Diário: ato sindical unificado contra a reforma da Previdência

O ato foi uma prévia das lutas laboristas vindouras. Moderadamente cheia, a manifestação sinalizou tanto promessa quanto crise.

22 de março 2019

Desci do metrô na estação Trianon-MASP para ir ao ato chamado por todas as centrais sindicais contra a reforma do governo. Era sexta-feira.

Logo depois da catraca vi que um dos seguranças tinha um adesivo vermelho da campanha no peito, o que achei notável.

Eram 18h e a avenida estava fechada nas duas vias, e estava mais cheio do que eu previra. Estimei umas 30 mil pessoas, mas os organizadores contaram 60 mil.

Não esperava muito da manifestação, cujo único ponto parece ser reunir o maior número de pessoas possível, pois o resto parecia tudo igual: carro de som, discursos de liderança, muito cartaz e bandeira impressos.

Mas logo de cara vi um figura com uma bandeira “Partido do Ócio Popular”. Conversei um pouco com ele, e ele defendeu a extinção do trabalho como pauta de luta. Falou que todo cidadão tem direito ao ócio e que para escolher governante o melhor é sorteio em vez de eleições. Não fiquei muito com ele, mas parabenizei-o pela pauta e saí achando que meus sonhos tinham sido realizados: a militância sindical agora estava em plena efervescência conceitual e discutia até mesmo a noção de trabalho. Certamente estariam a levar essas novas ideias para as estruturas sindicais e a tensionar para cima a partir da base.

Rolou que não foi assim. O ato como um todo foi bem tradicional. Deu certa alegria ver um bom ato sindical cheio, todas as centrais juntas, na rua unidas nesse momento de muitas incertezas. Mas nada muito novo para quem busca erupções no presente que apontem os futuros.

Conversei dias depois com duas pessoas que estiveram no ato também, e uma (trotskista) achou ótimo, a outra (uma jurista sindicalista) achou desanimado.

Dei um giro e comecei a rodada arqueológica de anotar bandeiras e faixas presentes. Tenho a convicção de que num futuro próximo será de enorme interesse saber as palavras de ordem e faixas que fizeram determinados momentos políticos. Tudo isso desaparece sem deixar traço, então procuro anotar o que posso.

Logo vi os balões dos sindicatos e centrais, que enchem o ar e fazem os atos crescerem em estatura: APEOESP, CUT, Força Sindical, SINPRO, CNTE, Intersindical, APROFEM, CMN-CUT, Sindicato dos Químicos, FETQUIM, Bancários de São Paulo, NCST.

Vi muitos aventais vermelhos da CUT, muitas camisetas Lula Livre, alguns bonés do MST.

Vi a faixa “APOS. Estamos juntos com a Educação e os professore de Osasco”.

Vi as bandeiras do PCB, PCdoB, da SEDIN “Frente de Mulheres. Dilma”, “Luta Educadora. Em defesa da educação Púbica”, uma bandeira do Brasil nos ombros da manifestante. E os estandartes “Juventude Revolução do PT”, “MPJ em Disparada” e o estandarte laranja do RUA.

Achei que tinha um bom equilíbrio de gênero, talvez causado pela presença massiva de professoras e funcionárias municipais.

Os oradores se repetiam muito e acabei por deixar de ouvir o que diziam. Mas ficou marcada a disposição de fazer uma greve geral, o que pode vir em um momento político interessante.

Andei para baixo do vão do Museu e observei o povo por lá.

Vi bandeiras do PT, PDT, CUT, CMP, GOI, LGBT, Brasil, PSTU, CSP-CONLUTAS, SINPEEM, “União Nacional da Moradia Popular”, “FSM Federação Sindical Mundial”, Intersindical, EDUCAFRO, Unidade Classista, ADUSP, “Justiça por Marielle. PSOL”, UNEAFRO, uma bandeira do Brasil com rosto de Bolsonaro riscada com um X, “Socialismo ou Barbárie. PSOL”, UJC, UPES, PCdoB, PCB, LPJ, UJR, Combate Sindical, FENET, MDM, “Coletivo de Mulheres Olga Benário”.

Uma professora colou em mim quando me viu de caderninho. Ela reclamou muito da APEOESP e pedia “escreve aí no seu blog”. Tentei entender qual era a queixa, mas não estou seguro que tenha compreendido. Falava de algum repasse conquistado que o sindicato não fazia chegar aos professores. Falei que muitos amigos meus professores reclamam bastante da APEOESP, que acaba sendo linha auxiliar do PT e não consegue atender aos reclamos de suas bases.

Caminhei mais e notei que tinha sim algumas bandeiras de grupos de oposição sindical. Mas no total a comunicação era muito controlada – só um grupo de anarquistas, como relatarei a seguir, tensionou o formato.

O contraste das manifestações sindicais com outros movimentos é muito grande. A recente mobilização das mulheres por Marielle na mesma avenida Paulista, foi muito mais interessante: música, poesia, batuques e muita alegria.

Não se trata de impor o “festivo” ao movimento, mas o carro de som privilegia a fala da direção e não multiplica as vozes. O som alto oprime quem está em baixo no asfalto. Vi muita gente de dedo no ouvido.

O movimento negro frequentemente traz para seus atos públicos o slam, que é aquela fala poética cadenciada. A mensagem ganha em clareza e atração, quem ouve quer ouvir mais. Mas o discurso sindical clássico, gritado, dá a sensação de urgência e engajamento, mas espanta quem ouve e não é militante.

Vi um adesivo “Livros Sim! Armas Não!”

E ainda os cartazes “Trabalhar até morrer ou Morrer de Trabalhar?”, “Não À Reforma da Previdência. Ação Petista”.

Vi a companheira E, os fotógrafos L e R. O MTST estava lá em peso.

Vi os estandartes do RUA, Ocupação Chico Mendes, Ocupação Portal do Povo, um estandarte florido “Pelo Direito de Ter Direito”, “Linhas de Sampa. Nenhum direito a menos”.

Vi as camisetas da UEE, “Girls Support Girls”, “Marielle Vive”, “Lute como uma garota”, Brigadas Populares, “Sou Lula, Sou PT”, camisa do Palmeiras, Juventus, Black Panther Party.

Tinha um pixulecão do Bolsonaro Diabo. Vi um grupo de moços e moça do POEMA (Política Econômica da Maioria)

Vi dois bonecões representando dois cientistas brasileiros: uma mulher negra e um senhor. O companheiro A já me falou quem são, mas esqueci seus nomes.

Vi um senhorzinho de camisa vermelha que carregava um cartaz “Tarifa Zero”, uma famosa pauta do MPL. Mas atrás do cartaz, “Lula Livre”. Não era bem essa a síntese da velha e nova esquerdas que eu tenho sempre em mente.

Ouvi falar o Boulos, que se destacou pela boa intervenção.

Parece que a ideia é realizar uma Greve Geral em breve.

Vi as faixas “Contra a Reforma da Previdência. Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito. ‘Ai daqueles que fazem leis injustas, que escrevem decretos opressores, para privar os pobres dos seus direitos e da justiça os oprimidos do meu povo, fazendo das viúvas sua presa e roubando dos órfãos!’ Isaías 10, 1-21”, “Não à Intervenção”, “Justiça por Marielle. Mulheres à Frente contra o Golpismo e a Extrema-Direita. MRT Pão e Rosas”, “MTST Rosa Luxemburgo. ‘Quem não se movimenta, não sente as correntes que o prendem’, o faixão gigante do MTST no chão. “CUT e CTB: os professores mostram como fazer! Chega de trégua, por uma paralisação nacional contra a reforma da Previdência de Bolsonaro. MRT. Esquerda Diário”.

Encontrei uma moça autonomista que sempre vejo em manifestações, mas cujo nome não consigo reter. Ela é professora e perguntou como eu estava lidando com a situação toda do país. Confessei que está difícil manter o ânimo, e que certo grau de depressão não vai embora. Ela disse que também estava em um processo parecido e que muitos amigos dela também.

