Literatura dos Arrabaldes: O arfar do tempo

Em três livros de autores periféricos, um acerto de contas com o passado: a prostituta de luxo, o poeta-mochileiro e a escritora que recorda. No impulso das obras: revolta, conquista e rancor. No respectivo agir, resignação, desgosto e dor

Por Eleilson Leite, na coluna Literatura dos Arrabaldes  | Imagem:
Coletivo Di Campana

No texto desta quinzena analiso três livros da Literatura Periférica Paulistana lançados em 2019 (um deles saiu no finalzinho de 2018) Melissa, Diário Bolivariano e Olhares que devoram sonhos. São dois romances escritos por não-romancistas, um autor é do teatro e o outro da poesia falada. E um terceiro que é de contos e crônicas escritos por uma romancista e também poeta. Dois homens e uma mulher. Paulo Cesar Marciano, Emerson Alcalde e Sonia Bischain. Heliópolis, Cangaíba e Brasilândia, respectivamente, são seus territórios, as janelas através das quais observam o mundo e constroem sua literatura.

Três obras distintas de autores com perfis igualmente diversos. Mas nosso exercício aqui é refletir sobre aspectos semelhantes de obras publicadas numa mesma época vinculadas a um mesmo movimento (ou contexto) literário. Não se trata de crítica literária centrada na forma estética, embora ela seja considerada. O exercício é perceber as recorrências de abordagens que estabelecem aproximações entre as obras. Para se chegar a essa compreensão procuro perceber o pensamento como é sentido e o sentimento como é pensado. Tal percepção é possível de se alcançar observando o movimento da consciência prática que é o impulso, contenção e tom na fala dos personagens e dos narradores. A esse procedimento se dá o nome de estrutura de sentimento, conceito formulado por Raymond Williams1.

A leitura dos livros me apresentou dois aspectos sobre os quais é possível fazer uma reflexão desse tipo. Um é o procedimento da memória, pois os três se baseiam na reconstituição do passado. O outro, é o lugar do homem no contexto das histórias contadas. Vamos tentar dessa forma ler as três obras atentos a essas duas questões.

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O livro Melissa, de Paulo Cesar Marciano, o PC, é por si só um acontecimento, pois foi um dos primeiros 50 livros publicados pela Editora e Gráfica Heliópolis, projeto que se estruturou por meio de Edital Rumos do Itaú Cultural entre os anos de 2018 e 2019 e é coordenado pelo próprio PC. É um romance que conta a história de uma jovem que se vê obrigada a se prostituir para sustentar a filha portadora de uma síndrome rara, cujos tratamentos são muito caros. Com uma vida marcada por tragédias, Melissa encontra na literatura o caminho que a conduziu para dar a um novo rumo em sua vida e se reconciliar com sua família de quem se separou aos 15 anos. PC Marciano é do teatro. Dramaturgo, diretor e ator. Mora e atua como agitador cultural na favela de Heliópolis. Melissa é seu primeiro livro. Uma estreia digna de aplauso.

Olhares que devoram sonhos é o quinto livro de Sonia Bischain, todos publicados no período de 2009 à 2019, entre os quais três romances. São raros os romancistas na literatura periférica paulistana. Talvez ela seja a que mais produziu o gênero. Entre as mulheres certamente é. Agora ela surge novamente na prosa com as narrativas curtas, porém, intensas e profundas. São contos e crônicas de alto teor autobiográfico e quase todos ambientados no bairro da Brasilândia onde foi nascida e criada e por lá vive até hoje. Olhares foi publicado pela 11 Editora, cuja sede fica em Jaú, cidade do Interior do Estado de São Paulo.

