Diário: manifestação pró-Lava Jato

Depois que o STF limitou a ação da Lava Jato, movimentos de direita buscam mobilizar suas bases.

17 de março

Desci do ônibus na alameda Santos para ir á manifestação pró-Lava Jato em frente ao MASP. Eram 15h.

A direita digital (MBL, Vem Pra Rua etc.) chamou esse ato, e também o bolsonarismo. A pauta é a defesa da Lava Jato, que veem como ameaçada pelo STF, que se tornou o inimigo da vez. Parece que se desenha um embate entre as redes canalizadas por movimentos da “base” ultradireitistra e as instituições, digamos, republicanas. O ministro Tóffoli está preparando ataques à difusão de fake news nas redes sociais, essencialmente tentando anular o que é um poder de pressão distorcido: as redes podem ser impulsionadas artificialmente e não representam a tal vox populi.

Mas, depois da humilhação do STF por Eduardo Bolsonaro, que disse “um soldado e um cabo num jipe” seriam suficientes para fechar o STF em caso de conflito com o Planalto, e de outras hesitações e covardias, fica difícil impor respeito, né?

Além disso, a recente decisão do STF é vista como um laboratório para anular condenações da Lava Jato e soltar Lula. Será muito interessante acompanhar o comportamento da presidência: se Bolsonaro vai apostar no embate e ganhar do STF no grito – mas assim fazer derreter ainda mais as instituições – ou ficar mais de fora e deixar os procuradores se defenderem sozinhos.

Num contexto mais geral, também será interessante acompanhar como a extrema-direita mobiliza sozinha sem a dita centro-direita e liberais, e sem a imprensona. Só as redes.

No caminho, ainda numa estação do metrô, vi uma animação numa tela que recomendava aos usuários que obedecessem às ordens do seguranças. Mas a animação usava bonecos sem face, de forma humanóide mas com esferas no lugar da cabeça, o que sublinhava um visual de distopia cibernética. Os dois seguranças-robô manejavam cordões de isolamento que restringiam a movimentação dos usuários a uma única fila indiana. Os seguranças vestiam uniformes, mas os usuários pareciam nus.

O metrô de São Paulo vive contradições muito interessantes. A pressão pela terceirização do trabalho predomina em vários de seus setores, e acho que a Segurança é um deles. A demissão de trabalhadores celetizados parece ser política oficial, e a recente (já há uns 10 anos) admissão de “jovens colaboradores” (moças e moços mal-remunerados) vai nessa linha. Ademais, é sonho da direção do metrô adquirir trens automáticos, sem condutor.

Por outro lado, a presença do PSTU no metrô na categoria é muito significante e ativa. Greves gerais sempre dependem de sua atuação, onde a paralisação deles é decisiva para o sucesso de movimentos paredistas.

Desci na altura do Conjunto Nacional e passei por dentro para alcançar o museu. Vi pelo menos dois jovens separados que conversavam com passantes. Um dos jovens dizia que “somos apartidários, nem de esquerda nem de direita”. É muito curioso como esse discurso sempre indica a ação direitista. O MBL de Kim Kataguiri começou, na onda de 2013, a se proclamar “apartidário”. Depois virou “suprapartidário”, e no fim alcançaram o Congresso e Assembleias estaduais como candidatos do DEM e outros partidos “velhos”.

Chovia muito. A avenida estava vazia, mas a calçadas estavam cheias de gente que tentava achar abrigo. Esperei um pouco ao lado de um grupo de rock que tocava na calçada, mas logo decidi seguir para o museu.

De longe vi uma aglomeração e umas 3 bandeiras do Brasil, além de uma grandona de São Paulo. Tinha um carro de som, onde oradores já se revezavam nos discursos. Vi um homem de camisa da CBF com um cartaz “Todo apoio às lutas pela honestidade. Somos todos Lava Jato”. Ouvi o povo gritar “Fora Gilmar! Fora Gilmar”.

Achei que naquele momento eu via umas 500 pessoas, mas depois encheu mais e talvez tenha chegado a 2 mil, se tanto.

A pauta de impeachment de Gilmar parece ser prioritária. O fechamento do STF apareceu nos cartazes e falas, mas Gilmar é mais detestável e o foco sobre ele mais fácil de realizar. O ministro figurou em muitos cartazes e faixas: “Impeachment de Gilmar Mendes já. Lava-Toga já. Parlamentares, todo poder emana do povo”. A rede Globo também: “Lixo, News, TV”.

Reconheci o vereador Holiday no carro de som. Reparei no mesmo instante que, por trás dele e do carro de som decorado com faixas do MBL e “Vem Pra Rua. Você mudando o Brasil”, lia-se uma placa que trazia o título de uma exposição: “Djanira, memória de um povo”.

Os manifestantes pareciam ser uma mistura de coxinhas clássicos (homens e mulheres de 50-60, de classe média e média alta) com jovens ativistas de 25-30. A tintura predominante era branca. Por um lado parecia menos capilarizado e diverso que os últimos momentos do imṕeachment de Dilma ou da campanha Bolsonaro, mas achei que tinha alguma classe C.

Como contraponto, embaixo do vão do museu, junto às barracas da feira de antiguidades que agora já encerrava suas atividades, vi 6 PMs enquadrarem 5 jovens periféricos. Alinhados e cercados pelos soldados, eram intimidados pelos policiais no meio das camisas verdeamarelas.

Vi uma faixa plástica grande com o rosto de Moro: “Sérgio Moro, estamos com você” e uma faixa amarela “Brasil apoia Sérgio Moro” e o cartaz “Salve o Brasil”. Vi duas bandeiras do Brasil imperial sobre os ombros de manifestantes. Vi duas camisas do Palmeiras.

