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Chacina policial em Belém não expressa suposto “atraso” do Norte. Ela copia política de “extermínio dos bandidos” cultivada há décadas pelas elites paulista e carioca

Por Bruno Paes Manso

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Chacina policial em Belém não expressa suposto “atraso” do Norte. Ela copia política de “extermínio dos bandidos” cultivada há décadas pelas elites paulista e carioca

Por Bruno Paes Manso, na Ponte

Rio de Janeiro, 1958. Notícias de roubos e assaltos fazem com que a imprensa compare a então Capital Federal à Chicago de Al Capone. Em resposta, o Comando do Exército cria o Grupo de Policiamento Especial, liderado pelo policial Milton LeCocq, que se notabiliza pela truculência. Em 1962, durante um tiroteio com um criminoso conhecido como Cara de Cavalo, o policial é baleado e morto. Seus parceiros pedem o sangue do assassino. Começa a nascer a Scuderie LeCocq, com seu símbolo de caveiras e tíbias enlaçadas, grupo que ajudaria a moldar a ideologia e as imagens da violência que contaminariam os maus policiais nas décadas seguintes.

São Paulo, novembro de 1968. Um investigador da polícia civil chamado Davi Parré é assassinado. No enterro, Correinha e outros policiais prometem na frente da imprensa que irão matar “dez bandidos para cada policial morto”. Olho por olho, dente por dente. As atividades do Esquadrão da Morte paulista têm início com a caçada a Saponga, apontado como o autor do assassinato do policial. Detentos são tirados do Presídio Tiradentes e os “presuntos” são arremessados nas estradas, alguns deles com cartazes que divulgam o nome do esquadrão.

Vingança e extermínio. A epidemia começa quando o homicídio deixa de ser o mal a ser combatido pela polícia para se transformar numa forma ilusória de controle do crime. Homicidas viram heróis oficiais, como ocorreu com o delegado Fleury, chefe do esquadrão em São Paulo. A ideia de que a morte de um “bandido” deixa o mundo mais seguro é popular, sedutora e por isso se dissemina. Vira o combustível que move as ações violenta das instituições de segurança, um veneno que vem matando lentamente os jovens pobres na sociedade brasileira.

Ocorre que não temos mais a desculpa da ignorância. O passado já nos ensinou os efeitos colaterais desse processo de autoextermínio. Em vez de apagar o fogo, a violência da polícia joga mais gasolina no incêndio.

É justamente esse impasse que a sociedade paraense enfrenta neste momento. Sede de vingança, raiva e irracionalidade de policiais que foram atacados, uma mistura de sentimentos com forte potencial para autodestruição. As ideias de extermínio, mesmo que antigas e sabidamente estúpidas, hoje se  disseminam rapidamente no Pará, na velocidade das redes sociais. Foi o que ocorreu na noite de terça-feira,  quando o policial das Rondas Ostensivas Metropolitanas (Rotam), cabo Figueiredo (Pet entre os amigos), foi assassinado ao chegar em casa. Promessas de vingança começaram a se disseminar via Twitter, WhatsApp e Facebook, inclusive em nome de lideranças de associações de praças. O esquadrão da morte 2.0. O governo paraense diz que os perfis nas redes sociais eram falsos. Ainda precisa investigar o envolvimento de policiais.

Fato é que a resposta no dia seguinte foi real. Durante a madrugada, nove pessoas foram assassinadas em bairros pobres paraenses. Testemunhas apontaram a presença de motoqueiros com capacetes e capuz como autores. Na página da Rotam no Facebook, não é de hoje que são feitas referências ao “motoqueiro fantasma” que entra em ação para executar criminosos. Um jovem de 17 anos e um cobrador de ônibus estavam entre os mortos na quarta. A busca do caçadores, ao que aparenta, foi aleatória e matou pessoas que estavam no lugar errado, na hora errada.

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Ronda policial no bairro do Guamá, em Belém

O mesmo procedimento ocorrido em São Paulo em 2006 e 2012 depois de ataques do PCC. Policiais eram os maiores suspeitos. As punições de policiais assassinos não aconteceu e por isso cenas assim se repetem. Resta brava e dura luta das Mães de Maio contra o banditismo policial.

O resultado dessa trajetória que agora vem à tona no Pará já é conhecido. Policiais assassinos provocam mais homicídios, num efeito bola de neve. Rio de Janeiro, Espírito Santo e São Paulo, quando tiveram grupos de extermínios, produziram epidemias que levaram essas três capitais a liderarem o ranking de homicídios até o ano 2000. A epidemia causou um buraco na geração de homens jovens das periferias nessas capitais nos anos 1980 e 1990. Agora, o vírus da violência se dissemina entre os paraenses, com a colaboração dos policiais incapazes de controlar a raiva e irracionalidade.

Os números já revelam os efeitos colaterais dessas crenças distorcidas. Em 2011, o Estado do Pará ficou em 4º lugar no ranking de homicídios das 27 unidades federativas do Brasil, com 40 ocorrências por 100 mil habitantes Há 10 anos, em 2001, os paraenses estavam entre os mais pacíficos, com 15 ocorrências por 100 mil, o que lhes garantiam a 20ª posição no ranking. O crescimento em uma década foi de 166%, segundo dados do Mapa da Violência. Policiais que acreditam nos homicídios como ferramenta de controle social estão entre as causas da epidemia de que extermina os pobres paraenses, assim como ocorre atualmente  em outras capitais, principalmente no Nordeste. Junto com a epidemia de violência, surgem as milícias e as quadrilhas fardadas.

Existe uma vacina contra a epidemia de mortes. Deixar de lado que o ódio e o homicídio são soluções. A consciência das instituições de que os assassinatos de suspeitos só produzem mais desordem e violência deve ser o antídoto. Violência é o caminho contrário ao da civilização e só nos leva em direção à barbárie.

PS: Descrevo mais o assunto na minha tese de doutorado na USP em 2012. Dá pra fazer download, aqui

 

 

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