Diário: Ato contra o Assassinato de Pedro Gonzaga

Imagens: Alice Vergueiro

17 de fevereiro – Ato contra o assassinato de Pedro Gonzaga no Extra

Saí do metrô Brigadeiro do metrô para o ato contra o assassinato do moço negro Pedro Gonzaga. Ele foi imobilizado e sufocado por um segurança do supermercado Extra da Barra da Tijuca. Outros atos semelhantes ocorreram em várias cidades do Brasil.

A Avenida Paulista estava cheia, domingo que era. Ainda na avenida, na esquina da rua Maria Figueiredo, ouvi um grito “Pega ladrão!” seguido de certa comoção. Não fui ver.

Segui para o Extra da avenida Brigadeiro, palco do ato. Já tinha umas 100 pessoas lá, muitas mulheres, talvez a maioria por pequena margem.

O moço que falava ao centro da roda, ainda sem microfone, dizia “quanto mais caras pretas, melhor”, pedindo às pessoas que se conectassem a seus amigos e os chamassem para lá.

Vi, na grade do supermercado, as faixas do UNEAFRO, UNE e UEE. Vi uma camiseta “RUA movimento anticapitalista”, outra “Black Panther Party”, “PPP Parada Preta Paulista – SP Brasil”, “Urubu Filmes”, “Lula Livre, “Eles passarão, eu passarinho”.

Ouvi as oradoras e oradores. “Parem de nos matar, estou cansada e quero paz”. Citaram os governadores Witzel e Dória, que avalizam abertamente a política do que é na real um ilegal assassinato preventivo por parte da polícia. Destacaram o lugar da mulher e da mãe negras, que temem pela vida de seus filhos, parentes e amados. Lembraram que atos semelhantes estavam sendo realizados nas cidades de Recife, Fortaleza, BH, Curitiba. Uma mulher, e depois outro moço, relataram experiências de racismo dentro daquele Extra da Brigadeiro. Muitos chamaram o boicote ao Extra e à rede Pão de Açúcar.

A esquerda branca foi muito cobrada. Várias falas explicitaram que o apoio “no facebook” é insuficiente e pediam a presença mais explícita das esquerdas: “você que está aqui. O que você vai fazer depois do ato?”. “A esquerda branca é conivente com o genocídio”. Cobravam se “o compromisso de ser aliado é real ou não”.

Não é a primeira vez que ouço esse clamor: em quase todas as falas da gente preta, aparece uma urgência que é do agora. Sempre somos lembrados que o “endurecimento do regime” que ficamos vaticinando para um sombrio futuro próximo já está rolando, inclusive a guerra de extermínio de um capitalismo de baixo crescimento. Como não-negro, talvez o mais próximo que estive desse lugar recentemente foi a criminalização do petismo e da esquerda, que ganhou o discurso público de uma extrema-direita empoderada pelo ambiente geral criado pela imprensa. As mortes da campanha, óbitos de assinatura bolsonarista, sinalizavam uma vulnerabilidade muito assustadora, pois a classe média e a sociedade em geral já vinham sinalizando que virarão a cara quando a polícia assassinar ativistas – uma sinalização ritualizada nas selfies no Caveirão, na Paulista verdeamarela, ou mesmo nas inúmeras vezes que ouvi coxinha gritar “Viva a PM!”. Fiquei muito ressentido com conhecidos que, sabendo que eu corro risco de vida, votaram no Coiso mesmo assim.

Então tentei aproximar essa minha experiência desse grito da gente preta: não viremos a cara! Só esse ano já são mais de 20 mortos. Então estendo e multiplico o grito a todos os companheiros da esquerda e democratas: “soltar soltar da mão de ninguém nunca foi tão importante como agora”. Ou, como resumia um cartaz: “Não basta não ser racista, precisa ser antirracista”. Lembrei de F, que era jovem na ditadura de 64, falando que, então, “a gente ia enfrentar a repressão, pois ela só recua quando encontra resistência e não pode deixar barato”. Precisa enfrentar, ir enfrentar. Não temos tempo de temer a morte.

Vi muitos cartazes com “Vidas Negras Importam”, outro com “Qual será o próximo negro a virar nota oficial”, “Liberdade é não sentir medo”, “Desculpa não resolve o racismo” e “Que tipo de segurança eles querem?”. Vi uma camiseta da UJS, outra da UBM. Vi uma bandeira do Círculo Palmarino, uma faixa “#Vidas negras importam, Pedro Gonzaga Presente”.

Vi muitos cartazes com “Vidas Negras Importam”, outro com “Qual será o próximo negro a virar nota oficial”, “Liberdade é não sentir medo”, “Desculpa não resolve o racismo” e “Que tipo de segurança eles querem?”. Vi uma camiseta da UJS, outra da UBM. Vi uma bandeira do Círculo Palmarino, uma faixa “#Vidas negras importam, Pedro Gonzaga Presente”.

Encontrei os fotógrafos L e A.

O ato ia enchendo e a PM veio negociar. Quem falava pela PM era um oficial negro. Naquele instante, apenas umas 3 viaturas e uns 7 soldados genéricos estavam lá. Além disso, uns 8 seguranças do Extra estavam juntos, encarando o povo. Muitos deles registravam imagens.

Erica Malunguinho (PSOL), deputada estadual, estava lá e fez boa fala. Adriano Diogo também falou. Chegou um batuque.

“Que hipocrisia, o estado mata negro todo dia!”, cantava o povo.

Enquanto as falas se sucediam ao microfone (tinha chegado um), alguns outros falavam por cima, meio de lado, chamando ação direta. Rolou que essa discussão pareceu capilarizar na multidão: devíamos radicalizar e escalar o ato? Ou sair em passeata pela Paulista e encerrar?

Não era insider, então não tive como avaliar o que se passava de fato. Mas tive a impressão que havia aqueles determinados a produzir mais que um bom ato com discursos apenas. Apontavam a gravidade da situação – assassinato – e exigiam ação mais contundente. O prédio do Extra acho que já tinha cerrado as portas, mas o estacionamento ainda estava acessível, e era possível entrar no espaço privado do mercado.

Essa discussão existe, me parece, em toda a esquerda: adianta fazer mais um ato e mais uma passeata? Qual é o impacto político disso, dado que a imprensona não noticia a não ser que haja violência? Como radicalizar politicamente numa situação de relativo isolamento?

“Ô Extra, toma cuidado, o povo negro vem cobrar o assassinato”.

A coisa toda durou uma meia hora, muita discussão. As falas ao microfone continuavam.

Anotei as faixas “Associação Nacional dos Pós-Graduandos – ANPG”, “Não consigo respirar”, “UNENEGRO UJS Racismo mata”, “Pare de nos matar. Pelo fim do genocídio negro. MMNSP Marcha das Mulhers Negras”. Vi uma bandeira da EDUCAFRO, outra da UBES. Vi uma camisa do Santos FC, uma camiseta “Donga, Candeia, Noel, Cartola”, outra “MNU 40 anos”, e “Lutar Sempre, Temer Jamais”. Vi o cartaz “Pacote do Moro: + mortos, + impunidade”.

Chegou J e conversamos.

Eram 15h:30 quando o povo tomou a avenida para sair em passeata. Estimei umas 600 pessoas. Mas um grupo ficou na frente do Extra e chamava as pessoas para entrar no mercado. Acabou que parte do povo voltou e conseguiram entrar no estacionamento. Foram até as portas cerradas do mercado e ali fizeram uma concentração. A maior parte entrou, mas uns 100 manifestantes ficaram de fora.

A tensão aumentou imediatamente, e os PMs voltaram para conversar, mas tiveram dificuldade.

O povo: “Não acabou, tem que acabar, eu quero o fim da polícia militar!” e “Que hipocrisia, a PM mata negro todo dia!”.

Uma família brigou com uma manifestante, depois de chamá-la de “vagabunda”. Deu para ver que a tarefa de sensibilização da sociedade como um todo é tarefa hercúlea.

