As brumas do passado e o futuro da educação

Num romance de Kazuo Ishiguro, em que os personagens mergulham num mundo sem memória, pistas para enfrentar o vazio do país e da Educação. Só vencendo a melancolia pedagógica e compulsão modernizadora surgirá nova agenda

Por Roberto Rafael Dias da Silva

Kazuo Ishiguro é daqueles escritores que nos envolvem, nos encantam e permitem com que possamos ultrapassar os limites de sua narrativa de modos variados. Em seu livro “O gigante enterrado”, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, deparamo-nos com uma literatura de fantasia recheada de mistérios, desafios, mitologias e uma trama envolvente, contextualizada nas lendárias guerras entre bretões e saxões. Conta a história de um casal de idosos – Axl e Beatrice – que resolve abandonar a sua aldeia e iniciar uma jornada em busca de seu filho. A narrativa que vai se complexificando à medida em que Ishiguro – com muita imaginação e uma riqueza de detalhes – vai nos explicitando como as pessoas estão vivendo em um mundo sem memórias, em que sabem que determinados acontecimentos ocorreram e não alcançam a sua efetiva lembrança.

A aventura de Axl e Beatrice – em uma longa caminhada em que personagens cada vez mais interessantes vão aparecendo e enriquecendo a trama – é marcada por pequenas lembranças e grandes dúvidas, por confissões de amor e crises de fidelidade. Os lapsos coletivos de memória se devem a uma névoa que atinge a região. A névoa decorre do hálito de uma dragoa – Querig – que avança por todos os cantos levando suas ondas de esquecimento. Aqui eu encerro minha narrativa do livro – deixando aos leitores a sugestão de sua continuidade – e ingresso naquele que se torna o principal dilema político do livro. A névoa do esquecimento impede as lembranças dos afetos do passado e, ao mesmo tempo, bloqueia momentaneamente as guerras e as vinganças entre povos inimigos. Os melhores diálogos do livro, construídos brilhantemente na sensível narrativa de Ishiguro, levam-nos a um grande dilema: matar ou não Querig. Traduzindo essa questão para os interesses de meu texto: como lidaremos com o passado na construção de uma educação pós-capitalista?

Uma primeira elaboração para esta questão poderíamos encontrar em Adorno no texto “O que significa elaborar o passado”, que integra à obra “Educação e Emancipação”. Remetendo-se ao contexto dos debates europeus, posteriores ao nazismo, o filósofo alemão ajuda-nos a considerar que era necessário manter uma memória ativa para reelaborar certos acontecimentos. Em suas palavras, “quando a humanidade se aliena da memória, esgotando-se sem fôlego na adaptação ao existente, nisto reflete-se uma lei objetiva de desenvolvimento”. A experiência formativa de recolocar em questão a nossa história implicaria em autorreflexão; mas, também dependeria de uma transformação social. Aqui encontramos uma chave de leitura fundamental, qual seja: “o passado só estará plenamente elaborado no instante em que estiverem eliminadas as causas do que passou”. A possibilidade formativa que se estabelece desta primeira elaboração encontra-se no necessário movimento de produção de leituras críticas capazes de engendrar ferramentas novas, em permanente processo de esclarecimento.

Outra possibilidade interpretativa para a questão instituinte deste texto poderíamos localizar em Michel Foucault, em sua atitude genealógica. Com o filósofo francês, a busca pelo passado pode nos revelar suas origens múltiplas e variadas ou que “a sua essência foi construída peça por peça a partir de figuras que lhe eram estranhas”. O exercício de perscrutar o passado permite com que ampliemos nossa perspectiva do tempo vivido e dissocia-nos do encontro de um ponto primordial no passado em que as coisas aconteceram. Em termos analíticos, esse modo de leitura da história oferece-nos outras possibilidades de crítica política, como lembra-nos o filósofo francês: “é que o saber não é feito para compreender, ele é feito para cortar”.

Buscando olhar para o pensamento brasileiro contemporâneo, outra argumentação possível encontramos em Márcia Tiburi, em seu conhecido livro “Como conversar com um fascista”. Precisamos interrogar o pensamento autoritário, uma vez que sua afirmação depende de uma lógica “citacionalista” – repetitiva e viciosa. Este modo de vida pode ser encontrado tanto na micro quanto na macropolítica e materializa-se na incapacidade de dialogar, conduzindo a um vazio de pensamento, de sentimento e de ação. De acordo com Tiburi, “o vazio é o estranho ethos de nossa época”. Reelaborar o passado, nestes termos, implicaria em um fortalecimento da dimensão política, instaurando formas de resistência baseadas na prática dialógica. Mais uma vez recorrendo à filósofa, “o diálogo não é uma salvação, mas um experimento ao qual vale a pena somar esforços se o projeto político for coletivo.

Por estes caminhos heterogêneos, procurei lançar possibilidades para pensar uma questão central para a construção de uma educação pós-capitalista. Escapando das atitudes típicas do pensamento educacional brasileiro na atualidade – melancolia pedagógica e compulsão modernizadora –, é momento de mobilizarmos esforços na construção de uma nova agenda (SILVA, 2020). O modo como lidaremos com o passado precisa ser colocado sob debate em uma sociedade que parece habitar um presente permanente. Seja pela experiência formativa (em Adorno), seja pela atitude genealógica (foucaultiana), não escaparemos no Brasil de enfrentar o vazio de pensamento que nos ronda, como salienta Tiburi há alguns anos. A literatura de Kazuo Ishiguro, que serviu de fio condutor para esta argumentação, proporciona-nos mais uma cena, com a qual finalizarei este ensaio. Interrogada pelo padre Jonus sobre como reagiriam com a volta das memórias, Beatrice oferece-nos uma resposta para nos acompanhar a novas reflexões: “Nós aceitaremos as más lembranças de volta também, mesmo que elas nos façam chorar ou tremer de raiva. Afinal, elas não são a vida que compartilhamos?”.


Referências:

ADORNO, Theodor. Educação e emancipação. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 23a ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 2007.

ISHIGURO, Kazuo. O gigante enterrado. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

SILVA, Roberto Rafael Dias da. Entre a compulsão modernizadora e a melancolia pedagógica: a escolarização juvenil em tempos de pandemia no Brasil. Práxis Educativa, v. 15, p. 1-12, 2020. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/342701767_Entre_a_compulsao_modernizadora_e_a_melancolia_pedagogica_a_escolarizacao_juvenil_em_tempos_de_pandemia_no_Brasil

TIBURI, Márcia. Como conversar com um fascista. 7 ed. Rio de Janeiro: Record, 2016.

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