Fator Fiesp: golpismo de Skaf e empresários reedita 1964

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Em 2014, protesto na Avenida Paulista contra apoio do empresariado paulista ao golpe de 64

Em entrevista ao Estadão, Paulo Skaf defendeu abertamente o impeachment; e ainda há quem acredite em um movimento decorrente do “clamor popular”

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Candidato derrotado pelo PMDB ao governo paulista, Paulo Skaf deu entrevista ao Estadão como presidente da Fiesp, neste domingo, em defesa explícita do impeachment de Dilma Rousseff. As duas faces desse senhor – política e empresarial – caminham juntas. E representam o mesmo golpismo, tema historicamente muito caro à Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, apoiadora do golpe de 1964.

A diferença está apenas na usurpação, por oportunistas, de uma sigla partidária – o PMDB – que já representou a luta pela redemocratização. Nem o porta-voz mudou: o Estadão, que depois resistiria ao endurecimento da ditadura, foi um dos fiadores da derrubada de João Goulart e da chegada ao poder do general Humberto de Castelo Branco. Hoje abre suas páginas para as investidas contra Dilma Rousseff.

São 50 anos de golpismo em cinco letras: F, i, e, s, p.

UMA ENTREVISTA SOB MEDIDA

O repórter do Estadão perguntava, ontem, dócil: “O empresariado quer o impeachment?” Skaf responde: “Maciçamente, o empresariado e os setores produtivos querem mudança”. (Na mentalidade dessas pessoas são eles os “produtivos”, e não os trabalhadores que colocam a mão na massa.)

As perguntas pouco críticas continuam: “Por mudança eu posso entender um novo governo sem a presidente Dilma?” Skaf agradece: “Creio que sim. É maciço em São Paulo. O sentimento no País é de mudança”. (São Paulo? País? Para ele, tanto faz.)

Na última pergunta, em vez de falar diretamente em golpe, o repórter quase pede desculpas pela pergunta, diz que aliados do governo acusam Michel Temer de estar se articulando, “ou mesmo conspirando”. Bom, não era bem uma pergunta. Skaf aproveita a deixa:

– Quem fale em conspiração tem interesse em falar nisso. São os mesmos que falam em golpe e falam em golpe na Nação.

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O Estadão e apoio ao golpe de 1964: uso cínico da palavra “democratas”

Ou seja: o empresariado golpista e o partido financiado por esse mesmo empresariado (como mostram as doações de campanha da Vale, do BTG Pactual e do grupo Queiroz Galvão, por exemplo) não só tentam evitar a palavra golpe como ainda acusam os que usam essa palavra de ser os golpistas. É um discurso profissional – e é histórico.

Lembremos que, em 1964, ninguém falava em golpe. E sim em “revolução”. Até hoje defensores daquele regime de terror ainda falam em “revolução”. Nenhum golpista vai falar diretamente em golpe – o que se torna uma condição para o próprio golpe.

Logo no início da entrevista Skaf diz que falar em golpe é “apelação”. “O que posso dizer é que as coisas não podem continuar como estão”. (As coisas = o país. E quem decide que não pode?)

Qualquer semelhança com um dos editoriais famosos do Correio da manhã, em 1964, não será coincidência. “Não é possível continuar neste caos em todos os sentidos e em todos os setores”, dizia o jornal, no dia 31 de março de 1964. Título: “Basta!

FLASHBACK

Em 1963, como detalhou a Folha no ano passado, os empresários ligados à Fiesp começaram a atuar de forma mais organizada contra o governo Jango para “prestar um trabalho visando a defesa de nossos ideais democráticos e cristãos”. (Não os nossos – os deles.)

Conta a reportagem que os empresários trabalharam para desestabilizar Jango desde sua posse. Eles financiaram campanhas de seus adversários no Congresso e organizaram entidades como o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, que fazia propaganda contra o governo.

(Campanhas eleitorais? Propaganda contra o governo? Não esqueçam que estamos falando de 1964.)

Consumado o regime de exceção, alguns empresários ajudaram a financiar a Operação Bandeirante (Oban), uma organização paramilitar – ao arrepio da lei – coordenada pelo próprio Exército, em São Paulo, que prendia, torturava e matava. Ali morreu Virgílio Gomes da Silva, o Jonas, que ficaria conhecido como o primeiro “desaparecido”.

Entre 1964 quem comandava a Federação das Indústrias era um empresário chamado Raphael de Souza Noschese. Naquela época Paulo Skaf – filho de um empresário do ramo têxtil – tinha 19 anos e era apenas um estudante de Administração de Empresas no Mackenzie.

Em 2010, quando Skaf se lançava ao governo paulista pelo PSB, a Fiesp inaugurou um busto para Noschese, em seu salão nobre. Está ao lado do busto de Theobaldo de Nigris, que comandou a instituição durante boa parte dos anos de chumbo (1968-1974), o período mais sangrento da ditadura que a Fiesp apoiava.

“DEFESA DA DEMOCRACIA”

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Busto de Noschese na Fiesp; ele foi acusado de subornar general Amaury Kruel

No ano passado, um coronel reformado do Exército contou que viu Raphael Noschese subornar o general Amaury Kruel, ministro da Guerra de João Goulart, para que ele se voltasse contra Jango. Valor do suborno: US$ 1,2 milhão. Erimá Pinheiro Moreira contou que a reunião ocorreu no dia 31 de março de 1964.

Diante da denúncia, a Fiesp afirmou ao jornal O Globo que “eventos do passado” que contrariem seus princípios podem e devem ser apurados. E que a atuação da entidade “tem se pautado pela defesa da democracia, do Estado de Direito e pelo desenvolvimento do Brasil”.

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Um comentario para "Fator Fiesp: golpismo de Skaf e empresários reedita 1964"

  1. Delza Maria Frare Chamma disse:

    Além de golpista, repito e em maiúsculas, GOLPISTA, o SR. Skaf é ainda defensor junto com a Fiesp à qual preside da Oban “uma organização paramilitar – ao arrepio da lei – coordenada pelo próprio Exército, em São Paulo, que prendia, torturava e matava”. Ao passar o texto todo violando o Estado Democrático de Direito com sua defesa ostensiva e nem um pouco constrangida desse novo golpe, mas um que a Fiesp tenta patrocinar, não tem sequer a compostura de admitir que é, sim, um golpista, na medida em que se alia, aos que neste momento buscam formas de derrubar um governo constituído legitimamente por eleições democráticas. É bom ver sua face verdadeira e repulsiva fora do picadeiro em que representa diariamente o papel do “homem sério e respeitador das leis”.

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