Transgênicos: do conformismo às alternativas

Há 25 anos, surgiam OGMs comerciais. Embora envenenem populações, ampliem poder do ruralismo e arrasem agrodiversidade, são vistos às vezes com resignação. Um livro busca entender por que — e como converter a obediência em revolta

Por Brian Tokar, no Counterpunch | Tradução: Gabriela Leite e Antonio Martins

No final de 1996, a Monsanto e algumas outras empresas passaram a vender sementes modificadas por engenharia genética a produtores comerciais, além de montar um aparato maciço de relações públicas para convencer as sociedades de seus supostos benefícios. Alardearam que seus novos OGMs (Organismos Geneticamente Modificados) eram uma resposta à fome mundial, uma maneira de ajudar agricultores com problemas a continuarem suas colheitas e uma tecnologia que traria comida de mais qualidade e mais nutritiva para todos. Céticos de todas as partes deram respostas rápidas. Redes descentralizadas de ativistas organizaram Dias de Ação Global. O Greenpeace bloqueou remessas e plantou símbolos em campos de agricultores. Em alguns países, houve sabotagem a testes ocultos de OGMs que aconteciam na calada da noite, mas no Reino Unido elas começaram a ser feitas abertamente, levando a absolvições dramáticas em tribunais locais. Alguns agricultores na Índia organizaram grandes cerimônias públicas para queimar colheitas de OGMs. Após um ano, a União Europeia começou a exigir que produtos alimentares que contivessem OGMs fossem rotulados.

Vinte e cinco anos depois, muitas variedades de alimentos geneticamente modificados são cultivados em aproximadamente 190 milhões de hectares, no mundo inteiro — um cenário relativamente constante desde o início até a metade da década de 2010 — e o perfil do tipo ou local da plantação não varia muito desde o final dos anos 1990. Metade da área global plantada com OGMs é de soja, milho, algodão e canola, representando 99% de todas as culturas geneticamente modificadas. Cerca de 40% de toda área em que se cultivam OGMs está nos Estados Unidos, e 95% está em apenas sete países. 85% das safras são modificadas para resistir a altas doses de agrotóxicos — o mais frequente é a família de pesticidas “Roundup”, da Monsanto/Bayer. Mais de 40% produzem um pesticida bacteriano destinado a atacar várias espécies de “pragas”, mas que causa danos há muito documentados a uma série de insetos benéficos (o total excede os 100% devido a variedades que contêm múltiplos ou mais de um traço de engenharia).

Como muita gente sabe, essa tecnologia não conseguiu demonstrar nenhuma vantagem consistente aos rendimentos das safras ou à qualidade do alimento, mas ajudou na consolidação sem precedentes do poder corporativo dos setores globais de sementes e agrotóxicos. Após um ciclo de fusões em meados da década de 2010 — que agravou amplamente a onda original de fusões e aquisições impulsionadas pelos OGMs no final dos anos 90 — três impérios globais do agronegócio passaram a controlar 70% da produção de agrotóxicos e mais de 60% das sementes comerciais do mercado. As gigantes recém-fundidas são Bayer-Monsanto, ChemChina-Syngenta e Corteva, uma empresa que formou-se a partir da fusão das divisões de agronegócio da Dow e da DuPont. Quatro gigantes de comercialização e processamento de grãos (ADM, Bunge, Cargill e Louis Dreyfuss) agora controlam 90% dos mercados de exportação de safras em todo o mundo.

Apesar de boa parte do mundo rejeitar as safras de OGMs, essas variedades ainda dominam o processamento global de alimentos e mercados de ração para gado. Agricultores em muitos países têm dificuldade cada vez maior de obter sementes com características agronômicas desejadas — quase sempre resultado de melhoramento genético tradicional — que não sejam também geneticamente modificadas para resistir a herbicidas e/ou produzir toxinas inseticidas. Apesar de os céticos em relação aos transgênicos serem chamados de anticiência pelas corporações, pesquisadores do mundo inteiro documentam as consequências indesejadas causadas pelo consumo dos produtos, muitas vezes sendo obrigados a desafiar os ataques organizados pelas empresas a suas reputações e fontes de renda.

