Diário: atos Lula Livre e anti-STF

Um domingo de manifestações: Lula Livre, Marcha da Cultura e anti-STF. Nem o PT nem a extrema-direita parecem ser capazes de incendiar os corações do país.

Foto: Alice Vergueiro

7 de abril 2019

Eram 14h45 quando entrei na Praça Oswaldo Cruz para seguir na avenida Paulista a pé. Tinha visto chamadas de várias manifestações para a Paulista, incluindo a Marcha pela Cultura (protesto contra os recentes e profundos cortes na Cultura pelo governador Dória), uma Assembleia aberta do MBL, uma pró-Lava Jato perto da FIESP e o ato Lula Livre no Praça do Ciclista, todos na mesma avenida.

No geral, achei que a direita ainda precisa do fantasma de Lula. Talvez saibam que seria diferente se eles estivesse solto, e que sua atual liberdade de atuação será podada quando ele sair da prisão. De qualquer forma, esse fantasma barbudo dominou as duas manifestações do dia.

Foto de Chico Prado

Vi à noite o registro em vídeo do ataque escroto a uma mulher por três homens bolsonaristas. Não testemunhei em pessoa. Um deles dá uma chave de pescoço, conhecido como “mata-leão. Mas o que causa mais indignação é que, depois de apenas observar a agressão, a PM ALGEMA A AGREDIDA! Um dos agressores é um oficial de Justiça que faz doutorado em Literatura na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Cheguei até a esquina da avenida Brigadeiro Luís Antônio e já deu para ouvir um distante orador cortando o ar. Vi também um grupo de uns 30 jovens de camiseta azul, que eram da Marcha do Autismo, conforme tinha me alertado a companheira GM.

A avenida estava cheia de seu habitual público dominical: jovens, famílias, crianças e idosos carentes de espaço público urbano. Mas logo de cara vi algumas camisetas verdeamarelas da CBF, e outra ainda “O Lula está preso, babaca”, sinal claro que tinha coxinha na área. Mas vi pixado num canteiro da rua “Quem mandou matar Marielle?”.

O primeiro orador que ouvi falava de cima de um carro em frente à fachada mutilada da Gazeta. Um batuque da Cásper Líbero ensaiava lá perto e dava um clima mais festivo à dura fala do orador.

O carro era de um grupo que nunca vi antes, os “Fiscais da Nação”. Estava decorado com bexigas verdeamarelas e as faixas “Sérgio Moro: o Brasil está com você. Cadeia neles”. O discurso era contra Lula e Dilma, e de ataque ao STF e também à “velha política”.

Mas a verdade era que tinha menos de 30 pessoas ouvindo. Mesmo assim, o orador foi oportunista e disse ao microfone, quando duas viaturas da PM ligaram suas sirenes e passaram pela frente do ato no asfalto da avenida fechada o tráfico normal: “Pessoal, abram espaço para a polícia. Eles vão certamente atender uma ocorrência dos criminosos petistas. Viva a PM!”. Cinco motocicletas com seus ginetes da ROCAM passaram também.

Apressei o passo temendo que algo de sério pudesse ter acontecido.

Em frente da FIESP, mais para o lado da rua Pamplona, estava outro carro de som. Era do Vem Pra Rua, e estava mais cheio de gente. Avaliei umas duas mil pessoas. Achei o perfil “coxinha clássico”, isto é, senhorinhas e senhorzinhos de 60 anos, mais homens de 50, poucos jovens de 30 e adolescentes quase só na forma de filhos ciceroneados. No carro, as faixas “Apóio a Lava Jato”, “Força Lava Jato” e “Lugar de corrupto é na cadeia”, além do estandarte “Condenação em segunda instância. Mantenha isso, STF”.

Vi vários cartazes feitos à mão no meio do povo, e um estandarte, que é menos comum na direita: “Salve o Brasil”. Já os cartazes traziam “Estamos aqui por nosso neto”. Uma faixa feita à mão trazia “Povo exige o impeachment dos ministros do STF Gilmar Mendes, Toffoli, Marco Aurélio e Ricardo Lewandovski”.

O orador descascava Lula e o PT. Talvez fosse o caso que as manifestações de hoje tivessem sido chamadas contando com o julgamento da segunda instância pelo Supremo, o que foi adiado e de alguma forma esvaziou a urgência.

