Gado e gente: diário de um matadouro da JBS

Capitalismo e precarização sem fronteiras: a JBS leva aos EUA o desprezo pelos trabalhadores. Sob 38ºC, no Colorado, milhares de imigrantes comprimem-se com sangue e carcaças dos animais abatidos. Multiplicam-se as mortes por covid

Por Wendy Selene Pérez, no Bocado

MAIS:
Este texto é parte de uma série de reflexões jornalísticas que examinam as consequências do agigantamento da indústria da carne nas Américas. O material é produzido pela rede Bocado, da qual faz parte o site O Joio e o Trigo, parceiro editorial de Outras Palavras.

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I. A matança

Tudo começa com um tiro.

Uma bala que tem como alvo diretamente o crânio de uma vaca de olhos grandes, e que não será só uma, mas milhares: 23 mil por dia nesse matadouro em Greeley, na zona rural do Colorado, uma propriedade descomunal da empresa brasileira JBS, potência mundial da carne.

Na sala de abate, ou kill floor, como se conhece em inglês, é uma sorte o fato de a vaca morrer instantaneamente. A pistola poderia apenas deixá-la assustada, com vida, e com o fôlego que lhe restaria poderia lutar com um trabalhador exausto. A tarefa é perigosa: uma rês pesa entre 250 kg e 800 kg, dependendo do tamanho e da raça.

Alguns trabalhadores se machucaram na tentativa de imobilizar as vacas. Ou machucaram seus companheiros com as facas que utilizam a uma velocidade exorbitante e em um espaço superlotado. Os registros nos EUA trazem casos de trabalhadores que atiram em si mesmos por acidente.

Quando a vida de um animal termina, o opressivo trabalho continua para milhares de pessoas, e quase todas são imigrantes.

Um grupo de mulheres lava os cadáveres que chegam do “salão da morte”, pendurados em ganchos, com a cabeça para baixo e o sangue escorrendo, ainda quente. Elas trabalham em um sistema que parece “um inferno”, como me descreveu uma pessoa que pediu anonimato.

O universo interno dessas empacotadoras é velado, a lei federal proíbe fotografias. Mas quando o Covid-19 se alastrou pelos matadouros e eles se converteram em alarmantes focos de contágio, a JBS deixou que entrassem nos locais alguns jornalistas locais e ativistas.

O inferno é um buraco de um metro de profundidade onde as mulheres trabalham a uma temperatura que chega aos 38 graus no verão. Um lugar asfixiante e muito úmido. As mangueiras jogam água quente enquanto o sangue está pingando. Lavam uma vaca atrás da outra, em média três por minuto. As mulheres passam oito horas de pé fazendo a mesma coisa. Apertadas, ombro a ombro, com os corpos colados, como as vacas que têm à frente. “Nunca havia visto mulheres trabalhando desse jeito, nunca havia visto mulheres ganhando o pão para suas famílias dessa maneira”, me diz a pessoa que entrou na planta. “É um inferno trabalhar ali, são trabalhadoras que estão como animais atolados.”

As funcionárias têm que usar avental branco – que fica salpicado de sangue -, botas, luvas, capacete de segurança, uma proteção de tecido que cobre suas cabeças, testas e queixo, tapa-bocas: “Eu não conseguia ver o rosto delas, mas elas me viam através das máscaras”, narra. “Pude sentir o medo que têm.”

Na primavera passada, a pandemia chegou e o clima ficou feroz. Houve mulheres que passaram mal e desmaiaram por conta das tantas coisas que vestiam. O sindicato ao qual pertencem conseguiu ventilar mais o local, para que elas se refrescassem. Uma luta anterior havia sido ter água limpa para que elas e o restante dos funcionários bebessem.

As mulheres estão presentes no processo inteiro: quando a vaca é massacrada, quando é cortada, quando é empacotada. A JBS possui nove plantas no país, e as mulheres compõem 34% do total dos seus funcionários.

“Por que todas são mulheres ali?”, pergunto a Laura Padilla, uma mulher de 35 anos que durante dois anos teve a tarefa de eliminar a gordura das vacas em refrigeração e agora é uma das que trabalham na defesa dos funcionários. “Porque é um trabalho um pouco mais fácil”, responde. “Tentam colocar mulheres que já são um pouco mais velhas.”

