Barraco no "paraíso" dos ultra-capitalistas

Como afundou, em pouco tempo e em meio a acusações recíprocas, comunidade que grupo internacional de liberais sonhou, num vale fértil do Chile

Por Harry Cheadle, na Vice

 

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Algumas das terras do GGC. Foto cortesia de Josh Kirley.

Como afundou, em pouco tempo e em meio a acusações recíprocas, comunidade que grupo internacional de liberais sonhou, num vale fértil do Chile

Por Harry Cheadle, na Vice | Ilustração por Ole Tillmann

Era uma ideia, pelo menos uma teoria. O plano era formar uma comunidade sustentável composta por pessoas que acreditavam no capitalismo, em governo limitado e na autossuficiência. O lugar já estava escolhido: 4,5 mil hectares de terra fértil nos vales dos Andes chilenos, a apenas uma hora de carro da capital, Santiago, ao leste, e do Oceano Pacífico, a oeste. Os residentes poderiam ganhar dinheiro cultivando e exportando produtos orgânicos enquanto desfrutavam dos baixos impostos e do clima temperado chileno. E esse não era um esquema maluco para estabelecer uma micro-nação numa plataforma flutuante no meio do oceano (um sonho líber) – era uma tentativa séria de construir um refúgio onde defensores do mercado livre e anarcocapitalistas poderiam se entrincheirar e esperar pelo colapso das moedas correntes do mundo. Eles chamaram o lugar de “Galt’s Gulch Chile” (GGC), batizado em homenagem ao lugar ficcional para onde os capitalistas competentes do mundo fogem no livro A Revolta de Atlas, de Ayn Rand.

O projeto foi concebido em 2012 por quatro homens: John Cobin, um expatriado norte-americano no Chile que tinha concorrido ao Congresso na Carolina do Sul; Jeff Berwick, o viajante fundador do Dollar Vigilante, uma newsletter financeira que pregava o fim do sistema monetário atual; o parceiro chileno de Cobin; e Ken Johnson, um empresário itinerante cujos investimentos anteriores iam de imóveis e turbinas eólicas até “ionizadores de água”, bugigangas pseudocientíficas vendidas como sendo capazes de desacelerar o envelhecimento.

O grupo inicial rapidamente se desmanchou, e os membros hoje discordam sobre o porquê. Agora, dois anos depois de sua fundação, o suposto paraíso está envolvido numa série de conflitos pessoais, principalmente centrados em Johnson. Em vez de viver num vale pitoresco vendendo suco da marca GGC, os fundadores libers acusam uns aos outros de serem bêbados, mentirosos e sociopatas. Os pretensos habitantes do GGC já chamaram Johnson de “lunático”, “mentiroso patológico”, “insano”, “golpista” e outras coisas similares. Alguns acionistas estão movendo uma ação judicial para removê-lo do projeto, uma medida drástica para gente antigoverno como eles. Johnson, que continua o gerente do fundo que controla as terras, afirma que todas as alegações contra ele são falsas. Mas o que realmente aconteceu?

Como a maioria das utopias, o GGC começou como algo positivo, pelo menos depois que Berwick e Johnson romperam com Cobin. Johnson era um vendedor experiente, e as mentes apocalípticas que liam a newsletter de Berwick estavam muito interessadas no santuário na América do Sul. Para aqueles que pensam que as nações ocidentais estão transformando o mundo na Revolta de Atlas – dominado por governos parasitas, hostis a inovações e à criação de empregos, à beira do socialismo totalitário –, esse refúgio parecia um milagre.

“Ficamos felizes em oferecer um refúgio dos governos opressivos do mundo ocidental, um lugar para pessoas de mente aberta, onde elas poderão construir uma comunidade nova e próspera”, escreveu Berwick em maio de 2013. Ativista feminista liber [partidária do libertarianismo, concepção política ultra-capitalista que prega reduzir ao mínimo a autoridade do Estado, mas aceita a propriedade privada e a desigualdade social] canadense e escritora que comprou um lote no GGC, Wendy McElroy o seguiu com postagens em seu próprio blog que diziam: “É hora de um êxodo liber, o que não vai te tirar do seu verdadeiro lar, mas te levar até ele”. Johnson escreveu sobre “sentar sob as estrelas, inalando o ar puro e bebendo chá feito com a água pura do GGC”. Eles também ofereciam descontos para quem pagasse em Bitcoin ou em metais preciosos.