Embora a resistência ativa aos transgênicos continue em diversos países, muitas pessoas tornaram-se complacentes diante de nosso abastecimento alimentar bifurcado. Os que são capazes de pagar mais preferem, crescentemente, produtos orgânicos e livres de transgênicos; o restante das populações é forçado a se contentar com um suprimento alimentar cada vez mais sintético e com frequência tóxico. Nos Estados Unidos, por exemplo, a última onda de pressões pela rotulagem obrigatória de alimentos foi adocicada por uma lei apoiada pelo governo Obama, que supostamente impunha uma regra nacional de rotulagem mas tornava-a, em essência, confusa, cheia de lacunas e criada para ser amplamente ignorada. Ainda assim, as populações em boa parte do mundo continuam a rejeitar alimentos e outros produtos agrícolas produzidos por meio de engenharia genética.

Uma exceção notável é a Argentina, o terceiro maior produtor de transgênicos do mundo (depois dos Estados Unidos e do Brasil). A produção de soja OGM dominou aos poucos a agricultura, com poucas centelhas de resistência. Há mais de uma década, encontrei-me com a socióloga argentina Amalia Leguizamón, que então se graduava em Nova York, lutando para entender como tudo havia se passado. Ela começou a explorar as condições concretas dos centros de produção de soja transgênica na Argentina, e descobriu que as raras vozes de resistência eram abafadas pelo que parecia ser um consenso nacional inabalável. Agora professora na Universidade Tulane, de Nova Orleans, ela escreveu um livro baseado em pesquisa meticulosa, e de leitura muito atraente, que relata suas investigações e chega ao núcleo da aparente atração da Argentina pela soja transgênica.

O livro de Amália, Seeds of Power: Environmental Injustice and Genetically Modified Soybeans in Argentina [“Sementes de Poder: Injustiça Ambiental e Soja Transgênica na Argentina”] transporta os leitores a uma das regiões mais sojo-dependentes em seu país. Vasculha as famosas pradarias do Pampa e a região florestal do Chaco, que juntas compõem o Nordeste e representam um terço do território. Campos de soja transgênica dependente de herbicidas estendem-se até onde a vista alcança, chegando aos quintais das casas e dominando as margens das rodovias. Muitas das grandes plantações de soja são manejadas a longa distância por empreendedores e técnicos ligados a corporações, que utilizam as últimas ferramentas high-tech, e vivem com frequẽncia em áreas urbanas, distantes muitas horas das fazendas que controlam. Eles expandiram ainda mais uma tradição de propriedades orientadas à exportação, que remonta ao final do século XIX, quando imigrantes europeus eram recrutados aos milhões para ajudar a transformar a Argentina no granero (celeiro) del mundo

Mas foi apenas após a chegada dos transgênicos que a região mudou dramaticamente sua produção — passando de trigo, milho, carne, laticínios e uma variedade de outros produtos para a monocultura, cada vez mais mecanizada, de soja. O cereal representa agora metade da produção agrícola argentina, com 80% de toda a área agricultável em lotes com mais de 1000 hectares. Trabalhadores agrícolas — agora menos de 10% da população argentina == trabalham tipicamente como contratistas e suas vidas são dominadas pelas decisões dos gestores corporativos e de fazendeiros distantes. Mas nas cidades e vilas, ainda é comum ouvir as pessoas dizerem que “todos vivemos da renda do campo”, já que confiam na relativa estabilidade econômica que a indústria de exportação de soja oferece. A ditadura militar dos anos 1970 e 80 “pacificou” o campo, e as políticas neoliberais dos anos 1900 difundiram ainda mais os padrões de domínio das corporações, que se expandiram por meio de descontos ocasionais no preço das sementes e relaxamentos temporários das regras de propriedade intelectual e patentes. Estes “atrativos” fizeram a soja transgênica parecer ainda mais desejável para os plantadores argentinos que para seus colegas nos EUA. Os governos neopopulistas de Nestor e Cristina Kirchner apoiaram a expansão da economia da soja, e foram derrotados pelos grandes plantadores quando tentaram elevar os impostos sobre a exportação, durante a crise alimentar global do final da década de 2000. Estes ruralistas ampliaram, então, sua influência política.

