Diário: Marcha Mundial das Mulheres 2019

O dia 8 de março trouxe novamente as mulheres para as ruas. No embalo do carnaval e da projeção da figura de Marielle, a Marcha saiu com suas pautas à vista da cidade.

Fotografias: Alice Vergueiro

8 de março – Mulheres na Paulista e no mundo

Saí da estação Trianon-MASP do metrô para a Marcha Mundial das Mulheres, marcada para o MASP.

Ainda no metrô, vi jovens mulheres de purpurina no rosto, uma camiseta “Não aperte minha mente”. Fiquei feliz que ia encher.

A avenida Paulista já estava fechada a partir da Itapeva. O povo ocupava uma das vias da Paulista e de longe vi balões de centrais sindicais: APEOESP e CNTE. Tinha carro de som grande e já tinha oradora discursando. Vi de cara uma bandeira da Palestina e outras do PSTU e PSOL.

Em Marchas de anos anteriores, atentei para certa separação entre mulheres autonomistas e mulheres institucionais (PT e PCdoB). São duas correntes importantes que nem sempre convergem. As institucionais no geral acolhem pautas partidárias e as colocam no movimento. As autonomistas no geral se ressentem disso e preferem pautas mais claramente anticapitalistas e estão mais abertas a formatos que não seja a relação clássica entre movimento e partido.

De cara, na chegada, achei que a presença institucional estava mais forte, na forma de muitas bandeiras, balões e falas sindicais. A pauta da Previdência, se urgente e da luta, não era necessariamente a mais prioritária no movimento de mulheres.

Abri-me ao lugar e tentei ler o entorno.

As falas eram combativas e sempre de mulheres, mas a retórica era a sindical clássica: muita gritaria, palavras de ordem e chavões. Combativo mas não festivo.

De saída anotei duas camisetas que eram variações do hoje consolidado “Lute como uma garota”, que se vê em muitos lugares. As camisetas traziam “Pedale como uma garota” e outra “Escreva como uma garota” e a atualíssima “Lute como Marielle”. Lembrei de um vídeo onde uma moça miúda dá uns golpes no segurança homem grandão do metrô, em alguma estação do metrô de São Paulo. A legenda era exatamente “Lute como uma garota”.

Notei que o formato estandarte era muito mobilizado, dando um ar de carnaval tropical ao ato. Lembrei que na Inglaterra, os sindicatos ainda desfilam com grandes estandartes, na tradição das corporações de ofício, inclusive com fanfarras de metais.

Sem muita surpresa, a imagem de Marielle aparecia muito em inúmeras superfícies: camisetas, cartazes, faixas, balões, lenços…

Nem sou super fã do carnaval, mas ali na avenida, deu para sentir a força da presença de Marielle, multiplicada pelo desfile da Mangueira. A escola de samba carioca deu à figura de Marielle expressão nacional, popular, antibolsonaro, de festa e de luta. Aquela marcha conseguia se posicionar claramente no esteio do clamor da avenida carnavalesca: mais um desfile, mais uma manifestação com Marielle, mais um instância de luta.

Vi o estandarte do “Pompéia Sem Medo e Sem Vergonha”, “Fascismo Nunca. Casa Pessoa” e “Porcomunas. Lula Livre. Respeita as Minas”, “Mulheres, resistência e luta”. Vi as bandeiras da Unidade Classista, do MST, da Marcha Mundial das Mulheres, do Movimento dos Atingidos por Barragens, do Levante Popular da Juventude, da Articulação Brasileira de Mulheres”, e outro “Agriculturas Paulistanas. Agroecologia e democracia”. Muitos cartazes: “Troco flores por valorização profissional” (referência à ministra Damares, que declarara que era preciso “ensinar aos meninos a trazer flores para as meninas”), e “Ela gosta de flores mas prefere respeito”, “Vim pela minha filha que ainda não existe”, “A Psicologia pelo fim da violência contra as mulheres”, “Juntas somo mais fortes”.

Vi o batuque do coletivo Pão e Rosas.

