Por que o futebol-negócio quer proibir as torcidas

Por trás do “combate à violência” há tentativa de elitizar estádios, afastando torcedores pobre – os novos “indesejáveis”

Por Irlan Simões*, em Futebol além da mercadoria

Foi logo na tarde da segunda-feira, 26/3. A Federação Paulista de Futebol (FPF) lançou a Resolução 66/2012, proibindo a entrada de duas torcidas organizadas nos estádios. Mais precisamente a Gaviões da Fiel, ligada ao Corinthians e a Mancha Alviverde, do Palmeiras.

A motivação foi o confronto entre integrantes das duas torcidas, ocorrido às 10h da véspera, dia em que acontecera o maior clássico paulista. A confusão causou a morte, até o momento, de dois integrantes da Mancha Alviverde. André Alves Lezo, de 21 anos, faleceu ainda no domingo, ao ser atingido por um tiro na cabeça. Na terça-feira foi confirmada a morte cerebral de Guilherme Vinicius Jovanelli Moreira, de 19 anos.

Alguns meios de comunicação afirmaram que os assassinatos são decorrentes de um ato de vingança pela morte do integrante da Gaviões da Fiel, Douglas Karim Silva, em 29 de Agosto de 2011.

TEXTO-MEIO

Retomemos os parágrafos anteriores, nos são apontados dia, horário, local e motivação do confronto. A partir deles, façamos uma análise do que significou o ocorrido, no contexto geral do futebol.

O domingo, 25 de março, era marcado por um dos maiores clássicos do futebol brasileiro, Corinthians x Palmeiras, valendo a liderança do campeonato paulista. Contaria, obviamente, com a presença de duas das maiores e mais agressivas torcidas organizadas do país. Rivais históricos há muitos anos, é claro que estariam mobilizados e fardados para a ocasião.

A “Batalha da Inajar de Souza” aconteceu às 10h da manhã. Cerca de seis horas antes do horário oficial do jogo, quando nem o aparato técnico da Rede Globo devia estar presente no estádio.

A avenida Inajar de Souza fica na Zona Norte de São Paulo, a 13 km do palco do clássico, o Pacaembu. Um local distante o suficiente do estádio para que não houvesse concentração de torcedores a pé. Mesmo assim, é local recorrente de confrontos entre os grupos, conhecido da Policia Militar, informado há bom tempo pelas próprias lideranças das torcidas organizadas.

Conflito entre “organizadas” independe dos jogos.
Brigas não são casuais, mas confrontos combinados,
tratados como evento histórico pelos integrantes das torcidas

A motivação da briga foi uma retaliação já escancarada em todas as redes sociais. Basta pesquisar um pouco para encontrar citações sobre a possibilidade do confronto, ressaltando inclusive o sentimento de vingança por parte dos integrantes da Gaviões da Fiel. No último confronto, marcado na própria internet, os corintianos alegam que os torcedores rivais não seguiram as “regras” esperadas para os conflitos, matando um adversário.

Diante dos elementos expostos acima, o que é possível concluir? Que o conflito entre torcidas organizadas independe dos jogos. As brigas não são casuais, nem obra da insanidade desses jovens que se prestam a se agredir em plena luz do dia. São confrontos combinados, tratados como evento histórico pelos integrantes das torcidas organizadas.

Estas, por sua vez, não possuem uma estrutura organizativa que lhes permita planejar tais enfrentamentos, nem centralizar ou controlar a ação dos seus integrantes. São formadas por núcleos descentralizados e sem hierarquia, que podem articular suas ações independentes do que avaliam os dirigentes do grupo.

Os confrontos físicos são desejados por parte desses integrantes. É uma atividade que lhes dá ânimo e prazer. Viajam centenas, às vezes milhares de quilômetros para outras cidades, uniformizados, esperando uma torcida adversária buscar confusão.

Se isso é certo ou errado, cabe a cada um escolher. A realidade é que não é um problema de fácil solução, nem qualquer medida punitiva que vai acabar com as torcidas organizadas. Ou, pelo menos, com seus integrantes violentos. Inclusive pela pluralidade dos setores envolvidos nesses grupos mais violentos.

É isso que nos permite afirmar, sobre a imprensa esportiva brasileira: ou lhe falta clareza sobre o funcionamento das torcidas organizadas, ou não tem honestidade intelectual e disposição para investigar as relações promíscuas entre o futebol e certos interesses privados. A segunda hipótese parece mais provável.

A FPF sustenta que puniu Gaviões e Mancha Verde com base no Estatuto do Torcedor, uma lei que sofre críticas generalizadas tanto por parte das torcidas quando dos movimentos que querem resgatar o futebol. Ele eliminou diversos direitos dos que assistem às partidas nos estádios, e não impede, por exemplo, que os preços dos ingressos sejam cada vez mais proibitivos – nem que as antigas áreas populares tenham sido suprimidas. Nos últimos anos, mesmo pagando cada vez mais caro para poder assistir ao seu time de coração, os brasileiros foram confrontados com uma sequencia de ataques à sua cultura torcedora.

 Viabilização do modelo inclui restringir torcedor “indesejado”.
No Rio de Janeiro, polícia instrui as empresas de ônibus
a diminuir suas frotas, em dias de jogos

Entre elas, estão a restrição do uso de faixas e bandeiras com mensagens de qualquer ordem; a proibição ao consumo de bebidas alcoólicas; o cadastramento obrigatório de torcedores e até a obrigação de assistir ao jogo sentado.