O livro de Emerson Alcalde, Diário Bolivariano, reconstitui em forma de diário, uma viagem de dois jovens da periferia da Zona Leste de São Paulo para a Venezuela onde participaram de um festival popular de arte na Cidade de Valencia, distante 160 km de Caracas. Trata-se da versão romanceada de uma história real vivida pelo autor no ano de 2012. Uma viagem solitária, mas que para ser contada, o autor criou uma dupla de personagens fictícios: Jackson, o protagonista, e Dimas seu parceiro de estrada e coadjuvante na trama. Publicado pela Autonomia Literária, Diário Bolivariano é a estreia do autor como romancista. Alcalde é muito conhecido na cena do Slam. Foi até vice-campeão mundial na categoria. Criou o Slam da Gulhermina, um dos mais ativos de São Paulo. Tem outros dois livros de poemas, sendo que o primeiro, A Massa, contém também dramaturgias e ensaios. Participou e organizou inúmeras coletâneas de poemas.

Melissa

O livro apresenta a história de uma mulher que consegue se estabelecer financeiramente por conta da prostituição de luxo em São Paulo depois de ter que deixar às escondidas a cidade do Rio de Janeiro. Na capital fluminense ela tinha uma vida modesta no subúrbio junto com seu marido João Antonio com quem teve a única filha de nome Beatriz. Personagem coadjuvante na trama, a filha do casal é portadora da Síndrome de Rett que causa na menina problemas motores, isolamento social e convulsões, entre outros sintomas, fato que confere à história um ingrediente fundamental para entender a personagem central e o drama que vive.

Ao se casar, Melissa era muito jovem, provavelmente tinha 18 anos ou um pouco menos. Vinda do interior, supostamente do próprio estado do Rio de Janeiro, ela chegou na capital com 15 anos na década de 1980 para cursar ao que equivale hoje o Ensino Médio. Ficou hospedada na casa da avó materna onde morava João Antonio, um primo mais velho com quem teve um relacionamento de alcova que resultou na gravidez não planejada e a consequente expulsão de ambos da casa da matriarca. Tal situação provocou uma ruptura na família que a abandonou. Ela era primogênita entre oito irmãos.

Na periferia, o casal foi acolhido pela vizinhança, cujos vínculos supriam a falta da família de Melissa. A sucessão de tragédias que marca a protagonista do livro começa aí. Ao voltar do trabalho num dia comum, João Antonio é atingido por uma bala perdida e veio a falecer. Diante da morte do filho, os sogros de Melissa quiseram ficar com a guarda de Beatriz a quem nunca haviam dado atenção até então. Chegaram a sequestrar a menina, razão pela qual Melissa saiu do Rio às pressas.

Ao chegar em São Paulo é recebida por amigos indicados pelos vizinhos cariocas com quem conseguiu moradia. Passou a trabalhar de costureira na oficina da família que a acolheu. Conseguiu colocar a filha na APAE. As coisas iam bem até que Feitosa, funcionário da empresa de costura passou a assediá-la a ponto de tentar estuprá-la. Irmão do dono do empreendimento, ele foi inocentado pela família e a Melissa teve que sair do emprego e da casa em que morava para mais um recomeço tortuoso. Vai morar em um cortiço. Nenhum trabalho que consegue lhe dá a renda necessária para cobrir suas despesas. Busca dinheiro com um agiota de nome Tonhão que passa a lhe chantagear e lhe extorquir até que encontra na prostituição um meio de se sustentar. Começou em puteiros de quebrada até chegar a estabelecimentos de luxo.

A garota vive perturbada com as implicações morais que a profissão lhe acarreta, agravadas pelo consumo abusivo de álcool e drogas pesadas. Mas o dinheiro que ganhava compensava a dor na consciência. Além de vida confortável, Melissa conseguiu com sua profissão assegurar o melhor tratamento para sua filha. Beatriz revelou dotes musicais nas terapias e passou a tocar piano com regularidade e se esmerar no ofício. Com a ajuda de uma amiga dos velhos tempos do Rio, ela conseguia criar sua filha. Por conta da doença, Beatriz não entendia o que se passava com a mãe. Mas sentia.

