“Ser como o Che” e o ativismo no século 21

Poster do "Che" criado, para publicidade, pela frabricante internacional de bebidas Smirnoff, em 2000. Indignado o fotógrafo Alberto Korda, autor da imagem, travaria batalha judicial até recuperar os direitos sobre ela e vetar o anúncio

Poster do “Che” criado, para publicidade, pela Smirnoff, em 2000. Indignado o fotógrafo Alberto Korda, autor da imagem, travaria batalha judicial até recuperar os direitos sobre ela e vetar o anúncio

Breve comentário sobre a necessidade de superar o vanguardismo e repensar a “conquista” do poder – sem ceder ao eleitoralismo acomodado jamais…

Por Raúl Zibechi | Tradução: Inês Castilho

Nos anos 60 e 70, quem se incorporava à militância escutava frequentemente uma frase: “Ser como o Che”. Com ela sintetizava-se uma ética, uma conduta, um modo de assumir a ação coletiva inspirada no personagem que – com a entrega de sua vida – havia se convertido em bússola de uma geração.

“Ser como o Che” era um lema que não pretendia que os militantes seguissem ponto por ponto o exemplo de quem havia se convertido em referência inevitável. Era outra coisa. Não um modelo a seguir, mas inspiração ética que implicava uma série de renúncias, estas sim, à imagem e semelhança da vida do Che.

Renúncias às comodidades, aos benefícios materiais – inclusive o poder conquistado na revolução –, estar disposto a arriscar a vida, são valores centrais nesta herança que chamamos de guevarismo. Estes foram, durante um bom tempo, os eixos em torno dos quais se organizou boa parte da militância de esquerda, ao menos na América Latina.

Essa esquerda foi derrotada em um breve período que podemos situar entre os golpes de Estado da década de 1970 e a queda do socialismo real, uma década depois. Não se sai ileso das grandes derrotas. Assim como a queda da comuna de Paris foi um divisor de águas, segundo Georges Haupt, que levou as esquerdas da época a introduzir novos temas em suas agendas (a questão do partido passou a ocupar um lugar central), as derrotas dos movimentos revolucionários latino-americanos parecem ter produzido uma rachadura nas esquerdas do começo do século XXI.

Ainda é muito cedo para fazer uma avaliação completa dessa virada, já que estamos ainda em cima dela, sem distanciamento crítico suficiente e, sobretudo, autocrítica. Sem dúvida, podemos adiantar algumas hipóteses que relacionem aquelas derrotas com a conjuntura que vivemos atualmente.

A primeira é que não se trata de voltar atrás na história para repetir velhos erros – que houve, e muitos. O vanguardismo foi o mais evidente. Esteve acompanhado de um sério voluntarismo, que impediu compreender que a realidade que pretendemos transformar era bem diferente do que pensávamos, o que levou a subestimar o poder das classes dominantes e, sobretudo, a crer que se vivia uma situação revolucionária.

Mas o vanguardismo não cede facilmente. Está solidamente enraizado na cultura das esquerdas e, embora tenha sido derrotado em sua versão guerrilheira, parece haver-se transmutado. Continua vivo tanto nos chamados movimentos sociais como nos partidos que pretendem saber o que quer a população sem necessidade de escutá-la. Grande parte dos governos e dos líderes progressistas são bom exemplo da sobrevivência do vanguardismo sem vanguarda declarada.

A segunda tem relação com o método, a luta armada. Que a geração dos anos 60 e 70 tenhamos cometido erros grosseiros no uso e abuso da violência não quer dizer que tenhamos que jogar tudo fora. Recordemos que, ao menos no Uruguai, pensava-se que a ação gera consciência. Outorgava-se um poder quase mágico à capacidade da vanguarda armada para gerar ação nas massas somente com sua atividade, como se as pessoas pudessem atuar por reflexos mecânicos, sem necessidade de se formar e se organizar.

As organizações armadas cometeram, também, atrocidades indefensáveis, utilizando a violência não apenas contra os inimigos como também, frequentemente, contra o próprio povo e também contra aqueles companheiros que apresentavam diferenças políticas com sua organização. O assassinato de Roque Dalton e da comandante Ana Maria, em El Salvador, são dois dos fatos mais graves dentro do campo rebelde.

No entanto, isso não significa que não há que se defender. Não devemos passar para o extremo oposto de confiar nas forças armadas do sistema (como ressalta o vice-presidente da Bolívia), ou de enxergá-las despojadas de seu caráter de classe das forças repressivas. Os exemplos do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), do povo mapuche do Chile, da Guarda Indígena Nasa na Colômbia e dos indígenas amazônicos de Bagua no Peru mostram que é necessário e possível organizar a defesa comunitária coletiva.

A terceira questão é a mais política, e é a ética. No legado do Che e na prática daquela geração, o poder ocupava um lugar central, algo que não podemos nem devemos negar. Mas a conquista do poder era em benefício do povo, nunca, jamais em benefício próprio, nem sequer do grupo ou partido que tomava o poder estatal.

Sobre esse tema há uma discussão aberta, em vista do balanço negativo do exercício do poder pelos partidos soviético e chinês, entre outros. Mas, para além dos erros e horrores cometidos pelos poderes revolucionários no século XX – inclusive para além de se é ou não conveniente tomar o poder de Estado para mudar o mundo –, é necessário recordar que o poder era considerado um meio para transformar a sociedade, nunca um fim em si mesmo.

Sobre este assunto há muito pano para manga, em vista da corrupção enquistada em alguns governos e partidos progressistas (particularmente no Brasil e na Venezuela), questões que agora poucos se atrevem a negar.

A esquerda de que necessitamos para o século XXI não pode deixar de ter presente a história das lutas revolucionárias do passado. É necessário incorporar aquele lema “ser como o Che”, mas sem cair em vanguardismos. Uma boa atualização desse espírito pode ser o tudo para todos, nada para nós, [dos zapatistas]. O mesmo se pode dizer do mandar obedecendo [idem], que parece um importante antídoto contra o vanguardismo.

Há algo fundamental que não seria bom deixar escapar. O tipo de militantes de que necessita a esquerda do século XXI deve estar modelado pela vontade de sacrifício (Benjamin). É evidente que a frase soe fatal em períodos como o atual, mas não podemos conseguir nada sem desfazer essa tremenda fantasia segundo a qual é possível mudar o mundo votando a cada quatro anos e consumindo o resto do tempo.

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Raúl Zibechi

Raúl Zibechi é escritor e pensador uruguaio, dedicado ao trabalho ativista com movimentos sociais na América Latina, com ênfase na região andina.