquerda na avenida Ipiranga, depois de breve pausa à luz de sinalizadores, aqueles de chama bruxelante. Eram 19h.

Dois ciclistas entregadores do iFood passaram por nós e um deles disse: “Ah, é trabalhador, da passagem”. Não pararam.

Chegamos à Praça da República e paramos na avenida, ao lado do entrada principal, logo na esquina com a rua 7 de Abril.

Imagens: Rogério de Sanctis

A PM já havia se posicionado taticamente, incluindo o BAEP e vários atiradores. Contei 7. Os jalecos verdes foram fazer massa para barrar a entrada principal, a Força Tática se espalhou para monitorar a situação e alguns deles também se paramentaram para o combate.

Tinha parado de garoar e estava seco, já noite fechada.

Fizemos um jogral e soube que haverá novas manifestações nos dias 15 e 16, a primeira no Grajaú. Reiterou-se a vontade de voltar para casa sem pagar a passagem.

Ficou a situação do duelo mexicano. A barreira era difícil de quebrar, e o povo foi ficando na frente, alta tensão.

Notei o relógio daqueles de totem, marcando 19:16h e 25o.

Vi G.

O povo da rua local curtindo o batuque e se misturando com o povo. Vi um homem sem camisa e de bermuda, muito falante, ser abraçado por um PM e ser conduzido para longe da linha de confronto. O homem tinha um adesivo do Lula Livre no peito nu.

Um outro homem veio me perguntar se eu era escritor. Hesitei e disse que era blogueiro, mas logo corrigi dizendo que era cronista. “Então é escritor sim”, disse, antes de sair trôpego em sua jornada interior.

Ficou assim um tempo. Notei a fachada do Edifício Itália, que ainda trazia luzes coloridas que desenhavam uma árvore de natal, na verdade um longo triângulo verde brilhante.

Zanzando pelo lugar, não pude deixar de notar os relâmpagos horizontais indicando que em algum lugar da cidade ainda chovia forte.

Depois de se retirar para a avenida e, num jogral, dizer “que enquanto não liberarem as catracas não vamos sair da via”, a faixa (que notei agora trazia “Libera as catracas”), o povo voltou para a frente da entrada do metrô, encarando a barreira e de costas para o BAEP e atiradores.

Imagens: Rogério de Sanctis

“Liberaê”, “Alerta, alerta, alerta antifascista!” e “Deixa passar a revolta popular” cortaram ao ares. Uma voz solitária começou “Marcha soldado, cabeça de papel, se não marchar direito…”

A tensão estava no último quando a faixa, protegida por uns 50 manifestantes, avançou lentamente em direção à barreira policial e houve contato com os escudos, como numa batalha da Antiguidade.

Muito grito e empurra-empurra, tinta vermelha manchou escudos, ovos voaram e o pau começou.

Os atiradores lançaram seus projéteis (contei 9 detonações ao todo) e as nuvens de gás subiram a partir do calçamento. A luz pública do centro da cidade de São Paulo é amarelada e tingia as nuvens de gás.

Imagens: Rogério de Sanctis

O povo saiu em dispersão e o contingente do BAEP avançou com seus escudos e cassetetes perseguindo quem saiu em direção ao Largo do Arouche, à direita da entrada do metrô defendida pela linha de jalecos verdes com seus escudos e cassetetes.

Notei nessa hora uma mulher do povo da rua, que tinha visto interagindo com os manifestantes meia hora antes. Ela tinha tirado a roupa e, completamente nua, estava deitava de barriga para baixo, fumando, blasé, um cigarro, observando a cena de repressão explícita ao mesmo tempo que falava sozinha, intensamente.

Quando o BAEP foi perseguir a meninada, ela levantou e ficou de pé em frente à barreira de jalecos verdes, sem nenhum medo ou pejo. Achei a cena linda, de uma rebeldia e ousadia diferente da militância decidida que eu acompanhara hoje. Mas também achei que ela corria perigo, exposta e vulnerável, não só estando a metros de 200 homens armados e no meio da linha de tiro, mas também exposta às câmeras ávidas dos fotógrafos e dos olhos de outros homens no local.

Rolou que um fotógrafo veio e a cobriu, com carinho e conversa, com a faixa negra do MPL que ficara no chão. Ela aceitou a cobertura e saiu enrolada no “Libera as catracas”, caminhando na direção dos soldados do BAEP metros adiante. Ela sentou-se no chão, bem ao lado deles. O uniforme preto do BAEP fazia dos soldados-policiais engorradas silhuetas, como sombras malignas da violência estatal.

Achei o contraste forte, ela uma mistura de Lady Godiva e Iracema, sua pele escura nua à mostra, ou talvez tudo como uma peça do Zé Celso, reencenada em plena praça da República como um violento psicodrama tupiniquim engolfado na nuvem ácida do gás lacrimejante.

Não sabia dizer se esta era uma centelha exemplar da indomável rebeldia humana no pior do capitalismo, ou se era um emblema dos dilemas paralisantes da esquerda atual, prisioneira de seus medos e recalques. Talvez os dois.

Testemunhei a detenção de uma moça e um moço manifestantes pelo BAEP e saí fora.

Em casa, li que parte do povo foi à estação Anhangabaú do metrô e conseguiu manter as entradas fechadas por várias horas.

Amanhã vai ser maior.

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