Da literatura à história, legião de traidores prenunciou nossas versões infames

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Tullius Detritus, conspirador genial da série Asterix, de René Goscinny e Albert Uderzo

De Iago a Calabar, de Judas a Amaury Kruel, personagem tem centralidade em narrativas diversas; na política brasileira atual, traição é comemorada pela mídia

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A frase de Júlio César a Brutus provavelmente nunca foi dita: “Até tu, meu filho?” Hoje, na cena brasileira, seria impensável. Pois a presidente traída precisa comunicar à imprensa a reação ao vice-presidente traidor, que, por sua vez, terá exposto pela imprensa a própria traição. Sem diálogo direto entre os protagonistas. Vivemos em tempos de traição mediada, onde os meios de comunicação são utilizados como instrumento político. A própria mídia, que gosta de se apresentar como defensora da democracia, aparece como Judas central dessa história.

Michel Temer faz parte de uma tradição – palavra que tem a mesma origem latina de traição – de personagens melífluos e ardilosos. Ainda que sem a mesma capacidade de fingimento que a literatura ou o cinema costumam atribuir aos conspiradores. Seu esboço inacabado de sorriso dificilmente convidaria a uma confiança absoluta. Mas foi colocado lá, na vice-presidência, num sistema político onde o exercício da traição já foi assimilado como linguagem, entre tapinhas nas costas e vazamentos para jornalistas que julgam estar dando furos na mesma medida em que participam da trama. Continuar lendo

Crônicas do Golpe: “A Patada” x “A Patranha”

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Em plena ditadura, redatores brasileiros utilizavam jornal do Tio Patinhas para questionar papel da mídia; na democracia, jornais de verdade perpetuam status quo

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Muito antes da Veja, uma revista decidiu a sorte e a fortuna da editora Abril: chamava-se Pato Donald. Foi com os direitos de reproduzir o gibi da Disney que o italiano Victor Civita começou a erigir seu império de comunicação.

Quac, quac, mil vezes quac! As exclamações suscetíveis do pato fizeram parte de muitas infâncias. E de muita teoria marxista da conspiração. Em 1971, o chileno Ariel Dorfman e o belga Armand Mattelart escreviam um clássico apocalíptico: “Para ler o Pato Donald”. Sobre a ideologia da Disney, portadora das maldades do capitalismo. Mickey era descrito como agente da CIA. Tio Patinhas era o símbolo do sistema, a nadar em seu mar de moedas. Continuar lendo

Golpe do Pato: a face absurda da cena política brasileira

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Da Fiesp à Praça da Paz, agora com os olhos abertos (Autoria desconhecida)

Fiesp criou o pato cego para protestar contra aumento de impostos; mas ele já faz parte da paisagem do golpismo; o pato é nosso ensaio sobre a cegueira política

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Quem disse que o golpe de 2016 – em plena execução – não tem um símbolo?

O papel da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) esteve claro em 1964 e está claro em 2016. Como observamos aqui no blog – sobre o fator Fiesp – e como observou o jurista Fábio Konder Comparato, em ato pela legalidade na Faculdade de Direito da USP. Falta ainda esmiuçar o papel do pato: o símbolo utilizado pela entidade patronal nos protestos na Avenida Paulista. Como em tantos outros casos, o humor se adianta à análise política. E percebe que se trata de um símbolo e tanto. Estamos vivendo o desenrolar do que podemos chamar de um Golpe do Pato. Continuar lendo

Fator Fiesp: golpismo de Skaf e empresários reedita 1964

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Em 2014, protesto na Avenida Paulista contra apoio do empresariado paulista ao golpe de 64

Em entrevista ao Estadão, Paulo Skaf defendeu abertamente o impeachment; e ainda há quem acredite em um movimento decorrente do “clamor popular”

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Candidato derrotado pelo PMDB ao governo paulista, Paulo Skaf deu entrevista ao Estadão como presidente da Fiesp, neste domingo, em defesa explícita do impeachment de Dilma Rousseff. As duas faces desse senhor – política e empresarial – caminham juntas. E representam o mesmo golpismo, tema historicamente muito caro à Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, apoiadora do golpe de 1964.

A diferença está apenas na usurpação, por oportunistas, de uma sigla partidária – o PMDB – que já representou a luta pela redemocratização. Nem o porta-voz mudou: o Estadão, que depois resistiria ao endurecimento da ditadura, foi um dos fiadores da derrubada de João Goulart e da chegada ao poder do general Humberto de Castelo Branco. Hoje abre suas páginas para as investidas contra Dilma Rousseff.

São 50 anos de golpismo em cinco letras: F, i, e, s, p. Continuar lendo