Danilo Pássaro: resistência à precarização vem das ruas

Para a liderança dos protestos antifascistas de 2020, ataque aos direitos laborais também é um golpe na capacidade de sonhar da juventude periférica. Nova República está ruindo — e será preciso imaginação política e resistência popular

Em junho do ano passado, em meio ao horror da pandemia e aos descalabros do governo Bolsonaro, justamente quando os panelaços já perdiam a força inicial, surgiam as Marchas Antifascista, um esgar de esperança e resistência frente a aparente apatia que reinava no país. Convocadas por torcidas antifascistas, começou, a princípio em São Paulo, disputando as ruas com os bolsonaristas, e se espalhou por outras 15 cidades, como Belo Horizonte, Porto Alegre e Rio de Janeiro. Mostrou que é possível, mesmo diante de vírus que já ceifou mais de 220 mil vidas brasileiras, realizar manifestos pluripartidários e amplos. Uma das lideranças dos protestos, que posteriormente criaria o Movimento Somos Democracia para congregar torcedores de diferentes clubes de futebol contra o racismo e o fascismo, foi o jovem Danilo Pássaro, de 27 anos. Morador da região da periferia de São Paulo mais atingida pela covid-19, a Vila Brasilândia, cursa História na USP, trabalha como motorista de aplicativo, é evangélico, filiado ao PSOL e corintiano roxo, integrante da Gaviões da Fiel.

Ele, trabalhador precarizado, conta que foi um dos que ingressaram nas plataformas acreditando que teria mais tempo para estudar – hoje, ri da sua ingenuidade, sabe que o discurso de “autonomia” e “independência” é algo que cola no imaginário do trabalho, e essas corporações sabem explorá-lo. Também narra o “efeito dominó” da crise econômica, política e sanitária do país sobre as periferias: sem um governo que garanta políticas mínimas à população, renda e emprego tornaram-se um luxo de tempos passados. Impera, portanto, a Era dos Bicos, com milhões na informalidade ou desalentados, e trabalhar para a Uber, Rappi ou outras plataformas torna-se questão de sobrevivência. Mas acaba gerando a precarização da precarização, pois, pois milhões de trabalhadores desempregados passaram a utilizar os aplicativos como única alternativa de trabalho – e dando mais poderes às corporações para explorar.

Para ele, a Nova República está ruindo – e não cabe mais as massas exploradas ser peça de estabilidade. Será preciso resistência e confrontação, principalmente por meio da juventude, constantemente privada do poder de sonhar. “No futuro, quando a gente olhar para os livros de História, muito provavelmente eles terão um capítulo chamado O pós-pandemia – e precisamos começar a escrevê-lo agora. As palavras e ações que estarão lá dependerão da reorganização da nossa luta, que precisará ser travada de diversas formas, inclusive nas redes sociais, mas principalmente nas ruas, por meio de sindicatos, espaços de trabalho e movimento estudantil”.

A fala de Pássaro está no vídeo acima. A série continua na próxima terça-feira, 9/2. Luiz Gonzaga Belluzzo, professor de economia na Unicamp, analisa como a tragédia da reprimarização no Brasil – e o que podemos aprender com a China.

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