Já as faixas que vi inicialmente traziam “Estudantes e professores contra a SAMPREV e os ataques do governo Bolsonaro. Coletivo Bertha Luz. CAPPF-FEUSP”, “MTST 164 mulheres são estuopradas a cada dia no Brasil – nenhuma mereceu”.

Vi o Gianazzi fazendo fotos com manifestantes, vi várias máscaras de papel com o Lula, e a chamada “Lula Livre” era muito puxada pelas oradoras do carro.

Até então, achei surpreendente que o ato fosse tão abertamente petista. Evidente que a pauta Lula é importante, mas tem forte caráter partidário… Achei que de alguma forma o partido e as centrais sindicais apostaram no movimento como uma frente antibolsonaro e quiseram, digamos, participar.

Tentei achar E, com quem tinha marcado, mas não consegui chegar no local combinado: muita gente!

Tentei então localizar as autonomistas, que certamente estariam em algum lugar lá – talvez longe do carro de som, cujas falas eram cansativas.

No caminho, notei que tinha cartaz impresso, mas predominava a comunicação feita à mão. Vi uma bandeira do POR 4 (Partido Operário Revolucionário), outra do CONAM. PCdoB, PCB, UNE.

A faixa que depois abriu a manifestação trazia “8 de março 2019. Mulheres contra Bolsonaro. Vivas por Marielle. Em defesa da Previdência, da democracia e por direitos”. Outras faixas: “Vidas negras importam. Pelo fim do genocídio negro. MMNSP”, “Mulheres contra Bolsonaro. Por Marielle, por direitos, por democracia. AFRONTE!”, “Lula Livre. Tirem as mãos da Previdência. Ação Petista”, “Sapatonas Livres, Fortes e Unidas”.

Ainda tentando chegar no vão do Museu, vi o fotógrafo S. Notei também que havia uma barraca no meio do povo embaixo do Museu: um sem-teto tinha feito seu lar provisório lá e pelo jeito estava fechado lá dentro!

As falas continuavam, meio intercambiáveis, onde a Previdência figurava muito: deixei de prestar atenção.

Achei as bandeiras negras e roxas ao lado de outras negras e vermelhas. Toda a gente estava muito junta, mas achei que tinha umas 200 pessoas no entorno dessas bandeiras. Vi também as bandeiras “Resistência Antifascista”, “Ação Antifascista São Paulo” e “Bueiro Periférico”. Vi camisetas com “FeminiVegan. Coletivo Vegan Feminista Abolicionista”.

Achei que estava bem cheio e não parava de chegar gente. O clima geral era de carnaval e festa, ainda que os rostos no geral pareciam guardar certa solenidade.

GM me achou e demos um giro juntos pelo ato. Observamos uma roda de capoeira, no asfalto, animada ao som de berimbaus. Encontramos AT. Seguimos para a frente do ato e percebemos que a passeata saía naquele momento. Buscamos ficar bem na frente para evitar o amasso.

O povo pressionava a outra via da Paulista, que estava cheia de carros. O carro de som pedia que não ocupássemos o outro lado da avenida, mas um grupo estava determinado a fazer exatamente isso. A PM e a CET meio que tentavam empurrar o povo de volta à via que leva à Consolação, mas não conseguiu: teve que redirecionar o trânsito. Alguns motoristas reclamavam, mas outros celebravam.

Neste dia, exasperado com o governo Bolsonaro, eu achei que era isso mesmo. Tinha mais é que ocupar tudo e retomar o país na unha. Pois, depois dos vídeos escatológicos postados pelo presidente, ficou claro que o Brasil esta à deriva, sem rumo e sem timoneiro, sem governo nem oposição institucional.

A passeata era puxada pelo Ilú Obá di Min, que são muito poderosas: forte percussão e danças afros, muito bonito naquele fim de dia.

Anotei muito cartaz: “Católicas em luta por uma vida sem violência”, “Não somos histéricas, somos históricas”, “Contra o ódio conservador, a Revolução feminista!”, “Respeita as mina!”, “Quem mandou matar Marielle?”, “Mulheres de Franca em luta”, “Não quero flor, parem de nos matar!”, “O estupro veio antes da mini-saia!”, “Homofobia é crime”, “Bruxa, curandeira, feminista”, “Essa revolução não tem volta”.

Ouvi um grupo de mulheres cantar o Bella Ciao, em português.

Vi as bandeiras do CSP-CONLUTAS, do Unidade Popular pelo Socialismo (UP), “Dilma Fica”, “SINASEFE”, Sindicato dos Bancários de São Paulo. Vi os estandartes “Movimento de Mulheres Olga Benário”, “Coletivo Feminista Yabá”, “Obstetrizes em luta. USP Leste”, “Futuras Parteiras pelo Direito ao Corpo”, “Basta de Lesbofobia e Transfobia. 8M Greve Internacional” e “Mulheres Negras Seguem Lutando”.

Vi as moças do batuque de latas.

Chegamos à esquina da rua Augusta e notamos que a rabeira ainda não tinha deixado o MASP. Tentei estimar o número de pessoas, e chutei 20 mil. Mas depois subi o número para umas 30 mil, tinha muitos corpos lá. Talvez mais do que 30. Eram 18h30.

Gosto da rua Augusta, e achei ótimo que a passeata descesse a rua: ela é menor e mais acolhedora do que a avenida Consolação, que também dá acesso à Praça Roosevelt, destino da passeata. Acho a Consolação escura, vazia e de triste memória: já vi muita violência policial lá. Já a Augusta tem morador na janela, os estudantes nas universidades, os consumidores nos bares, as academias de ginástica e tatuadores mal-encarados nas calçadas. O som reverbera de maneira muito mais potente (“Ele não, ele nunca, ele jamais!”).

GM se despediu e segui com o ato. Passei por uma faixa grande, mas no exato formato e cores da placa de rua que homenageia Marielle. Estava afixada numa grade do Bradesco, bem visível. Era bonito e foi muito fotografada.

Outros gritos e chamadas: “Ei Bolsonaro, seu fascistinha, a mulherada vai botar você na linha!”, a clássica dos loucos Anos Temer “Nem recatada, nem é do lar, a mulherada está na rua pra lutar!”

Vi os fotógrafos L e A. Buscavam chamar a atenção de um homem à janela, provavelmente para pedir para subir ao seu andar e realizar fotos. Mas ele não largou do seu celular e não ouviu nada.

Vi passar J, que me cumprimentou. L me parou e saudou. Não reconheci-a de pronto, mas perguntei de E. Uma moça cuspia fogo à frente do ato, ao som dos poderosos tambores.

Vi as bandeiras do Pão e Rosas-MRT, do SINTRAJUS. Ouvi as palavras de ordem “Se tem violência contra a mulher, a gente mete a colher” e “Não acabou, tem que acabar, eu quero o fim da polícia militar!”, e “Alerta, alerta, alerta aos machistas: a América Latina erá toda feminista!”.

Anotei mais cartazes: “Mulheres indígenas contra Bolsonaro”, “Lutamos contra o patriarcado, mas também contra Bolsonaro. TLS”. “Prefeito inimigo dos servidores e do povo”, “Mulher, divino luxo”, “Contra o fascismo, contra o capitalismo, trabalhadora vai fazer greve geral”

Vi duas máscaras de papel, ambas com chifrinho de diabo: Covas e Bolsonaro.

Mais faixas: “Pela vida das mulheres. 8M Unir trabalhadoras. CSP-CONLUTAS contra a violência e a reforma da Previdência. Mulheres em Luta”, “SINDSEF-SP na luta contra o machismo”, “Organizar as mulheres cá embaixo para que não haja nenhuma a menos. Luta popular Levanta a Voz da Greve. Pela vida das mulheres”, “Periferia contra o Bozo. #elenao”,

Brinquei de ver as reações das pessoas nas calçadas e adivinhar suas posições políticas. Quase todos filmavam, e por vezes festejavam. Mas muito homem de cara fechada, especialmente no Baixo Augusta.