E as pessoas compraram a ideia – e os lotes. Em novembro de 2013, o GGC realizou uma celebração da propriedade, trazendo acionistas (e aqueles interessados em ser acionistas) para conhecer as terras e uns aos outros. Josh Kirley, negociante de commodities que estava considerando fazer um investimento, ficou impressionado com as qualidades de seus vizinhos em potencial.

“Eram pessoas que fizeram dinheiro com petróleo, com imóveis. Eram ex-acadêmicos, ex-militares. Pessoas de mente liber: não litigiosas, trabalhadoras, self-made, inteligentes”, ele me disse. “Foram as pessoas que encontrei lá que me venderam a ideia.

Depois de pagar advogados e investigadores para checar o passado de Johnson e se certificar de que o GGC tinha a propriedade da terra, Kirley comprou um lote, que incluía uma fazenda de limões de 10 hectares por US$ 200 mil, e deu ao projeto um empréstimo sem juros de US$ 800 mil. E ele não era o único injetando muito dinheiro na ideia: em dezembro de 2013, o Economist publicou uma matéria eminentemente positiva sobre o GGC, afirmando que Johnson já tinha arrecadado US$ 1,5 milhão em vendas apenas em Bitcoins.

Mais cedo naquele ano, no entanto, ficou aparente que alguma coisa estava errada. Em abril, outro evento foi realizado no GGC; dessa vez, supostamente, para que alguns compradores escolhessem seus lotes. Mas isso não foi possível – a terra ainda não estava zoneada para os lotes de meio hectare que Johnson tinha vendido para muitos investidores. O plano era rezonear a propriedade, mas isso ainda não tinha sido feito. Além disso, de acordo com Kirley, várias casas que deviam ter sido construídas ainda não estavam terminadas.

“Você podia sentir que tinha algo errado”, explicou Kirley. Uma sessão de perguntas e respostas com os investidores foi reagendada; quando esses convidados confrontaram Johnson sobre os problemas do GGC, “ele contou histórias ridículas sobre inimigos do projeto e que Jeff Berwick era um inimigo do projeto, o que não fazia sentido”.

Os investidores foram à internet com suas dúvidas sobre Johnson alguns meses depois. McElroy, a ativista canadense, publicou uma postagem em seu blog no dia 25 de agosto, alegando que o GGC devia uma “soma imensa” para os vendedores chilenos e que ela tinha comprado um lote onde não podia morar por causa da questão do zoneamento. Dias depois, Berwick publicou sua própria versão dos eventos em seu site.

Ele disse que tinha abordado Johnson várias vezes em 2013 com reclamações sobre o projeto, temendo que eles vendessem lotes antes que o GGC tivesse pagado pela terra e que a propriedade ainda não estivesse zoneada para os lotes residenciais que a companhia estava entregando. Mas Johnson o convenceu de que seus medos eram infundados, e nenhum desses conflitos se tornou público. Berwick afirmou que eles tiveram outra briga, porque Johnson tinha transferido o controle das terras da companhia de propriedade conjunta dos dois para um fundo que só o último controlava. (Os ex-parceiros também têm várias divergências sobre negócios não relacionados ao GGC, todos reclamando de terem sido enganados de várias maneiras.)

Berwick, Kirley, McElroy e outros envolvidos com o GGC têm acusado Johnson de não pagar sua equipe nem os vendedores; de atacar fisicamente um empregado; e de não cumprir suas promessas de rezonear as terras para que as pessoas possam ocupar seus lotes. Eles relatam que Johnson viajou com US$ 250 mil de investidores em dinheiro, que ele guardava numa mochila que, às vezes, deixava em seu jipe; que ele pode estar envolvido num golpe para vender passaportes falsos; e que ele se recusa a divulgar a lista completa dos investidores do projeto. Kirley disse que ele e onze outros investidores ainda devem receber, coletivamente, mais de US$ 4,3 milhões e que o grupo está apresentando uma liminar na justiça chilena para tirar o controle do GGC de Johnson. Eles ainda acreditam na visão original do projeto; só acham que isso não vai acontecer sem que seu algoz seja substituído.

Josh Kirley e Ken Johnson, em abril. Foto cortesia de Josh Kirley.

Mas há problemas na hora de tentar desembaraçar o que aconteceu com o GGC. Um é que ninguém, além de Johnson, sabe quantas pessoas compraram lotes na propriedade (ele diz que cerca de 50) ou quanto dinheiro, no total, foi investido no projeto. Outro é que a versão de Johnson dos eventos contradiz a dos acionistas descontentes em todos os aspectos – pelo que ele alega, as pessoas que o acusam estão atrás de dinheiro, fama ou tentando destruí-lo pessoalmente.