— Um pouco mais velhas quanto?
— Já são senhoras.
— Mais de 50?
— Digamos que mais de 40 anos.

Aqui o envelhecimento é prematuro, as mulheres de 40 deixam de ser jovens mais cedo.

Laura Padilla vai e vem, percorre os setores da processadora escutando as queixas dos filiados ao gigantesco Sindicato Internacional dos Trabalhadores Comerciais e Alimentícios Unidos (UFCW, em inglês), que reúne 1,3 milhão de trabalhadores nos Estados Unidos e no Canadá. Na fábrica de Greeley, há 2.300 sindicalizados do UFCW.

II. Imigrantes descartáveis

É inverno e neva em Greeley, uma pequena cidade de pouco mais de 100 mil habitantes, localizada no noroeste do Colorado, a uma hora de Denver por autopista. Os odores de esterco, sangue e carne são parte de uma reputação malcheirosa que seus governantes tentaram remediar. 

Por isso, desde 1997 instalaram uma linha telefônica para a recepção de denúncias de maus cheiros. Ao receber uma queixa, os inspetores fazem a verificação com seus detectores de odor Nasal Ranger, do tamanho de um megafone. Se algo cheira mal, e o problema se confirma, estabelecem-se multas. O jornal local de Greeley registrou que, depois do primeiro ano, em 1998, houve 650 casos de mau cheiro, e hoje são menos de 30 por ano porque a JBS instalou purificadores e filtros na sua fábrica.

O conglomerado do brasileiro José Batista Sobrinho (JBS), que comprou nessa região a Swift & Co, tem nove plantas processadoras de carne em vários Estados do país, incluindo três no Texas. A de Greeley é a maior, com mais de 6 mil funcionários. 

A instalação da JBS em Greeley é tão grande como o aeroporto de uma metrópole. Em vez de aviões, há longas filas de trailers à espera do carregamento da carne recém-processada. Ocupa ruas inteiras em meio a uma paisagem de campos e casas. A construção é um conjunto de cinzas e ocres rodeado de estrutura metálica, como nas prisões; um bunker com paredes de aço e concreto do qual saem as mechas fumegantes de uma chaminé.

Quando chega a neve, os trabalhadores da matança saem com mais feridas em um dia de trabalho. Isso acontece porque o gado se suja mais nos currais e é a pior época do ano para tirar o couro das vacas, tarefa que chega após o salão da morte.

“A bosta fica colada por causa do frio”, explica Laura Padilla, a funcionária do sindicato. A faca perde o fio se ficar presa na pele da vaca e então os trabalhadores têm que usar a força das mãos e do corpo para terminar a tarefa. É uma operação tão acelerada e estressante que não dá tempo de pegar outro utensílio mais afiado. É quando chegam os machucados “nas canelas, nos ombros, nas pernas”, diz Padilla.

Se há um trabalho bruto, duro, perigoso, sujo, extenuante e mortal, esse é o dos matadouros e das empacotadoras de carne. O risco de morrer ou de se machucar é três ou quatro vezes maior, em média, do que em outros processos de manufatura. A cada dia acontecem cerca de 60 lesões não graves, e a cada dois dias uma pessoa perdeu uma parte do corpo ou foi hospitalizada em 2019, segundo dados compilados pela Administração de Saúde e Segurança Ocupacional (Osha).

A pandemia deixou os trabalhadores mais expostos e vulneráveis nas empacotadoras: desde fevereiro do ano passado, centenas morreram e milhares contraíram Covid-19.

Quem realiza esses trabalhos, a carne barata das corporações, costumam ser pessoas refugiadas, que receberam asilo ou imigrantes que se arriscam “por necessidade”, diz Padilla. Mais ainda se não têm documentos legais, pessoas que não reclamam direitos e que têm medo de abrir um processo judicial.

Se adoecerem de forma grave, têm que se virar, juntar dinheiro com os amigos e com a família, pedir ajuda em suas igrejas ou lançar um GoFundMe na internet, porque não têm assistência médica. Se chegam a morrer, como aconteceu durante a emergência sanitária, os seres queridos precisam encontrar opções baratas nas funerárias para se despedir deles ou repatriar suas cinzas ao país de origem, porque não têm seguro de vida.