A chuva ia e voltava e molhava mesmo.

Vi o “Japonês da Federal”, um policial condenado em segunda instância por contrabando, dar entrevista. Vi uma galera meio intimidadora, os “Patriotas Lobo Brasil”. Seguravam uma faixa e volta e meia eram filmados gritando ferozes contra o STF, chamando para as mobilizações do dia 7 de abril.

Um orador dizia que “agora o governo voltou às pessoas de bem”. Notei que Bolsonaro nem foi muito citado, o foco era bem contra o Supremo Tribunal. Puxou também um “Ei, Toffoli, vai tomar no cu!”. O povo cantou junto. O orador afirmou também que “a mídia não conta o que acontece de verdade. Só fala quando o assassino de Marielle tem casa no condomínio de Bolsonaro”. Falaram em favor da reforma da Previdência. Vi apenas duas camisetas de Bolsonaro.

Dei um giro e vi pessoas moradoras da rua entre os manifestantes. Um jovem sem camisa e calção de pano insistia em dormir atrás da pedra perto da escadaria do museu. Outro caminhava atrás de sua companheira gritando “tititi-pápápá”, troçando das falas dos oradores. Já outro, na rua, conversava com uma senhora de guarda-chuva. Ele estava amistoso e sorria, mas ela nada respondia. Ele trazia abraçado ao peito um livro, em cuja lombada se lia “Manual Técnico”.

Vi os cartazes “Lava Jato Sempre, Lava-Toga Já!” e “Dias Toffoli Inquisidor não nos calará”. Vi as camisetas “#Vai Brasil”, “Meu partido é o Brasil”. Um faixão enorme de uns 5×50 metros estava no chão, encharcado, mas legível: “Lava Toga Urgente”.

Do outro lado da rua, um grupo de umas 50 pessoas dançava ao som de poderoso batuque. Era um encontro do “Batucando pelas Ruas”. Nada tinha a ver com a manifestação e tinha uma pegada de macumba.

Vi um moço grande com a camiseta “Eu faço parte da força do viking Edenred”. Outra trazia “Mexeu com Moro mexeu comigo”, ainda outra “Escuderia Pepe Legal”.

Achei que a pauta deles era bem colocada, já que não precisa defender Bolsonaro para defender Moro. O embate “novo x velho” serve ainda como inspirador, mesmo para quem já ensaia decepção com o presente governo.

Vi uma faixa grande, desenhada à mão, onde se lia “#Gilmar vai cair em 7 dias, Toffoli idem. MBC-SP Movimento Brasil Conservador”. Um canhestro brasão completava a mensagem. Era uma árvore cujos galhos não tinham folhas e se pareciam com as raízes, também desenhadas.

Lula ainda aparece muito nas falas, é o fantasma do Brasil coxinha. O antipetismo ainda é acionado e o povo ainda responde “Lula na cadeia!” e “A nossa bandeira jamais será vermelha”.

Aliás, uma mulher de capa de chuva plástica transparente, desafiou os presentes com um gesto de Lula Livre. Foi muito vaiada, mas ninguém saiu do abrigo para a chuva e confrontá-la na rua.

Notei a mulher que segurava, sentada, a bandeira de controle de tráfego na ciclovia: negra, de óculos escuros, imóvel.

As falas aumentaram o tom e ficaram agressivas.

As palavras de ordem também: “Supremo Tribunal, vergonha nacional!” e “STF, presta atenção, a sua toga vai virar pano de chão!”. Além disso, “Fora Marco Aurélio!”, “Fora Lewandowski!” e muito “Fora STF”.

Um orador: “O Gilmar tem que parar de bater na constituição, se não vamos para a porta da casa dele!”. Outro explicou 3 problemas com o Tribunal Eleitoral, incluindo seu despreparo e “falta de juízes próprios, são todos emprestados de outras áreas”.

Vi um cartaz um pouco mais moderado: “Lava Jato sim, ministro ou STF que a prejudique não”. Já outro ia direto ao ponto: “Fechem o STF”.

Renan Santos, do MBL, chamou a atenção para a frente legislativa da luta. Pressionar os deputados nas urgências no Congresso é a tarefa essencial. “Devemos xingar eles sim, mas cada um de vocês vai chegar em casa com uma missão. O esquerdista volta para casa sem saber porque foi, com 30 contos no bolso e um pão com mortadela”. E “Derrotar a esquerda foi fácil, mas esse inimigo agora é oculto”. Chamou para nova manifestação no dia 7 de abril.

Outros oradores falaram, incluindo, acho, a deputada Carla Zambelli. Um deles tinha um pixulequinho do Lula na mão, que chacoalhava sem cerimônia. No asfalto, uma mulher trazia outro boneco, mas esse com a efígie de Moro. Um outro moço, de Santa Catarina, disse algo que não compreendi bem, mas soava como “a partir desse dia 22 São Paulo vai ter seu primeiro teatro de direita!”.

Ouvi uma vuvuzela.

Chegou R e decidimos sair fora. Eram 16h15 e ainda chovia.

No geral, a mobilização não foi massiva, ou pelo menos não foi conclusiva no sentido de figurar a intensidade do apoio à campanha contra a contenção da Lava Jato. Não é incorreto chamar a manifestação de hoje um fracasso, mas isso não resume ainda a qualidade da reação de mobilização coxinha. A pauta é forte – impedir os podres poderes de enterrar a luta contra a corrupção. O inimigo é claro, pessoalizável. Não precisa propor nada, basta ser contra. Mas resta ver o quanto as redes sozinhas, sem a imprensa e sem o que antes era o PSDB, consegue tirar as pessoas de casa no contexto Bolsonaro.

Tomamos uma, tomei o metrô e fui para casa.

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