Conversei com Johnson, que ainda vive e trabalha no GGC, por telefone. De acordo com ele, a companhia tem “nove ou dez” empregados de tempo integral, juntamente com empreiteiros fazendo melhorias na terra e trabalhando na fazenda. Johnson não está fazendo novas vendas no momento – na verdade, segundo o próprio, ele está oferecendo reembolso aos compradores descontentes.

Na sua versão dos eventos, quase todo mundo envolvido com o GGC é mentiroso ou não cumpriu as promessas que fez. “Tivemos alguns personagens interessantes no GGC”, ele me disse, com uma risada. “Tem sido um projeto estranho, para dizer o mínimo.”

Mas e todas as alegações contra ele? Os funcionários que não foram pagos, o homem que ele teria atacado – e tudo mais? Johnson me explicou que três empregados afirmam que ele ainda deve alguma coisa, mas que, em dois dos casos, os envolvidos ficaram com propriedades da companhia, e são eles que lhe devem dinheiro. Seriam apenas “duas ou três faturas” ainda não pagas, ele insistiu. O cara que disse que Johnson o atacou, na verdade, teria caído sobre uma mala quando os dois estavam “trocando algumas palavras”.

Quanto a Berwick, Johnson insinuou que seu ex-parceiro tinha um problema com o álcool, que ele passou por vários fracassos nos negócios recentemente e, como resultado, “voltou sua raiva e paranoia para mim”. Ele frisou que Berwick sempre soube que os dois não eram parceiros meio a meio da companhia que opera o GGC. Johnson acrescentou: “É uma história longa e repetitiva, com o Jeff sempre fazendo ameaças contra mim e me difamando”.

Johnson me disse que está tentando terminar o rezoneamento das terras para que as pessoas possam se mudar, mas que seus esforços foram frustrados por gente que traiu sua confiança – principalmente Adolfo Aguirre, um chileno contratado como planejador ambiental do GGC em 2013 e que se demitiu no começo do ano. Ele destacou que Aguirre prometeu dividir a propriedade em 450 lotes até 2014 e que eles submeteram uma proposta ao governo meses atrás, mas que nada passou de mentiras do planejador ambiental. Johnson me disse que o ex-empregado odeia norte-americanos e que ele estava “trabalhando para dificultar a aceitação das nossas propostas”. Informou ainda que Aguirre foi investigado pela polícia depois que um empregado do GGC o acusou de roubar documentos da companhia.

(Por e-mail, Aguirre apontou que a investigação contra ele não encontrou nada e que Johnson é um “vigarista” que deixa os compradores no escuro sobre o projeto, que abusa dos empregados rotineiramente e que está destruindo o GGC com sua má gestão.)

Johnson afirma que só quer o GGC funcionando – ele espera que um dos muitos rezoneamentos necessários seja aprovado no final do mês – e que ficará feliz em entregar o comando da comunidade para outra pessoa se eles quiserem.

“Se eu ficar, é a melhor saída, ótimo”, opinou. “Algumas pessoas não me querem envolvido, e posso viver com isso. Posso partir para outras coisas na minha vida. Só quero olhar para trás e ver o GGC prosperar… Não há nenhum esquema para tirar dinheiro de ninguém.”

Mesmo agora, todos os envolvidos no Galt’s Gulch Chile com quem falei garantiram querer ver a ideia original acontecer.

“Quase todos os investidores, compradores e eu mesmo queremos muito ver isso funcionar e estamos fazendo todo o possível para isso”, Berwick escreveu-me num e-mail. “Só uma pessoa está no caminho do potencial de sucesso do GGC, [Johnson].”

Berwick é fiel aos seus princípios liber e não faz parte das ações legais contra o ex-parceiro. Ele está resignado em ter um grande prejuízo nesse assunto, evidentemente uma quantia com que pode arcar. Kirley frisou que outras pessoas usaram as economias de toda uma vida para comprar terras no GGC e que ele está determinado a garantir que todos os investidores recebam as terras pelas quais pagaram.

O negociante de commodities, talvez a pessoa menos antigoverno envolvida, contratou dois escritórios de advocacia chilenos e pretende usar a justiça para forçar Johnson a desistir do controle do GGC; depois disso, os investidores poderão tentar resolver as questões de zoneamento e finalmente viver ali estabelecendo seu paraíso randiano. De acordo com ele, Johnson pediu US$ 5 milhões em troca do controle do GGC, mas Kirley rejeitou a proposta. Quando tentei confirmar a história com Johnson, ele respondeu apenas: “Tem havido conversas diferentes”.