“São humanos sacrificáveis e descartáveis”, diz com firmeza a sindicalista Kim Córdova, do outro lado do monitor, em uma chamada de vídeo ao meio-dia de 1o. de janeiro, enquanto minha família come um matambre requentado, do Réveillon, que eu não quero provar.

A mulher de origem latina representa os 30 mil trabalhadores do Sindicato Internacional dos Trabalhadores Comerciais e Alimentícios Unidos (UFCW) nos estados de Colorado e Wyoming. A UFCW Local 7, à qual pertence Padilla.

III. O frigorífico

Estava tão cansada que não tinha fome.

Tinha cortado centenas de pedaços de carne para desconhecidos e tudo o que queria era dormir. Laura Padilla, então com 28 anos, estava chegando em casa, onde a esperavam seus quatro filhos. A rotina era preparar o jantar, depois tomar banho e se enfiar na cama durante o resto da tarde e da noite. 

Antes de que o sol saísse, se vestia para estar às 6 da manhã de volta ao seu lugar de trabalho na planta de Greeley. Trabalhava sob uma temperatura de 5 graus negativos, ao lado de outras mulheres como ela, homens, pessoas de todas as idades, de garotas de 18 anos a octogenários.

Ali também estava Laura desde as 6 da manhã, com a faca nas mãos e o cansaço crônico, agasalhada, apesar de que o verão a sufocasse.

Depois de sacrificar a vaca, de lavá-la e de lhe retirar o couro, os funcionários da área quente do matadouro abrem a barriga do animal e deixam cair sobre uma tira o que não é comestível.

Cortam a rês pela metade e a colocam em contêineres gelados que por uma razão inexplicável são chamados de hot boxes (caixas quentes). Ali ela é congelada durante 24 horas e depois transferida à área de fabricação.

Padilla entrou na JBS há seis anos e a enviaram para a fábrica, com a tarefa de retirar a gordura da vaca. Diz que a puseram para “cantar na área das facas”. Oito horas, em pé, com 15 minutos para descansar depois das primeiras três horas, e meia hora de almoço. O trabalho é uma cadeia na qual ninguém pode parar. Para ir ao banheiro, precisava pedir autorização.

Aprendeu a “cantar” em um mês e, ao final desse mesmo período, surgiu em seu braço uma lesão, “uma bola em cima do ombro”, diz.

O trauma por repetição é uma das lesões mais frequentes nas empacotadoras de carnes. Elas precisam repetir o mesmo movimento dezenas de vezes por minuto, centenas de vezes por hora, milhares de vezes por dia. É provável que mais de 20 mil vezes por turno.

Shruki é uma garota que nasceu na Somália e mora na cidade de Amarillo, no norte do Texas, onde há uma planta da Tyson e outra da JBS, dois locais que por fora são iguais à planta de Greeley: sem-graça, sem janelas, bunkers que parecem prisões. Ela trabalhou ali, também cantava.

— Quantas vezes você movia as mãos por dia?, lhe perguntei.

— Muitas, muitas, não sei quantas, mas não podia deixar de trabalhar. Éramos só eu e outra mulher para desossar uma peça de carne da qual já não me lembro o nome. Eu movia a mão direita muitas vezes, o tempo todo.

Shruki teve uma lesão no ombro como Padilla na fábrica da JBS no Texas há alguns anos. Fez fisioterapia, não voltou à empacotadora e foi trabalhar em um Walmart. Voltou às empacotadoras em novembro do ano passado, mas agora trabalha na processadora da Tyson desinfetando os espaços comuns e fazendo limpeza para prevenção ao Covid. É um emprego de meio período. 

Tem 33 anos e um filho pequeno no ensino fundamental. Os dois emigraram depois de serem refugiados em Uganda. Seus pais continuam na Somália e ela junta dinheiro para trazê-los. As mãos e os ombros ainda lhe doem quando ela cozinha para os dois.

Conheci Shruki através do Refugee Language Project, um programa criado há três anos para alfabetizar muitas mulheres somalis refugiadas que foram chegando à região de Amarillo. O crescimento da imigração africana se nota nas empacotadoras, e algumas dessas mulheres não sabem ler nem escrever, nem mesmo em seu idioma. Shruki é umas das poucas que falava inglês antes de chegar ao Texas.

