Ato Fora Bolsonaro e por Marielle

5 de novembro 2019. Manifestação em São Paulo aconteceu debaixo de chuva. Aguerrido, o ato também colocou questões do formato da luta para a esquerda.

Fotos: Rogério de Sanctis

Saí da estação Trianon-MASP às 17h45 para o ato chamado pela Frente Povo Sem Medo, Frente Brasil Popular e entidades estudantis. Chovia muito.

Esperei a chuva diminuir antes de chegar ao museu. Caía muita água e parecia certo que o ato seria prejudicado. O companheiro P afirma que contabilizou o clima desde os tempos do Fora Temer, e ele garante que as manifestações de esquerda são muito mais atingidas pela chuva do que os atos coxinhas.

Cheguei ao vão do museu às 18h15 e ainda chovia. Mas já havia umas 2 mil pessoas lá, com batuques animados. Dei um giro pelo local.

A primeira coisa notável era que o contingente policial era grande. Mais de 120 soldados da PM formavam duas colunas, uma delas paralela à avenida, emparedando os manifestantes no que restava de abrigo seco. Achei meio acintoso e agressivo – portavam escudos, capacetes e jalecos verdes. Nas condições políticas atuais, fiquei bem receoso. Temi que a atitude da polícia fosse a mesma do ato do dia 31 de outubro, também por Marielle e Fora Bolsonaro: na passeata, eles marcharam muito rente aos manifestantes, envelopando a manifestação.

Recordo-me que esse tipo de ação foi e ainda é muito usada contra o MPL, com agressão física dissimulada e esmagamento deliberado.

Mas a chuva diminuiu um pouco com o passar do tempo, e o povo esticou duas faixas em frente da coluna policial, também paralelas à avenida, o que deixou a PM detrás dos dizeres: “Contra a retirada dos direitos. O único caminho é a luta. Intersindical, instrumento de luta e organização da classe trabalhadora”, “Fora Bolsonaro. Liberdade e Luta” e “Anula a chapa Bolsonaro-Mourão”. Era meio bizarro, parecia que os PMs estavam dando corpo às chamadas das faixas.

Fotos: Rogério de Sanctis

O rumor das vozes e tambores era alto, naquela distorção particular que o vão do MASP oferece. Vi várias bandeiras e algumas faixas, mas poucos cartazes feitos à mão, indicando que havia mais militantes do que manifestantes avulsos. Presentes a UNE, UMES e UBES, entidades estudantis, normalmente alinhadas a partidos políticos institucionais. Mas estavam lá também alguns grupos autonomistas (não alinhados a partidos), como a FOB e a Frente Antifascista de São Paulo.

O perfil etário geral era bem variado, desde jovens de 16 até mulheres e homens de 60. Mas no geral era a coisa era bem militante. O MTST estava lá em peso, com seus estandartes de ocupações: Che Guevara, Marielle Franco, João Cândido etc.

Lá pelas 18h30 a chuva diminuiu um pouco e a PM foi para o asfalto, e aos poucos o povo ganhou a avenida. Chegou um pequeno carro de som, e começaram as falas.

Encontrei R e avaliamos mal o ato. Era tudo muito chato. Achei que o formato era muito ossificado, todas as falas eram iguais. Todo mundo muito aguerrido e esforçado, mas estava claro que esta esquerda está isolada e incapaz de romper o anel de ferro que a cerca. Atos como esse, de pauta com potencial de ampliação acabam virando um indiferente bater de ponto, burocrático, cada grupo com sua bandeira ou faixa para ser contado no registro. A atitude parece ser ainda de “esclarecer a população” e não de ouvir o que ela tem a dizer.

Sei que é muito injusto pedir a quem resiste recolher sua bandeira. Lembrei que em 1984, durante as enormes manifestações pelas Diretas Já, o ainda não candidato mas líder político Tancredo Neves pediu à esquerda que não desfraldasse suas bandeiras vermelhas nas manifestações, para não assustar a classe média. O PCB, ainda forte na época, assentiu “varrer o vermelho das ruas”, como elaborou indignado o periódico Valami Lesz. O partido comunista recolheu suas bandeiras e deixou o verdeamarelo e a transição conservadora prevalecer. O PT não aceitou e eu achei também que não devíamos mesmo enrolar o vermelho. Nós é que tínhamos criado o movimento das Diretas e, naqueles anos iniciais, a imaginação militante faiscava na base do Partido dos Trabalhadores.

