Resenha Semanal

13 a 19 de abril 2019. A cartada do STF contra a Lava Jato e extrema direita agrava o derretimento geral e a guerra faccional…

13 de abril

Mais uma semana pesada e perturbadora. Difícil manter a calma e elevar-se acima do tiroteio noticioso… quanto mais reimaginar o futuro e uma sociedade mais feliz, com programa de percurso. A única pauta legível é a da destruição do estado e da república. Não se trata do “desmonte” neoliberal, mas algo mais malévolo e preocupante: parece que não há programa de governo. Como isso é insustentável no médio prazo, formula-se que Bolsonaro leva o Brasil ao abismo de um golpe. Outros comentaristas sublinham a dobradinha Jair/Militares, onde o primeiro recebe toda a atenção e oposição enquanto os segundos ocupam posições no Estado silenciosamente. Assim, há bagunça mas há plano. Isto é, o caos e a sensação de colapso da verdade são parte da “guerra híbrida” que rola solta no Brasil.

É muito louco isso de assistir tudo de longe: Bolsonaro forjou um governo que simula a sua própria oposição, diz Alain Touraine. Ao fazer a sua própria oposição, neutraliza a oposição de fato. Inversões decorrentes desse fato incluem a transferência de pautas da esquerda para a direita: “nenhum “esquerdista” ousou dizer publicamente o que Olavo de Carvalho disse, ao chamar os generais de ‘bando de cagões’. Mais uma vez, o ataque, a réplica e a tréplica se passaram dentro do próprio Governo, enquanto a sociedade se mobilizava para impedir ‘as comemorações devidas’“ do golpe de 1964, escreveu Eliane Brum A participação democrática nunca esteve tão nula.

Parte do programa parece ser normalizar a violência e o ódio pela repetição. A impressão que dá é que é preciso lutar por espaço existencial num cenário de derretimento das instituições (estado, justiça, imprensa, partidos, ONGs, bairros, comunidades, clubes, botecos…)

A cartada do STF desta semana, ao final, enfraqueceu o Supremo, que agora aparece como um alvo fácil de represálias e fechamento. Lula contava com a coragem do STF para julgar a ilegalidade de sua prisão em segunda instância.

Enquanto isso, prevalece a Síndrome do Guardinha da Esquina: Pedro Aleixo, vice-presidente da República presente na reunião que instituiu o AI-5 em 1969, disse então que não duvidava da sabedoria do general-presidente na execução do estado de exceção, mas que temia o “guardinha da esquina”, que, com o Ato institucional, se sentiria imbuído de poderes de repressão.

Em 2019, em apenas três meses e 10 dias, pelo menos oito mendigos foram queimados vivos no Brasil. O abate de moradores de comunidades do Rio de Janeiro por franco-atiradores (os snipers) está em pleno curso. Pelo menos dois professores foram presos por exigir que a PM não tivesse o poder de entrar em sala de aula: Camila Marques foi presa dentro da sala de aula no IFG Aguas Lindas (GO) onde leciona; de acordo com as primeiras informações, a docente foi acusada de doutrinação; depois, outras notícias dizem que ela havia sido presa por desacato por ter se recusado a obedecer ordens de policiais que faziam uma operação na porta da escola. O professor de História Gabriel Pimentel, foi preso na escola onde trabalha após defender alunos em Uberlândia, Minas Gerais, que foram agredidos por policiais militares.

Li hoje que das 2.591 sentenças de tráfico proferidas entre agosto de 2014 e janeiro de 2016 na região metropolitana e na capital fluminense, 71% dos casos, os processos têm apenas os policiais que prenderam a pessoa como as únicas testemunhas. É a norma.

14 de abril

Parece que cada facção está preparando seu “baú de guerra”, ou sua reserva de recursos para a luta. A Lava Jato estuda novas formas de formar um patrimônio, depois da perda de seus bilhões da Petrobrás. Bolsonaro prepara poder paralelo, seja destravando recursos da austeridade para caminhoneiros, seja na recente incorporação de mil policiais concursados.

15 de abril

Julian Assange foi expulso da embaixada equatoriana e imediatamente detido pela polícia britânica. É difícil seguir toda a trama, que envolve muitas camadas. Agora o pedido de extradição americana será examinado. O Brexit atrapalha tudo. O site Tecmundo deu que o Ministro de Informação e Tecnologias de Comunicação do Equador, Patricio Real, afirmou que o país havia recebido mais de 40 milhões de ciberataques.