Um casal idoso que morava ao lado do apartamento de Melissa entra na história. O Sr. Pedro e Dona Clementina. O Sr. Pedro é anunciado pelo narrador no início do livro como alguém com enorme capacidade de amar o próximo. Esse altruísmo aproximou-o de Melissa de quem ele ouve a história contada até aqui após ela ter se recuperado de um pileque (Página 89). Volta o narrador do início do livro que não é o autor.

A partir desse ponto a protagonista vive idas e vindas na prostituição e abusa cada vez mais do consumo de álcool e drogas inerentes à profissão em estabelecimentos de luxo. Vivia um pêndulo entre o bem e o mal. Essa instabilidade é monitorada pelo casal de vizinhos que elaboram diversas estratégias para não deixar Melissa desandar de vez. Dona Zica, a tal amiga do Rio, se articula com os vizinhos na trama do bem.

A literatura salva

Uma dessas estratégias foi a de estimular Melissa a ler, hábito que não fazia parte de seu cotidiano. A garota não só pegou gosto pela leitura como passou a escrever poemas. Dona Clementina foi reunindo os escritos dela espalhados em papéis de todo tipo: guardanapo, papel de embrulho, nas páginas em branco dos livros que lia e em cadernos. Juntou tudo e publicou um livro independente. Melissa se encantou ao ver seus escritos editados, mas não o suficiente para abraçar uma carreira de escritora e voltou pela enésima vez à prostituição. Foi quando mais uma tragédia se abateu sobre a garota.

Levada por um playboy para um cruzeiro na costa do Litoral Norte de São Paulo, entrou em coma de tanta droga e bebida. Resgatada em Ubatuba, foi levada para São Paulo. Tudo com a ajuda do casal vizinho. Mas Sr. Pedro se superou nesse episódio. Ele conseguiu que Beatriz tocasse piano no leito da UTI onde estava sua mãe já desenganada pelos médicos. O milagre aconteceu e Melissa retomou os batimentos cardíacos e deixou o hospital.

A partir desse ponto, a literatura passa a ser o vetor que dará o desfecho à história. Dona Clementina conseguiu publicar o livro de Melissa numa editora comercial e a obra começou a fazer sucesso. Citado por uma popular apresentadora de TV, o livro cai nas mãos de uma modelo que se encanta pelos poemas da autora e resolve presentear o marido dela com o livro. Seu companheiro, porém, não é um sujeito comum. É Enrico, craque da seleção brasileira de futebol. Ele vive no exterior mas estava no Brasil para jogar uma partida na cidade de São Paulo. Ao participar de uma entrevista na TV, o jogador mostra o livro que o acompanhava sem que tivesse lido. Aumenta a repercussão em torno da obra de Melissa.

O jogador, porém, resolve encarar a leitura e começa pela orelha do livro. A foto da autora lhe chama atenção. Nota que a ela, além de ter o mesmo sobrenome dele, também é de sua cidade natal. Rico logo associa Melissa à irmã que saiu de casa com 15 anos para estudar no Rio de Janeiro e nunca mais voltou. O jogador aciona Claudio, seu assessor para localizar a tal escritora. Um encontro foi marcado. Os dois se reconheceram. Depois disso, tudo se resolve na história.

Melissa segue fazendo sucesso como escritora e abandonou de vez a prostituição e as drogas. Casa-se com o Claudio, o assessor de seu irmão, e aguarda o momento certo para se juntar à família que vive toda na Europa em torno do irmão boleiro e milionário. Beatriz se torna uma pianista de sucesso e faz turnês internacionais. O casal de idosos continua acompanhando Melissa e sentem-se reconfortados por ter ajudado a jovem, pois dessa forma compensavam a perda de um filho por conta do uso de drogas.

Diário Bolivariano

Ficção e realidade se misturam no livro de Emerson Alcalde de modo equilibrado numa obra muito bem escrita e estruturada. Para esse efeito, o autor situou a história no ano de 2010, no crepúsculo do Governo Lula, porém auge do período petista no Governo Federal que se estendeu até o ano de 2016. O autor, que é o narrador da saga, descreve bem o que era ser jovem de periferia naquele tempo de ganhos sociais: “A nossa geração de filhos de operários fazia tudo pela primeira vez: os primeiros a acessar a universidade, os primeiros a viajar de avião, os primeiros a sair do país”. A conjuntura política da época é o pano de fundo de toda a trama. A todo momento Jackson e Dimas se confrontam com situações que servem de mote para discussões ou reflexões sobre o contexto da primeira década do século XXI.

Incentivado por um mochileiro que conheceu num sarau, Jackson quis ter uma experiência ao estilo “pé na estrada” de Jack Keroac, não por acaso o autor da segunda epígrafe do livro (a primeira é um trecho de uma letra de um rap do Facção Central que trata do Governo Lula). Keroac talvez tenha sido a inspiração para o nome do protagonista. Praticante de teatro de bonecos, Jakson se correspondeu com produtores de vários festivais de países latino-americanos, mas só recebeu retorno de Mariela, produtora do festival para onde acabou indo. Chegando lá, porém, se confraternizou com artistas populares, aparentemente todos periféricos, de vários países latinos vizinhos do Brasil.

Apenas 30% do livro, no entanto, aborda o Festival de Valência que é o ponto alto do livro. Em 58 das 200 páginas da obra, são narrados os oito dias de um evento que compensava toda a precariedade da produção com uma vivência de ricos aprendizados artísticos, políticos, afetivos, etílicos, sexuais e muitas loucuras mais. Entre uma apresentação e outra, altos debates políticos num país onde o tema é tratado como discussão de futebol. Em um dos dias, todos os participantes do Festival foram levados a uma localidade histórica por ter sido palco de uma grande conquista na época da Independência no início do século XIX para ver uma parada cívica. Depois de um desfile militar suntuoso, surge de modo triunfal o então presidente Hugo Chaves para o delírio da plateia presente. Os dos dois jovens brasileiros que ficaram mais empolgados quando aparece, entre os chefes de estado presentes, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Cada lugar por onde passa os dois artistas mochileiros desde Caracas a Valência (capital do estado de Carabobo) é contextualizado pela história local marcada por lutas populares pela Independência, massacres sangrentos pelas tropas espanholas ou por ditadores de plantão. Também são citadas as disputas do século XX e a ascensão do país como um dos maiores produtores de petróleo do mundo até chegar na chamada Revolução Bolivariana liderada pelo ex capitão do Exército Hugo Chaves no final do século passado e início do atual. Ler o livro de Alcalde é ter contato com uma história que desconhecemos por falta de identificação hispânica do nosso povo e pela cobertura distorcida da imprensa brasileira.

Mas nem tudo é história e política na saga do aventureiro. Jackson vive nesses dias de grande agitação uma dupla paixão. Uma é por Mariela, a produtora engajada e carismática e a outra é por Lucia, uma estudante doce, introvertida e deslumbrada com todo aquele agito cultural. Com habilidade, o autor deixa em aberto o possível envolvimento dele com uma das duas na cena final do longo capítulo dedicado ao Festival. Nessa delicada passagem, o autor demonstra uma sensibilidade pouco comum no trato de personagens femininas na literatura periférica. As garotas têm personalidade e não só impulsos. Ainda que não sejam personagens densos conferem à narrativa um ingrediente especial que a torna mais consistente e instigante como enredo.

Talvez já mais seguro da escrita em prosa, uma vez que o autor é um poeta, Alcalde se deixa levar pela inspiração no final do livro e escreve um capítulo de nome Ilha Margarita que serve de um respiro na estrutura cronológica e linear da obra escrita como diário. Tratra-se de um delírio típico de alguém sob efeito de drogas alucinógenas. O texto é tão bem resolvido sob esse aspecto que pode ter vida própria como um conto. No contexto do livro fica um contraponto a todo o perrengue sofrido pelos personagens ao longo da trama por conta da falta de dinheiro decorrente da origem social da dupla.

