A radicalização deles e a nossa

Derrotada nas urnas, direita reage contra PT e projeto de mudanças superficiais. Dilma contemporiza. E se entrarem em cena os movimentos sociais?

Participante da Ocupação  Santa Luzia, em São Gonçalo, Rio de Janeiro

Participante da Ocupação Santa Luzia, em São Gonçalo, Rio de Janeiro

Por Guilherme Boulos

Acabou a batalha do segundo turno. Dilma foi reeleita para a presidência da República em votação apertada. Ao final, a vantagem no Norte e Nordeste foi suficiente para compensar a derrota em São Paulo e no Sul do país.

A campanha deste segundo turno foi marcada por uma polarização que não víamos desde 1989. Mas diferente de 1989 — quando Lula falava em suspender o pagamento da dívida pública e em fazer reformas estruturais — agora não estavam em jogo projetos políticos tão antagônicos.

O PT manteve desde 2003 as linhas mestras da política econômica tucana. O controle da inflação às custas de juros e câmbio sobrevalorizado, a política de superávit primário para pagamento da dívida e as concessões da infraestrutura nacional e da exploração de petróleo para grandes empresas privadas.

Na política, ambos governam alicerçados no que há de mais atrasado na sociedade brasileira. Ambos mantiveram o PMDB como eminência parda da política nacional.

O PT nem ensaiou nestes 12 anos levantar a bandeira das reformas populares — bloqueadas no país desde João Goulart. Reformas urbana e agrária, reforma tributária progressiva, reforma política e do sistema financeiro. Auditoria da dívida pública, desmilitarização das polícias e democratização das comunicações. Estas são as pautas populares e de esquerda para o Brasil. Alguém as viu nos últimos governos?

Porém, a disputa entre Dilma e Aécio foi extremamente polarizada, tendo a elite brasileira e todos os setores mais conservadores se alinhado com o candidato do PSDB. Por que isso, se as diferenças não são tão grandes assim?

Quem polarizou as eleições de 2014 foi a direita. Ao PT não interessava a polarização, afinal governou durante 12 anos com discurso de um pacto social, de que todos se beneficiariam. Mas os setores mais atrasados da sociedade brasileira -assanhadinhos desde o ano passado- resolveram tomar o antipetismo como razão de existência.

Na linha mais conservadora, construíram um discurso racista, antipopular e de ódio aos pobres. As manifestações pró-Aécio fizeram lembrar a Marcha da Família com Deus de 1964. Os protagonistas inclusive foram os mesmos: a classe média de São Paulo e a fina-flor da elite urbana brasileira.

Até dirigentes do PSDB entraram na onda. José Aníbal evocou Carlos Lacerda, o maior golpista da história da República, para dizer que, tomando posse, Dilma não poderia governar. FHC enterrou algum resquício de credibilidade intelectual -se é que tinha- com sua fala sobre o voto dos nordestinos. Dizem que o governo Dilma não terá legitimidade. Legitimidade para essa gente significa o apoio da classe média do Sudeste.

Mas o segundo turno acabou e o PT levou a fatura. A eterna turma do deixa-disso, liderada por Michel Temer, já começa a costurar a repactuação das forças políticas e o fatiamento do novo governo. Polarização foi até domingo, agora é hora da união republicana pela governabilidade.

Ledo engano! Agora é que vai começar a ficar interessante. Polarização política, quando levada ao sentimento popular, não se desmonta com facilidade. E a situação econômica exige decisões que não poderão ser tão conciliadoras.

É claro que a vontade de Dilma é recosturar alianças e fazer um governo de unidade. Deixou claro isso em seu discurso da vitoria. Mas ela sabe que o mar não está para peixe. O crescimento econômico refluiu e isto impacta no Orçamento. A ideia de governar para todos — com lucros recordes para os bancos e empresas e algumas melhorias para os trabalhadores — não se sustenta na nova conjuntura.

A hora é de decisões. Ou se tomam medidas impopulares — daquelas anunciadas com regozijo por Aécio Neves — ou se enfrenta o desafio de reformas populares. O modelo lulista de conciliação nacional dá sinais claros de esgotamento, pois está baseado na combinação de crescimento econômico com desmobilização social. Junho de 2013 e a polarização eleitoral de 2014 foram sintomas disso.