A situação só piora quando a FPF declara que reagiu a um pedido da Delegacia de Polícia de Repressão aos Crimes Raciais e Delitos de Intolerância. Essa informação ganha contornos de uma grande piada, quando analisamos qual a origem dessa concepção de “segurança nos estádios”.

A política de segurança para grandes jogos, criada pela Polícia Militar e pelos órgãos do Estado que incidem sobre futebol, foi construída nas últimas décadas com o apoio da grande mídia e da cartolagem. As medidas tomadas e as regras criadas coincidem com o que prega a cartilha de um certo programa político para o “futebol” em todo o mundo.

Trata-se de mercantilizar cada vez mais o esporte, estabelecendo a lógica de “consumo do espetáculo”. Os clubes passam a potencializar suas fontes de renda, a se rentabilizar de forma agressiva. Isso inclui o aumento do valor dos ingressos, numa perspectiva totalmente equivocada dadas as condições sócio-econômicas do país.

Os estádios vão se convertendo gradativamente em centros de consumo, verdadeiros shoppings centers, elitizados e higienizados. A busca do “público ideal” também sofre mudanças.

A viabilização desse modelo exige das federações, dos clubes e do Estado diversas medidas de restrição da entrada de torcedores “indesejados”. O caráter anti-popular de algumas destas regras é escancarado. No Rio de Janeiro, o Grupo Especial de Policiamento nos Estádios (GEPE) instrui as empresas de ônibus a diminuir, em dias de jogos, suas frotas, nas regiões próximas a estádios.

A implantação deste já está muito avançada em países da Europa e revela o possível futuro do futebol brasileiro, caso não haja resistência: público assistente composto majoritariamente pela alta classe-média, torcedores com mais de 30 anos e turistas.

Exclui-se o antigo torcedor trabalhador de outros tempos, de baixo poder aquisitivo, que lotou estádios e garantiu por décadas a renda dos clubes. Segundo a ideologia do “futebol-negócio”, a ele restará apenas, para acompanhar seu clube querido, o boteco da esquina.

Mas, como evitar esses “indesejados” sem que isso gere grandes discussões? Fácil: colocando em cena um bode expiatório.

Diante da ofensiva dos partidários do futebol-negócio,
lideranças de torcidas poderiam exercer papel
de resistência – mas se omitem

Pode ser até que houvesse boas intenções, por parte dos idealizadores das primeiras medidas contra a violência nos estádios brasileiros. Algumas delas são inclusive defendidas por representantes de setores progressistas da sociedade, que não compram cegamente a velha ideologia da vigilância e punição.

O problema é que, aos poucos, o “combate à violência” tornou-se apenas mais um engodo na carta de justificativas de quem pretende consolidar o futebol-negócio no Brasil. Não é de hoje que esse argumento é usado de forma oportunista.

As bandeiras já foram proibidas em São Paulo em 1994, no vácuo do confronto entre palmeirenses e sampaulinos no Pacaembu, num jogo de juniores. O episódio foi marcado pela displicência dos órgãos responsáveis, que permitiram um jogo entre torcidas rivais num estádio em reforma, com materiais de construção expostos e o acesso ao gramado desprotegido.

As bebidas alcoólicas foram vetadas em 2009, novamente sob o argumento de que contribuíam com a violência. Quem frequenta estádios sabe que não faz o menor sentido. Mas o mais grotesco é que hoje, quando o tema volta a ser debatido, é em nome do “direito à comercialização” das marcas patrocinadoras da Copa – não da liberdade individual do torcedor, que não está autorizado a levar sua cervejinha para o estádio.

A Mancha Alviverde já mudou de nome uma vez, e provavelmente vai mudar de novo. A torcida Gaviões da Fiel é um instrumento político do atual grupo dirigente do Corinthians. Será muito difícil mantê-la proibida por muito tempo. Da mesma forma que a proibição de adereços alusivos às torcidas não muda nada. Ou só piora: as torcidas organizadas estarão ainda mais presentes nos estádios – e agora, não identificadas.

A proibição, como se viu, é hipócrita e interesseira. Mas vale, diante da ofensiva dos partidários do futebol-negócio, chamar atenção para o papel que as lideranças de torcidas organizadas poderiam exercer – mas se omitem. Mesmo com os diversos alertas lançados nos últimos anos, elas muito pouco fizeram para impedir as medidas coercitivas.

Às vésperas da Copa do Mundo no Brasil, e num momento decisivo para definição dos rumos do futebol no país, elas não agem diante da mercantilização. No máximo, adotam as respeitáveis, mas pouco convincentes, iniciativas de criação de “Grupos de Ação Social”.

Os órgãos punitivos tampouco se dão ao trabalho de investigar ou apontar quem financia as torcidas organizadas. Já se sabe há anos que diversos cartolas injetam recursos materiais e as usam como instrumento de promoção política pessoal, dentro e fora dos estádios.

É responsabilidade crucial dos integrantes mais sérios das torcidas – aqueles que pensam na magia do jogo e nos direitos do torcedor – trazer uma nova “ideologia” a estes grupos. Transformá-las, para garantir que estejam do lado do torcedor na batalha contra a mercantilização do esporte.


*Irlan Simões
 é estudante de Comunicação Social e torcedor do Esporte Clube Vitória. Atua no Movimento Somos Mais Vitória, na Associação Nacional dos Torcedores, na Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação Social e acha que o futebol deve ser jogador pela ala esquerda.

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Irlan Simões

Irlan Simões é jornalista, orgulhosamente nordestino, escreve para a coluna Futebol Além da Mercadoria. Também colabora com a Revista Rever.