Resenha Semanal

25 de outubro a 1 de novembro 2019. Uma semana arrepiante de crise e aceleração: o balão do fechamento vai estourar ou foi tudo um passe de mágica no salão dos espelhos?

Anagrama: desembaralhe as letras e descubra o principal acusado de ser o mandante da execução de Marielle…

A Marielle vai derrubar Bolsonaro”. Ouvi isso de uma moça em manifestação em São Paulo, contra o Bolsonaro e por Marielle.

A crise da semana estourou ao redor das lentas investigações do assassinato, que se arrastam na justiça carioca há 9 meses, sem solução. A bomba noticiosa foi o envolvimento do nome do presidente. Os detalhes do caso estão bem documentados na imprensa, mas o caso todo deixou inúmeras perguntas em aberto, expondo o enredamento de podres poderes ao redor da execução.

Anagrama: desembaralhe as letras e descubra quem é a formosa personagem que faz guerrilha informacional para o governo.

Certas análises à esquerda afirmam que tudo é uma armação, com a Globo e com tudo, para exaltar Bolsonaro, que sai bonito como aquele injustamente perseguido. Outros analisam que há um racha no consórcio do golpe e Bolsonaro vai ser rifado pelos militares, que então assumiriam de fato com Mourão.

Parece mesmo que há pelo menos dois vetores golpistas: o clã Bolsonaro com olavistas, e os militares. Não está claro se eles estão juntos, e se os lavajatistas também apostariam no fechamento. Os militares estão a arquitetar institucionalmente um regime autoritário, como é possível acompanhar no Diário Oficial. A dúvida é se o plano é assegurar uma “ditadura clandestina” sem ruptura ou então apostar em uma normalidade autoritária sem o trapalhão Bozo, com remoção do presidente. Os eventos da semana sugeriam certo descontrole no acobertamento da proximidade da família Bolsonaro com os assassinos de Marielle.

Anagrama: desembaralhe as letras e descubra o ponto de onde se irradia o crime no Brasil.

Alguns dos ingredientes do drama: os áudios de Queiroz reclamando de seu abandono, vazados por ele mesmo, acredita-se; o vídeo dos leões e das hienas; a atuação de Moro que, ilegalmente, abriu inquérito contra o porteiro – que, aliás, sumiu; os registos digitais que contradizem o registro manual no livro de entrada do condomínio (cuja imagem, aliás, foi encontrada no telefone de Ronnie Lessa!); a transmissão ao vivo de Bolsonaro desde Riad, treslocada e descontrolada; o recuo covarde da Globo; Eduardo Bolsonaro radicalizando o discurso defendendo a reedição de um AI-5 contra a esquerda – que os generais do governo avalizaram; a parcialidade da promotora Carmen Eliza Bastos de Carvalho, da investigação de Marielle, que já postou material bolsonarista nas redes (incluindo foto com o deputado que quebrou a placa de rua de Marielle), o envolvimento de milicianos na condução das investigações, a perícia rápida e mal feita nos arquivos de áudio da portaria do condomínio…

Anagrama: desembaralhe as letras e descubra um dos amanuenses do crime, cuja filha se envolveu com um dos Bolsonaro.
Anagrama: desembaralhe as letras e descubra outro sócio do crime, que conduziu o veículo que saiu do condomínio de Jair Bolsonaro.
Anagrama: desembaralhe as letras e descubra outro amanuense do crime cuja esposa e mãe foram empregados no gabinete de Flávio Bolsonaro.

E também o presidente mandou cancelar a assinatura da Folha de São Paulo em todas as repartições federais, além de ameaçar seus anunciantes.

As evidentes quebras de decoro, crimes de responsabilidade e atitudes suspeitíssimas espoucaram por todos o lados, por parte do presidente, seus filhos, Moro, Aras, PF, Tofolli, MPF… Há enormes apostas em jogo.

Anagrama: desembaralhe as letras e descubra quem é o novo magnífico moleque de recados do presidente.