O STF era um alvo preferencial do dia. Um orador aqui do VemPraRua até ponderou que “precisamos de um STF, mas não desse tribunal lulopetista”. “Não estamos conspirando”, alegou, mas o geral da avenida era sim que é preciso cassar todos os ministros e fechar a lojinha, talvez reabrindo com ministros dóceis. Gilmar Mendes foi muito apupado, alvo fácil da massa coxinha, e realmente uma figura indefensável.

Aí o caro de som soltou um áudio, que é do grampo ilegal de Lula em conversa com Dilma. Ele diz que “o STF está totalmente acovardado” e fecha com “eu estou com medo da República de Curitiba”. O povo aclamou muito esse medo e vaiou Lula.

Não fiquei mais e avancei até o MASP, onde esperava ver uma “assembleia aberta” do MBL. Não foi bem assim.

No caminho, parei num carro de um certo “Brasil 200”, na altura da rua Itapeva.

Tinha um carro de som e umas 100 pessoas na frente. Uma faixa no carro trazia “Brasil 200. A favor da operação Lava Jato, fim do foro privilegiado, pacote anti-crime”. O orador era radical e bateu nos fantasmas de Lula e Dilma, mas citou também o comunista Geraldo Alckmin.

Logo perdi o interesse e vi, atrás de mim, na calçada oposta ao carro de som, um “Varal Cultural”. Uns barbantes faziam varais onde as pessoas penduravam mensagem que podiam escrever a partir de uma mesinha com canetas e papéis disponíveis.

Chequei as mensagens penduradas. Havia um quase equilíbrio entre frases bolsonaristas e esquerdistas. Anotei algumas poucas: um obrigatório “Lula Livre”, “Ame”, um “A” anarquista, “Ele Não”, “Lula Preso para Sempre”, “Bolsonaro Presidente”.

Segui até o MASP, e no caminho anotei o cartaz “#Prisão em Segunda, #Pacote anticrime, #Corrupção Lava Jato, #Reformas Já”.

Foi nessa hora que notei que o ódio principal do dia tinha como alvo o STF e Lula, e que a reforma da Previdência foi muito pouco mencionada hoje.

Vi uma camiseta “Meu Partido é o Brasil”, um cartaz “STF trabalhe pelo Brasil”.

No MASP, o carro de som e umas 700 pessoas. Uma imensa faixa verdeamarela estava no chão, na via do Parque defronte o museu. Uma faixa grande no carro trazia “Somos Todos Lava Jato. STF vergonha nacional. São Paulo Conservador, ENSP, Patriotas Lobo Brasil, Despertar Patriota”.

Achei estranho não ver sinal do MBL. Não havia cartaz ou faixa deles, e nenhum membro da direção que eu reconhecesse. As entidades que assinavam a faixa, que eu conhecesse, são extremistas e marginais.

Vi duas bandeironas do Brasil e uma do estado de São Paulo.

O orador dizia que “estamos trabalhando para o impeachment de todo o STF”. Uma outra oradora do grupo “Mulheres com Bolsonaro”, afirmou que “eles diziam que esse grupo era fake, mas não é”. Disse que “o capitão precisa da gente mais do que nunca, não abandonaremos Bolsonaro”.

A mensagem geral aqui era abertamente de golpe e fechamento do Supremo, mais abertamente bolsonarista. Apesar de ser meio cedo ainda, umas 15h15, estava claro que não ia bombar. Eu até achei a pauta da direita forte, isto é, ainda é possível para eles se colocar no terreno alto da moral: somos contra a corrupção e, mesmo sem Bolsonaro, temos Sérgio Moro. Esta pauta é mais fácil de defender do que “Lula está preso por corrupção mas injustamente”.

Não fiquei muito, mas já notei que um outro evento trazia um enfrentamento surpreendente e concreto: logo na frente do carro de som, na calçada em frente ao parque, havia uma roda de batuque de umbanda, o BatucAxé. O companheiro E tinha me enviado o flyer eletrônico.

Mas falo disso depois, quando retornei ao local.

Segui até o ato Lula Livre. No caminho, tinha ainda muita gente de verdeamarelo chegando.

No caminho, vi uma camiseta “Movimento Cidadania Brasil”, outra “MORO num país abençoado por deus” e ainda “Sou brasileiro, sou campeão”.

Vi também, nos totens pretos no canteiro central da avenida, um antigo cartaz com a face de Bolsonaro: “Cuspa aqui”. Embaixo, um outro “Contra o ódio conservador, uma revolução feminista. Marcha Mundial das Mulheres”.

Cheguei à Praça do Ciclista e misturei-me ao povo.

Logo ouvi a música ao vivo que tocava. O clima geral era mais festivo e colorido, mais florido mesmo do que o uniforme vedeamarelo dos coxinhas. O perfil geral achei “petralha” claśsico: muito militante, sindicalista e sem-teto, mais classe média descolada. Não tinha muita gente, o que lamentei. Avaliei por cima umas mil pessoas, talvez mais depois.

Vi um bandeirão vermelho do MTST no chão, e vi muita camiseta Lula Livre. Várias daquelas máscaras de Lula na mão e no rosto das pessoas, era peculiar. Vi bandeiras do PT, do PCdoB, PCO, CTB, uma do Brasil, do PSOL e muito adesivo “Fora Bolsonaro”.

Vi várias faixas dispostas no chão:

“Supremo acovardado”, “Livrinho da Silva”, “Cadê meu candidato?”, “Não apaguem nossa história”, “Na luta é que a gente se encontra”, “Pelo Estado Democrático de Direito”, Brasil meu Nego, Lula Livre”, “Lula Preso Político”, “Meu grito é de Liberdade”, “Lula na Avenida” e “No more Lawfare”.

Encontrei S e disse a ele que nos coxinhas estava vazio, e ele respondeu “mas aqui também”.

Tive que concordar. O esforço nacional de mobilização do PT foi grande, mas está difícil romper a bolha. O artigo longo de Lula na folha teve certo impacto, em Curitiba um número expressivo de gente compareceu ao ato, e teve manifestação por todo o Brasil e pelo mundo. Mas é pouco.

A defesa de Lula é incontornável à esquerda, mas também parece que isso atrela o que deveria ser uma frente ampla à agenda do PT. Acho que o cálculo é que os ganhos com o Lula solto ganham das perdas incorridas numa solução que, mesmo que legal e legítima e justa, é vista como um arranjo de gabinete entre corruptos.

Vi camisetas da URSAL, outra “Jamais poderão aprisionar nossos sonhos”, “The future is color” e outra “The future is female”.

Encontrei M e falamos dos jovens que, radicalizados pelas ocupações secundaristas, não se interessam pela sorte de Lula e pela defesa do PT. Lamentamos a pouca adesão da sociedade e as dificuldades de fazer a luta hoje em dia. Ponderei que ser jovem hoje é muito difícil: a economia é um desastre, a política é chata, há estagnação e pouca esperança.

Vi uma camiseta “Tá Foda Viver”.

Passou C e nos cumprimentamos. Vi o Suplicy e parece que ele discursou depois. E também o Boulos, mas eu não ouvi. Um orador anunciou a presença de Haddad.

Também foi anunciada a presença do “pessoal da Cultura”, que claramente tinham completado sua marcha.

Vi ainda um cartaz “Em defesa da aposentadoria. Lula Livre”, outro “Não à reforma da Previdência. Ação Petista”, um estandarte “Flores pela Democracia”, outro “Lula Livre. Linhas de Sampa”.

Vi uma camisa da CBF, mas vermelha com “K Marx” escrito atrás. Vi uma camiseta do St. Pauli, que é um clube anarquista de Hamburgo, outra “POEME-SE”, outra “FLM”.

Vi um cartaz “Não à perseguição. Lula inocente! JPT” e outro que é aquela placa de rua da Marielle. Vi o batuque da Juventude do PT, uma bandeira LGBT, outra da UPES, uma camiseta do MST, um estandarte do AFRONTE, o pessoal do Levante Popular da Juventude.

Eram 15h45 quando tomei o caminho em direção ao Paraíso para checar os coxinhas.

No caminho, já passado o Conjunto Nacional, vi uma camiseta do Partido Novo. Lembrei que vi muita gente (incluindo militantes pagos) do Novo no último comício da campanha de Bolsonaro: liberal sempre acaba nos braços do aventureiro fascista.

Chegando ao MASP, ouvia uma banda de rock metal pesado ao mesmo tempo que via as bandeiras do Brasil e de São Paulo dominar o ar. Rere, achei que combinava.

Vi um moço fantasiado de Homem Aranha, mas que carregava um escudo do Capitão América.

Achei que o ato coxinha tinha aumentado um pouco em números, mas não muito – umas 1500 pessoas. A faixona gigante agora andava pela avenida apoiada por direitistas felizes: “Impeachment do $TF”. O orador atacava o deputado Zeca Dirceu, que famosamente fez colar em Paulo Guedes o apelido Tchutchuca: “Ele não passa do filho de José Dirceu”.

As falas continuavam muito ferozes contra o STF. Repetiram uma palavra de ordem que eu até acho de certa poesia, se recordarmos da antiga canção da cueca que vira pano de prato: “STF, presta atenção, sua toga vai virar pano de chão!”. Uma oradora jovem da Bahia não teve dúvida e saudou os presentes: “Bolsonaristas de São Paulo, boa tarde!”.

Vi um cartaz “Viva a Lava Jato e a PF. Cadeia para Lula e seus ‘amigos’”, e outro “Fora Rodrigo Maia, Davi Alcolumbre, Gilmar Mendes. Apoiamos a Lava Jato”. Outra faixa trazia a foto do rosto de Moro. Uma camiseta trazia “O Brasil que queremos depende de nós”.

Mas foi aqui que eu senti que o embate do presente pode trazer esperança, é só olhar para os lados e aceitar as diferentes formas de luta. A galera do BatucAxé continuava animada, e notei que isso incomodava os coxinhas.

O pessoal do batuque têm vindo ao mesmo exato lugar faz muitos domingos. Sua forte percussão e cantos de matriz africana contrastavam muito com as bandeiras do Brasil e de São Paulo, aquele verdeamarelo todo e as senhorinhas católicas. Foi impossível não recordar Glauber Rocha e seu Terra Em Transe, e a figura louca de Paulo Autran distorcendo o rosto ao som de batuques afrobrasilerios. Fiquei um pouco e notei que vários coxinhas ficavam resmungando. “Puta cara-de-pau”, dizia um homem branco de 50 anos.

Fui checar o resto da avenida, e foi só depois que testemunhei o conflito definidor do Brasil…

A caminho da FIESP, vi o youtuber Nando Moura cercado de fãs que faziam selfies. O orador do carro do tal Brasil 200 afirmava que Lula e Dilma ameaçam a democracia no Brasil. Menos de 40 pessoas ouviam o homem. Disse também que Ricardo Lewandovski foi motorista de Carlos Marighella. Bizarro.

Vi um figura com uma bandeira de Israel. Vi outra galera com o pavilhão imperial brasileiro. Vi um ambulante vende pixulequinhos do Lula presidiário.

Na esquina da Pamplona o carro do VemPraRua. Mais cheio que o resto, avaliei umas quatro mil pessoas. Notei também que alguém distribuíra muitas bandeiras do Brasil, que faziam bela presença visual.

Vi uma faixa grande “Não Roubarás”, e outra “#Fora STF. Direita BP. Bragança Paulista #Reforma Já”. Um cartaz “Imprensa inimiga do Brasil”, outros “Lula nunca mais”, “Globo Lixo”, “Fechamento do STF corrupto”, “O que é que Lula sabe para ser defendido por tantos ministros do STF?”, “STF verdeamarelo, sem foice e martelo”,

Os oradores puxaram o “Eu vim de graça!” e depois o “Paulo Guedes!”, que a massa cantou por alguns segundos. Vi depois que isso foi muito difundido nas redes, mas na real foi talvez a única manifestação explícita de apoio à reforma da Previdência. O tema foi, no geral, cuidadosamente ocultado. Não há consenso na direita a respeito das reformas. Defender o Tchuchuca contra o filho do Dirceu é uma coisa, mas aceitar a reforma é outra.

Ademais, o discurso era dos “homens de bem”, endeusamento do Moro. Por fim, encerraram o ato com o hino nacional, mas antes pediram um abraço a todos que tinham vindo ao ato. À semelhança da missa católica, onde cumprimentamos aqueles que estão a nosso lado, o orador pediu um “abraço naquele que está a seu lado”. Rolou. Eu fiquei na minha.