Ocorre que Amália Leguizamón debruçou-se sobre bolsões de preocupação e ceticismo. Numa cidade dependente de soja, ela informou-se sobre as altas taxas de incidência de câncer, abortos espontâneos e más formações ao nascer. Mas a maioria das pessoas insistia que não tinha ideia sobre por que estes fatos ocorriam e expressava um senso persistente de resignação e fatalismo, mesmo em meio aos onipresentes caminhões fumigadores. Embora algumas preocupações um pouco mais agudas vez por outra emergissem — mais claramente quando ela encontrava-se em espaços exclusivamente femininos – a atitude típica era as pessoas fecharem-se antes que a conversa avançasse muito. No entanto, em uma localidade as preocupações tácitas explodiram em resistência organizada, que levou à proibição local de fumigações, a uma ação judicial (que repercutiu em todo o país) contra um violador e, por fim, ao cancelamentos dos planos de abrir uma enorme fábrica de sementes de milho da Monsanto, que seria uma das maiores do mundo. A comunidade (denominada emblematicamente Malvinas Argentinas) e localizada na periferia empobrecida de Córdoba — a segunda maior cidade do país — tornou-se o local de um bloqueio e um acampamento, que duraram dois anos e abrigaram 200 pessoas, incluindo apoiadores internacionais. Comunidades indígenas que enfrentavam devastação florestal e expulsão de suas terras do Norte argentino também se mobilizaram, sem no entanto alcançar resultados tão expressivos.

Seeds of Power propõe refletir em profundidade sobre um problema raras vezes examinado por ativistas e ou pesquisadores. Como o poder opera para produzir obediência? O que é frequentemente caracterizado como apoio público a políticas favoráveis às corporações costuma ser mera resignação, por parte daqueles que sentem ter pouco poder ou meios de agir sobre questões complexas. As restrições da cultura, da história, dos papéis de gênero tradicionais e compulsórios e outros fatores atuam como silenciadores poderosos. Sabemos que, quando as pessoas sentem-se desempoderadas, são mais suscetíveis a formas de demagogia política e religiosa que podem levá-las a aceitar os riscos à própria saúde e as tensões econômicas a que estão expostas todos os dias. Grupos de mães, como os da periferia de Córdoba, costumam enxergar mais claramente em meio ao nevoeiro, e estar à frente de lutas por justiça ambiental. As observações de Amália a respeito da política de obediência também jogam luz sobre as realidades vivenciadas por outros grupos — como fazendeiros do meio-oestes dos EUA, onde a pressão constante para continuar expandindo as lavouras — único caminho para manter as famílias na terra — leva à aceitação das tecnologias que reduzem o trabalho, como as variedades transgênicas tolerantes a herbicidas.

No último ano, a pandemia de coronavíris e a corrida mundial para desenvolver e distribuir vacinas turbinaram a reputação das empresas envolvidas na pesquisa biotecnológica e médica. Seus braços no agrobusiness articularam uma ofensiva de relações públicas para tentar usufruir de parte destes ganhos. Ocultam sistematicamente a distinção fundamental entre o uso avançado de métodos genéticos, como ferramentas de pesquisa, e o lançamento, em ambiente aberto, de organismos vivos geneticamente manipulados. Embora bactérias ou leveduras OGM sejam frequentemente envolvidas nas fases iniciais da produção de novos fármacos, como as vacinas de mRNA, os produtos finais purificados implicam riscos muito menores que organismos transgênicos completos. A literatura científica sobre a ruptura de regulação genética provocada pelas tecnologias OGM nos níveis celular e molecular é muito ampla e convincente, apesar da desinformação promovida pelas corporações em sentido contrário. As abordagens biotecnológicas de monitoramento e análise ajudaram a acelerar e tornar mais confiável a pesquisa para melhoramento das espécies vegetais. Mas há uma distinção também clara entre montar métodos de diagnóstico em laboratório e liberar sem controle sementes, plantas e até insetos modificados geneticamente. Afirma-se que novos métodos de edição genética por meio de tecnologias como a CRISPR-Cas9, contemplada com um Nobel, são inerentemente mais precisas que os métodos convencionais de engenharia genética, mas há também uma crescente literatura de precaução contra as consequências imprevistas das manipulações genéticas supostamente mais avançadas.

O livro, Seeds of Power, traz visões importantes sobre as dinâmicas complexas de poder e (des)respeito às leis e sobre como elas se manifestam num contexto nacional mais amplo. Ajuda a compreender como os indivíduos posicionam-se em meio a estas dinâmicas e avaliam as decisões pessoais que podem servir para reforçar padrões de controle social. Combina de forma especialmente rica rigor teórico e narrativa atraente. Merece ser lido por todas as pessoas que procuram entender melhor como o debate global sobre transgênicos evoluiu, nos últimos 25 anos.

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