Boaventura: Para ler em 2050

“Por isso, aconteceu o que aconteceu. O quão terrível foi está inscrito no modo como tentamos curar as feridas da carne e do espirito ao mesmo tempo que reinventamos uma e outro”

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Por Boaventura de Sousa Santos

Quando um dia se puder caracterizar a época em que vivemos, o espanto maior será que se viveu tudo sem antes nem depois, substituindo a causalidade pela simultaneidade, a história pela notícia, a memória pelo silêncio, o futuro pelo passado, o problema pela solução. Assim, as atrocidades puderam ser atribuídas às vítimas, os agressores foram condecorados pela sua coragem na luta contra as agressões, os ladrões foram juízes, os grandes decisores políticos puderam ter uma qualidade moral minúscula quando comparada com a enormidade das consequências das suas decisões. Foi uma época de excessos vividos como carências; a velocidade foi sempre menor do que devia ser; a destruição foi sempre justificada pela urgência em construir. O ouro foi o fundamento de tudo, mas estava fundado numa nuvem. Todos foram empreendedores até prova em contrário, mas a prova em contrário foi proibida pelas provas a favor. Houve inadaptados, mas a inadaptação mal se distinguia da adaptação, tantos foram os campos de concentração da heterodoxia dispersos pela cidade, pelos bares, pelas discotecas, pela droga, pelo facebook.

A opinião pública passou a ser igual à privada de quem tinha poder para a publicitar. O insulto tornou-se o meio mais eficaz de um ignorante ser intelectualmente igual a um sábio.

Desenvolveu-se o modo de as embalagens inventarem os seus próprios produtos e de não haver produtos para além delas. Por isso, as paisagens converteram-se em pacotes turísticos e as fontes e nascentes tomaram a forma de garrafa. Mudaram os nomes às coisas para as coisas se esquecerem do que eram. Assim, desigualdade passou a chamar-se mérito; miséria, austeridade; hipocrisia, direitos humanos; guerra civil descontrolada, intervenção humanitária; guerra civil mitigada, democracia. A própria guerra passou a chamar-se paz para poder ser infinita. Também a Guernika passou a ser apenas um quadro de Picasso para não estorvar o futuro do eterno presente. Foi uma época que começou com uma catástrofe mas que em breve conseguiu transformar catástrofes em entretenimento. Quando uma catástrofe a sério sobreveio, parecia apenas uma nova série.

Todas as épocas vivem com tensões, mas esta época passou a funcionar em permanente desequilíbrio, quer ao nível coletivo, quer ao nível individual. As virtudes foram cultivadas como vícios e os vícios como virtudes. O enaltecimento das virtudes ou da qualidade moral de alguém deixou de residir em qualquer critério de mérito próprio para passar a ser o simples reflexo do aviltamento, da degradação ou da negação das qualidades ou virtudes de outrem. Acreditava-se que a escuridão iluminava a luz, e não o contrário.

Operavam três poderes em simultâneo, nenhum deles democrático: capitalismo, colonialismo e patriarcado; servidos por vários sub-poderes, religiosos, mediáticos, geracionais, étnico-culturais, regionais. Curiosamente, não sendo nenhum democrático, eram o sustentáculo da democracia-realmente-existente. Eram tão fortes que era difícil falar de qualquer deles sem incorrer na ira da censura, na diabolização da heterodoxia, na estigmatização da diferença. O capitalismo, que assentava nas trocas desiguais entre seres humanos supostamente iguais, disfarçava-se tão bem de realidade que o próprio nome caiu em desuso. Os direitos dos trabalhadores eram considerados pouco mais que pretextos para não trabalhar. O colonialismo, que assentava na discriminação contra seres humanos que apenas eram iguais de modo diferente, tinha de ser aceito como algo tão natural como a preferência estética. As supostas vítimas de racismo e de xenofobia eram sempre provocadores antes de serem vítimas. Por sua vez, o patriarcado, que assentava na dominação das mulheres e na estigmatização das orientações não heterossexuais, tinha de ser aceito como algo tão natural como uma preferência moral sufragada por quase todos. Às mulheres, homossexuais e transsexuais haveria que impor limites se elas e eles não soubessem manter-se nos seus limites.