Na parte de refrigeração, os pulsos têm que ser velozes, puxam os pedaços pendurados dos canais para fazer os cortes, retiram a gordura, desossam. Tudo é rápido, rápido, rápido. É preciso enfiar o facão na carne que chega congelada. A pressão que precisa ser feita com os músculos e braços é grande, enorme.

Que um funcionário perdeu o braço esquerdo ao ficar preso em uma máquina. Que outro usou uma faca para levantar um presunto antes de ser desossado, a arma escorregou, bateu no seu olho e o deixou cego. Que outro mais ficou desfigurado quando a faca deslizou da carne e bateu em seu nariz, lábio superior e queixo. Que outro perdeu uma mão e o braço com um rolo. Os trabalhadores podem machucar as costas por conta da atividade de carregar e descarregar a carne dos caminhões, fraturar-se ao cair em pisos escorregadios, sofrer queimaduras por conta dos solventes de limpeza ou máquinas para envase. Além da síndrome do túnel do carpo e tendinite: essas são outras das lesões nos registros da Osha.

A tecnologia trouxe máquinas, mas nas processadoras o corpo humano continua a fazer a maior parte do trabalho. As mãos de quem corta a carne são parte de uma engrenagem que abastece comunidades inteiras. E a demanda é cada vez maior.

Na década de 1910, o norte-americano médio comia aproximadamente 21,8 kg por ano, em 2016 subiu para 35,9 kg, e em 2019 aumentou para 38 kg, de acordo com dados do governo. Os argentinos comem mais carne por pessoa (56 kg), mas a população aqui é sete vezes maior, é preciso alimentar 328,2 milhões de pessoas. Para produzir tanto, é preciso cada vez mais gente e mais esforço.

Só a JBS processa 200 mil bovinos por semana nos Estados Unidos. São 32 milhões de libras de carne todos os anos entregues a mercados de EUA, México, Canadá, Europa, Oriente Médio, África e Ásia. Só por conta da carne de vaca, os lucros em 2019 foram de US$ 22 bilhões.

Enquanto isso, o salário dos trabalhadores oscila entre US$ 14 e US$ 18 por hora. O pagamento equivale ao preço de 19 ou 24 vacas ao ano.

As pessoas aguentam porque é mais do que o salário mínimo, aguentam “por necessidade”, como disse Laura Padilla. Apesar de que na planta de Greeley se falam mais de 32 idiomas, o espanhol é maioria. Cinco de cada dez funcionários são latinos do México, da Guatemala, de El Salvador e de Honduras. Pessoas sem documento chegam dos campos em busca de trabalho seguro todas as semanas, com horas extras e assistência de saúde se forem escolhidos. “Muitos na planta têm documentos picaretas, e a JBS só garante que eles os entreguem, they don’t care se são falsos, se são reais”, conta Sonny Subia, diretor estatal da organização latina Lulac no Colorado.

Lá dentro, as empacotadoras de carne parecem não se importar com a situação migratória. Algumas usam agências de subcontratação para lavar as mãos se houver uma inspeção. Lá fora, o Estado persegue os trabalhadores por não ter documentos.

Subia recorda uma inspeção na planta de Greeley como uma ferida aberta. Uma manhã fria de 12 de dezembro de 2006, quando ainda não havia saído o sol, agentes federais de imigração (ICE) entraram na empacotadora sem aviso e prenderam 262 trabalhadores, a metade deles, mexicanos. Em sua memória, a imagem mais forte são os rostos das crianças chorando à saída da escola porque ninguém havia ido buscá-las.

“Prenderam os pais e deixaram as crianças”, conta o ativista. “Eram muitas, eram muitas à espera. Elas não tinham ninguém aqui. Houve crianças esperando na escola até a madrugada porque ninguém foi buscá-las, ninguém que cuidasse delas. Estavam apavoradas.”

Sonny Subia tinha um centro cultural e o adaptou para que algumas crianças dormissem ali. Vizinhos da comunidade receberam outras, e as que não puderam ser recebidas foram acolhidas em uma casa temporária; o distrito escolar de Greeley ajudou na comunicação com os familiares para avisá-los sobre onde estavam as crianças. 

