Educação pós-capitalista: a ética do fazer modesto

Apostemos em uma “pedagogia lenta, serena e sustentável”, inspirada na convivência, na abertura para o mundo e na experiência com o ambiente. A inovação educativa do século XXI não precisa seguir a compulsão modernizadora

Por Roberto Rafael Dias da Silva

Caso nos dediquemos por uma tarde para acompanhar as repercussões da pandemia global no contexto educacional ficaremos surpresos com a quantidade de diagnósticos e prospecções acerca do futuro da escola. Para alguns, a escola continua sendo uma grande maquinaria a serviço do capitalismo, produzindo poucos avanços no enfrentamento das precariedades típicas do nosso tempo. Outros, imbuídos por certo conservadorismo educacional, defendem que se trata de um momento de proteger a escola das interpelações causadas pela cultura, pela política ou pela economia. Por outro lado, mais alguns analistas, impulsionados pelos avanços tecnológicos, veem a pandemia com uma “aceleradora de futuros”. Em outras palavras, como podemos constatar, cada analista prospecta uma escola à imagem e semelhança de suas expectativas sobre o mundo.

À luz dos pressupostos do pós-capitalismo, que tem inspirado minhas inquietações políticas e acadêmicas, não vou me eximir da tarefa de ingressar neste debate. O trabalho educativo que faremos no contexto pandêmico poderá nos conduzir na direção de uma renovação de nossas expectativas sobre a escola, repensando-a em seus propósitos formativos. Como sistematizou Jaume Carbonell, sobre a inovação educativa no século XXI, talvez pudéssemos apostar em uma “pedagogia lenta, serena e sustentável”. Acreditar em uma formação humana que preserva e potencializa os tempos para pensar, para fazer e para compartilhar pode se constituir como uma questão incontornável para um novo tempo. Mais uma vez recorrendo a Carbonell, em sua perspectiva, “a escola não deve seguir o ritmo da sociedade nem depender de suas múltiplas demandas”.

Escrevi em outro texto que, ao rediscutirmos os propósitos educacionais, conseguiremos nos distanciar de duas disposições pedagógicas – predominantes hodiernamente – que orientam os fazeres escolares, quais sejam: a melancolia pedagógica e a compulsão modernizadora. Ora defendemos a escola com uma atitude nostálgica e conservadora, ora apostamos em reformas permanentes induzidas por variados dispositivos tecnológicos e culturais. Utilizei essas figuras psicanalíticas – compulsão e melancolia – de modo metafórico, sinalizando minha intenção em reequilibrar alguns aspectos deste debate. Ou seja, é desejável planejar a inovação educativa, desde que tal mudança esteja assentada em uma governança escolar democrática (COLLET; TORTI, 2016).

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Nas últimas semanas, reencontrei-me com Richard Sennett, um sociólogo que muito influenciou minha trajetória intelectual e profissional (SILVA, 2015; SILVA, 2019). Em sua última obra – “Construir e habitar: ética para uma cidade aberta” – encontrei na “ética do fazer modesto” um ponto de partida para rediscutir o trabalho educativo em um contexto pós-capitalista. Mais que isso, a ética do fazer modesto permitiu-me reenquadrar minhas reflexões sobre o futuro da escolarização, conforme explicarei a seguir.

Referindo-se às cidades e ao planejamento urbano, Sennett tratou de caracterizar qualidades importantes para nossos modos de habitar estes espaços na atualidade, lançando mão de três adjetivos para descrever as cidades: tortas, abertas e modestas. Torta: o urbanista deveria considerar a diversidade que caracteriza as cidades atualmente e privilegiar esta dimensão em sua atividade, reconhecendo que os ambientes construídos podem ajustar-se às características de seus habitantes. Aberta: as cidades podem ser abertas à inovação e à experimentação, favorecendo atitudes de tolerância, hospitalidade e diversificação de experiências. Modesta: longe de buscar uma reconstrução total, cidades modestas apostam em pequenas reformas, alterações negociadas com os moradores ou na valorização dos saberes e das vivências locais. A construção de cidades no século XXI encaminha-se em outra direção; porém, junto ao sociólogo, parece necessário preservar estas três características no fazer dos urbanistas.

Penso que estas três adjetivações – torta, aberta e modesta – serviriam também para pensar sobre a escola do século XXI, esta que será desenhada no contexto posterior à pandemia. Afastando-se do controle e da ordem, típicos do urbanismo (e da pedagogia), Sennett defende uma “ética do fazer modesto” como alternativa para o planejamento urbano. Inspirar-se na convivência, promover modelos de inovação negociados, incentivar atitudes de abertura com o mundo e de ampliação da experiência com o ambiente, valorizar os conhecimentos relevantes e colocá-los em aproximação com os cotidianos e fomentar relações democráticas são princípios pedagógicos que poderiam ser derivados da proposta sennettiana. Em outras palavras, poderíamos defender que escola deste século não desconsidere suas conquistas e, ao mesmo tempo, não abdique da tarefa histórica da mudança. Eis um desafio a ser modestamente enfrentado!


Referências:

CARBONELL, Jaume. Pedagogias do século XXI: bases para a inovação educativa. 3a ed. Porto Alegre: Penso: 2016.

COLLET, Jordi; TORT, Antoni (Orgs.). La gobernanza escolar democrática. Madrid: Morata, 2016.

SENNETT, Richard. Construir e habitar: ética para uma cidade aberta. Rio de Janeiro: Record, 2018.

SILVA, Roberto Rafael Dias da. Sennett & a Educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.

SILVA, Roberto Rafael Dias da. Customização curricular no Ensino Médio: elementos para uma crítica pedagógica. São Paulo: Cortez, 2019.

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