O destino de Assange é crucial para a sorte da liberdade de informação e transparência do poder. Graças ao Wikileaks, pudemos barrar ameaças à democracia.

A catedral de Notre Dame está em chamas. A imprensa repercute muito.

Dias Toffoli, como parte de sua investigação de fake news que atacam o STF, censura a revista Crusoé, do Antagonista. Um artigo por eles publicado faz referência ao esclarecimento, por Marcelo Odebrecht, de quem seria a pessoas descrita pelo apelido “amigo do amigo de meu pai”.

A coisa toda é meio embolada, pois parece que a defesa de Marcelo fez saber ao Ministro que a Lava Jato pressionava seu cliente a implicar Toffoli. O esclarecimento na verdade não o envolve em esquema de corrupção, mas é o suficiente para fazer a manchete escandalosa. O vazamento foi ilegal.

A Lava Jato estaria buscando manter Toffoli refém para ameaçá-lo no curso do iminente julgamento da segunda instância e potencial libertação de Lula.

Além disso, operações de busca e apreensão foram deflagradas contra o general da reserva Paulo Chagas e outras seis extremistas de direita, que pediam o fechamento do STF. Dois procuradores foram chamados a depor, o que assustou a Lava Jato, pois temem que Dallagnol venha a ser chamado também.

A repercussão é grande, mas, de início, achei que ninguém realmente graúdo se manifestou. Mourão reclamou, mas na linha da liberdade de imprensa.

O ministro do Turismo Marcelo Álvaro Antônio teria ameaçado de morte candidata do PSL que o acusou de formar um esquema de candidaturas-laranja. A deputada federal Alê Silva (PSL-MG) confirmou o esquema e também recebeu ameaças.

Dória quer mudar o nome do PSDB e consolidar seu domínio sobre a sigla.

Jair Bolsonaro desautorizou uma operação do Ibama contra o roubo de madeira em Rondônia, atacando seus funcionários em vídeo postado na internet.

As despesas da presidência com a comunicação aumentou, segundo a Folha. A Globo foi desbancada, pela primeira vez, pela Record na distribuição das verbas do governo federal.

Teve ato na avenida Paulista, em frente ao MASP, chamado pela Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio e UNEafro Brasil. Era contra o assassinato do músico negro Edvaldo no Rio de Janeiro. Não fui. Vi as fotos de A.

Uma proposta de governo prevê educação domiciliar… Para o governo, cabe à família decidir qual a melhor forma de ensino para seus filhos.

Ex-papa Bento XVI rompe seu silêncio e coloca a pedofilia dentro da igreja como resultado de Maio ‘68, que teria relaxado a moral sexual e incentivado a pedofilia. Muita ousadia dele! O abuso sexual certamente existia na igreja antes da década de 1960!

15 de abril

Hoje Alckmin teve os bens bloqueados pela justiça. A nota da defesa dele poderia ser a de Lula, pois a reclamação é a mesma: não há prova, só delação sem evidência, houve vazamento ilegal, e, principalmente, não há nenhuma sombra de ato administrativo que tenha ligação com a propina. Vai ser curioso ver tucano exigindo o rigor do processo jurídico. Ironicamente, Aécio conseguiu, por decurso de prazo, ter desbloqueados 11 milhões de seu patrimônio.

Tem muito tucano e centro-direitista reclamando que são atacados por bolsominions nas redes. Até Janaína Paschoal recebe ataques (ela pediu a demissão do ministro do Turismo).

É difícil sentir pena ou estender a mão solidária a eles. Os tucanos e ditos liberais foram à Paulista de verdeamarelo em 2016 para derrubar Dilma ilegalmente, no tapetão, pelo “conjunto da obra”. Eu fui a todos os atos coxinhas, e não vi nenhum tucano então confrontando monarquistas, intervencionistas militares, fascistas, extremistas, ultra-cristãos… Todos os ditos centristas deram legitimidade à extrema direita ao desfilar na avenida ao lado dos exatos bolsominions que agora os atacam. Ficaram em casa quando Lula e o PT eram demonizados e presos. Ou gritaram junto com eles “Moro! Moro!”.

Resumo: o liberalismo propicia o fascismo, contra o qual não tem anticorpos, pois é carne da mesma carne.

A Petrobrás deixa de investir na cultura.

Milionários e bilionários se adiantam para pagar pelo restauro de Notre Dame, incluindo a brasileira Lilly Safra. Já o Museu Nacional espera recursos… como escreveu o Haddad.

16 de abril

Repercute o desabamento dos edifícios construídos pela milícia no Rio de Janeiro, em Muzema. Nassif deu que o capitão Adriano, o “principal suspeito do assassinato de Marielle Franco, seria o dono do edifício que desabou no condomínio, depois de ter sido levantado clandestinamente“.

Evento da Câmara de Comércio Brasil-EUA no Museu de História Natural foi cancelado pelo museu, depois de declarações do prefeito de Nova Iorque, Bill de Blasio, contra Bolsonaro: “um homem perigoso”.

Com a extinção de centenas de conselhos na esfera federal, Bolsonaro praticamente expulsou a sociedade civil do aparelho de Estado no Brasil. Tais conselhos configuram os canais de comunicação da sociedade civil com o estado brasileiro, onde é possível ouvir as queixas e demandas dos diversos setores e afinar politicas públicas.

Repercute muito um artigo do cineasta Padilha onde ele renega o apoio que deu a Moro no passado. Ele afirma, corretamente, que o pacote anti-crime de Moro aumenta o poder das milícias e dá carta branca à polícia para matar.

Mais um dito liberal-democrata percebendo o monstro que criaram. Seus dois filmes (“A Lei é Para Todos e sua continuação), mais a infame série do Netflix O Mecanismo, bombaram a narrativa da Lava Jato de criminalização do PT e de Lula, naturalizando as fake news. No seriado, a famosa fala de Renan Calheiros, “precisa resolver isso aí, com o Supremo, com tudo” é colocada na boca de Lula.

Eu fiz questão de assistir o filme de Padilha no Shopping Higienópolis em São Paulo, dentro do bairro rico de São Paulo. Muitos aplausos, principalmente quando a plateia reconhecia na tela coisas que tinha lido na imprensa.

Há quem aponte que é preciso acolher que faz gestos de repúdio dessa grandeza. Mas me jogar na boca do lobo e sair correndo quando o lobo corre atrás… agora eu já morri, agora já é tarde. Dá vontade de insistir na “autocrítica” que tanto exigiram do PT como condição de estender a mão àqueles que permitiram a Lava Jato.

Lula tuitou “Imagina quando ele ler a sentença e descobrir que Moro condenou Lula sem provas, por ‘atos indeterminados‘, para que não concorresse em 2018 e seu chefe, Bolsonaro, pudesse chegar ao poder?”.

Jean Wyllys publicou e-mails trocados com o cineasta, que anos atrás ativamente cobrava dele e outros o repúdio ao governo Dilma e ao PT.

O Intercept defendeu o Antagonista e publicou o artigo censurado. O vazamento foi criminoso e o antagonista é cúmplice, mas no geral deve-se punir quem vazou e não quem publicou. Recordo-me do depoimento de Lula, quando o Antagonista irradiava ilegalmente a sessão. A defesa alertou Moro sobre o fato, que podiam ver ao vivo no site. “Não posso fazer nada”, disse o juiz, e a transmissão ilegal continuou com a conivência da Lava Jato. A estratégia foi largamente utilizada na operação com os vazamentos seletivos

Li uma entrevista de Skaf, presidente da FIESP, no Estadão impresso. Depreendi que Skaf acha que não precisa ter democracia se a pauta dos industriais for atendida: ele citou a separação, muito em voga na discurso político hoje em dia, da “pauta econômica” e da “pauta cultural”, justificando sua posição de relativa indiferença ao desmonte operado por Bolsonaro. Ele fala de aliança “conservadores e liberais”, e não entre “liberais e a extrema-direita”, como é mais exato.

A respeito dessa aliança, todos notam a forte presença de militares em postos do governo, mas reparei também que há muitos especuladores e rentistas tomando posições na administração: são chamados de “economistas”, da “área financeira” ou “ligados à gestão”. Estão presentes na educação e muitas outras áreas.

“Acredito no Brasil e em suas instituições e respeito a autonomia dos poderes, como escrito em nossa Constituição. São princípios indispensáveis para uma democracia. Dito isso, minha posição sempre será favorável à liberdade de expressão, direito legítimo e inviolável”, escreveu Bolsonaro no Twitter, acerca da apreensão de computadores do general Paulo Chagas por Alexandre Moraes.

O movimento Brasil 200 pede impeachment de Gilmar Mendes, mas o empresário dono da Richuelo, Hang, que é do dito grupo, desdisse e afirma que não quer isso.

O governo federal anunciou, nesta terça-feira (16), uma série de medidas para tentar evitar uma nova paralisação nacional dos caminhoneiros. Mas parece que os caminhoneiros dizem que medidas são esmola e prometem paralisação. É difícil saber quem fala pela categoria.

Repercute a condenação de Danilo Gentilli a seis meses de prisão, resultante de ofensas a Maria do Rosário. As opiniões se dividiram, contra e a favor. Existe a liberdade de expressão, mas a manifestação de Gentilli, por vídeo, não foi parte de um sketch humorístico. Além disso, ele não tem a mesma tolerância com a liberdade de expressão quando o alvo é ele. O comediante processou pelo menos quatro pessoas por crimes contra a honra – alguns deles criminalmente, ou seja, podem ter como resultado uma pena de prisão.

17 de abril

O saldo final da cartada do STF na imprensa é o isolamento de Mendes e Toffolli e o derretimento de todas as instituições. A Lava Jato sentiu o baque e deve reagir, assim como os extremistas de direita.

As análises do embate variam, mas o erro estratégico de Toffoli agrava a tibieza do tribunal e contribui para o caos e derretimento institucional geral. A Lava Jato mantém sua prática de vazamentos, com amplo apoio das milícias digitais e de veículos associados, e ataca ministros do STF, fortalecida por ter Moro no Ministério da Justiça. O Ministro Alexandre Moraes propondo censura aos veículos adversários e invasão de domicílios. A Procuradora Geral da República Raquel Dodge desautorizando decisões do STF, ainda que estapafúrdias. No Senado, tentativas de CPI contra o Supremo.

Moro chama a Força Nacional para atuar em Brasília no ato dos indígenas.

A Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos, que vai homenagear Jair Bolsonaro, foi barrada também para acontecer no Cipriani Hall, que fica em Wall Street e seria a segunda opção da entidade.

Oposição parlamentar consegue obstruir e atrasar votação da Previdência na CCJ.

Li no Valor agora que a Petrobrás acaba de anunciar aumento do diesel… No dia 29 de abril tem greve dos caminhoneiros.

Deputado Marco Feliciano pede impeachment de Mourão, depois de contato com Olavo de Carvalho.

18 de abril

O pai de Neymar Junior foi recebido pelo ministro da Fazenda, Paulo Guedes, e pelo secretário da Receita, Marcos Cintra. E depois ainda posou para fotos ao lado do presidente. Neymar Sênior deve 69 milhões ao fisco mas quer pagar 11.

O ex-presidente Alan Garcia se matou ontem, antes de ser preso, no Peru.

O governo do estado do Rio de Janeiro, de Wison Witzel, contratou mil militares reformados para trabalhar na rede estadual de ensino, para ficarem nas portarias de escolas, desarmados, a fim de evitar que alunos entrem armados nas unidades. Também vão mediar conflitos.

As editoras Contracorrente e Boitempo divulgaram nota de repúdio contra a censura promovida pela reitoria da Universidade Presbiteriana Mackenzie, que decidiu impedir a participação das editoras na Feira de Livros organizada pelo Centro Acadêmico João Mendes Jr, em São Paulo. A reitoria alega que ambas as editoras não possuem “livros doutrinários e legislação de uso acadêmico”.

Mônica Bérgamos relembra que o Antagonista, hoje censurado, aplaudiu a censura à Folha em 2018, quando o ministro Fux proibiu o jornal de entrevistar Lula. E de publicar a conversa, se já tivesse ocorrido.

Moraes libera entrevistas de Lula, antes censuradas pelo STF (Fux e Tofolli) em 2018 para “não tumultuar o processo eleitoral”.

Ufa!

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