Mas hoje, algum tipo de abordagem que pelo menos aponte numa direção que não seja a da repetição das resoluções partidárias entoadas aos gritos deve apelar para a imaginação revolucionária. Tipo um bonecão de Marielle, pelo menos, sei lá. Pode levar bandeira, mas algum tipo de espaço cognitivo comum tem que estar em prática na rua. Sem isso não tem nem revolução nem socialismo. E para sempre invejaremos o Chile.

Apenas há um ano atrás, os movimentos negrxs e feministas fizeram belas manifestações por Marielle, com música e com o slam, que é aquela fala sincopada, incrível para a improvisação no calor do asfalto. Existe a sensibilidade poética da luta, precisa deixar florescer.

Essa imaginação militante já está nas bases dos movimentos, as direções precisam se deixar contaminar ou sair da frente. Isso aconteceu na Grã-Bretanha, onde uma aliança dos jovens urbanos conectados com os rincões operários demolidos pelo neoliberalismo conseguiram hackear o Partido Trabalhista mumificado por Tony Blair e arrastá-lo à esquerda, o que lhe deu inédita capilaridade e potência na sociedade, com um programa que em muitos pontos está à esquerda do PSOL. Quem resistiu a essa renovação foi a bancada parlamentar, escrava do ciclo eleitoral e do acordo ao centro, saudosas da acomodação neoliberal.

Reimaginar o Brasil precisa acontecer, se não a esquerda vai ser varrida e o povo não vai sair à rua – como era o caso hoje. Até aquele homem que vejo sempre, que parece ser algum tipo de ligação entre a PM e a SP TRANS, ou talvez um P2, falou alto ao passar por mim: “Mais do mesmo, né?!”.

O povo foi chegando e cheguei a contar umas 5 mil pessoas no total. Vi bandeiras do PDT, PT, PSOL, duas do Brasil, da Esquerda Marxista, do Movimento Reinventar, do MTST, Intersindical, CUT, PSTU, CSP CONLUTAS, Marcha Mundial das Mulheres, uma ou duas LGBTQI. Vi as faixas da UJS, do Esquerda Diário, do Juntas!, outra autonomista “Teto, Trabalho e Dignidade”.

Vi um moço negro que vestia placas naquele estilo “sanduíche”, com a mensagem “Nossos sonhos vão muito mais alto do que espera o presidente”. Trazia nas mãos, em isopor, as letras que formavam “Fora Bozo”.

O Guilherme Boulos pegou o microfone e falou para o povo. Ele é um bom orador: tem figuras de linguagem que resumem pontos políticos (“ele diz que o Brasil está acima de tudo mas diz ‘I love you’ para o Trump”). Certa fofoca na esquerda gosta de fazer troça de seu estilo e aponta que ele imita Lula. Mas sua presença discursiva é real e, na escola da fala gritada, ainda é um dos melhores oradores. Ele deu uma animada geral, mas não rompeu o isolamento em que nos achamos.

É verdade que todos na esquerda estamos paralisados, e que há algo extremamente estranho no ar. O episódio do porteiro do condomínio do presidente deixou um fedor sulfúrico na atmosfera, e parece que tem uma aceleração em direção ao abismo sobre a qual não temos nenhum controle. Em todos os cenários somos o judas a ser malhado.

Fotos: Rogério de Sanctis

Vi uma camiseta do Belchior, uma do Coletivo Democracia Corinthiana e outra com “Égua”, que achei de sabor paraense. Vi mais de uma com “Lula Livre”, e outra do PCdoB.

Vi uma equipe da PM filmar a manifestação. Vi o fotógrafo L.

Atravessei a rua para ver o ato mais de longe e me abriguei junto a uma banca de jornal. Uns 5 PMs, bem jovens, vieram também buscar abrigo da chuva que ainda caía. Vimos uma mulher, de camiseta vermelha e capa transparente de plástico, se arriscar na avenida em travessia imprudente. Um dos soldados falou: “Tá vendo. Aí se machuca e a culpa é do Bolsonaro!”.

Eram 19h45 quando a passeata saiu em direção acho que da Secretaria da Presidência, na esquina da avenida Paulista com a rua Augusta. Fiz o que muito raramente faço, que é sair fora antes do fechamento oficial de ato. Estava amuado e de coração pesado.

Peguei o metrô e fui para casa.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos

Leia Também:

2 comentários para "Ato Fora Bolsonaro e por Marielle"

  1. Estou ficando fã do estilo dos textos.

    E o que fazer, se a marcação de discurso político prevalece sobre a proposição? A tal poesia presente em ações como os slams é uma das respostas. Mas ainda faltam outros reagentes pra achar aquela fórmula.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *