Outras Palavras prepara nova travessia

Em março, site completará 10 anos em busca de profundidade jornalística, de novos caminhos para superar o capitalismo e do prazer da leitura. Começa campanha para viabilizar novos projetos editoriais. Quais são e como participar

Por Antonio Martins

“Esta guerra vai durar mais que minha vida. Por isso, vou fazê-la”, diz Agapito Robles, personagem de Manuel Scorza, ao somar-se à luta dos indígenas e campesinos peruanos contra os donos da riqueza e do poder. É impossível não lembrar dele e de sua sentença emblemática, no momento em que Outras Palavras lança um novo esforço de sustentação autônoma e de ampliação de seu projeto editorial. O jornalismo está acossado tanto pelos grandes oligopólios comunicativos quanto pela proliferação das fake news. Em plena crise civilizatória, que se agudiza, não há mais certeza possível sobre os rumos da política e os da própria sociedade. É em meio a esta névoa que navegaremos. É sob ela que precisamos avançar, para que haja futuro.

Criado em março de 2010, Outras Palavras segue uma trajetória singular, em três aspectos. Do ponto de vista editorial, cultiva a profundidade, suscita temas esquecidos por outras publicações brasileiras e valoriza o refinamento estético em textos e imagens. Politicamente, destaca, investiga e debate os novos projetos de emancipação social – inclusive os que, desejando a superação do capitalismo, examinam criticamente as primeiras experiências socialistas e as tradições de esquerda do século XX. Estas duas características são articuladas por um modelo de financiamento inovador. Outras Palavras são Outros Quinhentos – o nome de nosso programa de sustentação autônoma. Para mantermos nossa qualidade editorial e nossa postura política peculiar, não dependemos nem de publicidade empresarial, nem de governos: 80% de nosso orçamento são assegurados por doações voluntárias dos leitores1.

É, ao mesmo tempo, muito e muito pouco. Outras Palavras é, provavelmente, um caso único, no Brasil, de publicação sem catracas – ou seja, sem restrição de acesso aos não pagantes – financiada essencialmente pelo público. Hoje, 738 pessoas fazem contribuições mensais que garantem a existência do site. Poderiam ser bem mais: em novembro, 325 mil pessoas (um número 430 vezes maior) leram ao menos um de nossos textos.

+ Em meio à crise civilizatória e à ameaça da extrema-direita, OUTRAS PALAVRAS sustenta que o pós-capitalismo é possível. Queremos sugerir alternativas ainda mais intensamente. Para isso, precisamos de recursos: a partir de 15 reais por mês você pode fazer parte de nossa rede. Veja como participar >>>

Nosso plano editorial para 2020 requer aumentar este número. Temos três projetos claros e viáveis: uma série de grandes reportagens; um boletim diário de conjuntura; e o relançamento da OP-TV, com análises, entrevistas, podcast e vídeos didáticos. Os três expressam um esforço único. Queremos ir além das análises sobre grandes tendências, que hoje caracterizam Outras Palavras. Ingressamos num período de aceleração do tempo histórico. Nele, estão presentes tanto tendências fascistas quando a possibilidade real do pós-capitalismo (veja, por exemplo, os programas de Bernie Senders, nos EUA, ou Jeremy Corbyn, na Inglaterra).

Nestas épocas turbulentas, é preciso acompanhar e interpretar mais ativamente os grandes fatos relevantes do Brasil e do mundo. Da capacidade de intervir sobre eles dependerá o futuro de nosso planeta e espécie. Immanuel Wallerstein, falecido há poucos meses, gostava de frisar: o declínio do capitalismo pode resultar tanto numa formação social muito mais democrática e igualitária quanto num sistema-pesadelo, que aprofunde como nunca a desigualdade e exploração entre os seres humanos; e a relação alienada entre eles e a natureza.

Estes três novos projetos editoriais exigem, por ano, R$ 180 mil. É um cisco, num tempo em que os valores (monetários e éticos…) da mídia passaram a ser os das megacorporações. Equivale ao faturamento do Grupo Folha a cada 31 minutos… Para obter estes recursos e tornar reais os projetos, estamos lançando um novo convite à participação dos leitores. Queremos reunir 1600 apoiadores até o final de 2020. Numa primeira etapa – que começa agora e vai até o nosso 10º aniversário, em março – precisamos de 1200 membros em Outros Quinhentos.

É possível contribuir com R$ 15, 30 ou 60 mensais. Os novos aderentes não vão se somar apenas a uma mobilização editorial e política. Eles participarão também de um embrião de rede alternativa, ligada à Economia Solidária. É que Outras Palavras adota uma abordagem própria de publicidade. O espaço de anúncios do site é oferecido, sem contrapartida financeira, a produtores da Cultura e Agroecologia. Ao invés de retribuírem com dinheiro, eles oferecem seus próprios produtos e serviços – que são oferecidos a quem contribui com nossa sustentação. Os membros de Outros Quinhentos recebem, diretamente ou por sorteio, gratuidades e descontos em livros, assinaturas de revistas, cursos, cestas de produtos orgânicos, espetáculos, lojas do MST, hospedagens e restaurantes.

A lista completa de contrapartidas, que pode ser vista aqui, acaba de ser ampliada por três parcerias de grande alcance. A Livraria Martins Fontes oferece descontos de 20% em todos os títulos (exceto didáticos); e de 50% nas centenas de publicações da WMF Martins Fontes Editora. Os membros de Outros Quinhentos que contribuem com R$ 60 mensais (ou R$ 600/ano) recebem, grátis, assinaturas anuais da Revista CULT, que dão acesso à edição do mês e a todos os números e dossiês anteriores. A Rizoma Livros, que distribui a produção de editoras independentes (Boitempo, Autonomia Literária, Elefante, N-1, Ubu e muitas outras), propõe descontos entre 20% e 60%, em todas as suas obras, sempre de enorme relevância.

O início de nossa campanha coincide, propositalmente, com a entrada das festas de fim de ano. É um período ambíguo, marcado por encontros e fraternidade, mas ao mesmo tempo consumismo e exclusão. É também uma época de reflexão e resoluções. Queremos que etapa de Outros Quinhentos que começa seja um convite a agir por outro mundo possível; a estar conosco em nova travessia; a navegar rumo à margem com um misto de cuidado e pressa, antes que a tormenta nos devore.

1 Somos abertos a algumas formas de financiamento institucional. No momento, temos parceira com Medico Internacional, uma fundação alemã em defesa do Direito à Saúde, fundada na esteira das lutas de 1968. Seu apoio permite produzir e editar o site e o boletim diário Outra Saúde

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