Por trás dos icebergs gigantes

Desprendimento de enorme massa de gelo no Oceano Ártico é consequência do aquecimento global e pode contribuir para aprofundá-lo

Por Gabriela Leite

Um iceberg gigante, verdadeira ilha de gelo de aproximadamente 120 km², soltou-se, semana passada, da geleira de Petermann, no noroeste da Groenlândia. Já em 2001, fotos de satélites haviam revelado que essa imensa massa de gelo, situada nas adjacências do Polo Norte (a 81 graus de latitude Norte) começara a se deslocar e dividir. Desde então, este é o segundo grande iceberg formado. O primeiro, em 2010, tinha quase 260 km², quatro vezes a área da ilha de Manhattan, em Nova York. Na segunda-feira passada, o satélite Aqua, da NASA, registrou que outro imenso bloco de gelo tinha se partido; na quarta, foi possível observar que ele já se soltara da geleira.

Geleira, descreve a Wikipedia, “é uma grande e espessa massa de gelo formada em camadas sucessivas de neve compactada e recristalizada, de várias épocas, em regiões onde a acumulação de neve é superior ao degelo”. O local da geleira Petermann, onde o gelo rachou, era um fiorde (braço de mar que entra pelo meio de montanhas rochosas das geleiras), É por isso que o fato não causa nenhum estrago a curto prazo: o gelo já estava no mar, seu volume permanece praticamente inalterado. O maior problema, segundo Andreas Muenchow, oceanografista do Ártico da Universidade de Dellaware (EUA), é que com a ruptura, a velocidade de sedimentação aumenta. Em consequência, a velocidade do derretimento da geleira pode crescer significativamente.

Além disso, e mais preocupante, o desprendimento de um iceberg gigante é mais um sintoma de que a temperatura do planeta pode estar subindo ainda mais rápido que se temia. Diversas medições têm registrado que o derretimento das geleiras no Ártico, que acontece no verão, tem sido maior que seu recongelamento, no inverno, o que faz com que o volume de gelo no polo esteja diminuindo significativamente a cada década. Tanto que, desde o verão de 2007, tornou-se possível navegar no Oceano Ártico como nunca havia sido antes (os registros começaram em 1972). Já parece possível navegar de Nova York até a Coreia sem encontrar nenhum bloqueio por conta do gelo.

Área do mar congelado do Ártico ao longo dos anos

As maiores preocupações são, além dos riscos para o habitat de ursos e outros animais polares, o aumento do nível oceânico e um alarmante retro-efeito sobre o aquecimento global. É que o gelo dos polos tem um importante papel no controle da temperatura do planeta. O mar congelado reflete 80% do calor da luz solar que alcança a atmosfera; já as águas negras do mar descongelado absorvem 90% dela. Sendo assim, o derretimento, provocado pela elevação da temperatura, acaba acelerando e potencializando o fenômeno.

Mas o mais preocupante é o que acontece nas profundezas, diz Muenchow. Segundo o cientista, as duas placas de gelo gigantes que se soltaram nos últimos três anos representam apenas 10 a 20% do total de perda de massa na geleira de Petermann. A perda principal, neste e em outros pontos do Ártico, acontece por baixo dos oceanos, e não pode ser fotografada por satélites.

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5 comentários para "Por trás dos icebergs gigantes"

  1. Daniela Teixeira disse:

    E quais foram as metas atingidas na Rio 20+?

  2. Gente, sinceramente, o tema é muito, muito mais complexo e controverso do que leigos possam acreditar. Os leigos (a maioria) acreditam no que lhes é mostrado pela grande mídia e pelos países centrais, que controlam a ONU.
    Porque, ao invés de criarmos termos pejorativos como "céticos", para designar os que questionam (com um arsenal de estudos e evidências científicas) o modo como o aquecimento global é discutido, não canalizamos nossas forças para desenvolvermos modos de convivermos em relativo conforto com um planeta mais "quente"? Essas "alternâncias" climáticas (termo mais correto para o que parece estar acontecendo) sempre aconteceram na história de Terra, nos mais diversos intervalos de tempo, desde períodos de 50/80 anos, até centenas de milhares de anos. Não há nenhuma novidade em divulgar que está havendo uma ALTERNÂNCIA climática. Outra coisa, já foi provado que é estatisticamente impossível falar nO CLIMA (no singular) da Terra. Nosso planeta tem um funcionamento climático altamente complexo (sistemas caóticos), onde existem diversos regimes climáticos funcionando ao mesmo tempo. Assim, o correto seria falarmos noS CLIMAS da Terra. Mas, aí, as coisas vão ficando complexas, e a patuleia não entenderá o recado. Os bilhões de dólares gastos para nos convencer que somos os culpados por tudo isso (e tem deixado muita gente rica) podem ficar a perigo. Simplificar o discurso pra patuleia torna as coisas mais fáceis.
    Portanto, nesse meio, não há espaço para conclusões simplistas e reducionistas. Tenhamos mais cuidado com nossas reportagens e consultemos os dois lados. Isso é democracia midiática!

  3. "São as correntes marinhas, manézão!"

  4. leticia dos santos mendes disse:

    axei seus textos muito bom e serviu para meu trabalho obrigada………….

  5. Mariac disse:

    Todo aprisionamento de fatos em favor de políticas e em desfavor de populações é condenável. Ainda mais condenável se estes fatos nãoa sãoa provados ou verdadeiros. A “patuléia’ não tem mesmo condições de saber a verdade de fenômenos tão complexos. E o pior. Nem cientistas se entendem. Mas muitos servem a governos. A ética está em baixa entre cientistas. E há pseudo-cientistas em profusão.

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