[Cartas do velho mundo]
10.06.20 – RENDA BÁSICA X “RENDA BRASIL”

O que há por dentro do cavalo-de-troia que Paulo Guedes apresentou ontem. Por que o desafio deveria do ministro e do 0,1% levar a esquerda a defender ainda mais intensamente a redistribuição de riquezas – por meio de uma Reforma Tributária e de emissão de moeda

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O complexo de vira-latas, que Nelson Rodrigues caracterizou com sagacidade nos anos 1950, tornou-se explícito em tempos de Bolsonaro. A estratégia de marketing do governo apela aos símbolos nacionais sempre que deseja apresentar algo de segunda categoria, ou falsificado. Para eliminar direitos trabalhistas, o Planalto tenta criar… a carteira de trabalho Verde e Amarela. Agora, quando emergiu em meio à pandemia um debate global sobre a Renda Básica, o ministro Paulo Guedes aparece com a “Renda Brasil”. Como qualquer objeto contrafeito, ela tenta imitar a original apenas na aparência. Por trás da fachada, expressa o seu contrário: com ela, Guedes pretende concentrar riquezas e reduzir direitos sociais.

Apresentada ontem, em reunião ministerial, a Renda Brasil é uma tentativa do governo para resolver um problema intricado, relativo a sua própria sobrevivência. A oligarquia financeira pressiona pela volta rápida do “ajuste fiscal”. Segundo a classe dos bilionários, é preciso fechar logo a janela de gastos que se abriu em março, quando foram feitas – de má vontade e com humilhações – mínimas concessões aos mais pobres, como o auxílio emergencial de R$ 600. Cuidado, Cinderela: estão soando as pancadas de meia-noite no relógio – os corcéis logo voltarão a ser ratinhos. Mas, ao mesmo tempo, a popularidade do governo está se erodindo. Pode despencar de vez se, em meio ao desemprego, forem retiradas até os pequenos amparos.

O elixir de Guedes deve servir a dois senhores. Para devolver alguma potência a Bolsonaro, o auxílio emergencial será prorrogado por dois meses – porém, provavelmente, com a metade do valor. Ao fim deste período se converterá na “Renda Brasil”. Aí, vem o pulo do gato, que soa como música aos ouvidos do 0,1%. O suposto “benefício”, antecipou o ministro, estará atrelado não apenas à aprovação da carteira de trabalho sem direitos, mas também a mais uma estocada contra o embrião de Estado Social estabelecido em 1988. O economista Eduardo Fagnani explica em detalhes, neste vídeo (em especial, a partir do minuto ‘36). Em tais condições, frisa ele, a Renda Básica converte-se num “cavalo de Tróia”, numa senha para mercantilizar todos os serviços públicos. Os pobres já estão assegurados – frisará o discurso cínico da oligarquia financeira – é preciso privatizar tudo. Não é à toa que o mesmo Paulo Guedes voltou a apontar, há dias, a privatização da água e do saneamento como o “sinal” que o Congresso deve dar ao “mercado”, para indicar que o país “decolará”.

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Há duas formas de enfrentar a investida. A primeira, típica de uma esquerda melancólica, é recolher-se; acreditar que nada, ao fim, mudará, porque o sistema tem recursos políticos e ideológicos para se apropriar até mesmo das propostas que o desafiam. Esta atitude envolve assumir, embora em outros termos, o complexo de vira-lata.

Outra opção é enxergar o lance de Guedes como o que ele de fato é: um blefe – e pagar para ver. Este pode ser, precisamente, o momento melhor para defender a Renda Básica – a legítima!Ela é indispensável para distribuir as riquezas criadas coletivamente, num mundo em que os avanços tecnológicos podem substituir o trabalho humano. Ela é uma das chaves que permitem transformar, nas condições do século XXI, uma sociedade doente e suicida – em que seis homens ricos concentram tanta riqueza quanto metade dos habitantes do planeta.

Ela corre, sim, em paralelo a uma Reforma Tributária – como frisa Tatiana Roque, em podcast que Outras Palavras publicará nas próximas horas. Mas não depende deste passo. Pode começar a ser implementada já, por meio de mecanismos monetários. O Estado pode e deve emitir dinheiro, sem retirar recursos do Orçamento social – exatamente como tem feito, em todo o mundo, para salvar os bancos e corporações quebrados pela crise.

O primeiro passo para vencer Guedes, Bolsonaro e o 0,1% é impedir que o governo reduza, como anuncia, o auxílio emergencial. É possível fazê-lo no Congresso, mostra o economista David Deccache, no mesmo podcast. Mas o mais importante é construir este movimento em debate com a sociedade, preparando aos poucos o passo seguinte: a luta por uma Renda Básica realmente universal e suficiente para uma vida materialmente digna, ainda que frugal.

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Cronista esportivo, além de dramaturgo genial, Nelson Rodrigues via no maracanazo de 1950 um dos símbolos do “complexo de vira-lata”. Por isso, ainda que profundamente conservador, saudou a negritude altiva do garoto Pelé, que chamou profeticamente de “deus etíope” capaz de redimir a “pátria em chuteiras”. Quem sabe não está na Renda Básica, cuja justiça e necessidade podem ser compreendidas muito além das bolhas da esquerda, uma brecha para encarar o “complexo de 7 x 1” – esta urucubaca da qual algum mago africano precisa, dia desses, nos livrar…

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