Evidentemente, seria ilusório acreditar que o PT resolverá, de uma hora para outra, fazer as transformações estruturais que tirou de sua agenda desde antes de 2002. Tem de prestar contas para a JBS Friboi e para a Odebrecht, para Katia Abreu e Renan Calheiros. Mesmo que desejasse, não teria condições de dar esta guinada.

Mas é aí que entra o terceiro turno. A polarização da classe média de direita nas ruas reascendeu o outro polo: os trabalhadores organizados. Aliás, desde junho de 2013 as lutas populares urbanas e as greves tiveram um crescimento expressivo e contínuo. Assim como a radicalização da direita, a crise do modelo de conciliação começa a produzir uma radicalização popular.

Nesse cenário, se Dilma começar 2015 com cortes orçamentários e ajuste de tarifas, ela pode pacificar a elite e a turma do PSDB, mas terá de enfrentar a mobilização das ruas.

Pela primeira vez nesses 12 anos de petismo criou-se um caldo que pode recolocar na agenda as reformas populares. Não deixa de ser sintomático que Dilma tenha mencionado o plebiscito pela reforma política em seu discurso de união nacional. As contradições estão pulsando. É claro que a construção desta agenda não se dará por iniciativa nem vontade do PT, mas pela polarização das ruas e pelo fim de um ciclo econômico.

Será o terceiro turno das lutas. Agora sim os grandes antagonismos da sociedade brasileira poderão entrar em jogo.

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10 comentários para "A radicalização deles e a nossa"

  1. Mariana Parra disse:

    Discordo muito dessa leitura do Boulos. Acho que essa polarização não vai levar o Brasil a nada, ou melhor, pode nos trazer é retrocessos e prejuízos. Quem é a ‘nossa radicalização’? Como ele mesmo analisou antes, quem votou no Alckmin e no Aécio não foram só pessoas da elite e classe média. Muitos ‘pobres’ votaram nesses candidatos, por medos e sentimentos muito parecidos ao dessa elite e classe média. Esse ‘nós’ é um grupo ínfimo, uma minoria, comparado ao processo de criação de consensos fascistas que temos. O PT parece querer exacerbar essa polarização, parece que quer criar conciliação com a elite dominante sanguessuga de verdade, e jogar lenha na fogueira de posições e embates cegos, apenas guiados por paixão e ódio, quer alimentar e aumentar sua base de apoiadores totalmente fanatizados.
    Vejo com preocupação tudo isso, e mantenho as esperanças nas lutas que caminham diariamente, nas pessoas que buscam dialogar, entender, que buscam encontro e solidariedade, que fogem do ódio e da ignorância….

    • Rita Lama disse:

      Acho que a senhora está totalmente confusa, dona Mariana. Parece que quem está querendo exacerbar a polarização não é o PT mas a oposição. Tudo o que a senhora escreveu aplica-se perfeitamente ao PSDB e seus aliados.

  2. Hilton Jorge Valebte disse:

    Lula e o PT perderam três eleições – uma para Collor e duas para FHC – em momento algum, pediram “impeachment” dos presidentes leitimamente eleitos.
    Quanto à política econômica, Lula e Dilma não se afastaram das linhas mestras deixadas pelos dois governos de FHC, o que é confirmado pelo próprio tucanato, quando afirma que Lula copiou o modelo FHC.
    Sendo assim, por que essa grita toda? Por que essa afirmação infundada, mentirosa e mesquinha de que Dilma irá transformar o Brasil “numa Cuba ou Venezuela?”. Há que se reconhecer que o PSDB como um todo não endoçou a barbaridade desse anticomunismo tacanho.
    Mas que esses pedidos desesperados por “intervenção militar já” têm carinha de UDN, têm.
    Portanto, democratas sinceros, olho nessa “direitosa” preconceituosa, safada, golpista e mal intencionada.

  3. Fernando Fidelis Vasconcelos disse:

    Nordeste E Sudeste foram as regiões maiores eleitoras de Dilma. Juntas fizeram 40 milhões dos 54 milhões de votos dela (20 milhões cada)

  4. Fernando Fidelis Vasconcelos disse:

    “Agora que começará a ficar interessante.” Que o povo vá para as ruas, ou os reacionários o farão depois de tudo combinado nos gabinetes, soltando os tanques nas ruas. Morrem de saudades de 64 e Figueiredo já morreu.