A posição de Johnson é a de que ele deu a Kirley todos os documentos que ele pediu (“Isso é mentira”, reagiu Kirley por e-mail) e que ele está pronto para deixar o cargo: ele, garante, só quer que Kirley venha ao Chile para resolver as coisas. (“Não vou viajar até o Chile enquanto ele continua a protelar isso”, devolveu Kirley. “As negociações podem ser feitas pelo Skype ou por e-mail… Vou voltar [ao Chile] quando ele tiver entregado o controle.”)

O ponto mais recente de discórdia são os direitos à água de propriedade do GGC. No Chile, direitos à água e aos minerais podem ser vendidos independentemente da terra, e um dos ativos mais importantes do projeto é a água sob o solo da propriedade. Johnson, atualmente, está vendendo alguns desses direitos à água para levantar capital a fim de reembolsar os acionistas, o que enfrenta a oposição de alguns investidores. Eles dizem que vender a água é um gesto de visão curta e que Johnson ainda não terminou de pagar o ativo que ele está tentando vender. Kirley apontou isso como outro exemplo das práticas de negócios sujas do homem.

“Ele disse que tinha os direitos à água, disse que isso era tão valioso que podíamos alugar o fluxo extra. Na verdade, ele nunca fez os pagamentos e ainda deve aproximadamente [US$ 2 milhões] antes de termos os direitos à água. Agora, ele está trabalhando para vender esses direitos por menos do que disse que alugaria”, criticou Kirley num e-mail.

“Tenho de admitir: o cara tem coragem.”

Mapa da localização do projeto num dos primeiros sites (não mais online) do GGC.

Se você acredita em Johnson, as dificuldades do GGC podem ser atribuídas, principalmente, à falta de sorte do projeto – os parceiros originais eram mentirosos instáveis, e os chilenos envolvidos só queriam tirar proveito de um norte-americano sobrecarregado com uma operação dessa magnitude num país estrangeiro.

Uma visão menos caridosa é que o projeto era um golpe desde o começo e que Johnson estava simplesmente tentando arrancar o máximo de dinheiro possível dos libers sem manter muito registro disso ou tentar seriamente tornar a visão deles realidade. Algumas das pessoas envolvidas compartilham essa visão: inclusive, alguns fundadores dizem agora que Johnson só fingiu acreditar na filosofia liber – Berwick afirmou num e-mail que Johnson lhe disse que “odeia anarquistas e libers”.

Também é possível, em certo viés político, ver o fracasso do GGC como um indício do problema com os princípios tão queridos dos gulchers. “O capitalismo sem regulamentação… está apresentando alguns problemas!”, foi como uma postagem do Gawker resumiu a confusão. E pode ser verdade que os prejudicou a aversão dos fundadores ao sistema legal comandado pelo governo e a confiança em acordos fechados com um aperto de mão. A suposição de Berwick de que ele possuía metade da companhia com Johnson, apesar de aparentemente não ter documentos provando isso, também parece bastante ingênua em retrospecto.

Libers, normalmente, são cautelosos com o governo e grandes organizações, mas parece que confiaram demais na ideia do GGC, em geral, e em Johnson, particularmente. Não há nada de especificamente liber em acreditar em quem diz compartilhar suas crenças ou em querer construir uma utopia longe de sua realidade – mas a ideia de que é possível comprar seu terreno no paraíso parece feita sob medida para essa tribo política. Vendo agora, o problema parece ter sido que os gulchers acreditaram piamente no esquema, simplesmente porque ele foi bolado por aliados ideológicos.

“Um golpe dessa magnitude só poderia ter existido na comunidade liber, porque [Jonhson] usou a paranoia e a desconfiança deles no governo para dizer: ‘Coloque tudo que você tem nesse fundo; não vou contar pra ninguém quem você é; não deixe ninguém saber que você está investindo; é melhor pagar em metais preciosos ou em Bitcoins para que isso não seja rastreado’”, relatou Kirley. “E isso funcionou muito bem, seja intencionalmente ou só por uma conjunção de acasos.”

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4 comentários para "Barraco no "paraíso" dos ultra-capitalistas"

  1. Luiz disse:

    Todos deveriam ler esse texto

  2. Tinha que ser feito um consorcio ,nao um fundo controlado por 1 pessoa. Putz sempre tem alguem que se aproveita da boa vontade das pessoas,

  3. Fernando Fidelis Vasconcelos disse:

    Capitalismo é o exemplo mais puro de pirâmides financeiras. Os primeiros a entrar nos “projetos” arrecadam fortunas, os últimos ficam com os prejuízos.

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