Na pequena história os dois seguem para famosa ilha do Caribe, que fica costa venezuelana, numa embarcação fretada da qual apreciam o mar cristalino fumando charutos cubanos. Ao chegarem na ilha viveram dias de luxo num hotel onde a cantora Amy Winehouse metia o loco em meio a turistas endinheirados. Aproximaram-se da cantora inglesa de quem pretendiam se tornar íntimos e levá-la para cantar no Brasil. Um delírio que se revelou onírico, pois no capítulo seguinte, Carmem, personagem disciplinadora que atuava na produção do Festival, os acorda com a habitual rispidez para levá-los de volta a Caracas. Um capítulo delirante, onde Carmem surge para acordá-los arrancando seus lençóis “com sua boca carnuda e seus olhos negros de pantera…”

Jackson e Dimas retornam da Venezuela fazendo o mesmo trajeto da ida em sentido contrário, obviamente: Valência – Caracas – Puerto Ordaz – Santa Elena de Uarién – Boa Vista – Manaus – Guarulhos – Cangaíba. Experientes, dominando o portunhol e regozijados pelo êxito da aventura, traçam a rota com desenvoltura, apesar de terem se esquecido de comprar a passagem de ônibus em um trecho do trajeto. Problema menor diante dos que passaram a caminho das terras bolivarianas que inclui dois trechos de ônibus, um no Brasil (Manaus – Boa Vista) e outro na Venezuela (Santa Elena – Puerto Ordaz). Ônibus caindo aos pedaços e aviões não menos precários, além de figuras curiosas, bizarras e hilárias que cruzaram o caminho conferindo uma graça muito especial à saga dos dois mochileiros periféricos que se aventuraram pela Amazônia e o Caribe.

Há, porém, uma certa melancolia nesse retorno. Os dois parecem um tanto desiludidos com a Revolução, com a Venezuela e com o Brasil. O autoritarismo e o fanatismo bolivariano deram um certo bode nos rapazes, especialmente em Jackson, pois Dimas já não era muito fã de Hugo Chaves. A miséria, violência, machismo imperante em ambos os países e muito acentuado naquela região de fronteira tirou um pouco do encanto da aventura. Estão frios, talvez pelo cansaço. Foram indiferentes com o sofrimento de um sujeito procedente do Paraná que estava perdido no rolê no Norte do Brasil. Dimas foi capaz de seduzir uma venezuelana igualmente perdida naquelas andanças sem nenhum pudor moral. Jackson está introspectivo e assim embarcou de volta para casa e seu semblante parece só ter mudado quando da janela do avião avistou a periferia de Guarulhos, tão perto de sua quebrada, o Cangaíba.

Olhares que devoram sonhos

O livro de Sonia Bischain tem 39 textos agrupados em duas partes. Com o nome de Caixa de Memórias, a primeira parte reúne 14 contos muito fiéis ao que anuncia o título. São escritos declaradamente baseados na história pessoal da autora que faz uma introdução na qual define o que pretende com esse exercício de memória afetiva. A essa primeira parte do livro ela dá o sugestivo título de O arfar do tempo. Arfar é o mesmo que arquear, aquela respiração ofegante que temos depois de um esforço físico desproporcional. Faz todo o sentido, pois é sofrida essa volta ao passado, ainda que Bischain, escritora experimentada e talentosa, tenha estilizado com elegância as histórias que tirou de seu baú. Quatro dos contos dessa primeira parte tratam de morte. O primeiro texto chama-se Primeira Morte sobre o falecimento de um de seus tios. Mas depois morreram todos os avós e um irmãozinho caçula que durou apenas 36 horas.

Arfar do Tempo poderia ser o título do livro, pois nele a autora, como se fosse numa tese acadêmica, define o conceito pelo qual organiza suas memórias. De elevada abstração, o texto é uma densa e poética reflexão sobre o tempo e seus significados. O tempo para ela é uma estrada na qual se “ressuscitam pessoas: as que partiram, as que amei, as que odiei e as que perdi de vista”. Talvez nessa citação ela indique a chave para entender os propósitos de sua volta ao passado. E como ela não deu ao livro o título deste capítulo, tomei-o de empréstimo. Gratidão Sonia.

O livro, pelo menos na sua primeira parte, parece ser um acerto de contas. Sonia deve ter arfado muito quando terminou de escrevê-lo e o texto derradeiro da obra talvez explique muito do que está no seu passado. Nesse capítulo ela faz uma confissão sem nenhum traço de ficção aos seus três filhos: Fernando, Flavia e Yan. A autora acentua o fato de não os ter batizado para que fossem livres, mas que por eles “rezou” para que se tornassem pessoas dignas e conscientes das injustiças do mundo. Uma busca exitosa, pelo que parece.

Em se tratando de memória, as ausências podem explicar tanto quanto as presenças. Sua mãe, por exemplo, é uma discreta coadjuvante nas histórias da autora. Já seu pai é enaltecido em diversas partes dos contos tendo três deles como protagonista das histórias. Referência de bondade, inteligência e sensibilidade, entre outras virtudes, é inspiração para um olhar crítico da sociedade com seu jeito um tanto anárquico de se colocar no mundo. Nas lembranças de Bischain, alguns ressuscitam e outros são aparições. Nas suas palavras: “lembrar ou até mesmo deslembrar”.

O crepúsculo na Serra da Cantareira

A segunda parte do livro mantém o diapasão da memória, porém não há mais a centralidade na lembrança da vida pessoal da autora. Os textos ganham outra característica em termos de estilo também. Estão mais próximos da crônica. Não se situam no passado, necessariamente, mesmo quando aparentemente se baseiam em um fato vivido pela autora como no conto Grosseria, no qual retrata a estupidez da enfermeira e do médico que fizeram o parto de seu terceiro filho num hospital público.

O lado B do livro como se fosse um disco de vinil, explora o território e as pessoas anônimas que nele habitam. A noção de território só é possível em função das pessoas, seus fluxos, encontros e conflitos. Aqui a autora se esmera num olhar muito sensível para as mazelas e encantos da periferia, mais especificamente da Brasilândia. Localizado no extremo da Zona Norte, esse bairro fica aos pés da Serra da Cantareira, aspecto geográfico que ela traduz poeticamente no conto Janelas do Tempo: “O sol preguiçoso lentamente se esconde por detrás da serra para saudar a lua”.

A autora é narradora nos contos e seu ponto de vista se expressa na personagem Carolina que articula as histórias que são muito diversas umas das outras, mas com o mesmo pano de fundo: os arrabaldes da Zona Norte paulistana. No conto citado anteriormente a autora descreve as mudanças na periferia dos anos 50 e 60 para os dias atuais revelando o contraste de uma outrora área rural da cidade para um assentamento urbano caótico, densamente povoado, marcado pela pobreza e violência.

Mas o assunto mais recorrente dos contos dessa parte é a crítica aos homens, o macho alfa como se diz na fala feminista hoje em dia. Chega a ser filógino que é o contrário de misógino. Há três textos que são bem diretos e contundentes: Homens no Elevador; Tão homem e Rejeição. Nessas histórias ela destila sua aversão ao sexo oposto com ironia, desprezo e ódio. Em outros, os homens são personagens perversos como o médico que a atende no parto, ou o homem que nega dinheiro ao menino que queria comprar pão e leite para a sua família no conto que dá título ao livro.