Fiquei muito feliz de estar na rua, sendo visto e notado pelas pessoas nos prédios e calçadas. Ser visto fazendo a resistência nesse momento é crucial.

Outros gritos e chamadas: a clássica dos loucos Anos Temer “Nem recatada,nem é do lar, a mulherada está na rua pra lutar!”, e também “Ô Bolsonaro, vai tomar polícia, pois no cu, eu garanto, é uma delícia!”

Notei com alegria que a bolinha de luz, projetada a partir de uma lanterna, da rua, voltou!

Notei também um daqueles lambe-ĺambes gigantes, recortados, com a figura de Pelé. De costas para o observador, aparece o corpo do jogador e o rosto daquele que é abraçado. Nesse caso, era o Freddy Mercury.

Subi num canteiro lateral para observar toda a passeata passar. Fiquei uma meia hora e só passava gente! Passou H e M na bicicleta, saudamo-nos e eles seguiram.

Aproveitei o fluxo e anotei mais mensagens: os cartazes “Meu útero é laico”, “Meu corpo é político”, “Coletivo Leolinda Daltro”, “De novo a pátria me traiu, sirvo de cadela no cio”, “Na luta a gente se encontra”.

Vi P Pelbart, um pensador deleuziano.

Vi as bandeiras LGBT, uma da UJS, uma do MDM e outra do Brasil, aos ombros. Vi uma camiseta “Manu Haddad”, outra da LSR, e também o estandarte “Cambuci e Vila Mariana Sem Medo”.

Uma chamada que foi também marchinha de carnaval animava o povo: “Doutor, eu não me engano, Bolsonaro é miliciano!”. Ainda: “Ô Bolsonaro, vai se fuder, a mulherada não precisa de você!”.

Não fiquei para esperar passar a última manifestante e busquei dobrar à esquerda na Caio Prado, junto com o povo, o que me levou à avenida Consolação na altura da Maria Antonia. Uma projeção na empena do prédio ao lado do posto de gasolina trazia “Lula Livre”.

Vi as faixas “Bloco LGBT. Visibilidade, Respeito”, “Mulheres indígenas, lutar é resistir”. Senti o cheiro forte do tabaco fumado pelos indígenas. Mais “Legalize. O corpo é nosso, é nossa escolha”, “Quem mandou matar Marielle?”, “Não tem prova, não tem crime, Lula Livre”, uma florida das artesãs, “Estudantes em resistência. UNE UBES UEE UPES”.

Vi o estandarte “Ele Não. AFRONTE”.

Vi as meninas do Levante Popular da Juventude fazer uma coreô: agachadas, ia sussurrando até gritar “A mulherada é revolução, a mulherada é revolução!”, levantado e pulando no asfalto.

Vi uma camiseta com o rosto de Che Guevara, e outra do PCO.

Vi os cartazes “Somos as avós das bruxas que virão”, “Nenhuma mulher é ilegal”, “A Previdência fal mal ao Brasil”, “Lute como uma professora”, “Brown Shower”. “Aborto legal e seguro”, “Não estamos todas aqui: faltam as mortas”, “Bolsonaro, nossa luta é todo o dia!”.

O povo já ia parando na avenida Consolação e tinha uma multidão em frente à Praça Roosevelt. O clima era de festa, a noite amena e agora já sem luz solar. A escadaria cheia e a via toda ocupada.

A certa altura, umas moças de pernas de pau apareceram e foram para o meio do povo, acompanhadas de uma fanfarra! Traziam o seu estandarte iluminado por luzinhas LED: “Obscênicas”. As mulheres vibraram e a festa começou, ao som da antiga e deliciosa marchinha “Ó abre alas!”.

Eram 20h30 e eu estava exausto e decidi sair fora. Fiquei muito feliz com a movimentação das mulheres e revi meu cinismo com o carnaval – o desfile da Mangueira manteve Marielle no imaginário e nos corações das pessoas.

Busquei a estação República do metrô e fui para casa.

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