Pais modernos

Chéri à Paris, por Daniel Cariello | Imagem: Gabi Menasche

– Tá contando as contrações?
– Tô.
– Na mão?
– Claro que não. No aplicativo que baixei pro iPhone.
– Qual o tempo? Qual o tempo?
– Quatro minutos e vinte e quatro segundos, exatos.
– De intervalo entre as contrações?
– Não, quatro minutos e vinte e quatro segundos é a duração da música que estou ouvindo. Ramble On, do Led Zeppelin, cacetada na moleira!
– Desliga esse treco agoooora!
– Pô, bem no meio do solo do Page…
– Seu bebê tá chegando, tô sentindo. Vai chamar a enfermeira.
– Envio um SMS?
– SMS? Ela tá na sala ao lado.
– Vou deixar o telefone aqui, se ele tocar você…
– Se essa joça tocar agora eu sou capaz de ter um filho.
– Mas não é pra isso que você está no hospital?
– Aaaaaaargh.
– Fui.
– (Longos suspiros).
– Voltei.
– Demorou, hein?
– Aproveitei que a enfermeira estava na internet e enviei uns tweets e umas fotos pro Facebook. Aliás, já preparei a câmera pra hora do nascimento.
– Não vai tirar foto do parto, não.
– Ih, caretice. Se depender de você essa criança vai ser tecnofóbica.
– Vixe, aconteceu algo.
– Não me diga que a bateria da filmadora acabou!
– O bebê tá saindo, tá saindo, saiu…
– Unhéééé.

MAIS TARDE

– Tá na hora de sairmos da sala de parto pra irmos pro quarto. Você cuida de pegar tudo?
– Já peguei. Conferindo: iPhone, caixinhas de som, filmadora, máquina fotográfica, laptop. Ok!
– E o bebê, seu lunático? Esqueceu do bebê?
– Ah, mas você também quer que eu pense em tudo.

TEXTO-MEIO

Daniel Cariello, editor de Brazuca e co-autor da entrevista, é colaborador regular da Biblioteca Diplô /Outras Palavras. Escreve a coluna Chéri à Paris, uma crônica semanal que vê a cidade com olhar brasileiro. Os textos publicados entre março de 2008 e março de 2009 podem ser acessados aqui.

TEXTO-FIM
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