  5. Reinaldo Gonçalves disse:

    Sou da classe média de São Paulo e sim, eleitor de Aécio Neves.Porém não sou racista, não tenho ódio algum da classe pobre, ou dos nordestinos. Pelo contrário desejo fervorosamente que eles tenham um futuro num pais melhor e mais prospero para todos. Portanto discordo de alguns pontos do artigo publicado pois tem uma visão de mundo diferente da que tenho.E o que mais me preocupa é achar que apenas a esquerda tenha o monopólio da melhoria da condição de vida do povo mais humilde. Deduzi o pensamento do autor de que o PT e o PSDB são dois lados diferentes da mesma moeda, com o que até concordo pois o PT foi criado pela elite sindical paulista, dos trabalhadores melhor organizados e melhor remunerados enquanto o PSDB tem sua base na baixa burguesia empreendedora que por veses é mais sacrificada que o trabalhador qualificado sindicalizado.
    Penso que as ultimas vitórias eleitorais do PT se consolidaram com base num eleitor realmente carente de um governo que olhe para as necessidades basicas, o povo realmente mais sofrido que muitas veses não tem acesso nem ao trabalho quanto mais a sindicalização.Porém minha discordancia vem do fato que sinto em alguns discursos a tese de que por representar também as classes mais elitizadas do país, os chamados ¨partidos conservadores¨ defendam apenas os proprios interesses não dando a mínima para as populações desprotegidas. O governo FHC estabilisou a moeda e isto é um beneficio incalculavel para os mais humildes e não para os mais ricos. Os programas sociais do governo Lula certamente não teriam o mesmo efeito sem uma moeda estabilizada o que não desmerece o alcance dos mesmos.

    • José Carlos disse:

      Caro Reinaldo,
      Quando perdemos as eleições para fhc e collor, jamais buscamos passar o trator conforme hoje o derrotado do Aecio com o apoio dessa mídia que chamamos de PIG (Partido da Imprensa Golpista) quer transparecer que ganhou as eleições. Parece que vivemos na Dinamarca, oi seja, corrupção só na era do PT. Com todo o respeito ganhar dessa direita ensandecida, STF e o PIG é para nós Petistas motivo de muito orgulho, só que parece o inverso conforme vemos no dia a dia só mostram a figura do Aecio.

  6. Flávio Gilberto T. Uebel disse:

    Creio que é o momento dos partidos que estão a esquerda do PT, os sindicatos e movimentos sociais mobilizarem a sociedade para exigirem do congresso e senado que a reforma política com plebiscito, a aprovação dos conselhos populares, a democratização da imprensa e outras reformas aconteçam. É o momento de trazer o PT mais para a esquerda e desta forma garantir a governabilidade e o aprofundamento da democracia.
    Se estas forças progressistas não fizerem isto o governo DILMA poderá ser engolido pela direita.

  7. Alexandre Ribeiro disse:

    A elite brasileira governou o país por 500 anos e só construiu riquezas para os ricos, renegando aos mais pobres todo o sofrimento. O PT governa o país há 12 anos, durante esse tempo todo “metralhado” pelas forças conservadoras representadas pela grande mídia, em especial a Rede Globo e Revista Veja que se tornaram panfletos diários de desgaste para o Governo.
    Os partidos que se dizem de esquerda muitas vezes alinham seus discurso com os conservadores na mesma linha com intuito de desgastar o PT, mas assim como os conservadores também não têm projeto claro apenas se colocam como os defensores da ética e contra a corrupção, será que são mesmo?

  8. Arthur Araujo disse:

    O último processo eleitoral confirmou a ideia de que, mesmo sendo amplamente beneficiados pelas políticas governamentais, os setores das elites e do grande capital jamais se sentem satisfeitos e jamais deixam de conspirar. Espero que a presidenta ,sua equipe e sua base de apoio entendam que é preciso iniciar resolutamente o caminho de mudanças como as apontadas no texto de Guilherme Boulos, tais como reformas agrária, urbana, tributária com a adoção do imposto progressivo, democratização da mídia, valorização e mais investimentos nas áreas de saúde e educação públicas etc.
    Caso insista em continuar promovendo uma conciliação que só beneficia as elites, o governo será cada vez mais refém das mesmas.

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