Boa parte dos textos dessa segunda parte são descomprometidos de uma crítica social ainda que ela esteja lá, mas sem muita ênfase. São saborosas crônicas, algumas bem divertidas. Tem o forrozeiro bebum; o drone que sobrevoa uma manifestação; o perrengue no buzão lotado; a história do padre que quer gastar uma fortuna para trazer restos dos restos mortais do beato que dá nome a sua paróquia; o conflito entre duas vizinhas adeptas de religiões diferentes; o jovem que rouba a placa de uma rua e a coloca no seu logradouro desprovido de nome, deixando perdido o entregador de eletrodomésticos; as tretas entre sogra e nora. E no meio dessas histórias, uma pérola: Casa da Pedra que também poderia dar nome ao livro. Nesse texto ela conta como um amontoado de casas foi erguido sobre uma gigantesca pedra, algo difícil de ser explicado pela engenharia ou a física. Só na periferia acontece tal façanha arquitetônica.

Em meio a essas histórias divertidas, há outras mais dolorosas como a de um garoto de 16 anos que é morto a facadas num ato extremo de homofobia. No conto não é dito, mas sugere que tal violência foi feita por homens; o mendigo que, tal qual o índio Galdino, foi incendiado e a faxineira que é obrigada a voltar ao trabalho dez dias após o parto de seu terceiro filho e se vê sozinha para cuidar da prole depois de o marido tê-la abandonado. Mais uma vez a crueldade dos homens.

Talvez essa recorrente denúncia do mau-caratismo dos homens explique a ausência da figura masculina na vida da própria autora tanto nas histórias que ela conta como no texto em tom de confissão que escreve para os filhos. Mas há um aspecto externo no livro que contrasta essa aversão. Está nos paratextos. Os dois textos da contracapa, a orelha e o posfácio são escritos por homens. A revisão e diagramação também. E as ilustrações são de seu filho Yan. Um homem também assina a única epígrafe do livro: Ben Jonson, um poeta e dramaturgo inglês do século XVI. Ela está cercada de homens nesse livro que os abomina.

O passado pune

Na busca do passado, os livros revelam um tom de desencanto. Rever o passado é um perigo sedutor. Aquela sensação que as vezes sentimos na beira do precipício. A cratera parece que quer nos engolir e algo nos impede de fugir daquela iminente queda. A literatura é pródiga nisso. Ela é quase toda feita de memórias. Há até um gênero que é o romance de formação, aquele em que o autor ou autora revê seus anos de adolescência e juventude. É quase sempre um acerto de contas, como já disse aqui. Ninguém chafurda seu passado impunemente. E sempre há o que mexer nas lembranças, pois o passado é uma fonte inesgotável de conflitos, alegrias e tristezas.

Melissa reconstitui seu passado de tragédias pessoais e o núcleo do seu desespero regressivo é a rejeição da família e a frustração de não ter constituído a sua. Todos os ambientes pelos quais ela passa são avessos a esse desejo recalcado. Ela vive a oposição do que deseja para justificar sua perda. O autor, em face dessa situação que criou, busca uma solução um tanto inusitada, mas não inverossímil. O elo de reconciliação com a família foi um livro que chegou às mãos de um irmão que se tornou famoso e milionário. O impulso é de revolta, a contenção é de resignação e o tom é o de conciliação.

Biaschini resolveu alguns dos traumas de família nos seus 14 contos autobiográficos, enaltecendo a figura do pai, escondendo a mãe e enterrando os avós. Como os contos dessa parte do livro são todos ambientados em sua infância, ela não se reportou a figura do pai (ou pais) de seus filhos. Essa figura é ocultada até no texto não-ficcional que encerra o livro. Nesse derradeiro escrito ela faz uma confissão aos filhos a quem deseja uma liberdade (Pássaros Soltos é o nome do texto) que parece que ela não viveu ou não pode viver como queria. O impulso é de rancor, a contenção é comiseração, e o tom é de culpa.

