Seriam elas as coveiras da velha ordem?

E se, à semelhança do que dizia Marx sobre os operários, as mulheres estiverem assumindo, diante do capitalismo brutal e ultra-machista do século XXI, a condição de sujeito revolucionário essencial?

Lançada há pouco mais de dois anos – em outubro de 2016, quase simultaneamente na Polônia e na Argentina – a ideia da Greve Internacional de Mulheres pode transformar-se num dos fenômenos inesperados e explosivos, em uma década já marcada por sobressaltos. Amanhã, esperam-se, em 50 países, protestos e paralisações. Num certo sentido, pondera a escritora argentina Veronica Gago, elas ampliam o significado histórico do 8 de Março. Já não se trata apenas de afirmar os direitos que as sociedades patriarcais negam às mulheres há milênios – mas de, aos poucos, identificar ações concretas comuns, para resgatar estes direitos em todo o mundo. Quais seriam estas, porém?

Talvez valha a pena acompanhar as reflexões que têm surgido na Espanha. Lá, duas características que tantas vezes parecem opostas estão se somando: popularidade e politização. Pelo segundo ano seguido, a mobilização será gigantesca. Um levantamento do jornal Público revela que estão previstos 1339 atos públicos – o dobro de 2018. Ao mesmo tempo, há intenso debate sobre o sentido e os rumos desta avalanche. Em meio à diversidade, uma conclusão parece emergir: a retomada do feminismo coincide com o fato de ele ter se tornado claramente anticapitalista.

Marisa Kohan, jornalista especializada em temas de gênero, tenta descrever o fenômeno, num texto traduzido por Outras Palavras. Duas de suas anotações são marcantes. Primeiro, a abrangência do novo feminismo. “Pela primeira vez na História, ele aglutina mulheres de todas as idades, classes sociais, etnias, identidades, lugares. Meninas de 12 anos e ativistas com várias décadas de luta nas costas compartilham uma visão de mundo e uma batalha que se trava nas casas, nas ruas, nas empresas, nos parlamentos, nas cortes de justiça e nas redes sociais – já não se trata de uma onda, mas de um tsunami”.

E por quê? Marisa aposta que a resposta pode estar na brutalidade do capitalismo surgido a partir da crise de 2008. Ele desfez as ilusões de um feminismo anterior, que a filósofa norte-americana Nancy Fraser descreveu como individualista e meritocrático [leia seus textos em Outras Palavras]. Este feminismo anterior, continua a jornalista espanhola, “comemorava o fato de algumas mulheres talentosas avançarem até o ponto mais alto das organizações, em lugar de abolir as hierarquias”.

Com a crise, os limites do individualismo tornaram-se claros. Em todo o mundo ocidental, os sistemas públicos de Saúde e Educação foram golpeados. O desemprego multiplicou-se. As consequências pesaram nos ombros das que foram, historicamente, responsáveis pelo cuidado – das crianças, dos idosos, dos doentes; e também sobre aquelas que recebem salários mais baixo e são as primeiras a perder os empregos.

E como “a cara mais machista do capitalismo eclodiu”, a nova onda feminista é marcantemente anti-neoliberal. Não se trata de lutar por direitos apenas, mas contra o sistema: “o feminismo está percebendo que a desigualdade contra a mulher não é um erro do sistema – é o sistema mesmo”. E estão surgindo condições para “propor um projeto alternativo”.

Ele não está pronto, é óbvio. Mas num outro texto, publicado na revista CTXT, três feministas – Marien González, Marta Pascual e Katemida Morri abordam os sentidos de um dos aspectos centrais da greve de consumo – uma das vertentes do novo 8 de Março. Deixar de consumir como de costumo, dizem elas, “tem o valor especial de tornar visíveis nossas críticas às práticas de produção, distribuição e contaminação que devastam a natureza, mercantilizam a vida e exploram ou fazem invisíveis os trabalhos de cuidado – usualmente executados por mulheres”. E mais: “perceber os nexos entre patriarcado, capitalismo e colonialismo; de como compartilham culturas e práticas de subordinação, exploração e violência social e ambiental é outra das motivações desta greve”.

Há outras formas de consumir – solidárias, susentáveis e responsáveis – dizem as autoras: “em oposição aos mercados, que subordinam a vida das pessoas ao benefício monetário, queremos viabilizar outras práticas, que ponham no centro a vida das pessoas, do planeta e do todos os viventes”.

Num terceiro texto, também estampado em CTXT, a pesquisdora Paloma Villanueva passa dos valores às políticas concretas e ensaia desenhar as medidas que permitiriam libertar as mulheres (e a humanidade) das lógicas de subordinação e exploração. Elenca, entre outras, a redução significativa da jornada semanal, com “repartição mais paritária do trabalho” entre homens e mulheres; a ampliação das licenças parentais, “tanto para mulheres quanto para homens”, o que permitiria começar a “superar os papéis de gênero nos cuidados com as crianças”, a universalização da educação infantil, a partir do nascimento e um serviço público de qualidade para o cuidado dos idosos, hoje transferido quase exclusivamente às mulheres – e, é claro, invisibilizado e não remunerado.

Nas condições do capitalismo do século XIX, Marx concebeu a ideia de que o proletariado seria o sujeito essencial para enterrar o sistema. Não havia, por trás desta visão, nenhum traço de romantização dos pobres. O papel especial dos operários estava numa razão de natureza material. Por serem despossuídos de tudo, só seriam capazes de se tornar livres se pudessem libertar, ao mesmo tempo, toda a sociedade da opressão capitalistas. Duzentos anos depois, é possível que algo desta lógica marxista explique o papel cada vez mais intenso das mulheres na busca por outras relações sociais. Elas podem estar percebendo que só deixarão de ser oprimidas num mundo em que a solidariedade, a colaboração, o cuidado, a justiça e o amor sobreponham-se à brutalidade, à violência, às hierarquias impostas e à competição incessante de todos contra todos.

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