Nunca as leis gerais e universais foram tão impunemente violadas e seletivamente aplicadas, com tanto respeito aparente pela legalidade. O primado do direito vivia em ameno convívio com o primado da ilegalidade. Era normal desconstituir as Constituições em nome delas.

O extremismo mais radical foi o imobilismo e a estagnação. A voracidade das imagens e dos sons criava turbilhões estáticos. Viveram obcecados pelo tempo e pela falta de tempo. Foi uma época que conheceu a esperança mas a certa altura achou-a muito exigente e cansativa. Preferiu, em geral, a resignação. Os inconformados com tal desistência tiveram de emigrar. Foram três os destinos que tomaram: iam para fora, onde a remuneração econômica da resignação era melhor e por isso se confundia com a esperança; iam para dentro, onde a esperança vivia nas ruas da indignação ou morria na violência doméstica, no crime comum, na raiva silenciada das casas, das salas de espera das urgências hospitalares, das prisões, e dos ansiolíticos e anti-depressivos; o terceiro grupo ficava entre dentro e fora, em espera, onde a esperança e a falta dela alternavam como as luzes nos semáforos. Pareceu estar tudo à beira da explosão, mas nunca explodiu porque foi explodindo, e quem sofria com a explosões ou estava morto, ou era pobre, subdesenvolvido, velho, atrasado, ignorante, preguiçoso, inútil, louco – em qualquer caso, descartável. Era a grande maioria, mas uma insidiosa ilusão de ótica tornava-a invisível. Foi tão grande o medo da esperança que a esperança acabou por ter medo de si própria e entregou os seus adeptos à confusão.

Com o tempo, o povo transformou-se no maior problema, pelo simples fato de haver gente a mais. A grande questão passou a ser o que fazer de tanta gente que em nada contribuía para o bem estar dos que o mereciam. A racionalidade foi tão levada a sério que se preparou meticulosamente uma solução final para os que menos produziam, por exemplo, os velhos. Para não violar os códigos ambientais, sempre que não foi possível eliminá-los, foram biodegradados. O êxito desta solução fez com que depois fosse aplicada a outras populações descartáveis, tais como os imigrantes, jovens das periferias, toxicodependentes, etc.

A simultaneidade dos deuses com os humanos foi uma das conquistas mais fáceis da época. Para tal bastou comercializá-los e vendê-los nos três mercados celestiais existentes, o do futuro para além da morte, o da caridade e o da guerra. Surgiram muitas religiões, cada uma delas parecida com os defeitos atribuídos às religiões rivais, mas todas coincidiam em serem o que mais diziam não ser: mercado de emoções. As religiões eram mercados e os mercados eram religiões.

É estranho que uma época que começou  como só tendo futuro (todas as catástrofes e atrocidades anteriores eram a prova da possibilidade de um novo futuro sem catástrofes nem atrocidades) tenha terminado como só tendo passado. Quando começou a ser excessivamente doloroso pensar o futuro, o único tempo disponível era tempo passado. Como nunca nenhum grande acontecimento histórico foi previsto, também esta época terminou de modo que colheu todos de surpresa. Apesar de ser geralmente aceito que o bem comum não podia deixar de assentar no luxuoso bem estar de poucos e no miserável mal-estar das grandes maiorias, havia quem não estivesse de acordo com tal normalidade e se rebelasse. Os inconformados dividiam-se em três estratégias: tentar melhorar o que havia, tentar romper com o que havia, tentar não depender do que havia. Visto hoje, a tanta distância, era obvio que as três estratégias deviam ser utilizadas articuladamente, ao modo da divisão de tarefas em qualquer trabalho complexo, uma espécie de divisão do trabalho do inconformismo e da rebeldia. Mas, na época, tal não foi possível, porque os rebeldes não viam que, sendo produto da sociedade contra a qual lutavam, teriam de começar por se rebelar contra si próprios, transformando-se eles próprios antes de quererem transformar a sociedade. A sua cegueira fazia-os dividir-se a respeito do que os deveria unir e unir-se a respeito do que os devia dividir. Por isso, aconteceu o que aconteceu. O quão terrível foi está bem inscrito no modo como vamos tentando curar as feridas da carne e do espirito ao mesmo tempo que reinventamos uma e outro.