O resultado final foi o enfraquecimento ainda maior das instituições, novo grau de polarização e agitação política, tudo isso sob a sombra das mobilizações chilenas. Deu a impressão que algum tipo de fechamento vem aí, pois a tensão está insuportável.

As preparações certamente estão em curso: mais de um milhão de novos registros de armas, nova legislação que cria níveis inéditos de monitoramento do governo sobre a sociedade e o movimento social, com novas tipificações de crimes que atingem diretamente a política de resistência democrática. Centenas de pequenas ações institucionais e sociais que perfazem um estado de exceção.

Espelho, espelho meu: será que esse aí sou eu?

Quando a cortina cair, o aparato ditatorial já estará de pé: desde escolas militarizadas até novos poderes paras as polícias e milícias, como a de nomeação de reitores federais etc. Tudo legalizado e normal.

Roberto Marinho vaga no além em busca de uma saída para o desastre que deixou na Terra.

A direita vinha chamando manifestações para pressionar o STF no julgamento da segunda instância, mas algo timidamente, já que temem o “efeito Orloff” do Chile: eles são o Brasil amanhã. Mas agora acho que radicalizou e vão apostar nelas sim. Tem uma deles já marcada. A esquerda já chamou mais de um ato de protesto.

LR voltou da Europa e conta que a emergência da extrema-direita é mesmo um fenômeno global, com as mesmas estratégias e as mesmas falas.

O Telecatch da política nacional também é importado.

Lembrei que Trump também postou um vídeo onde uma montagem tosca mostrava o presidente americano socando a rede noticiosa CNN. Foi um auê também, mas não deu em nada. Até o cancelamento das assinaturas da Folha de São Paulo segue o roteiro trumpiano: o presidente americano cancelou as assinaturas dos jornais NY Times e o Washington Post – uma semana atrás.

A demolição controlada no contexto da guerra híbrida

Há quem afirme que estamos no meio de uma guerra híbrida, de espectro total, onde a comunicação e informação induzem os inimigos (a esquerda) a inadvertidamente realizar manobras vantajosas para o operador oculto. Estaríamos agora em um processo de “demolição controlada”, que buscaria derrubar tanto a esquerda quanto o presidente. O acirramento político e embate nas ruas seria o estopim para a intervenção militar. Os mestres marionetistas seriam os generais do GSI (Gabinete de Segurança Institucional). Isso ajudaria a explicar certos lances incompreensíveis, como a reportagem mal feita e recuo da Globo.

De outra forma, a semana seguiu: a escritor e militante negra Angela Davis esteve em São Paulo e conversou com lideranças femininas negras dos sem-teto, incluindo Preta Ferreira. Foi aniversário do Lula.

O peronismo ganhou a eleição presidencial na Argentina, por margem nem tão grande assim. O alívio é grande e trata-se de um tapa no rosto dos liberais, mas tudo pode virar daqui a 4 anos. Vai ser preciso, como aqui, inventar e implementar algo que ainda não existe.

O Uruguai também foi às urnas, e o país mandou chamar o embaixador brasileiro para explicações: Jair emitiu opinião criticando a candidatura de esquerda, em clara interferência nas eleições do país vizinho.

Se você fosse um filme, qual seria?

O Chile continua em levante, apesar de pouco sair na imprensa aqui. Há forte pressão pela Constituinte. A constituição atual ainda é a de Pinochet. A cúpula mundial do clima, que ia ser lá, foi cancelada no Chile e vai ser realizada em outro lugar.

A reforma especial da Previdência especial militar poupa o oficialato do pior da reforma civil, mas deixa de atender os cabos e sargentos, que ficaram indignados com o presidente.

Anagrama: desembaralhe as letras e recorde a figura que acredita estar em um centro equidistante de dois extremos (Bolsonaro e Lula)

Está marcado para o dia 7 de novembro a conclusão do julgamento da segunda instância…

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