Dia do Trabalho: crônica de dois atos no centro de São Paulo

O 1 de Maio de 2019. Um giro pela cidade com duas manifestações: uma unificada sindicalista e outra autonomista. Reflexões do estado atual da luta.

Desci a pé pela Liberdade até a praça da Sé para checar as manifestações do Primeiro de Maio. O ato principal foi marcado para o Vale do Anhangabaú. A novidade deste ano é a unidade sindical: todas as centrais estão juntas contra a reforma da Previdência, e assim chamaram ato unificado. Tinha também um ato autonomista marcado para hoje, como têm feito em anos passados.

Aproveitei para dar uma olhada dentro da catedral. São Paulo é tão carente de espaços públicos de repouso que muitas vezes busco a catedral para sentar e descansar: sempre há muitos lugares vazios e é mais fresco do que a rua.

Havia uma missa em curso, em homenagem à Nossa Senhora de Fátima.

Entrando por uma porta lateral, reparei dois homens da rua sentados ao pé da grade. Reparei também no segurança, um jovem negro, de terno preto. Ele assistia a missa dentro da catedral e não viu um dos homens da rua, algo infeliz mas não violento, entrar na catedral e gritar com o rebanho, que respondia ao padre oficiante: “Viva Nossa Senhora de Fátima”. O segurança acendeu e foi empurrando o homem de volta à rua.

Pensei que essa política de segurança é contrária ao “Vinde a mim” universalista da religião cristã- e se esse sem-teto for jesus na sua segunda vinda?

Notei também que o segurança, antes de agir contra o moço, falou em seu comunicador eletrônico, que trazia ao ombro, em gesto rápido e sussurrado, quase uma prece urgente.

Eu teria esquecido o ocorrido se não fosse outra cena semelhante na entrada principal, quando eu saí: um jovem negro também da rua, desta vez articulado e confiante, de boné, bermuda e havaianas, desafiava outro segurança que também o impedia de entrar. “Não vou sair, aqui é uma igreja. Pode ir chamar o outro segurança, eu não vou sair”.

Acabou que ele ficou um pouco mais e saiu, tendo o segurança ido chamar seus colegas.

Saí para a praça e segui pela rua Direita em direção à praça do Patriarca. Deu para notar intensa atividade da GCM, a guarda municipal. Motocicletas e policiais a pé circulavam acintosamente. Soube depois que era uma ação de repressão aos ambulantes.

Na Patriarca, já dava para ouvir o som dos discursos na Vale, mas não se entendia ainda as palavras.

Parei e escutei o som reverberando pelo centro da cidade. O som gritado do discurso sindicalista clássico, cheio de urgência, se fazia ouvir como que distorcido por um osciloscópio malucão que lançava ondas sonoras de grande textura mas de nenhum significado textual.

Desci a rua Líbero Badaró até a altura da avenida São João para conseguir ingressar no Vale. Tinha seguranças e cercamento. Entrei e dei um giro.

O palco estava montado junto ao Viaduto do Chá, e muitas barracas pontuavam o espaço: do PCO, da CUT, SINTRAJUD, PSOL e outras organizações. Logo vi camisetas “Lula livre”, do Povo Sem Medo, do MTSC, da JUC, da Intersindical, aventais da CUT e da CTB.

Vi o pessoal do Coletivo Democracia Corinthiana, com sua faixa e bandeiras. Vi bandeiras “Dilma Fica”, do MST, uma LGBT, outra da Marcha Mundial das Mulheres, UJB, PDT, Unidade Popular, e outra de uma nação africana que não consegui identificar. Vi o estandarte do RUA.

Os já clássicos balões estavam no ar: CTB, CUT, Intersindical, CGTB, PSOL, PDT, SIMPEE, APEOESP, CSB, SINPRO-SP, CNTE, Sindicato dos Metalúrgicos, um pixuleco do Bolsonaro que trazia uma faixa presidencial onde se lia “Laranjal do PSL”.

Achei o perfil geral bem militante: homens e mulheres de 30-40 anos, alguns jovens de 20-30, quase todos uniformizados ou com as cores de sua agremiação.

Fiquei um pouco desanimado: tinha pouca gente, considerando a urgência das pautas sociais do momento atual. A audiência parecia ser toda militante – valente, dedicada, mas sem alegria. Os discursos das lideranças eram no máximo corretos, e nenhuma entonação conseguia passar fogo mobilizatório. Mesmo quando um locutor puxou a chamada campeã do carnaval 2019 (“Ei Bolsonaro, vai tomar no cu”), o povo respondeu brandamente.

Quem resumiu o dia foi a fotógrafa A, que encontrei no meio do povo. Ela disse: “não consigo fazer uma foto com vida. Só vejo gente escorada no mastro da bandeira, tudo corpo duro”.

Beth Carvalho foi lembrada.

Vi de novo aquele senhorzinho que traz um cartaz preso a um cabo de madeira. De um lado, “Tarifa Zero”, do outro, “Lula Livre”. Foi o mais próximo que eu vi da uma convergência da “nova esquerda” com a “velha esquerda”.

Anotei as faixas “”Lula Livre”, “Parido Comunista Operário – PCO”, “POR4 Greve Geral Já. Partido Operário Revolucionário”, “Tirem as mãos de nossa aposentadoria”, “Não à reforma da Previdência. Construir a greve geral. PSTU”, “Contra a reforma da Previdência. Greve Geral. Emancipação Socialista”.

Ouvi o Guilherme Boulos falar, e foi melhor que a média: falou contra a reforma da previdência e lembrou que as reformas recentes (trabalhista e o congelamento das despesas públicas), não lograram crescimento e apenas transferiram riqueza. Ironizou o lema da campanha de Bolsonaro “O Brasil acima de tudo”, citando a submissão do governo aos interesses dos EUA. Chamou a reforma tributária e a greve geral”.

Fernando Haddad falou em seguida. Lembrou a continuidade das políticas econômicas do governo Bolsonaro com as de Temer, e também como, em 2016, dizia-se que “era só tirar a Dilma que o Brasil vai crescer”. Finalizou lembrando do confinamento de Lula.

Vi uma camiseta “Lute como uma professora” e outra “Lutar sempre, Temer jamais”.

Vi várias máscaras com o rosto de Lula. Vi os estandartes “Cores pela Democracia” e “Lula livre. Linhas de Sampa”. Vi aventais da CSB e da ULCM (moradia). Uma bandeira da UNEGRO, do PCD e outra da LSR. Um cartaz “Quero viver após o trabalho. CTB”.

Aliás, vi muitos ‘camelôs de classe média’: gente visivelmente criada fora das classes populares vendendo brigadeiro e outras coisinhas.

Subi à Prefeitura para encontrar E. Almoçamos por perto e fomos à praça da Sé checar o ato autonomista. Eram 15h.

Na escadaria, já estavam alguns manifestantes e as faixas, em tecido negro: “O Corinthians é o time do povo, e é o povo quem vai fazer o time. Miguel Battaglia”, “Não à reforma da Previdência”. Uma terceira faixa eu anotei mal e só consigo ler no caderno as últimas palavras: “o mesmo combate anticapitalista”.

Vi bandeiras negras, a roxo e negra (anarco-feminista), vermelho e negras, e outra com “Bueiro Periférico”.

Achei que a maioria era composta de jovens entre 20 e 30 anos, bom equilíbrio de homens e mulheres. Uma mulher negra chegou com sua filha pequena e uma faixa “Mulher bonita é aquela que luta”.

Mas no geral também achei bem pequeno e desmobilizado, especialmente se comparado a anos anteriores quando eles também saíram desta mesma praça.

Mas ao menos tinha um bem-vindo bafo de imaginação política, digno do Dia do Trabalhador. A faixa que fechava a passeata trazia: “Abolir o trabalho, despedir o patrão!”. Aí sim!

Teve uma mini-assembleia para decidir o trajeto da passeata. Enquanto se discutia, algumas viaturas da polícia chegavam.

Um ciclista de uns 50 anos parou em frente à escadaria e, sem descer de sua bike, ergueu o braço em oração. De olhos fechados atrás dos seus óculos escuros, ficou assim contrito uns 5 minutos. Depois, foi embora.

Vi os fotógrafos A e R, a quem saudamos. Vimos E, R e L.

Vi uma camiseta “St. Pauli”, outra “Coringão Antifa”.

Ainda esperando a passeata sair, eu sentado na escadaria com E, vi ao meu lado três homens conversando. Um deles vestia um boné da central sindical CTB, que lia a bíblia para os outros, explicando o seu significado. Falava de “demônios, mágica e sortilégios”, “anjos poderosos” e da obediência e desobediência a deus. Achei estranho.

O encontro e fusão do cristianismo com a luta social acontece pouco no campo autonomista, mas muito no campo da esquerda socialista. No MTST, por exemplo, tem bastante.

No geral, parece que a igreja cristã é resultado do pacto entre duas facções: Trevas e Luz. Dentro disso, aparecem muito 5 aspectos: revelação, sacrifício, autoridade, fraternidade e amor. Com os três primeiros – Trevas – não tem muita conversa, pois quase sempre descamba para discursos de ira santa, separação entre pecador e virtuoso, exaltação da autoridade, punição ao incréu etc. Já com a igreja do amor e fraternidade dá para conversar, tipo a justiça social como realização do plano divino, o povo como ato da potência do amor de deus e coisas assim. Enfim, são entradas para um diálogo com quem é ateu, como eu. E “deus acima de todos” embute o complemento “e eu sou seu intérprete exclusivo”… por isso graça e autoridade são inseparáveis e propiciam o fanatismo religioso que se apossou de vários ministérios.

Pensando nisso tudo, vi que a passeata se formava para sair. Eu e E acompanhamos. Éramos umas 150 pessoas ao todo.

Palavras de ordem:

“São 30 anos de ditadura, e a repressão ainda continua”

“Ô Bolsonaro, seu fascistinha, a juventude vai botar você na linha!”

“É barricada, greve geral, ação direta que derruba o capital!”

Algumas lojas estavam abertas e o povo distribuía panfletos.

Seguimos pela rua Direita e uma moça que segurava a faixa me reconheceu de outro ato, quando me perguntou o que eu escrevia.

“Ô Bolsonaro, vai se fuder, que o povo não precisa de você!”

“1,2,3,4,5 mil, lugar de fascista é na ponta do fuzil”

E o clássico de toda a esquerda:

“Pisa ligeiro, pisa ligeiro, quem não pode com a formiga não atiça o formigueiro!”

Quando chegamos ao Viaduto do Chá, decidi descer ao Vale e dar uma última olhada no ato sindical. O companheiro E preferiu seguir com os autonomistas e nos despedimos.

Eram 16h e o ato já tinha virado show. Agora tinha mais jovens, e o clima era mais de balada. Não pude deixar de notar que só agora via corpos dançando, as pessoas se entregando a um tipo de abandono emocional propiciado pelas rimas sentimentais.

Insisti no recenseamento que faço sempre e anotei o que faltava : os balões da NCST Nova Central, CSP CONLUTAS, Bancários de São Paulo, SINTRACON Construção CIVIL. Força Sindical, FETQUIM, CNM-CUT, Sindicato dos Químicos.

Vi uma bandeira da Palestina e outra do GOI4, uma do MLB (moradia), PCdoB, PCB.

Vi um estandarte “Nossas Vidas Importam. Lute como Marielle”.

Já estava saindo quando vi 5 freiras de hábito cinza chegando ao Vale. Vinham sorrindo, e uma delas trazia uma bandana à cabeça: “Lula Livre”.

Mas a última imagem que retive foi a de um homem negro, um senhor de terno meio surrado, sacola de plástico numa mão e bandeira do PT na outra. Apesar da dignidade de seu porte, sublinhada pela sua bengala e suave andor, foi alvo da chacota de funcionários municipais de limpeza que aguardavam o fim do ato junto a seus caminhões e vassouras.

Segui a pé pela Líbero Badaró e cheguei na estação São Bento do metrô. Eram quase 16h30. Peguei o trem e fui para casa.

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