O pânico a Piketty e a direita sem ideias

Em resposta ao “Capital no Século XXI”, não há argumentos, só silêncio e preconceitos. Partidários da desigualdade estão em apuros

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Em resposta ao “Capital no Século XXI”, não há argumentos, só silêncio e preconceitos. Partidários da desigualdade foram pegos no contrapé

Por Paul Krugman | Tradução: Daniella Cambaúva, em Carta Maior

Leia mais: Em Outras Palavras, resenha de Paul Mason sobre livro de Thomas Piketty

O novo livro do economista francês Thomas Piketty, “O capital no século XXI”, é um prodígio de honestidade. Outros livros de economia foram um sucesso nas vendas, mas diferentemente da maioria deles, a contribuição de Piketty tem uma séria erudição, capaz de mudar a retórica. E os conservadores estão aterrorizados.
 
Por isso, James Pethokoukis, do American Interprise Institute, adverte na revista “National Review” que o trabalho de Piketty precisa ser refutado porque, do contrário, “se propagará entre a clerezia e dará nova forma ao cenário da economia política em que  serão travadas todas as futuras batalhas sobre política”.
 
Pois bem, lhes desejo boa sorte nesta empreitada. Por enquanto, o que de fato surpreende no debate é a direita parecer incapaz de organizar qualquer tipo de contra-ataque significativo à tese de Piketty. Em vez disso, sua reação consistiu exclusivamente em desqualificá-lo. Concretamente, em alegar que Piketty é um marxista e, portanto, alguém que considera a desigualdade de renda e de riqueza uma questão importante. Em breve voltarei à questão da desqualificação. Antes, vejamos por que o livro está tendo tanta repercussão. 

Piketty não é o primeiro economista a ressaltar que estamos experimentando um forte aumento da desigualdade, ou até mesmo a enfatizar o contraste entre o lento crescimento da renda para a maioria da população e os rendimentos altíssimos no topo. É verdade que Piketty e seus colegas agregaram uma profundidade histórica ao nosso conhecimento, demonstrando que realmente estamos vivendo em uma nova Era Dourada. Mas nós sabemos disso faz tempo.

Não. O que é realmente novo sobre o “Capital” é o modo como destrói o mais amado mito dos conservadores, a insistência de que estamos vivendo em uma meritocracia, em que grandes fortunas são conquistadas e merecidas.

Nas duas últimas décadas, a resposta conservadora às tentativas de tratar de forma política a questão do aumento da renda das classes altas envolveu duas linhas de defesa: em primeiro lugar, a negação de que os ricos estão realmente se dando tão bem e o resto está mal. E quando tal negação falha, eles alegam que essas rendas elevadas são uma recompensa justificada por serviços prestados. Não se deve chamá-los de 1% ou de ricos, mas sim de “geradores de emprego”.
 
Mas como fazer essa defesa, se os ricos derivam grande parte de sua renda não do trabalho que eles fazem, mas dos ativos que possuem? E se as grandes fortunas, cada vez mais, que não vêm de empreendimentos, mas sim de heranças?

O que Piketty mostra é que estas não são questões menores. As sociedades ocidentais, antes da Primeira Guerra Mundial, eram dominadas, de fato, por uma oligarquia de riqueza herdada -e seu livro argumenta convincentemente de que estamos voltando para esse cenário.

Portanto, o que os conversadores podem fazer, diante do medo que esse diagnóstico possa ser usado para justificar o aumento de impostos sobre os ricos? Podem tentar rebater Piketty de forma substancial mas, até agora, não vi nenhum sinal disso. Em seu lugar, como eu disse, há apenas desqualificações.

Isso não deveria ser surpreendente. Participei de debates sobre a desigualdade de renda por mais de duas décadas e nunca vi os “especialistas” conservadores conseguirem negar os números sem tropeçarem em seus próprios cadarços intelectuais. Ora, é quase como se os fatos fundamentalmente não estivessem do lado deles. Ao mesmo tempo, xingar de vermelho todos os que questionam qualquer aspecto da teoria de livre mercado tem sido um procedimento padrão da direita, desde que pessoas como William F. Buckley tentaram impedir o ensino da economia keynesiana, não por prová-la errada, mas denunciando-a como “coletivista”.

Ainda assim, tem sido incrível assistir aos conservadores, um após o outro, denunciarem Piketty como marxista. Até mesmo Pethokoukis, que é mais sofisticado do que o resto, chama o livro de uma obra de “marxismo leve”, o que só faz sentido se a mera menção à desigualdade de riqueza faça de você um marxista. (Talvez esta a visão deles. Recentemente, o ex-senador Rick Santorum denunciou o termo “classe média” como “conversa marxista”, porque, veja bem, não temos classes nos Estados Unidos.)

E o “Wall Street Journal”, em sua crítica ao livro, de forma muito previsível, percorre todo o percurso. De alguma forma, consegue comparar a defesa de Piketty da tributação progressiva como forma de limitar a concentração de riqueza -um remédio tão americano quanto a torta de maçã, defendido não apenas por economistas, mas também por políticos, inclusive por Teddy Roosevelt- aos males do stalinismo. Isso é realmente o melhor que o “Wall Street Journal” consegue fazer? Aparentemente, a resposta é sim.

Agora, o fato de os defensores dos oligarcas norte-americanos estarem evidentemente em falta de argumentos coerentes não significa que eles estejam politicamente em fuga. O dinheiro ainda fala -na verdade, em parte graças ao Supremo Tribunal de Roberts, fala mais alto do que nunca. Ainda assim, as ideias também importam, moldando a forma como falamos sobre a sociedade e, eventualmente, a forma como agimos. E o pânico em relação a Piketty mostra que a direita ficou sem ideias.

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5 comentários para "O pânico a Piketty e a direita sem ideias"

  1. Raphael Mussato disse:

    A reportagem pareceu-me de importância expressiva, posto que dificilmente na contemporaneidade, encontramos alguma publicação que dissolva o norte dos conservadores de modo tão contundente como é aí descrito. Tenho lido vários livros de diversos autores que também abordam, de modo coerente, a questão da distribuição de renda e do brutal acumulo de capital pela minoria oligárquica, em detrimento do contínuo empobrecimento financeiro da bases, pois como foi exposto acima, os dados não corroboram com um cenário distinto. No entanto, no texto de Krugman, ficou-me um tanto vago no que a obra de Piketti difere-se da dos demais autores, a ponto de não permitir (por enquanto) argumentos mais significativos da direita _ se é que a direita algum dia foi capaz de tecer algum argumento de credibilidade tangível.
    Gostaria de saber se “O Capital no Século XXI” está disponível nas livrarias do Brasil, se foi traduzido para o português; ou somente é possível obtê-lo por meio de compras em sites externos. E nesse último caso, se eu encontro traduzido na língua inglesa ou espanhola.
    Agradeço desde já a atenção.

  2. André Moraes disse:

    Assisti uma entrevista do Piketty a Jorge Pontual na Globo News. Não sou economista e não tenho tato conhecimento assim. Mas fiquei interessadíssimo pelo livro (já traduzido e a venda em algumas livrarias no Brasil). Na entrevista, Piketty fala sobre a escassez de recursos e “prevê” o resultado da lógica burra do crescimento econômico via consumo, consumo, consumo, me parece absurdamente insano. Me deixa perplexo a falta de um debate racional, mundial, sobre para onde estamos indo com isto. A comparação com tempos idos não se aplica. Ao final das grandes guerras os recursos eram abundantes… não se aplica aos dias de hoje. O sentido do capital é o bem estar humano e fomos muito além disso… Não há recursos para tanta soberba, tanta ostentação… e meritocracia de cú é rola!

  3. Michele disse:

    Achei o livro bem sensacionalista, fantasioso e quase amador.
    Acredito que intenção foi causar polêmica e discussões! Não trouxe soluções aplicáveis.
    Típica escrita para vender (uma ironia em se tratando de um livro que ataca o capitalismo)!
    Ouso comparar com a teoria Malthusiana que só causou alvoroço inutilmente.

  4. ivonascimento disse:

    chamar o livro de sensacionalista é ser sensacionalista. O livro não advem de um empirismo, mas de pesquisa; coleta e analise de dados que resultaram em informações para perguntar formuladas de maneira coerente e responsavel.

  5. Corrigindo, coleta e análise de dados, uma “mexidinha” neles para mostrar gráficos que pareçam levar às conclusões que ele quer chegar. Vide a análise do Financial Times e o artigo do Prof. Van Wijnbergen da Universidade de Amsterdam.

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