Pela primeira vez em 4 anos vi a massa coxinha hostilizar um helicóptero da Globo.

Encerraram o ato parabenizando a PM de Sâo Paulo, “a melhor polícia militar do Brasil”

Saí fora, mas quis retornar ainda uma vez ao MASP e ver o que ia rolar. Ainda fui checar os “Fiscais da Nação”, mas apenas patéticas 15 pessoas permaneciam no local. O orador atacava Lula, Dilma, PSDB e o PSOL.

Percorri toda a avenida de novo até a Consolação.

Vi que o Varal Cultural permanecia como antes, sem cuidadores. As mensagens tinham mudado, sugerindo que muitas foram arrancadas. O teor geral era agora mais radical de direita: “Viva a intervenção”, “Milicos e malucos #tô fora!”, “Lula Livre em 2050”, “ROTA orgulhos dos paulistas”.

No MASP, faiscava o confronto que define o Brasil, algo fora da bolha da esquerda institucional, mas que eu li como esperança.

No carro de som, alguém exibiu uma bandeira com o colorido LGBT mas com o rosto de Bolsonaro.

Um orador pedia apoio às Polícias Civil e Militar, que tinham reivindicações sindicais salariais e de condições de trabalho. Achei curiosíssimo esta reivindicação, que pode até ser justa, mas que é de toda a sociedade: respeito ao trabalho e remuneração justa. No contexto atual, porém, isso é um pedido aberto para ser considerado exceção nas reformas trabalhista e da previdência.

Já o pessoal do BatucAxé continuava firme e feliz, umas 150 pessoas cantando ao som do poderoso batuque. Alguns manifestantes Lula Livre vinham colando aos poucos.

Só que coxinhas vinham hostilizar, e um homem de uns 50 anos realmente surtou e gritou “Fora!Fora! Fora!” alucinadamente para eles. Uma coluna de 8 PMs veio separar os dois grupos e teve que ouvir muito coxinha que vinha pedir para dispersar o batuque.

O pessoal da umbanda percebia o que acontecia, mas não esmorecia. Nessa hora eu pensei: “Nós estamos em todos os lugares! Não vão nos derrotar, é só ouvir com humildade onde há resistência”.

Fiquei de pé no meio da avenida, ouvindo os coxinhas no carro de som ao mesmo tempo que o batuque repercutia.

Quando o carro de som irradiava “O Brasil acima de tudo e deus acima de todos”, ouvi do outro lado as palavras “Oxossi reina de norte a sul”, que é daquela canção que tocou muito nos anos 1970: “Eu vi chover, eu vi relampear. Mas mesmo assim o céu estava azul. Samborepema folha de Jurema…”

Fiquei um tempo até um maluco passar com um cartazão “Bolsonaros mandaram matar Marielle?”, desenhado com uma suástica nazista bem aparente. Ele chamou muito a atenção e foi vaiado. Mas seguiu sorrindo em direção à Consolação e decidi caminhar com ele. Ele foi muito fotografado, mas estava sozinho. Admirei sua coragem.

O ato Lula Livre também encerrava e decidi sair fora. Encontrei o vizinho C e troquei umas palavras.

Tentei guardar uma imagem do dia para levar para casa. Recusei o “Boa Tarde, presidente Lula” que ouvi ao longe, já na Consolação. Aceitei: um cartaz já puído da avenida: “Todos nascemos artistas, mas depois vem a castração”.

Rastros do dia: claramente existe o projeto de um golpe bolsonarista para fechar o STF e o Congresso. A adesão pública não está massiva, mas parece que quem tem o poder de dirigir a massa para esta ou aquela avenida é Sérgio Moro. Se ele avalizar a deposição de Bolsonaro e coroação de Mourão, como se ventila na imprensa, o povo vai comprar. Mas se o capitão chamar à rebelião seus radicais, mais polícias estaduais e soldados e sargentos, vai ser complicado: os generais podem até governar, mas vai ter um exército de milicianos e terroristas matando esquerdistas para embaraçar o alto escalão governista.

Eram 17h. Peguei o metrô e fui para casa.

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