Rolava o batuque na frente do mercado, e vários manifestantes se deitaram no chão, simulando corpos mortos. Fizeram um jogral e algumas outras falas.”Estamos aqui, o movimento negro, o movimento feminista, o movimento estudantil e todos aqueles que estão revoltados com o assassinato”; “Lutamos por um Brasil e por um mundo com dignidade e sem violência”.

Enquanto rolavam as falas, duas senhorinhas, brancas, me perguntaram se dava para sair com o carro, que estava estacionado bem na nossa frente, no meio do povo. Aconselhei-as a esperar e elas se conformaram. Achei que elas iam crescer na raiva, mas acabaram por aplaudir algumas falas. Elas sabiam da morte de Gonzaga e compreenderam a revolta ali.

“Se a ordem é matar, o povo negro vai lutar!”

Vi os cartazes “Nós somos os negros que vocês ainda não conseguiram matar”, outro “Vidas Negras importam. Bolsonaro e Moro responsáveis – Quilombo Vermelho MRT” e “Extrangulamento mata”. Vi uma camiseta “Reforma da Previdência é golpe”, outra “Ele Não”, uma camisa do Juventus, e um moço que vestia uma saia.

Depois de uma meia hora o povo começar a escorrer em direção à avenida Brigadeiro para reiniciar a passeata para a Paulista.

A polícia a esta altura tinha recebido reforços e estava nervosa. Vi três atiradores, dentre eles uma mulher de capacete, irada. Quatro motocicletas e 6 viaturas completavam o policiamento, num total de uns 14 PMs à vista.

De repente, a PM deu um enquadro num jovem – depois vi que era o Douglas Belchior! Ele estava lá conosco e foi detido com “vamos indiciar você!”. O povo logo acorreu e umas 150 pessoas foram pressionar a PM. A polícia se eriçou e ficou beligerante. Acabaram por soltar o Belchior, e o povo foi se afastando sob o olhar hostil da PM. Pelo menos um soldado já tinha bomba na mão, e um atirador mirou acintosamente nas pessoas – apontando à altura dos olhos. Apesar disso, a multidão recuou lentamente e se posicionou para a passeata.

Saímos e ganhamos a esquina da rua São Carlos do Pinhal e logo depois a avenida Paulista. Parte do povo ficou, mas a maioria seguiu, umas 500 pessoas.

Às 16h:15, a avenida ainda estava cheia de transeuntes e também dos músicos e mágicos que se apresentam nas calçadas. A presença da passeata na avenida era boa, cantando:

“Povo negro unido, é povo unido forte, que não teme a luta, que não teme a morte”

“Marielle perguntou, eu também vou perguntar, quantos mais têm que morrer, pra esta guerra acabar?”.

Alguns artistas locais saudaram a passagem do ato. Três caveiras mexicanas, jovens artistas, se intimidaram um pouco e não falaram nada. Mas uma cantora parece ter oferecido o microfone para o movimento. Assim, as falas de encerramento foram ouvidas em bom som.

“Estamos na luta e dela não sairemos, pois queremos um Brasil onde nossas mães negras não precisem temer nossas mortes”.

Notei que um par de “estátuas humanas” estavam bem perto e ouviam tudo: uma bruxa e uma Morte, de foice e tudo. A Morte se ligou na manifestação e interagia com as falas, mas a bruxa não.

O ato foi fechado e a moça que cedera o microfone ofertou uma canção. Ela cantou “Maria Maria”, do Milton. Achei simpático, até lembrei quando esta canção ganhou a voz das multidões logo que foi lançada nos anos 1980, e era emocionante então. Mas lembrei também do comentário que ouvi durante a campanha de 2018: “O Chico Buarque da esquerda hoje é… o Chico Buarque!”.

Eram 16h:30 quando caminhei em direção ao Paraíso. Notei que o moço hipnotista que vejo sempre nas calçadas de domingo, tinha hoje um público de umas 50 pessoas.

Não fiquei para olhar, caminhei e fui para casa.

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