O departamento de imigração ficou na empacotadora durante mais de quatro horas e retirou os trabalhadores em ônibus enquanto familiares e amigos choravam e gritavam. Todos foram levados para a prisão federal de Denver.

“O que aconteceu com essas crianças?”, pergunto para Sonny. Ele suspira. “As pessoas vinham buscá-las do México, tios ou tias que moram aqui vinham buscá-las.” Houve crianças que ficaram sozinhas em Greeley porque não tinham advogados.

O mais trágico daquela manhã foi que, ao mesmo tempo, outras cinco processadoras foram surpreendidas por operações semelhantes: em Nebraska, Texas, Iowa, Minnesota e Utah. As fábricas eram propriedade da Swift & Co. 

No total, 1.282 funcionários foram detidos nesse dia da Virgem de Guadalupe, publicou o “Greeley Tribune”. Entre os migrantes presos, houve 18 que foram processados por roubo de identidade, pelo uso de documentos falsos. “Foi uma grande injustiça o fato de que funcionários da Swift não tenham sido processados”, disse o então fiscal do distrito de Weld, Ken Buck, ao jornal local. 

A fábrica de Greeley reduziu a produção depois das prisões porque não encontrou funcionários regulares que quisessem fazer esses trabalhos brutais e não houve como completar os horários de trabalho. Um ano depois, a JBS a comprou.

A hipocrisia norte-americana reside em não tolerar a imigração quando se tratam de pessoas estrangeiras que os alimentam. Hipocrisia é também que, com documentos ou não, os imigrantes pagam impostos ao Serviço de Rendas (IRS) todos os anos. Quem não possui papéis paga através de um número estrangeiro chamado ITIN. Assim, os imigrantes ajudam a sustentar a economia de dois países: a dos que desejam expulsá-los e o país que os expulsou.

IV. A selva dos essenciais

Os maus-tratos dos chefes são a queixa principal na fábrica da JBS em Greeley. A segunda são os problemas com o pagamento. Laura Padilla, a imigrante mexicana, acompanha a quantidade e o teor desses registros. 

Há supervisores que gritam, dizem palavrões e se relacionam com as pessoas como se fossem gado. Há pouco um deles, homem, maltratou uma mulher, a insultou e a obrigou a fazer um trabalho que ela não sabia fazer e que a colocava em risco. Padilla diz que a defendeu. Os advogados do sindicato fizeram uma queixa formal, e o supervisor foi despedido.

Para a trabalhadora, foi um alívio ser sindicalizada, mas nem todos os funcionários pertencem a um sindicato. “Trump fez o impossível para que os trabalhadores não formassem sindicatos”, diz Kim Córdova, a representante da UFCW no Colorado.

Dois terços dos empacotadores de carne estão filiados a sindicatos, e as grandes corporações usam sua força política para pressionar as organizações de trabalhadores, como documentou Jane Mayer na publicação “The New Yorker”. Escreveu uma reportagem sobre a empresa avícola Mountaire, uma das maiores doadoras na campanha de Trump, que tenta desmontar a filial do mesmo sindicato em que Kim Córdova trabalha, mas no Estado de Delaware.

A jornalista cita um estudo recente de dois economistas de Harvard, Anna Stansbury e Lawrence H. Summers, intitulado “The Declining Worker Power Hypothesis” (a hipótese do declínio do poder do trabalhador), em que defendem que nas últimas quatro décadas o fator mais importante de desigualdade de renda nos Estados Unidos foi a diminuição do poder dos trabalhadores. Desde os anos 50, a porcentagem de trabalhadores do setor privado sindicalizados caiu de 33% para 6%. Argumentam que essa diminuição, mais do que qualquer outra mudança estrutural na economia, explica quase todos os lucros para o 1% mais rico do país.

— Como esse trabalho mudou você? —pergunto à mexicana Laura Padilla sobre sua tarefa de escutar as demandas dos seus companheiros em Greeley.

— Nunca havia pensado nisso —ela diz. Agora estou muito satisfeita de poder ajudar as pessoas e defendê-las, poder lutar por seus direitos.

