SP: Ecos de Junho na luta dos secundaristas?

4f18e0a6-9672-4f32-8c98-b70a54ed3a0b Protestos recuperam luta por serviços públicos, disposição de resistir e táticas desconcertantes que marcaram jornadas de 2013. Governo e PM mantêm mesma truculência

Por Tadeu Breda

Os estudantes secundaristas de São Paulo reeditaram o espírito mais profundo de junho de 2013, com aperfeiçoamentos táticos e estratégicos. A essência de junho foi a defesa intransigente do interesse público acima de qualquer conveniência partidária. É uma proposta puramente política, que disputa à unha o orçamento do Estado com o objetivo de dirigi-lo à satisfação dos direitos mais básicos da população. Em junho, era transporte. Dois anos e meio depois, educação.

Esse apego ao interesse público despreza as desculpas esfarrapadas do burocratismo governamental, que alega falta de verbas enquanto destina generosos recursos ao mercado financeiro e aos aparatos repressivos, por exemplo. Em junho, os manifestantes contrários ao aumento das tarifas de ônibus e metrô argumentaram que sim era possível manter o preço das passagens a R$ 3,00. As administrações estadual e municipal diziam que não. No fim, os jovens provaram estar certos: a destinação orçamentária é uma questão de prioridade.

No caso da luta pelas escolas, a razão é igualmente forte. O governador de São Paulo pode argumentar como quiser, usar os dados e tabelas que preferir, mas não há racionalidade em defender que o fechamento de 94 unidades de ensino irá aprimorar um sistema educacional reconhecido pela baixa qualidade de salas superlotadas. Os estudantes sabem disso – quem não sabe? Resolveram se apegar ao óbvio e não cair na conversa que emana como fumaça tóxica dos espaços de poder.

12316646_727145217419226_735683668857573230_n

Como se não bastasse a extrema consistência dessa posição política, os secundaristas – assim como os jovens de junho – não claudicam diante de ameaças e falsas propostas de diálogo. “Não tem arrego”, dizem, evocando a coerência de princípios que deveria ser o maior valor da política, mas que há muito tempo deu espaço ao compadrio, ao toma lá dá cá, à troca de favores.

É inquestionável a força de uma proposta pontual, concreta e coerente. Junho ensinou o caminho para vencer – e os secundaristas entenderam. Como bons estudantes, porém, eles superaram as lições aprendidas. Em vez de apostar na construção de um movimento de massas, que encontrariam óbvias limitações, decidiram ocupar suas próprias escolas, potencializando ainda mais a coerência de suas reivindicações. Criaram pequenos enclaves de resistência – essa atitude tão necessária hoje em dia – e de lá não saíram até que o governo do estado de São Paulo lhes declarou uma guerra suja e secreta.

Os secundaristas aceitaram o desafio e foram à luta de maneira inteligentíssima. Em pequenos grupos, descentralizados, restritos aos bairros em que vivem e estudam, começaram a erguer pequenos e temporários bloqueios de cadeiras em esquinas de grande movimento. Levaram suas salas de aula para as ruas.

Essa tática e essa estratégia fazem com que o movimento dos secundaristas seja insequestrável. Ao não depositar sua força em grandes demonstrações massivas, incontroláveis e cooptáveis, as forças conservadoras e seus meios de comunicação não poderão – como fizeram em junho – deturpar as razões do protesto ou justificar a repressão policial. Não poderão destacar um dos muitos slogans que apareceram nas ruas em junho – “Não é só por vinte centavos” – e lançar a população contra temas que absolutamente não estavam na pauta daquele então, como a corrupção do PT ou a PEC 37.

Na mobilização dos secundaristas, não há espaço para aventureiros munidos de cartazes oportunistas. Não há espaço para ninguém que não aceite suas regras e suas decisões. São eles os protagonistas. Quem passou a apoiá-los, como professores, coletivos, artistas, ficaram à sombra, como deve ser.

Os grandes jornais, rádios e canais de televisão, depois de receberem um investimento-relâmpago de 9 milhões de reais do governo estadual, estão tentando deslegitimar as reivindicações dos estudantes com seus velhos bordões: depredação, confronto com a polícia, congestionamento… Será preciso muito mais sofisticação narrativa para demover a rebeldia com causa dos secundaristas. No final, como ocorreu em junho, cairão ainda mais em descrédito.

Os estudantes desafiam a força bruta da máquina governamental paulista – que, ao ver-se ameaçada, como há dois anos e meio, lança mão da violência policial explícita que lhe é intrínseca. Tal qual ocorreu em junho, o governador não entendeu que ideias fortes e táticas consistentes não se combatem com cassetetes, bombas de gás lacrimogêneo e spray de pimenta – nem com murros na cara e espancamentos em praça pública, como mostram as recentes imagens.

Assim como perdeu naquele então, Geraldo Alckmin (PSDB) perderá novamente. A menos que se aproveite da tradicional paralisia entre natal e ano-novo para entrar com sua tropa de choque nas escolas, praticar suas barbaridades medievais às escondidas e retirar de lá os estudantes enquanto os cidadãos descansam longe de São Paulo. Foi o que ele já fez na “operação sufoco” contra os dependentes de crack do centro de São Paulo e contra as comunidades sem-teto do Pinheirinho, em São José dos Campos, ambas em 2012.

É uma possibilidade que já deve estar sendo aventada no Palácio dos Bandeirantes. É a única chance de vitória de Alckmin – a mais vergonhosa de todas, porque vergonha é só o que resta para tal personagem.

TEXTO-FIM

2 ideias sobre “SP: Ecos de Junho na luta dos secundaristas?

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *