Elogio da desorganização e do imprevisto

Se o instituído e o normal produzem desigualdade, dor e medo é, preciso buscar o ainda incerto. Cada ordem explícita contém uma desordem cruel e oculta. Sem desorganizar, persistiremos na injustiça, no desperdício e na irrelevância

Por Antonio Lafuente | Tradução: Simone Paz | Imagem: Akira Kusaka

O mundo está repleto de organizações que institucionalizam consensos mais ou menos democráticos, ou valores mais ou menos impostos. Grande parte de sua atividade é voltada à produção e reprodução de práticas e argumentos que fortalecem seus princípios constitutivos e aumentam sua legitimidade social. Consequentemente, todas elas seguem um padrão que é resultado de casamentos inovadores entre as questões do conhecimento e as do poder. Todas essas instituições, também chamadas de disciplinares, como a escola, o museu, a academia, a igreja, o hospital — e, para muitos, a mídia, a arte e a ciência — são os pilares sobre os quais nosso mundo se baseia. Um mundo que, no entanto, não se cansa de produzir exclusão, dor, doenças, desigualdade e pânico. Muitas pessoas não estão felizes e começam a buscar outras conexões, a fazer perguntas diferentes ou procurar novas proporções. Muitas pessoas apostam na desorganização.

Novamente: a ordem é construída — e só aparece para aqueles que compartilham do mesmo sistema de valores, o qual sustenta a suposta consistência, harmonia ou simetria que garantem nosso mundo. Entretanto, a mais mínima mudança de olhar pode desfigurar, desfocar ou perturbar o equilíbrio. São nossos monstros! Mas nem todo mundo vive com medo, nem teme as mesmas coisas. Será que podemos viver sem monstros?

O espanto é — ou deveria ser — um gesto comum. Porém, o comum não deveria ser sinônimo de incidental, periférico, colateral, insignificante e, muito menos, desestabilizador ou disruptivo. Dia após dia, atestamos que não é nada disso. Cada geração, cada cultura, cada corpo ou cada localidade encontra sentido em comportamentos, práticas ou protocolos diferentes. Não há nada de radical em afirmar que aquilo que chamamos de valores também é transferido para os objetos, dispositivos ou tecnologias que nos cercam. Projetar, em outras palavras, não é mais que imaginar coisas que as pessoas desejem ter, experimentar ou sentir. Definitivamente, projetar é algo que todos fazemos de forma espontânea, natural e constante.

O chamado design thinking, agora tão repetido e cacofônico, seria vulgar se não fosse o fato de poder ser praticado ao contrário. E assim, de um mantra passamos a um enigma: do “todos somos formados por meio de valores”, para o “quais valores estão embutidos em cada uma dessas formações?”. E nesse ponto é que as coisas tornam-se muito problemáticas, porque inúmeras vezes assumimos certos processos, princípios ou protocolos como inevitáveis, sábios ou eficientes — sendo que muitos nada mais são do que o resultado de uma adaptação oportunista a algum lugar, tempo, cultura ou crença. Basta acrescentarmos o componente institucional para perceber a gravidade da questão, pois certamente as coisas acabam sendo o que são porque conseguiram fixar-se em nosso imaginário, nossos manuais e padrões como formas comprovadas, exigidas, naturalizadas e, finalmente, inevitáveis e impostas.

Cada mudança implica, portanto, a alteração de estruturas produtivas, jurídicas ou afetivas que antes pareciam estabelecidas de maneira sólida. Os livros de História nos contam essas coisas, embora, muitas vezes, apenas notem as grandes revoluções, as grandes culturas, os grandes autores. Tudo o que é maiúsculo e épico. Cansados dessas histórias ostentosas, em algumas faculdades de humanidades, escolas de negócios e institutos tecnológicos, narram-se outros contos, outras histórias: relatos do pequeno, mas que explicam como pequenas modificações promoveram aberturas para o improvável, o imprevisto e até o impossível. Nada nos impede de aprender com essas histórias.

Dessa maneira, podemos tomar um objeto, um problema, um processo, uma estrutura, um sistema ou qualquer outra composição  e expô-la ao cruzamento do olhar de perspectivas mutuamente discrepantes. Posicionemos o objeto equidistante das ignorâncias de cada um dos participantes. Vamos criar um objeto-fronteira. Tomando cuidado para que ninguém se sinta preferencialmente localizado para assim compreendê-lo melhor. Vamos experimentar a força que flui dessa instabilidade. Encorajando a dissidência total. Tornemos explícitas as divergências conceituais.

Apontemos para o fluxo de preconceitos que não comentávamos. Vamos lutar contra o consenso funcional. Vamos enfrentar o desvio à normalidade com que cada interlocutor evita a complexidade. Vamos explicar os riscos inerentes a cada simplificação. Façamos filosofia de garagem, pratiquemos a cultura hacker, implantemos a imaginação crítica, valorizemos a aura do colateral, apreciemos o colorido do mestiço. Vamos fazer um projeto ácido, assim como fazem romances noir; e ficção humanística, como se fizéssemos ficção científica.

A promessa de desorganização ainda está para ser descoberta e é um continente a ser explorado. Para inovar, é preciso desorganizar: desburocratizar, descentralizar ou desierarquizar. São tarefas urgentes se quisermos acabar com o muito desperdício, muita ineficiência e, é claro, muita assimetria. As coisas são como são porque algo e alguém lhes dão apoio. Desde quando? Para que? Com quais aliados, por meio de quais tecnologias, de quais valores? Em suma, a organização é culpada tanto pelo melhor, como pelo pior. É fruto da simplificação, exclusão e institucionalização. Cada ordem explícita contém em si uma forma cruel e perversa de desordem implícita. Não desorganizar nos condena à injustiça, ao desperdício e à irrelevância.

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2 comentários para "Elogio da desorganização e do imprevisto"

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