Padilla emigrou com sua mãe e seu pai, ao Estado do Colorado, saindo de Chihuahua, na fronteira com os Estados Unidos. Tinha 14 anos. Os pais a trouxeram para cá porque queriam “uma vida melhor” para ela. Na JBS ganha mais do que em um McDonald’s. Tem assistência médica para seus filhos. Juntou seu salário com o de seu marido, e compraram uma casa, algo com que muitos imigrantes sonham e um desejo que não conseguem cumprir porque morreram na metade do caminho, especialmente durante a pandemia.

Seis pessoas morreram e mais de 400 testaram positivo para o coronavírus na planta de Greeley. No início da emergência sanitária, dois funcionários pediram à JBS que tomasse medidas de prevenção. “Só nos escutaram quando era tarde demais, quando tínhamos companheiros falecidos e em estado grave”, diz Padilla, indignada.

Tyson Foods, JBS, Cargill e Smithfield Food, as grandes redes de processamento de carne de vaca, porco e frango, enfrentaram processos por negligência em tempos de Covid-19. 

Quantos mortos e doentes há até agora nas processadoras de carne? Não é possível saber. As companhias mantêm sob reserva os números, e o governo de Donald Trump não se mexeu para lhes exigir transparência. A organização independente The Food and Environment Reporting Network contabiliza pelo menos 269 mortes e 53.620 casos positivos em empacotadoras de carne e frango nos Estados Unidos.

Os hispanos têm quatro vezes mais probabilidades de serem internados, e morrem três vezes mais do que as pessoas brancas-não hispanas. Em Denver, capital do Colorado —e a maior cidade perto de Greeley—, a metade dos mortos são hispanos. Um estudo indicou que isso acontece porque moram em lares com mais pessoas, se encontram em indústrias críticas e trabalham “doentes”.

A carne importa mais do que a vida dos trabalhadores não só nas maiores empresas. 

Em abril do ano passado, dezenas de funcionários de uma processadora de salsichas e pepperonis em Dallas, Texas, sofreram um contágio massivo de Covid-19. Houve três mortos, e 52 pessoas se contagiaram —e contagiaram parte das suas famílias. A companhia Quality Sausage nunca apareceu publicamente nem admitiu a propagação do vírus. Também não assumiu a responsabilidade. A maioria dos trabalhadores são ilegais, contratados por uma empresa externa, e não há sindicatos.

Um dos trabalhadores mortos foi Hugo Domínguez, um homem alto e forte de 37 anos que estava prestes a se casar com sua namorada de duas décadas, mãe dos seus filhos. Sonhava voltar à sua cidadezinha em Veracruz, era um imigrante sem documentos. Hugo trabalhava no monta-cargas por mais de 12 horas por dia e às vezes descansava apenas aos domingos. Havia saído do México muito magrinho e, com o tempo, foi ficando obeso. Tinha diabetes, e suas pernas sangravam pelas varizes que surgiram operando o monta-cargas.

Se seus chefes lhe diziam que trabalhasse de madrugada, obedecia; se lhe diziam que fosse um feriado, obedecia. Sempre disse que sim, recordam Blanca Parra, sua noiva, e seu pai, um homem do campo que recebeu as cinzas do filho sem voltar a vê-lo e abraçá-lo.

Saúl Sánchez foi o primeiro trabalhador da empacotadora de carne da JBS em Greeley a morrer por conta do Covid-19. Faleceu em 7 de abril, aos 78 anos. Duas semanas antes, a sindicalista Kim Córdova havia pedido à JBS que isolasse os trabalhadores de mais de 60 anos, mas a empresa brasileira não tomou essas medidas. Depois morreu Eduardo Conchas de la Cruz, de 60 anos. Em seguida, faleceram outras quatro pessoas, entre elas Tin Aye, uma imigrante de Mianmar de 60 anos.

Enquanto alguns habitantes dos EUA puderam fazer quarentena e tomar precauções, as processadoras se tornaram focos de contágio massivo. Só ficaram fechadas entre 24 e 28 de abril. O presidente Trump assinou um decreto presidencial para que fossem reabertas, sob o argumento de que era necessário evitar a escassez nos supermercados.

Durante seu governo, Trump chamou os imigrantes de ladrões, traficantes, criminosos, estupradores. “Eu os quero fora daqui”, disse em uma entrevista à CNN no início da sua administração, que acaba de terminar. E, a partir da sua postura anti-imigrante, o governo manteve poucos controles de segurança nas plantas. Muitas continuam sem distribuir equipamentos de proteção.