O Jackson revê seu passado recente na busca de entender um sonho perdido. Ele está na política e no amor. Sim, há pistas nesse sentido. Ter inventado o Dimas não serviu somente como recurso de narrativa, bem-sucedido, por sinal. Ele também pode ser visto como seu alter ego. Dimas, “o primeiro vida loka”, como diz no início do livro se referindo ao amigo com um trecho de um rap famoso dos Racionais MC’s. Ele faz algumas coisas que Jackson talvez quisesse ter feito ou dito, mas não o fez. Mas pode ser também que Emerson apenas fabulou para apimentar uma história carente de ingredientes lascivos e de picardia.

Dimas é mulherengo e viveu amores que Jackson não experimentou na viagem. É crítico de Lula e Chaves. Não se preocupa com certos protocolos e vive ao sabor das circunstâncias. Dimas não se frustrou com a Revolução Bolivariana. Não deixou de levar um tênis Nike temendo ser tachado de capitalista e (talvez nem o tivesse), portanto, não ficou nada surpreso ao avistar uma lanchonete do McDonald como cartão postal de Caracas, decepção manifestada por Jackson. A volta ao passado feita pelo autor por meio de seu personagem principal teve um impulso de conquista, uma contenção de frustração e um tom de desencanto.

Machos nefastos

Exceto o Sr. Pedro, os demais homens com alguma importância na trajetória de Melissa se deram mal. Dois morreram e um ela quase matou. João Antonio, seu marido foi alvo de bala perdida. Feitosa o funcionário da oficina de costura que a seduzia foi por ela esfaqueado (com uma tesoura) num ato em legítima defesa sob pena de ser estuprada. E Tonhão, o agiota cafajeste que a extorquia foi atropelado. Na mão de homens ela sofre, mas por meio deles, ela é salva: o cliente burguês que a leva para ser prostituta de luxo; Sr. Pedro que é um anjo da guarda e Rico seu irmão jogador de futebol que a reconcilia com a família perdida. Essa ambiguidade da figura do homem é o tom na história de Melissa.

Um dos principais fatores de desilusão de Jackson com a Revolução Bolivariana foi a percepção do fanatismo em torno da figura de Hugo Chaves, um militar machista, autoritário e arrogante que entende seu governo como uma experiência socialista. E quem os idolatra são, majoritariamente, homens, igualmente autoritários e machistas. Tal situação fica estampada na cena em que ele e Dimas se apertam num táxi com dois outros homens e uma mulher no traslado para o Festival. No trajeto de Caracas a Valência o assunto da política entrou em pauta. Os dois venezuelanos teceram rosários a Chaves, enquanto a moça ficava quieta e incomodada com a exaltação ao líder bolivariano. Questionada sobre seu desconforto, ela respondeu enérgica: “eu sou uma mulher feminista revolucionária, porém não chavista!” Nesse momento a ficha de Jackson começou a cair. A decepção com o machismo de esquerda, inclusive de seu amigo Dimas, é o tom da abordagem dos homens no romance de Alcalde.

Bischaim, como já foi dito, pintou seus personagens masculinos com cores agressivas. Machistas, misóginos, cafajestes, traidores, covardes, sínicos, indiferentes, grosseiros, violentos, assassinos. Todos esses adjetivos estão presentes nas histórias que envolvem esses seres que carregam um pênis entre as pernas. E há os que ela pune pelo esquecimento. Mas um que ela enaltece é seu velho pai de quem ela, talvez tardiamente, tenha notado o quanto lhe foi importante na sua formação. Por outro lado, ela está cercada de homens: os dois filhos, seus companheiros de Sarau e de lutas, além dos que fizeram seus textos tomarem forma de livro. O homem para ela tem lugar e não-lugar. O impulso é de rejeição, a contenção é o amor de mãe e de filha e o tom é o de irmandade com os que estão do seu lado.

1 Sociólogo britânico (1920 – 1989) dedicado aos estudos da cultura, do teatro e da literatura, fundador dos Estudos Culturais e expoente do movimento New Left que renovou o marxismo na metade do século passado. Sua obra mais conhecida no Brasil é Cultura e Sociedade, publicada pela Editora Vozes.

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