Porque teimamos, depois de tudo? Porque estamos reaprendendo a alimentar-nos da erva daninha que a época passada mais radicalmente tentou erradicar, recorrendo para isso aos mais potentes e destrutivos herbicidas mentais – a utopia.

 

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3 comentários para "Boaventura: Para ler em 2050"

  1. Edgar Rocha disse:

    Texto Magnífico!!!
    “o terceiro grupo ficava entre dentro e fora, em espera, onde a esperança e a falta dela alternavam como as luzes nos semáforos.” Terrivelmente para mim, este sou eu.
    Quando do grande terremoto que sacudiu o Chile, em 2011, minha desesperança ativou-me um grotesco senso estético. Achei que poderia poetizar sobre os sentimentos que, igualmente, me sacudiam por dentro. A despeito da baixa qualidade estética, tal intento se compensou pela sinceridade. Acredito que o autor do texto acima, expressou, de forma completa tudo que se pode dizer sobre este período, sobre as crises e sobre gente como eu. Muito obrigado!
    Peço licença para colocar o que escrevi. À época, comovi-me com as declarações de um Ministro chileno, quanto aos caos e aos saques ocorridos em decorrência da catástrofe. “Não estamos sob uma falha geológica, estamos sob uma falha moral”, foi mais ou menos o que ele disse.
    Acredito ser possível identificar a gama de sensações as quais vivenciamos sobre este presente sombrio, poeticamente transformado em passado pelo olhar incontestável de Boaventura de Sousa Santos . Espero mesmo, que passe.
    O TEMPO DE KALI
    Fecham-se os portais do paraíso
    rompem-se as trancas dos umbrais
    viver o que se foi não é preciso
    o contradito do que é já não é mais…
    Emergem pestilências do imundo
    sucumbem os dons do intelecto
    nas águas das enchentes moribundos
    transformam-se em esterco e barro infecto
    Descolam-se dos pólos as geleiras
    resfriam-se de vez os corações
    encobrem-se de mar vilas costeiras
    afogam-se no sal as emoções
    No olho do tornado derrubadas
    as pontes que uniam relações
    famílias de sólidas fachadas
    desabam no furor dos furacões
    Imploram sob falhas tectônicas
    as almas vitimadas pelo horror
    ceifadas pelas forças antagônicas
    no choque entre a verdade e o torpor
    Escorre pelo monte e cobre o dia
    incontinente a lava do ideal
    corrente cálida que ao ar resfria
    na fria superfície do real
    O tempo do demônio se inicia
    de deus o belo sol hoje corrói
    no câncer que reforça a agonia
    causada pela luz que agora dói
    A sombra da verdade se antecipa
    ao brilho que do ardil é causador
    o engodo da imagem se dissipa
    no toque precedido pelo amor…
    O belo é o que se forma sobre fato
    que ao ego cega e a alma não engana
    obriga-nos a apurar o tato
    secando os olhos e a mente insana
    Arrisquem-se os fortes no escuro
    resistam à luz antibiótica
    sustentem vosso peso em solo duro
    pois o medo é ilusão de ótica
    Não contem os mortos e os perdidos
    retomem a coragem, afastem o drama
    resgatem as sobras e os feridos
    reúnam os vivos ao redor da chama
    Nos mostra que lembrar nunca é demais
    a dor que nos reporta a uma ferida
    ouçamos os mitos imortais
    em que a lama faz surgir o dom da vida.

  2. Edgar Rocha disse:

    Corrigindo: “Não estamos SOBRE uma falha geológica, estamos SOBRE uma falha moral. Desculpem-me.

  3. Rafael disse:

    Qual o tempo de referencia do autor? Se ele escreve para a audiência do século XXI, quer dizer que o século XX foi melhor? O que dizer dos descartáveis de outros tempos, como escravos, indígenas, colonizados? O que dizer do poder da igreja de outros tempos? O que dizer dos estados absolutistas? Enfim, texto rico em palavras e poesia, mas abstrato demais para uma situação histórica de nosso momento presente. Não que nossa época seja a melhor, mas não vejo como o horizonte – pra trás – seja tão moralmente superior ao que temos hoje.

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