Osha, a agência que deve monitorar a segurança dos trabalhadores, foi criticada pelos defensores civis por sua incapacidade de emitir sanções. “A Osha ficou paralisada”, diz Domingo García, advogado do Texas e presidente nacional da Lulac, a organização hispana. A Osha impôs apenas uma multa de US$ 15 mil no caso da JBS. Kim Córdova, líder do robusto sindicato UFCW Local 7, opina da mesma forma: “A Osha ficou totalmente ausente. Os trabalhadores são sacrificados e estão morrendo porque não há proteção para eles”.

García se reuniu em meados de janeiro deste ano com Joe Biden e Kamala Harris para falar das inspeções e da necessidade de punho de ferro com as empresas. A organização enviou cartas aos governadores do país inteiro para lhes pedir que os trabalhadores essenciais sejam os primeiros a receber a vacina contra o Covid-19. Córdova diz que é urgente uma reforma, com o novo governo de Joe Biden, uma mudança para que os trabalhadores tenham seguros-desemprego e seguros de vida, além da vacina preventiva.

Sam Twin, a filha da imigrante de Mianmar falecida em Greeley, Tin Aye, escreveu uma carta no “USA Today” em outubro de 2020. O texto é uma síntese da vida e da morte nas processadoras, das condições desumanas.

“Minha mãe veio para os Estados Unidos em busca do sonho americano. Morreu de coronavírus sem ter conhecido seu novo neto e conectada a um ventilador pulmonar. A empresa empacotadora de carne JBS ajudou a levar embora o que nossa família mais amava: minha mãe. E depois o governo levou mais coisas: nossa crença de que cada vida importa, sem importar quanto dinheiro você ganha.”

Aye fugiu das perseguições em seu país e trabalhou durante 12 anos na JBS de Greeley. Um dia a empacotadora começou a mostrar sintomas de Covid-19. Quando foi à clínica interna da JBS, o diagnóstico que recebeu foi que era apenas um resfriado comum ou uma gripe leve, e a mandaram de volta ao trabalho. As semanas passaram, e ela nunca melhorou.

“Em determinado momento, perguntou ao seu supervisor se podia descansar um pouco e ir ao banheiro. Ele lhe disse que não. E minha mãe, orgulhosa, bela e trabalhadora, urinou nas calças. Molhada de urina, abaixou a cabeça e continuou a trabalhar. Enquanto isso, o vírus estava causando estragos no seu corpo.”

A líder Kim Córdova fala com tristeza do caso de Tin Aye. Depois enumera necessidades, dívidas: “Nossos trabalhadores garantem a mesa, põem a mesa para todas as comunidades. Mas eles não são tratados como essenciais. Espero que realmente haja uma mudança neste país porque não podemos continuar assim. O Covid só veio expor esse tipo de trabalhador, precisamos de uma reforma para eles”.

“Os trabalhadores estão entre a vida, a morte e a devastação financeira. Em situação de precariedade. Não há pagamento também para as famílias, é outro grande problema, porque eles estão expostos e também morreram.”

Já se passaram mais de cem anos desde que o escritor Upton Sinclair publicou em 1906 seu romance “A Selva” e narrou o trabalho escravo de homens e mulheres, o acosso sexual, a corrupção, a submissão imposta pelas grandes corporações, a má qualidade da carne. Mais de cem anos desde que o presidente Theodore Roosevelt leu o livro e foram feitas as primeiras reformas na indústria alimentícia, com o início da FDA (Food and Drug Administration). Mais de cem anos desde que apareceram seus personagens Jurgis e Ona, imigrantes da Lituânia em busca de uma vida melhor, como milhares de mexicanos, centro-americanos, mianmarenses ou somalis. São 115 anos desde então e 19 desde que Eric Schlosser publicou “Fast Food Nation” e mostrou que o sacrifício de animais e pessoas continuava.


A pandemia abriu as cortinas para que os invisíveis voltassem a ser vistos. San Twin disse em carta para sua mãe: “Trabalhou longas e duras horas para manter as lojas de comestíveis dos Estados Unidos bem abastecidas, com um estoque interminável de carne à disposição para assar no verão”. 

Invisíveis que servem as mesas dos norte-americanos.

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