Os robôs sexuais e as relações eróticas no futuro

Estão em rápido desenvolvimento. Podem se converter, em breve, em realidade corriqueira. Tornarão o sexo ainda mais coisificado? Ou diversificarão as relações afetivas dos humanos?

Sergi Santos, doutor em nanotecnologia, acaricia os lábios de Samantha.

“Uhhh”, solta ela um gemido metalizado.

“Olha como ela fica excitada…”, constata.

Samantha é, na verdade, um objeto inanimado: uma boneca sexual adaptada com rudimentares sensores de Inteligência Artificial (IA), que alterna módulo emocionais, como “amigável”, “romântico” e “sexual”, e alguns tipos de personalidade – “paciência”, “memória” e “sensualidade” –, conectada a uma caixinha de som por Bluetooth. Um robô sexual, em outras palavras, ou sexbot, e, portanto, incapaz de sentir tesão ou fome, medo ou excitação, ao contrário do que sugere o doutor Santos.

Por três mil euros – cerca de 13 mil reais – você pode comprar uma Samantha. Vem com um sofisticado sistema que proporciona um “orgasmo realista”, o que inclui uma vagina vibratória personalizada e movimentos responsivos nas mãos. Se você encontrar o “ponto G” da boneca, será recompensado com um orgasmo. Caso ela se sinta entediada com seu desempenho, pode, simplesmente, bocejar e dormir. Outros modelos apresentam simulação de sinais vitais como batimentos cardíacos, ativados por sensores quando a boneca é tocada.

(Uma curiosidade: não se pode, legalmente, encomendar um robô sexual com a cara de seu ou sua ex — ou mesmo de algum conhecido –, uma vez que isso pode implicar em acusações de assédio. Entretanto, cresce a venda de ciborgues eróticos inspirados em celebridades).

Os modelos de robôs sexuais disponíveis no mercado são limitados: buscam, na maioria das vezes, atingir homens brancos heterossexuais com gosto por mulheres com certos padrões de beleza mainstream. Ou, para ser mais preciso, os brinquedinhos sexuais reproduzem certas características de estrelas do pornô: peitões, bunda grande, pele bronzeada, olhos claros, cabelos lisos, lábios grossos e corpo curvilíneo. Nesse negócio, parece não haver – ainda – espaço para uma variedade de gostos, gênero e orientação sexual. Pelo contrário: é um mercado — como boa parte da chamada indústria do sexo — que endossa papéis sociais e estereótipos de gênero.

Henry, primeiro robô “companheiro” (sim, ele é publicitado assim, sem um apelo sexual tão evidente quanto o da propaganda de robôs para homens) do mundo projetado para mulheres também não escapa desses mesmos clichês: recita poemas românticos, diz frases de amor, tem corpo escultural, tem as dimensões penianas personalizadas e pergunta se é necessário levar o lixo para fora (é serio).

Buscar o prazer solitário – ao menos, o que envolve apenas um ser humano – já não é mais tabu, nem mesmo em países considerados mais puritanos, como os Estados Unidos. Pesquisas apontam que de 1992 a 2014 a parcela de homens estadunidenses que relataram se masturbar ao menos uma vez na semana dobrou para 54%, e a proporção de mulheres mais do que triplicou, para 26%.

Mesmo com as supostas facilidades para obter relações sexuais seguras, como métodos anticoncepcionais, aplicativos para encontros, legalização ou naturalização da prostituição em vários países, muitas pessoas parecem preferir colher “na palma da mão, a rosa branca do desespero” – nas poéticas palavras de Raduan Nassar para a masturbação – do que se envolver, física ou emocionalmente, com outra pessoa. E, para falar disso, necessariamente temos que falar do Japão.

Um conto sobre nosso futuro?

Em programas de variedade da televisão, é comum enviar um jornalista para contar as excentricidades do povo japonês, sempre esbarrando em uma presumível vida sexual exótica: produtos sexuais high tech (que demoramos certo tempo especulando como poderiam ser utilizados), as lojas onakura (onde os homens pagam para se masturbar enquanto as mulheres assistem), garotas que cobram caro para dormir alguns minutos de conchinha e os famosos soushoku danshi.

O levantamento do Instituto Nacional de Pesquisa Populacional e Previdência Social do Japão aponta que 42% dos homens e 44,2% das mulheres entre 18 e 34 anos são virgens atualmente. A pesquisa anterior, de 2010, dizia que 36,2% dos homens e 38,7% das mulheres desta faixa etária declararam o mesmo. Os soushoku danshi – ou “homens herbívoros” — são uma parcela da população que não pratica nem procura o sexo e o casamento. Isso em um país que é um dos maiores produtores e consumidores de pornografia do mundo e o criador de gêneros pornográficos totalmente novos, como o bukkake (joga no Google, como sugeriu o Porta dos Fundos), e líder global no design de bonecas sexuais de alta qualidade.

“O Japão não é maluco?”, podemos nos perguntar.

Mas parece que a experiência do país seja menos uma curiosidade e mais um conto sobre o futuro. Perspectivas sombrias de emprego e recessão influenciaram muitos homens e mulheres a buscar, digamos, “práticas solitárias”. Roland Kelts, um escritor nipo-americano que mora em Tóquio há muito tempo, descreveu “uma geração que descobriu que as experiências imperfeitas ou inesperadas de relacionamentos do mundo real com mulheres são menos atraentes do que a atração da libido virtual”. Isso porque muitos jovens acham a ideia de “flerte” muito cansativa.

Perguntas sobre saúde sexual, ética e segurança pessoal cercam a tecnologia emergente, com terapeutas, filósofos e até analistas de TI estudando esses desdobramentos. No ano passado, o grupo de ética multidisciplinar da Fundação para Responsável Robotics (FRR) produziu um relatório sobre a evolução do setor, que aponta que usar robôs para o sexo pode levar as pessoas ao isolamento social. Por outro lado, especialistas também postulam que os robôs sexuais sejam usados terapeuticamente, como saída para se ressocializar depois de viver comportamentos abusivos.

Mas, embora pareça que estamos caminhando para um futuro de ficção científica, as complicações logísticas da criação de um sexbot com estilo humano, falando e transando, são enormes.

O que vemos em termos de robôs sexuais são como bichos de pelúcia com motores. Neste momento, contam inúmeros cientistas, um robô humanoide estilo Blade Runner é inviável em várias aspectos. Existe o peso, por um lado, porque um esqueleto de metal é pesado. Existe a fonte de energia, por outro, porque as baterias são quentes, pesadas e de curta duração. O piloto da Honda, Asimo, recentemente aposentado, pesava 115 quilos e correu por uma hora com sua bateria de lítio. O Boston Dynamics Atlas, o robô backflip, pesa 330 quilos e roda por menos de uma hora. Nem este peso nem esse nível de energia contribuem para uma noite inteira de paixão. Bonecas como Samantha é o melhor – e mais acessível – que hoje os fabricantes podem fazer.

Novo micro-ondas

Novas tecnologias, como esses robôs sexuais, poderiam alterar nossa cultura? Marina Adshade publicou no site Slate uma análise sobre como robôs sexuais, na verdade, podem fortalecer relacionamentos estáveis como namoros e casamentos ao “terceirizarem” as necessidades sexuais do casal. Eliminariam, portanto, a associação entre intimidade sexual e casamento.

O exemplo que ela usa são os eletrodomésticos, que facilitaram a vida doméstica de homens e, principalmente mulheres, antes criadas sob uma égide de cumprir com as funções “do lar”. O clima político e cultural da época também contribuiu, ela ressalta, mas frisa que certas inovações tecnológicas podem levar a consequências não pensadas e talvez até não relacionadas à primeira vista — e podemos esperar a mesma coisa com a chegada dos sexbots.

“Como um resultado não intencional dessas novas tecnologias, os casamentos pararam de ser uma questão de eficiência na produção de bens de consumo e começaram a ser sobre outra coisa, algo bem próximo da virada do século 20: companhia, amor e sexo”, conta ela.

Há alguns elementos mais fáceis de serem antecipados. É de se esperar, por exemplo, que uma maior quantidade de jovens adultos vão preferir ficar solteiros ao ter suas necessidades sexuais atendidas por robôs , como no caso do “herbívoros” japoneses.

Contornos de classe

Um paralelo feito sobre os sexbots é com os métodos contraceptivos. Não estar encanada com a possibilidade de gravidez de uma relação sexual permitiu que muitas mulheres curtissem mais o sexo com seus parceiros. Essa desvinculação – entre o prazer e engravidar – melhorou a vida de muitas pessoas.

Isso mudou a natureza tradicional dos casamentos, o que um robô sexual também poderia promover. Adshade, ainda em seu artigo, lembra que um pequeno grupo de pessoas está liderando uma maior aceitação da não-monogamia no casamento e, de forma mais abrangente, também acontece o abandono do conceito universal de casamento. O acesso aos sexbots, portanto, pode não transformar a sociedade por si só, mas encoraja uma maior aceitação diante de relacionamentos não tradicionais. As pessoas poderiam construir outros arranjos afetivos ou meramente funcionais sem incluir uma relação sexual, facilitada por robôs sexuais, o que, virtualmente, pode causar menos problemas que um “relacionamento aberto”.

Mas apesar de todos os pontos positivos levantados por Adshade ao tratar dos sexbots, a pesquisadora ainda vê alguns problemas que podem vir com essa tecnologia:

“Assim como foi no caso de outros avanços tecnológicos, os sexbots serão certamente menos acessíveis a grupos com menos acesso socioeconômico — e, do mesmo modo, esses grupos provavelmente tirarão menos benefícios de qualquer mudança nas normas sociais como um resultado de introdução dessas novas tecnologias”.

Fora isso, Adshade vê que, para que essas mudanças realmente ocorram, os sexbots deverão ser avançados, acessíveis e principalmente populares, sendo este último item um dos elementos mais complexos de se alcançar.

Precisamos falar sobre Samantha

Em 2017, a robô sexual de Sergi Santos foi “molestada” em um evento de tecnologia, saindo seriamente danificada. O inventor ficou revoltado: destacou que sua criação foi programada com inteligência artificial para que respondesse à “sedução gentil” — e não a um “tratamento bárbaro”. O incidente estimulou um debate ético sobre a relação entre os seres humanos e as máquinas.

Embora os desenvolvedores de sexbots aleguem, marqueteiramente, que seus projetos farão de tudo para satisfazer os desejos e fantasias de seus clientes, parece que eles estão pensando em colocar “alguns limites”. Cientistas da computação, por exemplo, recentemente problematizaram nossas relações com as máquinas, enfatizando que as pessoas ignoram o fato de que podem danificá-las seriamente, simplesmente porque elas não podem dizer “não” aos seus avanços.

Em matéria na Sputinik News, a principal conferencista da Goldsmiths, da Universidade de Londres, Kate Devlin, perguntou-se se os robôs sexuais deveriam ter direitos e se os engenheiros deveriam inserir a noção de consentimento na programação, o que significaria perceber o robô como humano e levar em conta seus desejos — ou seja, as máquinas deveriam ser capazes de dar seu consentimento ou recusa ao sexo, como um ser humano faria.

Pesquisadores como Lily Frank e Sven Nyholm da Universidade de Tecnologia de Eindhoven, na Holanda, levantaram uma hipotese: no futuro os robôs sexuais humanóides podem ser tão sofisticados que possam “desfrutar de um certo grau de consciência” e consentir em relações sexuais? Segundo eles, em termos legais, a introdução da noção de consentimento nas relações sexuais entre humanos e robôs é vital e ajudará a evitar a criação de uma “classe de escravos sexuais legalmente incorporados”.

Ao mesmo tempo, a teórica feminista Rosi Braidotti argumenta que é essencial introduzir a ética, em vez de uma lei, com base em uma forma incorporada de responsabilidade nas relações entre espécies.

O filósofo esloveno Slavoj Žižek acompanhou a repercussão da violência contra Samantha. Em artigo publicado na RT, advertiu:

“Para começar a enfrentar essa questão adequadamente, é preciso em primeiro lugar evitar a armadilha de nos enredarmos no debate a respeito do estatuto dos robôs sexuais dotados inteligência artificial – isto é, se eles realmente possuem algum tipo de autonomia ou dignidade a ponto de merecerem certos direitos. A resposta a essa questão é, ao menos por ora, obviamente negativa: nossos robôs sexuais não passam de bonecos mecânicos desprovidos de vida interior. O cerne da questão em jogo está em outro lugar. E a primeira suspeita nesse sentido é que talvez os proponentes de tais demandas na verdade pouco se importam com as máquinas dotadas de inteligência artificial. Que, no fundo, eles têm plena consciência de que os robôs não podem efetivamente experimentar sentimentos de dor e humilhação, e sua preocupação central é efetivamente com a agressividade dos humanos. Ou seja, o que querem não é aliviar o sofrimento das máquinas, mas, sim, refrear os desejos, as fantasias e os prazeres violentos e problemáticos dos próprios humanos”.

E continuou: “Isso fica claro assim que introduzirmos o tópico dos video games e da realidade virtual. Se ao invés de robôs sexuais (corpos de plástico mesmo, cujos movimentos e repostas são regulados por inteligência artificial), imaginarmos jogos de realidade virtual (ou, para usar um exemplo ainda mais plástico, de realidade aumentada) em que podemos torturar e explorar brutalmente as pessoas de maneira sexual. Nesse caso, fica mais do que evidente que nenhuma entidade de fato estaria experimentando qualquer tipo de sofrimento. Ainda assim, os proponentes dos direitos das máquinas de inteligência artificial muito provavelmente não deixariam de insistir na necessidade de se impor algumas limitações ao que nós, humanos, poderíamos ou não fazer nesse espaço virtual”.

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