Anotei as faixas “Quinze de Outubro. Educadoras e educadores”, “Desmonte sai, aposentadoria fica. Bancários do ABC”, “Professores e professoras sem medo de lutar. Povo Sem Medo. SINPRO Guarulhos, “Não à Reforma da Previdência. Construir a Greve Geral. PSTU”, “Bolsonaro tire as mãos da nossa aposentadoria. JUNTOS!”, “A juventude não abre mão. Aposentar é um direito. RUA”, “UGT”,

Notei algumas bandeiras vermelho e negras e me aproximei. Era um grupo de coletivos anarquistas com suas faixas e bandeiras:

“Refugees Welcome” trazia uma faixa, com o brasão do Corinthians. Tinha várias bandeiras roxas e negras, e uma toda negra com o A anarquista, ainda do “Coletivo Democracia Corithiana”, “Coringão Antifa” e “Ação Antifascista -SP”. Uma moça vestia uma camiseta “Sem ideia com fascista”, isto é, ‘não converso com fascista’.

Gosto quando eles estão presentes em atos sindicais, pois isso permite o autorreconhecimento da luta dos trabalhadores em suas várias vertentes, fazendo relembrar aos gradualistas que a tradição revolucionária continua viva.

Mas a convivência dos sindicalistas socialistas e partidos marxistas com anarquistas e autonomistas não é sempre tranquila. Estes têm muita impaciência com a articulação partido/sindicato, e com a presente atuação das centrais hegemônicas.

Acompanhei quando eles saíram de trás do Museu e foram para a frente da Justiça Federal, ainda na avenida. Eram umas 20h15. De lá, faixas em punho e cantando palavras de ordem, penetraram a manifestação, e aos poucos buscavam uma posição em frente ao carro de som:

“Greve geral não é palanque eleitoral”

“Chega de falar, é hora de lutar”

“Pela vida e pela paz, militares nunca mais”

“É barricada, greve geral, é ação direta que derruba o capital”

“1,2,3,4,5 mil lugar de fascista é na ponta do fuzil”

“Autogestão, sem estado nem patrão”

Parte dos manifestantes ficou meio ressabiada, especialmente, achei, alguns grupamentos comunistas. Mas vi uma moça com camiseta vermelha Lula Livre vibrar, dizendo “olha, eu também sou Black Bloc”.

De fato, uma das faixas trazia:

“Black Bloc em defesa do povo, violento é o Estado”, “É melhor Jair se acostumando com a gente! Somos antifa” e “Somos todos antifascistas”

Não dá para dizer que os manifestantes em geral aplaudiram e apoiaram, mas eu esperava mais hostilidade.

Iam penetrando a massa com suas faixas. O Corinthians presente de várias formas entre eles. Uma das faixas trazia “O Corinthians é o time do povo, e o povo é quem vai fazer o time. Miguel Battaglia”. Já outra “Somos grandes como o oceano, mas nunca pacíficos”.

Eram umas 50 ou 100 pessoas.

Já perto do carro de som, um orador usou o microfone para dizer “Não vamos aceitar provocações. Já vamos encerrar o ato e não dê atenção à provocação”, referindo-se aos anarquistas.

Chegaram afinal na frente do carro, bem em frente às caixas de som, uma zona de esmagamento auditivo. Mas permaneceram e gritaram algumas palavras de ordem, de faixa estendida.

Foi tudo.

Uma moça da segurança da CUT veio pedir que descobrissem o rosto.

Esse é um ponto muito delicado. Agora é crime cobrir o rosto em manifestação, e a definição de ato terrorista inclui qualquer depredação de propriedade, pública ou privada. Se uma manifestação for declarada terrorista, todos os participantes no asfalto, todos aqueles que postaram chamadas em suas páginas do facebook, todas as organizações que chamaram o ato, todos eles são declarados cúmplices de terrorismo. A pena é de 15 a 30 anos de prisão.

A ação direta individual e espontânea é orgânica ao anarquismo. Vai ser preciso muita conversa para acertar convivência nas ruas com esquerdas que não aceitam a ação direta. Ou então cada um segue separado. O risco é muito grande.

O ato foi encerrado e parti em direção à estação Consolação do metrô.

No caminho, vi que a PM já varria os camelôs do asfalto com alguma hostilidade. Mais à frente, um grupo de uns 50 anarquistas caminhavam pela rua em busca de seu transporte. Quinze motocicletas da PM hostilizaram e tensionaram, mas desistiram e saíram fora. A galera não perdoou e gritou: “Doutor, eu não me engano, o Bolsonaro é miliciano!”

Eram 20h40 quando entrei na estação, tomei o trem e fui para casa.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos

Leia Também:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *