Povo Karão-Jaguaribaras quebra o silenciamento

Por três vezes, declararam-no extinto – a última em 1863. Acreditavam que as mulheres não dariam continuidade à etnia. Mas, décadas depois, elas ressurgem; o cacique é mulher, Mãe Ota, e o espírito que as guiam, feminino: Kahañe Kahoo

Imagem: Jornal O Povo

O Povo Karão-Jaguaribaras1 – KJs –, como se autodenominam, foram por três vezes, na história dos invasores brancos, considerados extintos. Delaunay (1988, p.170) afirma com cunho eurocêntrico a extinção dos KJs em 1714. Sua pesquisa – analisa o Nordeste brasileiro do século XVI ao Cangaço nordestino em apenas 193 páginas – traz erros de datação e atores, pois a guerra deu-se 1713 com a união das etnias Jaguaribaras, Annacés e Payacus diferentemente da afirmação do pesquisador cujo afirma ter sido os Canindés. Uma década depois os KJs foram perseguidos e 90 dos seus foram mortos em 1725 (STUDART FILHO, 1931, p. 45-53). Diante dessas mortes, sob a égide do patriarcalismo europeu, acreditou-se que as mulheres não seriam capazes de dar continuidade aos KJs. O episódio, segundo a narrativa pela transmissão oral desse Povo, ratificou-se o que o pensamento judaico-católico eurocêntrico denomina de “matriarcalismo”. A terceira decretação da extinção está no relatório provincial de 1863 (BPGMP, 1858-1864) originado nos acentuados interesses econômicos e políticos em usurpar os espaços políticos das etnias.

Denomino essas afirmações de extinção de malentendus – no sentido francês “mal-intencionados” – os fatos acima diante dos flagrantes histórico-antropológicos. Afirmo por meio das narrativas dos “troncos velhos” dos KJs que este Povo jamais fora extinto e hoje é sabido que novamente há Kalembres no Norte do Estado do Ceará, tendo eu mesma os visitados. Os malentendus são provenientes da mão dominante e manipuladora presente nas concepções e difusão quando descreviam o “ser índio” criando um imaginário sobre os Povos Originários e seus modos de vida, repetidas, mesmo nos dias de hoje, por pessoas com interesses semelhantes aos daquela época.

Uma construção originada desde de 1830 no Ceará – “existe uma ‘única tribo’”2; “[…] cabem dizer a V. Ex.ª que nesta província nenhuma tribo existe m.s no estado selvagem3”. Todavia, os documentos informam a presença dos KJs no Siará desde de 1609 (OLIVEIRA, 1890, p. 121). Tantos outros documentos dão notícias até a década de 20 do século XVIII quando, segundo os KJs, eles decidiram silenciar totalmente.

Assim, diante da história dos KJs e da sua recente quebra de silêncio superando os obstáculos do tempo, o seu quase completo epistemicídio, a tentativa de invisibilidade de sua etnia sob a liderança das mulheres que sobreviveram e das atuais continuadoras das tradições encontramos o Kahañe kahoo e em seus tòas possibilidades de compreender partes que compuseram e compõe esse Povo. As rápidas notas histórico-antropológicas são indeclináveis por ser um Povo nunca antes abordado empírica ou academicamente de forma aprofundada havendo nas parcas citações encontradas ou apenas repetições floreadas dos dados colhidos por cronistas e ou em documentos oficiais dos períodos Colonial e Império.

Sobre os KJs pude, nos documentos, vislumbrar o seu papel largo nos dinâmicos processos políticos entre o século XVII até as primeiras décadas do século XVIII quando decidiram silenciar. Citando apenas um exemplo, registram-se nos textos supra citados “indígenas” como Tapuyas ou “avassalados” ou “selvagens”, mas os Jaguaribaras, mesmo sendo pacificado não serem do tronco Tupi, jamais foram assim, denominados. O tempo que estive com os KJs nos Kalembres e durante um evento de três dias no Sul do Ceará percebi haver um cordel claro e presente unindo-os. Esse guita é a força feminina, o Kahañe Kahoo.

De acordo com as narrativas dos seus “tronco-velhos”, eles vivem, pelo menos desde 1725, sob o que eurocentrismo denomina “sistema matriarcal”, pois as lideranças são e foram as mulheres. Hoje a Cacique desse Povo é “Mãe Ota”. Todas as decisões passam pelo seu crivo e as ações sob sua orientação. Mãe Ota é o espírito líder das Kahañes da sexta geração.

A força do Kahañe kahoo fica mais evidente através da relação de todas e todos no Kalembre com a Kahañe Chiquinha Bara – criança de cinco anos de idade – considerada como o retorno de uma das ancestrais do Povo. A relação entre Mãe Ota e Chiquinha Bara parece-me quase uma simbiose4 mutualista.

Observei por meio da afetação e da afetividade, pressuposta da Arqueologia Social Inclusiva (LIMAVERDE, 2016), essa relação – “tronco velho”/Kahñe – e apresentou-se como uma indicação de ser cada nova geração concebida com a certeza desta novamente sintetizar o que o Povo Karão-Jaguaribaras fora e são hoje no processo dinâmico das interações sociais. As Kahñes, percebi como primeiros indícios, foram e são armadas para oferecer o privilégio do Povo KJs ser ele mesmo. No princípio, quando crianças, as Kahañes são essência, depois se encompridam com prerrogativas sendo criadoras – líderes e ou mães. Em seguida, por já serem “troncos velhos” – sábias e serenas – transmitem esperando plantarem-se para o surgimento de uma nova quintessência.

Dessa forma, Kahañe Kahoo é o grande espírito feminino que se manifesta em todos os pensamentos e em todas as ações do e no Kalembre. Isso significa que o espírito feminino está presente no eterno lembrar e no modo de vida desse Povo. Portanto podemos inferir serem as Kahañes a sustentação para a decisão da quebra do silenciamento. As Kahañes são atuantes em todas as dimensões do Kalembre. Ao vivenciarmos alguns momentos afunilamos a observação para os seus tòas. Verdadeiras “obras de arte” se tomarmos a preleção do colonizador para denominá-los. Todavia, evitaremos vesti-los com esse discurso seja na vertente de “signo linguístico” ou sob aspecto puramente técnico para evitar uma abordagem hierárquica (francesa, americana ou anglo-saxã) já legitimada nos discursos acadêmicos, de acordo com FABIAN (2013). Fujo da tomada do lugar de fala que alguns teóricos ocuparam para “defesa” dos Povos Originários e procuro compreender esse elemento da “cultura” através das narrativas dos próprios KJs como já me sinalizaram quando do nosso contato serem os tòas mais que grafismo artístico ou abstração5.

Dessa forma, entendi que os tòas fogem às descrições formais, como também, escapam às tentativas de entendimento da denominada materialidade significativa. Os tòas produzem efeitos de sentimentos nos KJs posto estarem presentes nas relações de práticas para além do visível6. Efeitos de sentimentos esses também são causados naqueles não KJs via interações sociais, mas, não lhes autoriza uma interpretação intempestiva do seu papel no soerguimento da voz desta geração para a quebra de silenciamento e retomada de seus espaços com o autoreconhecimento levantando uma página da história já esquecida pela Academia.

1 Lê-se “JaguariBala” e nos documentos a escrita aparece com diferentes grafias: Jaguaribares, Juguribaras Brasil. Biblioteca Nacional. Série Documentos Históricos – Correspondência dos Governadores gerais (1671-1692, p. 408-).

2 BGMP – Relatório de João Antônio de Miranda, apresentado na Assembleia Legislativa Provincial. 01/08/1839. Ceará: Typ. Constitucional. 1839.

3 APEC. Fundo: Governo da província do Ceará. Série: Ofícios ao Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas. Ofício do presidente Manuel Antônio Duarte de Azevedo, enviado ao ministro Manuel Felizardo de Sousa e Melo. 27/12/1861. L 133 (1861-1872).

4 Do grego: prefixo sin -, que significa “juntos”, a partir da palavra bios que pode ser traduzida como “vida” e de sufixo – osis que é equivalente a “impulso”. Uma metáfora utilizada longe do evolucionismo cultural.

5 Bauhaus – archiv museum für gestaltung (www.bauhaus.de) novembro a dezembro de 2003

6 Assim nomino o que foi pacificado como rituais ou práticas rituais, pois os KJs sentem-se desconfortáveis com essas “definições” ou “categorias”.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos

Leia Também:

2 comentários para "Povo Karão-Jaguaribaras quebra o silenciamento"

  1. Anaïs disse:

    Gostei do seu texto!
    Importante valorizar as culturas ancestrais!
    So uma coisinha: em francês, “malentendu” não tem necessariamente um sentido de “mal-intencionados” mais bem de desentendimento mesmo.
    Abraços!

  2. Jadson Amorim disse:

    Nossa verdadeira história de brasileiros donos dessa mãe terra tem que ser contada nas escolas, nas praças, e em todos os lugares. Nossa herança indígena não irá desaparecer jamais. Somos um povo de muitas heranças, mas principalmente de raízes indígenas.
    Parabéns!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *